Testemunho Aborto

“Estava grávida de dois meses e sem dinheiro para fazer o aborto. Sozinha, em Paris (1972), procurei uma morada, mas como consegui-la? Conhecia tão poucas pessoas, e com intimidade... nenhuma...” [...] Um dia, sem poder mais, levantei-me e arrastei-me pelas ruas até encontrar uma loja onde se vendessem agulhas de tricot. Comprei um par. Cromadas, brilhantes, ali estavam: frias, longas à espera. [...] Despi a saia, deitei-me de pernas erguidas nos ferros da cama, as coxas o mais escancaradas que era possível. Com uma das mãos mergulhada dentro de mim, alarguei o interior da vulva, da vagina e com a agulha na outra mão, comecei a procurar o buraco do útero, para nele enfiar a ponta afiada da agulha.

Quantas horas se passaram assim? Sentia o corpo encharcado de um suor frio e peganhento, enquanto a ponta da agulha me ia dilacerando, sem nada conseguir.

Não podendo suportar mais as dores empurrei-a bruscamente e um grito enorme, monstruoso, escapou-se-me dos lábios onde cravara os dentes. Perdi o conhecimento, quando voltei a mim, a cama estava um mar de sangue. [...] Vivi desse modo dois dias, cheia de febre e a esvair-me em sangue. Uma tarde, depois de me ter levantado para beber água, tornei a desmaiar [...]. A dona do quarto [...] arrombara a porta e havia já chamado uma ambulância que me levou depois para um hospital onde fiquei três semanas, entre a vida e a morte. Tinha feito a perfuração do útero.”

- Testemunho de uma mulher que fez o aborto a si própria, in Aborto – Direito Ao Nosso Corpo, 1975