No dia 31 de março de 2023, o livro Sexual Misconduct in Academia: Informing an Ethics of Care in the University [Má Conduta Sexual na Academia: Para uma Ética de Cuidado na Universidade], editado por Erin Pritchard e Delyth Edwards, foi lançado pela editora britânica Routledge. Composto por doze capítulos, a obra ganhou destaque em Portugal pelo último, intitulado The walls spoke when no one else would [As paredes falaram quando mais ninguém o fez], de autoria das investigadoras Lieselotte Viaene, Catarina Laranjeiro e Miye Nadya Tom.

No estudo anunciado como «notas autoetnográficas sobre o controlo do poder sexual na academia de vanguarda», são descritos atos de abuso testemunhados, conhecidos ou vividos pelas autoras, tais como assédio e o aproveitamento indevido do trabalho de investigadores numa instituição académica não identificada. Sem nunca mencionarem o nome de quaisquer acusados, as académicas traçaram o perfil de três figuras recorrentes em dinâmicas de abuso de poder.

A identificação do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, a única em que o percurso das três autoras se cruza, foi imediata à publicação, assim como os nomes dos envolvidos não identificados no texto: o sociólogo Boaventura Sousa Santos, então diretor emérito e um dos fundadores do CES, o antropólogo Bruno Sena Martins, e a antropóloga Maria Paula Meneses, ambos docentes e investigadores do centro.

Boaventura Sousa Santos e Bruno Sena Martins, acusados de assédio sexual, assumiram-se publicamente como os personagens descritos pelo artigo, refutando, no entanto, todas as acusações. Em menos de duas semanas, a 11 de abril, o CES anunciou a criação de uma comissão independente para investigar os casos e, mais tarde, os cargos dos dois académicos no centro de investigação foram suspensos «a pedido dos próprios».

A denúncia e reflexão das três investigadoras instigou uma onda de solidariedade entre membros da academia a nível internacional. Em abril, mais de 800 académicos, estudantes e outros profissionais já haviam assinado o manifesto solidário com as autoras, Todas Sabemos, publicado no dia 14 do mesmo mês.

Outras mulheres viriam a juntar-se às autoras do artigo e partilhar as suas experiências de assédio na instituição. Bella Gonçalves, deputada estadual no estado brasileiro de Minas Gerais pelo partido PSOL, e a ativista argentina mapuche, Moira Ivana Millán, acusam Boaventura de Sousa Santos de assédio sexual. Também o coletivo de vítimas (das quais nove denunciaram os seus casos à comissão independente do CES) representado pela advogada Daniela Félix refere casos de assédio moral e sexual, bem como de extrativismo intelectual, no seio da instituição.

Ainda assim, em junho de 2023, a Routledge suspendeu a venda e circulação do livro que desencadeou todos estes acontecimentos, alegando que a obra estava sob revisão. Maria Paula Meneses, acusada de ser complacente com dinâmicas de abuso na instituição, afirmou, na sua página de Facebook, que entrou em contacto com a editora britânica. A académica argumenta que o capítulo das três investigadoras apresentava informações falsas que punham em causa a sua reputação científica e atividade académica. «Através do meu advogado, interpelei a Routledge, advertindo das eventuais consequências judiciais da manutenção do capítulo e, bem assim, apresentei uma queixa criminal contra as autoras.» O livro ainda se encontra indisponível.

A 1 de agosto de 2023, a comissão independente constituída pelo CES para investigar os casos entrou em funções. Dois meses foi o prazo-limite estabelecido para que as alegadas vítimas apresentassem as suas denúncias, e a entidade teria até ao final do ano para apresentar as conclusões da investigação. No entanto, em dezembro último, os membros do grupo alertaram que iriam necessitar de, pelo menos, mais dois meses para apresentar os resultados, tendo em conta a «elevada quantidade e complexidade da documentação.» Os resultados da investigação ainda não são conhecidos.