De cada vez que uma voz se eleva para afirmar que há racismo em Portugal, outras tantas procuram enquadrar o problema ao nível da ingratidão daqueles que nada deveriam denunciar, questionar ou combater. Nos últimos tempos tenho-me questionado. Serei ingrata? Finalmente, sim. E é libertador.

Neste país, nasci, cresci e trabalho. Aqui tenho os amigos, a família e as memórias. Mas nem sempre fui de cá. Fui muitas vezes de lugares que não conheço, e outras tantas de lugar nenhum.

Demorei a minha vida até aqui a sentir-me confortável para dizer algo como “há racismo em Portugal”. Demorei o mesmo tempo a encontrar o meu lugar enquanto cidadã portuguesa, negra, afrodescendente, com amigos maioritariamente brancos e uma família diversa – biológica, afetiva, branca, negra, angolana, cabo-verdiana, portuguesa, ex-colonial.

Sou fruto de tudo isso – e que belo que é –, numa sociedade que, muitas vezes, não me deixou ser mais do que alguém a tentar sentir-se “de cá”, enquadrar-se, ajustar-se, ser aceite. Hoje transformo o meu desconforto no meu lugar de falar. E serei ingrata, se assim o quiserem chamar.

Mas serão ingratos os que não se silenciam, os que não são submissos, os que não aceitam, os que não fingem que não ouvem, os que não fingem não doer?

Então desengane-se quem pense que é fácil ser-se ingrato.

O meu lugar de fala será sempre um lugar de poder e de vulnerabilidade. O que hoje digo, e quero dizer, incomoda parte da sociedade, mas, mais difícil, parte do meu círculo social, parte dos meus amigos e até parte da minha família. No entanto, já não me posso silenciar. Tenho de incomodar – sentir-me incomodada.

Mas nunca estarei sozinha. Nunca mais.

E, por isso, sou grata. Sou grata a todos os que levantam punhos nos movimentos anti-racistas, todos os que denunciam o racismo estrutural, todos os que, sem me conheceram, me ajudaram a entender e a enquadrar o que sentia, todos os que falaram e revelaram que éramos muitos, todos aqueles em quem me pude encontrar, ao fim de tantos anos. A todos e ao meu pai, que, na inocência da minha infância, me alertou para tudo isto, quando ainda não tinha enquadramento possível para o que me estava a dizer. Aí começava o meu desconforto – inultrapassável – mas também a minha libertação.

-Sobre Flávia Brito-

É portuguesa, afrodescendente, mulher, jornalista, dos subúrbios, e muito mais. Licenciou-se em Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). Trabalhou em revistas, departamentos de comunicação autárquicos, foi repórter do programa “Bem-Vindos da RTP África” e também já deu um pulinho ao marketing, onde trabalhou em criação de conteúdos. A dada altura, o caminho parecia mesmo passar por aí e apostou numa pós-graduação em Branding e Content Marketing na também na ESCS, para depois descobrir que a precariedade e a falta de oportunidades lhe estavam a enviesar o percurso. Encontrou no Gerador um lugar onde reabraçou o jornalismo, e por aqui anda a tentar das o seu contributo para uma sociedade mais esclarecida, justa e tolerante.

Texto de Flávia Brito
Fotografia de David Barata
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