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Reportagem e texto de Inês Loureiro Pinto
Reportagem de imagem de Vítor Martinho
Edição de Tiago Sigorelho
Design de Frederico Pompeu
Digital por Inês Roque
29.12.2025
Pedro Triguinho desdobra-se em movimentos pela defesa da água. É membro da direção da associação ProTejo, fundador do movimento BASTA, membro do grupo de Torres Novas Um Coletivo, fez parte da organização da Caravana pela Justiça Climática, em 2022, e integra ainda o grupo local do Projeto Rios e os Guardiões do Rio Almonda. Em 2018, foi laureado com a Menção Honrosa do Prémio Nacional do Ambiente Fernando Pereira. Neste vídeo, ouvimos sobre uma das suas lutas, associada ao trabalho do Um Coletivo: a libertação da nascente do rio Almonda.
É um projeto de participação cidadã criado pela E.Rio, empresa de consultoria em reabilitação fluvial, e dinamizado nos municípios de Torres Novas e Famalicão. Os voluntários, que recebem formação sobre o tema, reúnem periodicamente para monitorizar as linhas de água, instalar soluções de engenharia natural para estabilização de margens e desobstrução de caminhos. O grupo de Guardiões de Torres Novas existe há dois anos e os seus 16 membros já ajudaram a retirar mais de duas toneladas de lixo do rio Almonda.
O Coletivo Guarda Rios pretende responder à desertificação do território e à escassez de água através de uma prática de investigação e criação que propõe “uma cultura da água e uma aproximação aos rios, através de criações artísticas participativas e processos de co-aprendizagem, convivialidade e celebração”. Em seis anos de existência e somadas nove residências e 12 eventos e exposições pelo país, Francisco Pinheiro e Nuno Barroso, artistas visuais e co-fundadores do coletivo, reuniram material histórico, documental e artístico para criar um “laboratório do futuro” em constante evolução que promove o pensamento crítico sobre o impacto humano nos recursos hídricos e oferece caminhos para a reconexão. Da segunda residência do coletivo no rio Tejo, passada na Tapada da Tojeira, Vila Velha de Ródão, em maio de 2020, resultou uma publicação a partir das ilustrações de Alexandre Fonseca Augusto Jesus, guarda rios, cujo espólio se encontra na Junta de Freguesia de Perais.

Nascido na Catalunha, o Projeto Rios está a caminho de celebrar duas décadas em Portugal. Coordenado pela Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), mobiliza 700 grupos de voluntários com o desafio de apadrinhar troços de 500 metros de rios pelo país. Entre famílias e escolas, municípios e empresas, os grupos são autónomos e organizam saídas de campo onde monitorizam a biodiversidade ribeirinha e aplicam ações de melhoria em várias localidades de Portugal Continental. Para participar, basta reunir um grupo de, no mínimo, quatro pessoas e candidatá-lo à adoção de um troço de rio ou ribeira, junto da coordenação nacional do Projeto Rios.

O Programa Rios Livres, do GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (que promove a bolsa de jornalismo que deu origem a esta reportagem), existe desde 2016 para promover a valorização dos rios ibéricos, com especial foco na promoção da não construção de barreiras e na remoção das obsoletas e prejudiciais aos ecossistemas. O projeto de remoção de um açude no rio Alviela, em 2023, em parceria com os municípios de Santarém e Alcanena, valeu-lhes o prémio internacional Dam Removal desse ano, promovido pela Dam Removal Europe e a World Fish Migration Foundation. Na sequência dessa ação, que contou ainda com a estabilização de margens e a recuperação da galeria ripícola, o ex-ministro do Ambiente e Ação Climática Duarte Cordeiro anunciou o Programa Nacional para a Remoção de Barreiras Obsoletas, com a colaboração de ONG na identificação de prioridades, em linha com a Estratégia da Biodiversidade da UE para 2030, que prevê o restabelecimento da conectividade fluvial em pelo menos 25 mil quilómetros de rios na Europa. No final de novembro de 2025, foi removida uma outra barreira no rio Alviela, no troço do Sourinho, estando a decorrer os trabalhos de estabilização e reabilitação das margens com a aplicação de técnicas de engenharia natural e plantio de freixos, ameiros e marmeleiros.
Olsi Nika e Besjana Guri, dois ativistas albaneses, ganharam o Goldman Environmental Prize de 2025 pelo trabalho de doze anos da ONG EcoAlbania, que culminou no reconhecimento do rio Vjosa e a sua área circundante como Parque Nacional pelo governo albanês em 2023, impedindo a construção de barreiras artificiais, a mineração e a urbanização nas suas margens. O rio Vjosa nasce na Grécia, atravessa 192 quilómetros de território albanês e desagua no mar Adriático. Com o apoio das organizações internacionais Euronatur e Riverwatch, Besi e Olsi lançaram a campanha “Save the Blue Heart of Europe” (“Salvar o Coração Azul da Europa”). A iniciativa avaliou a hidromorfologia de mais de 80 mil quilómetros de rios nos Balcãs e concluiu que são estas as linhas de água mais “livres” da Europa – concretamente, 37% dos rios encontram-se em condições imaculadas ou quase naturais e 51% em condições ligeiramente ou moderadamente alteradas. O rio Vjosa é o primeiro Parque Nacional de Rio Selvagem (Wild River National Park) da Europa.
O FunBEA – Fundo Brasileiro de Educação Ambiental tem como um dos seus pilares a água e dinamiza a iniciativa Cuidadores das Águas na zona Litoral Norte de São Paulo, região com 80% de área protegida com 460 quilómetros de costa, onde desaguam os rios correspondentes a 34 bacias hidrográficas. Através de um processo de formação em educação ambiental e recursos hídricos, os cidadãos desta região podem tornar-se “cuidadores das águas” e contribuir para o fortalecimento das suas comunidades e o acesso à água.

Programa de River Rangers implementado pela WWF Malásia em dezembro de 2015, na região hidrográfica de Upper Sugut. Consiste na capacitação de comunidades locais em agentes de conservação dos habitats de água doce. Alguns dos Rangers do primeiro grupo dinamizado serviram de formadores de novas equipas noutras regiões do país. Os seus trabalhos consistem na identificação e mapeamento de focos de poluição e implementação de práticas para garantir a limpeza dos rios, grandemente afetados pelo despejo indiscriminado de águas industriais e de saneamento.

Em 2023, a poeta e ativista inglesa Meg Avon casou com o rio Avon, que atravessa a sua terra natal, Bristol. O seu documentário “Rave on For the Avon”, que contém filmagens da cerimónia, tem sido exibido em vários pontos do mundo para incentivar a sensibilização por linhas de água cristalinas. Para o próximo Dia Mundial da Água, a celebrar-se no dia 22 de março de 2026, as associações ambientalistas Extinction Rebellion e Dirty Water Campaign estão a encorajar um dia global de ação em “celebrações alegres e cerimónias de compromisso”, para encorajar mais pessoas a comprometer-se a serem guardiões do rio da sua vida.