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Apesar de ser descrito como um apaixonado pelo cinema, não se considera um cinéfilo. Descreve-se como uma pessoa prática, e os elogios deixam-no desconfortável. Enquanto realizador, encontrou nas curtas-metragens o melhor formato para contar as suas histórias. Já foi nomeado duas vezes para os Prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema e, em janeiro de 2023, criou a primeira curta-metragem portuguesa realizada apenas com Inteligência Artificial. O seu último filme esteve em exibição no Tirana Film Fest, um festival qualificador para os Óscares e para os Prémios do Cinema Europeu. Para além de cineasta, Bruno Carnide desdobra a sua criatividade pela docência universitária, pela curadoria do Museu da Imagem em Movimento de Leiria e pela programação do Leiria Film Fest.

A família não tinha uma grande ligação com o mundo artístico, e a paixão pela sétima arte surgiu já quando era adulto. Tornar-se realizador de cinema não foi uma escolha consciente, mas antes uma consequência das decisões que tomou ao longo do seu percurso. Após terminar o ensino secundário, Bruno Carnide frequentou um Curso de Especialização Tecnológica, que lhe deu acesso ao ensino superior sem que precisasse de fazer os exames nacionais. Entrou em Engenharia Informática, no Instituto Politécnico de Leiria, mas não gostou do curso e decidiu pedir transferência. Sabia que queria seguir uma área artística e estava indeciso entre Design Gráfico e Multimédia e o curso de Som e Imagem.

Nascido em Leiria, em 1987, durante a adolescência, desenvolveu um gosto por informática e webdesign, todavia, o interesse crescente que tinha pela imagem em movimento venceu e, em 2008, deu início à sua licenciatura em Som e Imagem, na Escola Superior de Artes e Design (ESAD) do Politécnico de Leiria. Foi logo no primeiro ano letivo que lhe chegaram os sinais de que poderia ter encontrado uma vocação. Então com 21 anos, Bruno Carnide realizou a sua primeira curta-metragem no âmbito de um projeto curricular e decidiu submetê-la a alguns concursos. O filme de animação 3D, Os Teus Últimos Dias Como Criança, acabou por vencer um prémio, em Coimbra, e o reconhecimento serviu-lhe de motivação. «Era um trabalho de escola sem grande relevo, mas foi a partir daí que comecei a querer fazer mais», confessa.

Durante os três anos de licenciatura, ver e fazer cinema tornaram-se um hábito. Via um filme todos os dias e desenvolveu múltiplos projetos académicos e extracurriculares. Em 2011, no último ano do curso, realizou aquele que define como o seu «primeiro filme assumido», visto que os restantes acabavam por ser uma consequência dos exercícios propostos pelos professores, que Bruno, depois, adaptava como curtas-metragens. Em Terra Frágil, surgiu de uma ideia que o realizador escreveu antes de entrar no curso, porque «já imaginava que, se um dia fizesse um filme, quereria contar aquela história».

Fez a curta-metragem com a ajuda dos seus colegas e as gravações com câmaras emprestadas por amigos, porque tinham uma qualidade melhor do que o material disponibilizado pela sua instituição de ensino. O cineasta acredita que as dificuldades técnicas e a falta de recursos que experienciou durante o seu tempo na ESAD, acabaram por torná-lo um realizador melhor. «Na altura, conheci estudantes de outras escolas que tinham acesso a tudo e à mínima dificuldade ficavam bloqueados», enquanto, «[na ESAD], conseguíamos contornar isso», explica. Desde então, a superação de problemas tem pautado o seu trabalho.

© Fotografia de Sara Ferreira / Gerador

Terminado o percurso no ensino superior, começou a procurar emprego e, seis meses depois, despediu-se de Leiria e fez as malas rumo a Lisboa. Trabalhou durante cerca de um ano na Activate, uma agência de publicidade onde realizava vídeos institucionais para diferentes marcas e empresas, como a Volkswagen e a Google. «Fazia uma média de três vídeos por semana, era um ritmo superelevado e intenso, mas fez-me ganhar uma experiência muito grande», garante. No entanto, ao fim de um ano, o «desafio» e o «fator novidade» do novo emprego esmoreceram e deram lugar à repetição de ciclos e ao cansaço. Com uma ideia para um novo projeto em mente, decide despedir-se, escapar à «confusão» da capital e regressar a Leiria.

É assim que nasce o Leiria Film Fest — Festival Internacional de Curtas-Metragens, fruto de uma ideia guardada no bolso de Bruno desde que terminara a licenciatura. «Em 2011, começo a perceber que não existe em Leiria um festival de cinema em que se possa ver ou mostrar trabalhos», recorda. Com a ajuda da companheira, Cátia Biscaia, funda o festival, em 2013. «Tivemos sempre muitas dificuldades financeiras a nível de apoios, [mas], este ano, demos um salto gigante», conta.

Nesta décima edição, conseguiram ter cerca de três mil espectadores, 30 seleções e mais de 50 convidados nacionais e internacionais. «Temos de pensar que não estamos no centro e fazer um festival em Leiria é mais dispendioso do que em Lisboa», sustenta. O realizador explica que estar afastado dos grandes centros urbanos aumenta as dificuldades logísticas e os custos com as deslocações, a alimentação e a estadia dos convidados.

A distância que o separa da capital afigura-se um tópico incontornável quando fala do seu trabalho. São cerca de 145 quilómetros que acabam por exercer uma influência significativa nos projetos que desenvolve e nas curtas-metragens que realiza.

«Não estando em Lisboa, principalmente, acabas por perder muitas oportunidades por questões de proximidade, facilidade de contactos e de relações.»

Bruno Carnide

No entanto, o realizador não se detém dentro dos limites do distrito de residência. O regresso a Leiria coincide também com o momento em que começou a realizar trabalhos em regime freelance. Mantém-se assim até hoje e, em 2017, começou a repartir a atividade com a docência universitária. Dá aulas de Cinema, Animação e Efeitos Visuais para Cinema, no Politécnico de Leiria, e, desde 2019, leciona também Realização Audiovisual e Edição de Vídeo Digital, no Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra.

Nenhuma das unidades curriculares que leciona no ISMT se encontra inserida num curso de cinema, mas alguns dos alunos fazem-no lembrar a sua própria experiência académica. «De vez em quando, descobres estudantes que começam a apaixonar-se pelo cinema. Se calhar, nunca se tinham apercebido antes por não terem esse contacto: um bocadinho como aconteceu comigo», recorda.

 

Mailuki e a independência

«Ser independente não é apenas uma atitude, é a nossa escolha de vida»: é esta a frase que se pode ler no site da Mailuki, uma agência espanhola de distribuição de filmes, e com a qual Bruno Carnide se identifica. Foi em 2011, através de uma pesquisa na Internet, que o realizador independente encontrou a agência e, desde então, tem colaborado com a equipa, liderada por Eduardo Solera.

Durante alguns anos mantiveram um contacto «descomprometido», e a agência ia oferecendo alguns conselhos para a programação do Leiria Film Fest. No entanto, a relação começou a fortalecer-se e, desde 2017, a Mailuki tem feito a distribuição dos filmes do realizador leiriense.

Apesar de nunca ter conhecido o líder da agência pessoalmente, ou sequer ter ouvido a sua voz, Bruno mantém com ele uma ligação forte. A confiança entre os dois, construída através de mensagens de texto, tem permitido ao realizador representar a Mailuki em eventos internacionais desde há cerca de dois anos, a pedido de Eduardo Solera.

No ano passado, foi ao Tirana Film Fest, na Albânia, um festival que qualifica para os Óscares e para os Prémios do Cinema Europeu, como jurado internacional. O filme escolhido para qualificar para os Óscares, The Red Suitcase, do luxemburguês Cyrus Neshvad, acabou mesmo por ficar nomeado para Melhor Curta de Ficção da cerimónia de prémios internacional.

A dimensão reduzida do leque de realizadores sob a alçada da Mailuki permite que haja uma maior proximidade com a agência e uma maior personalização no tratamento de cada cineasta. «[Na Mailuki], há uma estratégia de distribuição mais pensada», refere. Desde 2017, a agência distribuiu três curtas de Bruno Carnide: Fugiu. Deitou-se. Caí (2017), Equinox (2019) e O Voo das Mantas (2021).

© Fotografia de Sara Ferreira / Gerador

 

Não convencional à força e por vontade

Enquanto realizador, os formatos abertos, como as séries televisivas, não o cativam. Bruno Carnide gosta de histórias fechadas, com princípio, meio e fim, e é assim que decide contar as suas. A paixão pelas curtas-metragens surgiu de forma natural, e este acabou por se tornar o seu formato de eleição: tem realizado ficção, animação e documentários. O próximo filme que vai lançar, As Memórias de uma Casa Vazia, tem 11 minutos e será a sua obra mais longa. «As histórias que fui querendo contar sempre se enquadraram mais no formato curto», admite, «em pouco tempo, conseguimos que a mensagem transmitida toque e emocione o espectador.»

Este formato também o permite ser mais experimental na sua abordagem sem que isso afaste o público, pelo que os seus filmes tendem a ser «pouco convencionais», desde a linguagem cénica, ao próprio processo de criação. Apesar de não ter sido uma decisão propositada, Bruno identifica um aspeto transversal à maioria das suas obras: a ausência de uma personagem visível.

«[Os meus] filmes são muito estéticos. A personagem não está lá, e tudo aquilo que nos conta é metaforicamente representado por elementos visuais que vamos interpretando»

Bruno Carnide

Tendo em conta que se rotula como uma pessoa prática, a escolha deste tipo de linguagem também não é completamente inocente. O realizador diz criar filmes menos convencionais, em parte, para contornar os problemas que advêm do seu afastamento dos grandes centros urbanos e de ter em mãos orçamentos reduzidos. Nos últimos anos, tem-se dedicado mais às curtas-metragens de animação e reconhece que essa escolha também representa uma tentativa de contornar problemas relacionados com a falta de apoios e de recursos.

É nestes momentos que parecem emergir as aprendizagens colecionadas ao longo da sua passagem pelo ensino superior. Apesar das dificuldades, o realizador tenta sempre arranjar uma forma de transmitir as mensagens que pretende aos espectadores. «Tenho estes problemas, mas não é por eles existirem que vou deixar de fazer. Vou arranjar uma forma diferente de contar a história que quero contar», assevera.

A ausência de convencionalidade mantém-se no processo criativo: o realizador só parece encontrar as ideias para as suas histórias após o começo das filmagens. À semelhança dos exercícios que desenvolvia durante a licenciatura em Som e Imagem, Bruno começa por filmar imagens num registo documentarista e, consoante os primeiros registos que vai recolhendo, começa a desenvolver a ideia que pretende transmitir. «Talvez a minha forma de começar a criar uma história se inicie com uma folha já com alguma coisa escrita, em vez de começar com uma folha vazia», hipotetiza.

© Fotografia de Sara Ferreira / Gerador

 

O processo de aperfeiçoamento e um movimento constante

Ao longo de mais de uma década, Bruno Carnide tem trabalhado nos seus filmes com equipas de dimensão reduzida, uma das «regalias» que encontra nas curta-metragens. Miguel Samarão é músico e compositor, e o principal responsável pelas bandas sonoras dos filmes do cineasta. Tornaram-se amigos chegados há cerca de oito anos, mas colaboram desde 2011, e o artista reconhece que a sua ligação com o cinema se fortaleceu à conta de Carnide. «O Bruno é completamente apaixonado pelo cinema e faz com que as pessoas à sua volta também se sintam apaixonadas», confessa.

Miguel Samarão reconhece no realizador a capacidade de transportar os espectadores para dentro do seu universo cinematográfico, fazendo com que se sintam parte integrante da história. «O Bruno tem tido um processo evolutivo, e espero que nunca pare. Julgo que, daqui a 20 anos, vamos ter obras fantásticas e ainda melhores do que as que ele tem feito», atesta. O músico reconhece, contudo, que o ritmo de produção do cineasta diminuiu desde que este se tornou pai, em 2019, e pelo facto de estar envolvido, em simultâneo, em múltiplos outros projetos.» Tem de haver sempre movimento na vida dele, não consegue estar parado», diz, entre risos.

O compositor não é o único a reconhecer o movimento constante na vida de Bruno Carnide. A companheira do realizador revela jocosamente que é necessário mantê-lo ocupado, se quiser ter algum tempo para descansar. «A partir do momento em que ele ganha algum tempo livre, diz que está aborrecido e que tem de ir fazer um filme», declara. Cátia Biscaia também é realizadora, fotógrafa e docente universitária no ISMT, e a veia artística partilhada pelos dois faz com que tenham vindo a trabalhar juntos ao longo dos anos.

Lecionam na mesma instituição, repartem a programação do Leiria Film Fest, ajudam-se na realização de filmes e, desde 2022, fazem juntos a curadoria do Museu da Imagem em Movimento, em Leiria. «Não somos muito um casal típico, que está afastado durante a jornada de trabalho e depois se junta ao final do dia e ao fim de semana», conta, «trabalhamos sempre um com o outro e, se há pessoa em que sei que posso confiar, é nele.»

 

A difícil busca pelas palavras certas e a dualidade da crítica

Bruno Carnide não se considera ambicioso, mas reconhece ser perfecionista. Talvez seja este o traço de personalidade que dificulta a relação que tem com as palavras. Apesar de ter ideias muito específicas para as histórias que quer contar, sente dificuldade em materializá-las num argumento. «Consigo criar visualmente uma narrativa, mas quando o espectador tem de ouvir palavras, que são coisas muito concretas e que podem rapidamente mudar a ideia do que se possa estar a ver, tenho dificuldade», admite.
Para o realizador, as palavras são o elemento fílmico que detém maior poder na narrativa. Enquanto considera que o som e as imagens tendem a ser um pouco mais subjetivos e levar a interpretações díspares, as palavras, ainda que passíveis de interpretação, assumem para si um significado muito específico.

«Penso que é preciso muito cuidado com as palavras, porque têm uma força muito grande. Levam-nos para um sítio muito concreto, pelo que a interpretação [da história] começa a ficar cada vez mais condicionada»

Bruno Carnide

Este respeito pelo sentido «eterno e concreto» das palavras, como as define, levam-no a recorrer a pessoas que considera mais capazes para a escrita dos argumentos dos seus filmes. «Já me resignei que não sou capaz, ou não gosto, quando sou eu a escrever. Portanto, passo a ideia daquilo que quero e outra pessoa escreve», explica, «quando escrevem de uma forma que não idealizei, entro na fase da adaptação.»

São, sobretudo, estas dificuldades que tem em conseguir expressar-se que o levam também a afastar-se do conceito de cinefilia. Para si, um cinéfilo seria uma pessoa que conseguiria expressar «muito bem» aquilo que sente ao ver um filme. «Não sou uma pessoa muito teórica, sou muito prático, e não tenho de todo essa capacidade», reconhece. O realizador já fez crítica de cinema e confessa ter sentido muitas dificuldades, especialmente, quando não apreciava os filmes que via. «É sempre um bocado difícil estar a criticar ou dizer mal de um trabalho que sabes que foi alvo de muita dedicação e empenho de um conjunto variado de pessoas», desabafa.

Bruno admite também não lidar muito bem com a crítica dos outros, e os elogios deixam-no desconfortável. Quando se conheceram, no evento Leiria Iluminada, em dezembro de 2011, Cátia Biscaia disse-lhe que conhecia e admirava muito o trabalho do realizador. «Acho que ele ficou um bocado incomodado, era muito envergonhado», recorda. O cineasta acredita que, ainda que a crítica negativa seja «chata», abre sempre um espaço para retorquir. «[No entanto], quando são elogios, fico um bocado sem jeito e não sei o que hei de acrescentar», declara.

Ainda que o elogio o deixe incomodado, o cineasta diz que o reconhecimento é um dos principais fatores que lhe servem de motivação. Ao longo da sua carreira, venceu mais de 30 prémios e os seus filmes foram exibidos em centenas de festivais de cinema em todo o mundo. Entre estas conquistas, o realizador destaca as duas nomeações aos Prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema, que arrecadou, em 2020, com Equinox, e, em 2022, com O Voo das Mantas, ambas curtas-metragens de animação. «Estas nomeações puseram-me ao lado de todas as pessoas que admiro e respeito, e isso deixa-me realizado», confessa.

O realizador sublinha a gratificação que sente quando o coração começa a «bater a mil» numa nova estreia.

«Estão ali pessoas a ver o filme pela primeira vez e queremos perceber o que é que elas sentem, e é isso que nos motiva depois a fazer outro», frisa, «a indústria, em Portugal, está cheia de malta que pensa em desistir e, por isso, temos de nos agarrar a estas pequenas coisas.»

Bruno Carnide

© Fotografia de Sara Ferreira / Gerador

 

O futuro imprevisível e a certeza do inconformismo

No mês de janeiro deste ano, em menos de 24 horas, Bruno Carnide fez Janeiro, a primeira curta-metragem portuguesa realizada apenas com Inteligência Artificial. O realizador inseriu prompts [palavras-chave] nos programas distintos que utilizou, disponíveis online de forma gratuita, e estes trataram do resto: geraram o texto, as imagens e o som.
Começou a explorar as ferramentas de IA apenas com o objetivo de aprender mais sobre elas e de perceber como funcionavam, mas acabou por decidir ir mais longe. O processo lembrou-o dos tempos da ESAD, em que, através de um exercício, acabava por criar um filme. «Ao longo dessas 24 horas um bocadinho intensivas, foi nascendo a ideia», conta.

A evolução dos programas tem sido tão veloz que, mesmo que Bruno repetisse o processo de criação, utilizando as mesmas palavras-chave, nunca conseguiria obter o mesmo resultado. «Nesse sentido, há qualquer coisa que faz do filme único, não só porque a IA não volta a gerar aquilo da mesma forma, mas também porque outra pessoa não vai conseguir chegar às palavras que usei», defende. Desta forma, o realizador acredita que é aberto um espaço para a discussão em torno da autoria e criatividade humana neste tipo de criações.

Quatro meses depois de Janeiro, nasce Maio, a segunda experimentação que fez apenas com recurso à IA. «As ferramentas ainda estão muito dispersas e ainda nada está normalizado. Tive de utilizar 16 softwares diferentes para criar a curta e os que utilizei em Janeiro já foram descontinuados», diz.

© Fotografia de Sara Ferreira / Gerador

 

Fruto destas curtas-metragens, Bruno Carnide foi convidado, em junho, a participar como orador no Rain Film Fest, o primeiro festival da Europa de cinema com IA. Entre os participantes, encontravam-se artistas, investigadores e filósofos que fizeram com que o realizador começasse a ter uma nova reflexão acerca do futuro destas ferramentas. «Ao ouvir estas pessoas, percebi que é possível estarmos a falar de um novo tipo de arte, facilmente confundível com outras que já existem, [mas] que são feitas de outras formas», pondera.

Ainda assim, a forma como olha para a IA tem mudado ao longo do tempo. No início, sentia um pouco de receio por estar a testemunhar algo que ameaçava a sua zona de conforto. «Quando comecei a debruçar-me sobre isto, fui muito cético», confessa, «pesquisava, porque estava interessado em saber o que existia, mas nunca mexia, nunca tocava.» Janeiro foi o seu primeiro contacto direto com este tipo ferramentas, motivado também pelo seu trabalho como docente.

Bruno Carnide sentia uma responsabilidade acrescida enquanto docente para saber mais sobre o impacto prático da IA nas áreas artísticas. «Leciono as disciplinas de uma forma convencional, que vai acabar por se tornar obsoleta. No fundo, torna-me a mim, enquanto professor, uma espécie de fraude», sustenta. Ainda que de forma descomprometida, o realizador vai mostrando aos seus estudantes algumas das ferramentas de IA já existentes que permitem resolver alguns problemas ou dificuldades técnicas que estes possam vir a ter.

O futuro revela-se incerto, e Bruno não possui planos de continuar a criar curtas-metragens com recurso à IA. Mas como quase tudo na sua vida, os projetos vão surgindo sem que se aperceba, e as suas ideias vão germinando, mesmo que ainda não se tenha apercebido de que as guarda. Talvez a única certeza que tenha é o facto de a sua vida nunca se tornar aborrecida.

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