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Esta é a terceira parte da grande reportagem “Repensar o sistema em que vivemos” para garantir um futuro mais sustentável e justo, que tem seis partes e começou a ser publicada a partir de 17 de novembro no Gerador. “Acho que o que as pessoas não percebem é que todas as soluções que temos para as alterações climáticas e a crise ambiental vão, na verdade, tornar a vida melhor. […] Porque é que não haveríamos de ter veículos elétricos nas cidades, que reduzem a poluição do ar e melhoram a saúde das pessoas? Porque é que não incentivaríamos as pessoas a ter uma alimentação mais vegetal, que lhes permite ser muito mais saudáveis, custa menos aos serviços de saúde, economiza dinheiro público, e permite às pessoas viver mais?” – entrevistas exclusivas com Mark Maslin (investigador em climatologia e ciências ambientais), Ana Fragata (Fórum Internacional das Comunidades Inteligentes e Sustentáveis) e Susana Viseu (consultora da presidência da República Portuguesa).

 

Um ponto de situação: 2023, o início da “era da ebulição global”

 

O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, conhecido como IPCC, divulgou a 20 de março um relatório que António Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), descreveu como “um guia de sobrevivência para a humanidade”. Este relatório síntese do Sexto Ciclo de Avaliação, formado por vários grupos de cientistas de diversos países que trabalharam sob a égide da ONU e avaliaram ao longo dos últimos anos as alterações no clima do planeta, resume os resultados de seis outros publicados entre 2018 e 2022. Cada grupo de trabalho contribuiu com um relatório diferente (com os subtítulos A Base da Ciência Física, Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade e Mitigação das Alterações Climáticas), tendo sido desenvolvidos ainda três relatórios especiais (Aquecimento Global de 1,5°C, Alterações Climáticas e o Solo e O Oceano e a Criosfera num Clima em Mudança).

O documento desenvolve extensivamente as consequências das alterações climáticas desencadeadas pelo ser humano e as medidas necessárias para limitar o aquecimento global a 1,5ºC (graus Celsius) acima dos valores pré-industriais, salientando que tal ainda é possível, mas cada vez mais improvável, e que a humanidade deve lutar por uma meta o mais próxima possível desse valor. Ainda assim, já no final do ano passado, relatórios da UNFCCC (Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas) e do UNEP (Programa das Nações Unidas para o Ambiente) apontavam para uma possível subida global da temperatura de 2,5ºC até 2100, com estimativas no intervalo de 2,1 a 2,9.

Um ano depois, o Emissions Gap Report do UNEP de 20 de novembro (a 14.ª edição deste relatório de avaliação anual) tem logo como subtítulo Broken Record – Temperatures hit new highs, yet world fails to cut emissions (again). Estes relatórios estão de facto a tornar-se num ‘disco riscado’, verificando repetidamente que as temperaturas continuam a aumentar e que os cortes de emissões continuam a não ser suficientes. Apesar de algum progresso ter sido conseguido desde a assinatura do Acordo de Paris em 2015, mesmo que as nações cumpram as contribuições incondionais, o aquecimento global só será limitado a 2,9ºC, descendo esse número para 2,5 na eventualidade de os países implementarem também as contribuições condicionais.

Com o fim do ano a aproximar-se, já se tornou bastante claro que 2023 está a ser um ano preocupantemente atípico. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) e o programa Copernicus Climate Change Service (C3S) da União Europeia estimam que julho tenha sido o mês mais quente de que há registo. Estes dados foram imediatamente acompanhados por declarações de António Guterres, que os classificou como “um desastre para todo o planeta”. “E para os cientistas, é inequívoco – os seres humanos são os culpados”, acrescenta o secretário-geral da ONU: “Tudo isto é inteiramente consistente com as previsões e os repetidos avisos. A única surpresa é a velocidade da mudança. As alterações climáticas estão aqui. É assustador. E é apenas o começo. A era do aquecimento global terminou; a era da ebulição global chegou.”

O último boletim mensal do C3S prevê que 2023 seja o ano mais quente desde que há registo. A cientista Samantha Burgess, vice-diretora do serviço de monitorização, diz que estamos “atualmente 1,43ºC acima da média pré-industrial”, frisando que a “urgência de uma ação climática ambiciosa na COP28 nunca foi tão grande”. A 28.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que vai decorrer do dia 30 deste mês até 12 de dezembro no Dubai, é o espaço de negociação anual para o qual a comunidade científica olha sempre sem grandes expetativas e da qual sai, ainda assim, desiludida ano após ano.

Ainda, na sequência do artigo “World Scientists’ Warning of a Climate Emergency”, publicado em janeiro de 2020 por cientistas membros da Alliance of World Scientists e que já conta com mais de 15.000 assinaturas, uma equipa internacional de 12 cientistas publicou a 24 de outubro um novo relatório em jeito de atualização. “A vida no planeta Terra está sob cerco”, escrevem logo na abertura. Salientam que a comunidade científica anda a alertar há décadas e que, “infelizmente, o tempo acabou. Estamos a assistir à manifestação dessas previsões à medida que uma sucessão alarmante e sem precedentes de recordes climáticos são ultrapassados, provocando o desenrolar de cenas de sofrimento profundamente angustiantes. Estamos a entrar num domínio desconhecido no que diz respeito à crise climática, uma situação que ninguém jamais testemunhou em primeira mão na história da humanidade”.

 

 

Ecotopia

 

 

Mark Maslin é investigador em climatologia e ciências ambientais, professor de Ciências do Sistema Terrestre na University College London, membro do Climate Crisis Advisory Group, foi diretor (e cofundador) da Rezatec, é consultor da plataforma Net Zero Now, e membro das Royal Society of Arts e Royal Geographical Society britânicas. Com presença regular nas COPs (Conferências das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas), é autor desde o início nos relatórios anuais do The Lancet Countdown on health and climate change, tem quase duas centenas de artigos científicos publicados e já liderou várias equipas de investigação. É frequentemente convidado a escrever artigos para os jornais mais influentes do mundo, a participar em programas televisivos ou documentários, e tem um vasto currículo de consultor de ciência. É autor de livros como Antropoceno: Como transformámos o nosso planeta (com Simon L. Lewis), The Cradle of Humanity, Climate Change: A Very Short Introduction e Climate: A Very Short Introduction, e How To Save Our Planet: The Facts.

Neste último, o cientista dedica um capítulo a visualizar dois possíveis futuros, a que chama de “Nightmare” (pesadelo) e “Ecotopia” (ou utopia ecológica). A primeira secção “mostra a visão aterrorizante do nosso planeta daqui a 80 anos, se não fizermos nada sobre a crise climática e ambiental que enfrentamos agora”, com temperaturas globais a ultrapassarem os 4ºC (graus Celsius) acima dos valores pré-industriais no final do século XXI. Mark Maslin descreve detalhadamente este cenário absolutamente assustador, centrando-se no calor, na seca, no (de)gelo, no nível do mar, nas tempestades, nas inundações, na acidificação dos oceanos, na comida, na saúde humana e nas migrações. O segundo futuro possível, no entanto, é completamente diferente.

Na ecotopia que o autor visualiza para 2100, as temperaturas globais sobem apenas 1,5ºC e os combustíveis fósseis são substituídos na totalidade por energias renováveis; são plantadas mais de um bilião de árvores, e o ar está limpo como nunca esteve desde a Revolução Industrial; as cidades têm redes de transportes públicos 100% elétricas, espaços verdes, e estão ligadas por comboios elétricos de alta velocidade e voos intercontinentais alimentados a querosene sintético; os edifícios têm revestimento fotoelétrico/fotovoltaico que gera energia solar e telhados com jardins; as novas tecnologias permitem que as reuniões à distância pareçam reais, evitando deslocações desnecessárias; as pandemias do século XXI ajudam a mover a alimentação global para uma muito mais baseada em produtos vegetais; a agricultura torna-se mais eficiente e afasta-se da pecuária, o que permite devolver terra à natureza selvagem, e a ideia da ‘meia-Terra’ passa a ser um princípio fundamental na organização territorial a nível mundial, destinando-se metade do planeta a sustentar a população de dez mil milhões e a outra metade a sustentar a biosfera e os sistemas ecológicos; a maioria dos países implementa políticas de rendimento básico universal garantido a todos os adultos, tirando vários mil milhões da pobreza; a energia de fusão nuclear torna-se uma realidade a nível mundial, proporcionando energia limpa para o século XXII.

Quando começa a conversa com o Gerador, Mark Maslin brinca que está feliz por já ser sexta à tarde e poder ir para casa descansar em breve, mas o seu tom rapidamente se torna sério quando passa para os futuros possíveis para a humanidade. Começa por dizer que “estamos a passar por um momento extremamente crítico, porque as decisões que tomarmos agora, nos próximos cinco a dez anos, vão determinar como mudamos o clima global”, e que “podemos visualizar um mundo onde não queimamos combustíveis fósseis, não emitimos gases com efeito de estufa para a atmosfera e limitamos o aquecimento global a talvez apenas 1,5ºC” – o cenário de ecotopia. Lembra que já aquecemos o planeta mais de 1ºC nos últimos cem anos com a produção e utilização de combustíveis fósseis, mas que “temos toda a tecnologia para os poder substituir”, logo, “poderíamos trocar todos os combustíveis fósseis por renováveis – isso inclui eólica, solar, hidrelétrica, geotérmica – e gerar energia limpa”.

“As pessoas não percebem que os combustíveis fósseis têm duas coisas incrivelmente más: provocam alterações climáticas e aquecimento da atmosfera, mas também poluição do ar”, acrescenta. “Um estudo recente sugeriu que mais de dez milhões de pessoas morrem prematuramente todos os anos devido à poluição do ar causada por combustíveis fósseis. Só para pôr as coisas em perspetiva, perdemos ‘apenas’ pouco mais de dois milhões e meio de pessoas devido a COVID num ano, o que mostra o quão verdadeiramente maus os combustíveis fósseis são”. E “podemos imaginar um futuro fantástico” em que paramos de utilizar combustíveis fósseis, “as cidades se tornam muito mais limpas e o ar muito mais puro, não morrem tantas crianças de asma e outras doenças respiratórias”, e o clima, embora vá continuar a mudar na mesma, “não muda tão drasticamente como receamos”.

“Mas também temos de pensar noutras coisas que podemos fazer, porque para reduzir as emissões de carbono temos de mudar completamente o nosso estilo de vida”, aponta o cientista. “Então, por exemplo, vamos falar de comida. Se todos mudarmos para uma dieta mais baseada em vegetais – e com isso eu quero dizer que cortamos toda a carne vermelha, talvez ocasionalmente comemos algum peixe ou carne branca, e a maioria de nós talvez seja vegetariano –, então iríamos reduzir imenso as emissões de carbono que emitimos para a atmosfera, com uma quantidade de terra muito menor e uma quantidade de água gasta na produção de colheitas muito menor. E vou dar um exemplo: 80% de toda a soja cultivada no mundo é para alimentar pecuária para produção de carne e lacticínios.”

Ao alterarmos o regime alimentar, iríamos tornar-nos “muito mais saudáveis, viveríamos mais anos e mudaríamos a maneira como afetamos o meio ambiente”. Portanto, “só ao acabarmos com o uso de combustíveis fósseis e mudarmos a alimentação já teríamos cidades e estilos de vida mais saudáveis”. Também teremos de pensar em como reestruturar as cidades, por exemplo, “para garantir que os edifícios sejam habitáveis, quentes durante o inverno, frescos durante o verão, com permutadores de calor alimentados a eletricidade renovável”. Já sabemos que as redes de transporte terão necessariamente de “ser todas elétricas e, assim, os transportes públicos vão se tornar baratos e acessíveis para que as pessoas se possam mover à vontade”.

A redistribuição de riqueza e justiça social é o seu ponto seguinte. “Temos de pensar se queremos que as pessoas continuem a precisar de ter vários empregos para ganhar o mínimo para sobreviver, quando ainda por cima sabemos que a maioria dos países tem bastante dinheiro, só não é bem distribuído.” Assim, “conseguimos imaginar novas formas de distribuir riqueza, dentro de países e entre países, para que as pessoas tenham sempre um rendimento de base garantido”. “Isso significaria”, esclarece, “que as pessoas não precisariam de se preocupar tanto com ficarem momentaneamente desempregadas, porque saberiam sempre que têm o apoio da própria sociedade”. Isto seria “muito importante” porque criaria oportunidade para as pessoas “poderem tomar decisões diferentes”. “Poderiam tornar-se cuidadoras das suas famílias, poderiam tornar-se artistas ou ideólogas, poderiam tornar-se empresárias e abrir negócios próprios, porque claro que a maioria dos negócios não tem lucros a sério nos primeiros cinco ou seis anos”, exemplifica. Poderíamos viver numa “sociedade muito mais dinâmica e inofensiva, porque as pessoas já não teriam de passar todos os segundos a calcular se conseguem pagar o aquecimento das casas e os alimentos”.

Esta seria, “claro, uma forma de vida muito diferente” da que conhecemos. “Tudo se resume, se quisermos, a fazer escolhas que podem efetivamente tornar as nossas cidades em lugares mais seguros, saudáveis e ricos para viver, e isso pode tornar as pessoas um pouco mais felizes”, defende Mark Maslin. “E são decisões económicas muito diretas”, acrescenta, “porque a eletricidade e a tecnologia renovável são mais baratas do que os combustíveis fósseis, e se removermos os subsídios aos combustíveis fósseis, que globalmente são cerca de um bilião de dólares por ano, poderíamos fazer bom uso de todo esse dinheiro no apoio os serviços de saúde, por exemplo”.

 

Cidades inteligentes e sustentáveis

 

 

Ana Fragata é cofundadora e diretora executiva do Fórum Internacional das Comunidades Inteligentes e Sustentáveis (FICIS). Investigadora em sustentabilidade, regeneração urbana e smart cities, atualmente na Universidade de Aveiro e na Universidade Portucalense, também já foi membro do Conselho Científico do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e analista para a sustentabilidade nas Nações Unidas. O FICIS teve a sua primeira edição em 2015 e já teve como foco temas como ‘uma nova maneira de pensar’, ‘utopia’ e ‘as cidades do futuro’. A investigadora explica em conversa com o Gerador que o evento “junta várias valências (investigação, desenvolvimento e mercado) e reúne pessoas das mais diversas áreas (que vão desde a economia, à governança, ao ambiente, à mobilidade, às tecnologias, à cultura, à educação, ao património, à saúde, à energia) e de muitas instituições diferentes, com empresas de grande dimensão, nacionais e internacionais, que vêm apresentar soluções”. Aponta que “o objetivo é ser da sociedade civil para a sociedade civil, de forma a transmitir conhecimentos que permitam efetivamente aplicar melhores soluções nas cidades e nos territórios, e, por outro lado, que as pessoas também possam ter um maior envolvimento na tomada de decisão”.

O que são cidades inteligentes e sustentáveis? “Uma cidade é um sistema de sistemas, com todas as suas infraestruturas, serviços e redes. Para ser inteligente e sustentável, a cidade tem estes sistemas todos, mas consegue criar soluções que melhoram a qualidade de vida das pessoas e permitem contribuir para o desenvolvimento sustentável.” Desta forma, a cidade, com todos os seus sistemas, “utiliza as tecnologias disponíveis, quando disponíveis” (embora não seja só isso, acrescenta, “porque não há cidades inteligentes sem cidadãos inteligentes”), e, adicionalmente, “garante as necessidades das gerações do presente, que vivem agora nestas cidades, mas também as necessidades das gerações futuras”.

A investigadora comenta que “enquanto civilização, sabemos que temos de combater as alterações climáticas; há estes chavões todos – sustentabilidade, redução das emissões de dióxido de carbono, melhor utilização dos recursos naturais, aumento da eficiência energética, a transição para fontes de energia renováveis, melhoria ambiental, melhoria da qualidade de vida – já sabemos isso tudo. Só que continuamos reféns da economia; há uma grande inércia, por um lado, dos grandes agentes económicos, e, por outro, das instituições governamentais”. Avança que “são as grandes empresas que têm de desenvolver todos os tipos de produtos que vão ser importantes para conseguirmos continuar a viver”. “Fala-se tanto de energias alternativas e transportes elétricos, mas a tecnologia já está disponível, e é preciso que as outras energias diminuam, e isso é um problema porque há lobbies e outros interesses em todo o lado, e depois é preciso que haja infraestrutura capaz de dar resposta a estas novas tecnologias. E também são precisas muitas mudanças a nível social, é preciso mudarmos de atitude e mudarmos hábitos de consumo”, acrescenta.

Ana Fragata clarifica vários pontos que considera importantes na reflexão sobre a vida possível nas cidades do futuro. Mas, antes, lembra que “quem vive numa cidade quer emprego, educação, saúde, acessibilidade e habitação de qualidade”. Adicionalmente, “as pessoas movem-se, logo, é importante que a cidade tenha capacidade para que as pessoas se movam com liberdade e facilidade, quer no transporte individual, quer no transporte público (que é muito importante, porque permite a mobilidade de mais pessoas com menos emissões), quer nos transportes suaves, como andar a pé ou de bicicleta”. Começa pelo caso dos veículos pesados elétricos: “imaginemos que uma cidade quer apostar nos transportes públicos elétricos. É preciso ter noção de que um autocarro elétrico não tem a mesma autonomia do que um autocarro a combustíveis fósseis, e as baterias ocupam bastante espaço, logo, são sempre autocarros com capacidade para menos pessoas. Além disso, é preciso criar infraestrutura que permita o abastecimento com acesso fácil e de forma rápida. E outra coisa é a logística por trás do transporte de alimentos, que é incrível. Seria preciso uma infraestrutura colossal para permitir abastecer os camiões a nível global”.

Ainda dentro da mobilidade, “há o carsharing”. Os carros irão eventualmente “deixar de ser um bem próprio e passar a ser um serviço”. Os veículos “estão mais de 90% do tempo parados, e nós eventualmente iremos deixar de precisar de ter um carro próprio; se precisamos do carro, vamos buscá-lo, da mesma forma que já se faz com as bicicletas ou com as trotinetes nas grandes cidades. E até podemos partilhá-lo com outras pessoas”. Em territórios de baixa densidade, existe “outro tipo de transporte específico muito mais sustentável, tanto a nível económico como ambiental, que é o transporte a pedido: como são normalmente territórios mais dispersos e as pessoas que lá moram vivem mais afastadas das zonas onde estão alguns serviços, quando precisam de ir ao médico ou à segurança social, por exemplo, chamam este tipo de transporte”.

A necessidade de infraestrutura é um ponto que refere em vários momentos. “Queremos que as pessoas andem mais de bicicleta, mas não podemos esperar que só por criarmos uma ciclovia as pessoas vendam imediatamente os carros – não, as pessoas vão andar de bicicleta só ao fim de semana, e é por lazer ou para exercício, não propriamente para se deslocarem”. Diz que estas são questões culturais e que, portanto, é preciso incentivar a mudança de hábitos, mas que para “os hábitos se criem é preciso planear com muito tempo de antecedência, criar as infraestruturas que permitam que os hábitos se desenvolvam, e depois dar tempo às pessoas para se adaptarem. Estamos a falar de períodos de décadas, e para que algo esteja a funcionar em pleno daqui a duas ou três décadas, é preciso começar já”. Aponta que “não é da noite para o dia que se conseguem estas coisas”: se queremos que as crianças andem de bicicleta quando forem adultas, “é preciso que já exista infraestrutura para as poder ensinar a andar, para que se sintam seguras e para que se habituem”.

Aqui salienta a importância de sensibilizar os jovens. As alterações climáticas e as práticas individuais para as mitigar “já estão a entrar nos programas curriculares, o que é essencial porque as crianças depois explicam aos pais, que muitas vezes também não sabem”, e apenas “ao compreender passam a valorizar”. Recorda que “quando as medidas de reciclagem começaram a ser implementadas, as pessoas não as queriam, nem percebiam para que serviam, e foi tudo protestado”, e agora “os miúdos crescem e já sabem instintivamente onde pôr cada tipo de lixo”. Também é essencial partilhar e divulgar “tanto as boas como as más experiências”, já que quase todas as iniciativas podem ser replicadas. “Às vezes há soluções pioneiras e inovadoras, assentes em tecnologia, que não trazem resultados positivos. E é importante passar essa informação, porque, de outra forma, vai-se apenas estar a replicar iniciativas das quais já se sabe os resultados.” Da mesma forma, também é preciso ter em conta que “os territórios, independentemente de serem de maior ou menor densidade populacional, são diferentes entre si. Temos de trabalhar com o que temos, que inclui o passado e o presente, e implementar soluções que permitam resolver os problemas do presente, melhorar a qualidade de vida, e também trabalhar o futuro”.

Atualmente há muitas tecnologias que estão a ajudar a tornar as cidades mais ecológicas e inteligentes, que permitem “diminuir o tempo desnecessariamente gasto e as emissões desnecessariamente emitidas”. “Há muitos serviços que há uns anos implicavam deslocações longas quando havia problemas para resolver, e agora já se podem tratar em plataformas online”, por exemplo. Na mesma lógica, também “há muitas formas para melhorar a eficiência energética”. “Há as lâmpadas LED, há os contadores inteligentes, que permitem monitorizar zonas para que as pessoas percebam quando é que têm mais consumo ou menos consumo. Há sensores que permitem que a iluminação em zonas pedonais só se ligue quando as pessoas passam. Há um projeto muito interessante em Chaves, que é possível pela imensa capacidade geotérmica da zona: está a ser implementada a utilização de águas quentes para aquecimento de edifícios públicos e privados. Portanto, aí está mais uma solução eficiente para a utilização de recursos endógenos renováveis. Mesmo para os pequenos negócios de comunidades rurais, neste momento há muitos projetos com financiamento para a melhoria da eficiência energética através de painéis solares, ou para a gestão dos efluentes, que precisam de ser tratados e podem ser transformados, por exemplo em biogás para produção de energia elétrica.”

Outro que considera ser um ponto-chave e que não está a ter a atenção que talvez deveria é a medição de dados – “não se consegue gerir nada sem se medir”. “As iniciativas, medidas, reestruturações, depois de serem implementadas, precisam de ser medidas, porque é através desses dados que se consegue perceber se a situação melhorou, se as pessoas estão satisfeitas, se os resultados são positivos ou não. Mas as cidades estão muito setorizadas; há uma quantidade enorme de plataformas e de tecnologias e é tudo demasiado confuso para as pessoas as conseguirem perceber, e um dos maiores problemas atuais é que não há a integração de toda essa informação, acaba tudo por ficar isolado no vácuo.” Assim, considera ser fulcral a integração dessa informação toda, de forma a criar uma base de dados geral – uma “espécie de cérebro para as cidades” – onde tudo seja organizado e, mais tarde, possa ser tratado, organizando-se por áreas interligadas e traduzindo-se em resultados (“aqui isto melhorou, aqui isto piorou, aqui houve inundações, aqui a qualidade do ar está terrível, aqui estão a passar demasiados carros”, exemplifica).

Numa fase posterior, é ainda necessário perceber a quem os dados podem ser úteis (“e ainda há a privacidade de dados, que é outra questão à parte”): “os municípios precisam deles para tomar decisões e para planear ações futuras, mas também podem ser importantes para as empresas e para a investigação, ou mesmo para os próprios habitantes, em determinadas circunstâncias”. Refere Copenhaga como exemplo, cidade onde estudou há cerca de uma década e onde já existia “uma plataforma única onde se geria tudo, desde a saúde, à escola, às piscinas públicas, aos bilhetes de transportes públicos, à segurança social. Há uma agregação e integração de dados impressionante, numa única plataforma consegue-se ter acesso a todos os serviços, o que torna tudo muito mais simples”.

Susana Viseu é presidente da Business as Nature (Associação para a Produção e Consumo Sustentável e a Economia Circular, abreviada para BasN), bem como consultora da presidência da República Portuguesa para temas como a transição climática, ambiente, oceanos, energia, ordenamento do território e desenvolvimento do interior. Aponta em entrevista ao Gerador que “ainda há, de facto, muito a fazer no domínio das cidades, que são os espaços onde se concentra maior quantidade de pessoas e, portanto, onde existe uma maior pressão do ponto de vista ambiental”. “E há muito a fazer na redução do consumo energético, mas também há muito a fazer na promoção do autoconsumo”, acrescenta.

Na sua opinião, é necessária a “implementação de soluções renováveis de uma forma muito mais alargada do que aquilo que acontece hoje em dia”. Promover o autoconsumo da grande maioria dos edifícios, o aproveitamento de águas das chuvas, o aproveitamento de águas residuais (“por exemplo, para regas”), e o aproveitamento de resíduos (“para todo um conjunto de aspetos, desde o plástico aos têxteis”), são algumas das soluções que refere. Adiciona, ainda, que “toda a questão da prevenção e da adaptação àquilo que são as alterações climáticas envolve a reconversão dos espaços naturais” e, portanto, também é necessária a “promoção dos espaços verdes, das áreas de sombreamento (também para reduzir a temperatura e permitir uma melhor circularidade das cidades), das quintas urbanas para que se possa aproximar mais o consumo dos produtos hortícolas das pessoas, e dos jardins verticais, com produção agrícola de uma forma vertical e hidropónica”.

As cidades “devem já estar a fazer os seus planos de adaptação”, já que “os desafios para as cidades são muitos, e muitos urgentes”. A humanidade “já está a assistir à intensificação e à aceleração dos processos das alterações climáticas e as cidades vão ser muitíssimo afetadas”. Singapura, por exemplo, é conhecida por ser ‘a cidade jardim’, e o Japão tem florestas a cobrir aproximadamente 70% do seu território, mas há quem esteja a trabalhar a sustentabilidade das cidades a nível europeu (como a European Urban Initiative, uma iniciativa cofinanciada pela União Europeia). A Comissão Europeia, inclusive, atribui anualmente dois prémios às cidades mais verdes: o European Green Capital para cidades com mais de 100.000 habitantes e o European Green Leaf para cidades com 20.000. Lisboa foi eleita a EU Green Capital em 2020, tendo-se seguido Lahti (Finlândia), Grenoble (França) e Tallinn (Estónia), sendo que Valência (Espanha) já foi selecionada para 2024 e Vilnius (Lituânia) para 2025.

 

Lutar por uma vida melhor

 

 

“Acho que o que as pessoas não percebem é que todas as soluções que temos para as alterações climáticas e a crise ambiental vão, na verdade, tornar a vida melhor”, defende Mark Maslin. “Políticos e empresas de combustíveis fósseis continuam a dizer a toda a gente que os ouça que vai custar muito mais dinheiro tornarmo-nos verdes e salvar o planeta, mas essa é a grande mentira, porque, como eu disse, um bilião de dólares são usados todos os anos por países que usam o dinheiro dos contribuintes para subsidiar combustíveis fósseis”. Também sabemos que, se precisarmos de uma nova fonte de eletricidade, “atualmente é muito mais barato investir em renováveis”, e que “só podemos assegurar segurança energética ao gerarmos eletricidade própria”. Este último ponto “aprendemos com a guerra na Ucrânia”: “se dependemos do gás, carvão ou petróleo de outros países, não podemos controlar os preços e ficamos vulneráveis, mas se tivermos a nossa própria eletricidade, produzida pelas nossas próprias fontes renováveis, não temos de pagar os prémios da geopolítica”.

O cientista questiona-se: se “já temos todas estas soluções e decisões que podíamos tomar”, “porque é que não haveríamos de as fazer de qualquer maneira? Porque é que não haveríamos de ter veículos elétricos nas cidades, que reduzem a poluição do ar e melhoram a saúde das pessoas? Porque é que não incentivaríamos as pessoas a ter uma alimentação mais vegetal, que lhes permite ser muito mais saudáveis, custa menos aos serviços de saúde, economiza dinheiro público, e permite às pessoas viver mais? Esqueçamos as alterações climáticas por um momento – porque é que haveríamos de não as fazer de qualquer maneira?”

O seu livro How To Save Our Planet: The Facts (“infelizmente ainda não há uma versão em português, mas é fácil de ler para pessoas que têm inglês como segunda ou terceira língua”) foi escrito “com frases simples e diretas (de forma que a mensagem passe”, tal como A Arte da Guerra, livro no qual se inspirou) e está dividido em várias secções. “Tem um capítulo sobre indivíduos, são quinze as coisas que eu digo que as pessoas podem fazer, mas também tem um capítulo sobre o que as empresas podem fazer, e também tem um capítulo sobre o que os governos podem fazer (se virem algum dos vossos políticos na rua, por favor, dêem-lhe uma cópia), e ainda o que a comunidade internacional pode fazer”. Considera que há três grandes coisas em que as pessoas se podem focar: “falar sobre a crise climática, comer o mais saudável possível e usar o poder de consumidor da melhor maneira possível”.

Falar sobre as alterações climáticas e espalhar a informação é essencial. “Esta é a maior crise que a humanidade enfrenta, e não falamos sobre isto. Ficamos felizes em falar sobre qual a equipa de futebol que ganhou no fim de semana, ou que roupa vamos vestir a seguir, mas não falamos sobre esta ameaça colossal. E o que é interessante é que quando as pessoas o fazem, as coisas mudam.” Já trabalhou com “muitas empresas grandes em todo o mundo” e já viu “empresas a mudarem literalmente da noite para o dia porque as pessoas começaram a falar umas com as outras” e a partilhar as suas preocupações (“o que chamamos ansiedade climática”). “Isto só mostra que, sim, podemos fazer as coisas de uma maneira diferente. E as empresas têm lucro na mesma – na verdade, muitas das empresas com as quais trabalho ainda ganham mais dinheiro, porque como optaram por caminhos ecológicos éticos, as pessoas querem verdadeiramente trabalhar com elas e querem comprar os seus produtos. Então, o que precisamos é que as pessoas falem sobre a crise climática, procurem soluções, e trabalhem com base no princípio de que um problema partilhado é um problema que pode ser resolvido.

A maneira como falamos das alterações climáticas, no entanto, é algo complicada, tal como o é a ansiedade climática. Há muitos estudos que provam que serem bombardeadas com notícias assustadoras sobre o clima não incentiva as pessoas a fazer o que quer que seja; na verdade, só gera apatia e inação. Este tipo de mensagens demasiado negativas, algo que já é apelidado de doom-and-gloom, não são a melhor maneira de comunicar a realidade da situação, ainda que sejam factualmente corretas. As alterações climáticas são de uma escala tão imensa e complexa que o cérebro humano tem dificuldade em conseguir compreender. Outro problema é a comunicação que se assenta na polarização política, que foi o que aconteceu, por exemplo, com a cobertura noticiosa em torno da proposta inicial de um Green New Deal feita por Alexandria Ocasio-Cortez e Edward John Markey ao Congresso americano; o foco ficou-se pelo debate de quem apoia ou não a proposta, e a informação básica não passou, nem os possíveis efeitos da mesma. Assim, a melhor abordagem é, segundo os resultados de uma experiência feita por um projeto da Universidade da Califórnia (o UCLA ENGAGE), simplificar a informação, referir consequências que sejam próximas das pessoas e apresentá-la com medidas concretas; por exemplo, as pessoas do estudo que receberam dados que demonstravam a ligação entre as alterações climáticas e a morte prematura de crianças diminuíram o seu consumo energético em 8%, sendo que nas casas com crianças a diminuição foi de 19%.

“A coisa que as pessoas controlam e podem mudar são os hábitos alimentares”, diz Mark Maslin. “Mudem para uma dieta mais baseada em vegetais se for possível. Se viverem num país rico, tornem-se vegetarianos; se viverem num país em desenvolvimento, optem talvez pelo que eu chamo regime ultraflexitariano, o que significa principalmente à base de vegetais, mas de vez em quando um pouco de peixe e carne branca é permitido para garantir que a pessoa tem proteínas e vitaminas suficientes”, sugere. O mesmo se aplica a tentar consumir de forma sustentável. No mundo desenvolvido, “as pessoas têm dinheiro no bolso, compram coisas quase todos os dias, e esquecem-se que as empresas fazem de tudo para conseguir o seu dinheiro. Tentam vender-nos coisas, através de publicidade, através de uma espécie de pressão social, o tempo todo. Logo, tudo o que precisamos de fazer é pensar e escolher a opção mais sustentável. Podemos não acertar sempre, até porque há muita desinformação por aí, mas, se as decisões não se basearem exclusivamente no que é mais barato, e sim no que é melhor para nós e para o planeta, e se todos fizermos isso, as empresas vão obrigatoriamente ter de repensar a sua abordagem, mudar a maneira como fazem as coisas e alterar a sua oferta para produtos melhores”.

Susana Viseu aponta que “tudo começa por nós, não é?” Em linha com a opinião de Mark Maslin, comenta que, “muitas vezes, estamos à espera de que governos ou a comunidade internacional tomem decisões num determinado sentido, mas nós, com as nossas escolhas individuais, diariamente, temos um papel muitíssimo importante”. “Depende realmente daquilo que é o nosso dia a dia”, conclui, “daquilo que compramos, daquilo que consumimos (água, energia, ou consumo em geral, até porque a verdade é que uma grande parte do que consumimos efetivamente não necessitamos), das coisas que fazemos, das nossas atitudes, das nossas escolhas políticas, e também naquilo que pode ser o nosso ativismo por estas causas – de nos envolvermos em organizações não-governamentais, de tentarmos participar em ações, de tentar passar a palavra e a sensibilizar outras pessoas”.

 

As alterações climáticas são consideradas a maior crise que a humanidade alguma vez enfrentou. Mesmo com consciência das consequências, a quantidade de gases com efeito de estufa que emitimos para a atmosfera continua a aumentar anualmente; segundo a monitorização da Climate Watch, temos vindo a aproximar-nos cada vez mais das 50 mil milhões de toneladas anuais. Cientistas e ativistas defendem que é necessário repensar, adaptar e restruturar o sistema em que vivemos, e que fazê-lo é urgente, uma vez que o prazo de validade do nosso modo de vida está a esgotar-se. Mas como se repensa o sistema? Por onde se pode começar, quais os caminhos a seguir e quais as possíveis alternativas e soluções? Como poderia ser a vida nas cidades sustentáveis do futuro? E quais os maiores obstáculos para lá se chegar?

 

Esta grande reportagem tem seis partes que serão publicadas ao longo de seis semanas nas datas indicadas em baixo.

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As alterações climáticas são consideradas a maior crise que a humanidade alguma vez enfrentou. Mesmo com consciência das consequências, a quantidade de gases com efeito de estufa que emitimos para a atmosfera continua a aumentar anualmente; segundo a monitorização da Climate Watch, temos vindo a aproximar-nos cada vez mais das 50 mil milhões de toneladas anuais. Cientistas e ativistas defendem que é necessário repensar, adaptar e restruturar o sistema em que vivemos, e que fazê-lo é urgente, uma vez que o prazo de validade do nosso modo de vida está a esgotar-se. Mas como se repensa o sistema? Por onde se pode começar, quais os caminhos a seguir e quais as possíveis alternativas e soluções? Como poderia ser a vida nas cidades sustentáveis do futuro? E quais os maiores obstáculos para lá se chegar?

 

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