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Durante a pandemia, uma pequena luz surgiu no fundo do grande túnel que é a assimetria demográfica. Os sucessivos confinamentos e restrições desencadearam um interesse renovado nas áreas rurais do país. A natureza e a baixa densidade populacional tornaram-se apetecíveis num mundo onde o contacto social era restrito. O interesse revelou-se efémero para muitos, mas definitivo para alguns. Jovens que regressaram fazem agora do Interior um emblema e querem mostrar que a mudança não significa retrocesso.

 

Ao deparar-se com o isolamento social imposto pela pandemia, Carlota Marques questionou a pertinência de permanecer no estrangeiro. «Vi-me a trabalhar em casa e pensei “o que é que eu estou aqui a fazer?” Para isto, volto.» E voltou. Regressou a Nelas, a sua terra natal no distrito de Viseu, sem grandes projetos definidos. Estava decidida a começar de novo e, por isso, despediu-se da função que tinha, mesmo tendo tido a hipótese de a continuar a desempenhar à distância. «Cheguei aqui e vi que tinha uma panóplia de projetos em que podia apostar e investir», explica, em entrevista ao Gerador.

A jovem percebeu que existia, de facto, potencial de desenvolvimento, e que era necessário mostrar isso ao resto do país. Decidiu, então, aproveitar o ócio do confinamento e pôr mãos à obra. Fez alguns telefonemas e convocou amigos. Fundou, assim, a INterioriza-te. «Começou com uma ideia muito indefinida, mas com um objetivo muito específico, que é contrariar o movimento dos jovens para o litoral», conta a presidente.

Para levar a cabo a tarefa, definiram quatro áreas de intervenção: emprego; empreendedorismo; cultura; e turismo. Segundo o coletivo, estas são as vertentes estratégicas cuja potencialidade não foi suficientemente trabalhada para que se possa traduzir na fixação de pessoas. Desde 2021, quando iniciaram atividade, divulgaram iniciativas, ofertas de emprego e eventos culturais, sobretudo através das redes sociais. Também criaram relações com entidades locais e agentes institucionais. Além de tudo isso, destacam, com regozijo, a Feira de Empregabilidade Jovem do Interior (FEJI), que aconteceu em maio de 2022, em Viseu. «Foi um caso ímpar, pois, até à data, não existia nenhuma feira nestes moldes para jovens do Interior. Nesse aspeto, fomos pioneiros», diz Tiago Fonseca, vice-presidente da INterioriza-te. «Existem oportunidades, e é preciso que as pessoas também apostem neste tipo de contextos e não estejamos à espera dos outros», acrescenta o jovem empresário, que vive no mesmo concelho.

Tendência não chegou para «estancar a ferida»

 

E foi a partir de uma certa «oportunidade» que tudo aconteceu. Durante o auge da pandemia, cresceu a esperança de que a sangria de gente para o litoral pudesse começar a abrandar. No jornal Expresso lia-se, a 18 de julho de 2020, que a «Pandemia já está a ‘empurrar’ famílias para o interior». O artigo era da secção de imobiliário e falava na possibilidade de uma «tendência» – não confirmada – de um movimento de regresso, impulsionado pelo isolamento social e a vontade de ter mais espaço habitacional. Também o Público referia, num artigo intitulado «Se tens um sonho, por favor vai concretizá-lo», um «tímido regresso às aldeias», impulsionado pela vontade de fugir aos aglomerados dos grandes centros urbanos. Alguns casos concretos, de famílias que ponderavam ou decidiram mesmo mudar-se para meios rurais, foram reportados em diferentes títulos da imprensa local.

«Nesse período, nós recebemos dezenas, centenas de contactos de pessoas que estavam interessadas nesse processo de mudança», conta João Almeida, que fundou a organização sem fins lucrativos Rural Move. O coletivo – que foi distinguido em outubro de 2022 pelo Centro de Estudos Ibéricos na categoria de Projetos e Iniciativas Inovadoras – surgiu, «de forma orgânica», em 2020, com o propósito de aproveitar a dita «tendência» de retorno ao Interior. A premissa era a de informar e apoiar as pessoas sobre os vários territórios, mostrar as possibilidades existentes e fazer a ponte com entidades locais. De início, os contactos foram muitos, mas depois o número de solicitações foi diminuindo. «As pessoas tinham aquela ideia idílica do rural», explica João Almeida, que diz ter chegado a essa conclusão após algumas reuniões virtuais. «Percebemos que, quando se começava a fazer perguntas [sobre perspetivas de emprego, habitação e outras] só 5 ou 10 % das pessoas estava realmente pronta para esse processo», lamenta o também bolseiro da Universidade de Aveiro.

«acho que não é precoce dizer que existe um movimento para o Interior. Acho que existe. Talvez não seja ainda suficiente para inverter o despovoamento estrutural, que existe há décadas»

João Almeida, Rural Move

João Almeida – tal como Carlota Marques e Tiago Fonseca – é um jovem que fez da vida no Interior um desígnio. Fundou a Rural Move para mostrar que o território tem mais para explorar e pode oferecer qualidade de vida aos jovens que estejam abertos a essa mudança. Atualmente, a organização está presente em 30 municípios. Em todos eles, há voluntários ou parceiros capazes de esclarecer as dúvidas de quem esteja a ponderar mudar-se.

Além da plataforma online, têm impulsionado iniciativas e parcerias com autarquias, pois perceberam que a mudança terá de surgir primeiro dentro dos próprios territórios. «Neste momento, assumimos esta posição. Até costumo brincar com um slogan que começámos a utilizar que é «a Rural Move é movimento para o Interior e o Interior em movimento», relata.

«De tudo aquilo que tenho visto, tanto na minha investigação do doutoramento [na área de empreendedorismo nas áreas rurais], como nesta atividade da Rural Move é que acho que não é precoce dizer que existe um movimento para o Interior. Acho que existe. Talvez não seja ainda suficiente para inverter o despovoamento estrutural, que existe há décadas», refere.

De facto, os números dos Censos 2021, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), não dão qualquer sinal disso. Muito pelo contrário:

 

Mesmo admitindo que o recenseamento já não registou todo o período marcado pela covid-19, o investigador da Universidade da Beira Interior, Alcides Monteiro, serve-se destes números para afirmar que o tal «movimento de regresso» ficou reduzido a situações pontuais. «São casos mais ou menos esporádicos, de pessoas que tomam essa decisão por força de outras decisões na sua vida».

O professor catedrático e investigador do CIES – Center for Research and Studies in Sociology assume que possa ter havido algumas pessoas a decidir mudar de vida e abandonar os centros urbanos, mas lamenta que os números apenas confirmem o problema «estrutural» de despovoamento do Interior. «A distância em relação aos centros de decisão, em relação aos serviços, acrescida desta dificuldade em termos de mobilidade, tudo isto são alguns dos fatores que, realmente, pesam sempre nas decisões das famílias», explica.

 

 

«A distância em relação aos centros de decisão e aos serviços, acrescida desta dificuldade em termos de mobilidade, tudo isto são alguns dos fatores que, realmente, pesam sempre nas decisões das famílias»

Alcides Monteiro, UBI

Qualidade, mas de que vida?

Esta questão da «qualidade de vida» foi um elemento comummente apontado como importante pelas pessoas que decidiram abandonar a vivência em centros urbanos e que, por isso, deram o seu contributo para esta reportagem. Mas pode medir-se este indicador?

Em julho de 2022, um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos coordenado por Rosário Mauritti, do ISCTE, analisou esta questão. Intitulado Territórios de Bem-Estar: Assimetrias nos municípios portugueses, o estudo identificou em que medida o conceito de bem-estar é influenciado pelas diferenças territoriais de Portugal continental.

A partir de características como densidade, estrutura de distribuição das idades das populações, perfil educativo, socioprofissional e de rendimentos de trabalho categorizou os municípios em cinco grupos: territórios industriais em transição; territórios intermédios; territórios urbanos em rede; territórios inovadores; e territórios de baixa densidade. Aspetos como o equilíbrio entre trabalho e a família, a saúde, habitação, participação cívica, educação, cultura, sociedade digital, segurança, trabalho digno e qualidade ambiental, foram considerados para poder medir a perceção de bem-estar.

A principal conclusão é que o conceito não significa o mesmo para todos, mas o território onde se vive influencia a perceção. Se, na vertente laboral e económica Lisboa, Porto, Coimbra, Alcochete, Oeiras e Cascais – classificados como territórios inovadores – são os mais bem cotados, também são aqueles onde há maior desigualdade social e onde é mais difícil conciliar o trabalho com a vida familiar.

Já nos territórios de baixa densidade, onde se englobam quase 40 % dos municípios portugueses, o equilíbrio entre o trabalho e a família está mais bem pontuado, pondo-se «acima da mediana nacional dos municípios». Também na habitação a cotação é melhor – por ser mais acessível e menos sobrelotada –, o que já não acontece na vertente da saúde, por exemplo.

Mais tempo para ter tempo

Para Inês Cunha, foi decisivo o equilíbrio entre o trabalho, as relações interpessoais e o contacto com a natureza. Natural de Lisboa, a jovem de 31 anos decidiu mudar-se para uma pequena localidade em Coimbra, para remodelar uma quinta de família e aí fundar um espaço de formação, coaching e agricultura regenerativa. «Comecei a perceber que viver numa cidade já não estava a ser sustentável para mim e acredito que para o planeta também acaba por não ser», diz.

Desde que efetivamente se mudou, no início de 2022 – e após cerca de um ano a refletir sobre o assunto –, diz nunca ter sentido qualquer arrependimento por decidir reabilitar a Quinta da Carvalheira. Antes pelo contrário. Diz ter ganhado o tal bem-estar. «Aqui é possível aprofundar muito mais as relações do que numa cidade em que é tudo muito mais rápido e há muitas mais pessoas, mais movimento», relata. Além da salubridade que diz retirar do contacto com a natureza, afirma que sente haver mais condições para «ir mais a fundo no nosso desenvolvimento pessoal e nas nossas relações com os outros».

«Acaba por ter muitas vantagens. E depois começamos a questionar: porque é que vivemos em cidades? Será que é porque sempre foi assim? Porque os meus pais sempre me disseram que nas cidades é que há boas oportunidades? Se calhar, nas zonas rurais também há boas oportunidades, mas é preciso arriscar, sair da zona de conforto e querer experimentar algo diferente», assegura a jovem.

Inês Cunha mudou-se para criar um projeto de raiz, em nome próprio. Já Andreia Proença pôde mudar de vida graças ao trabalho remoto. A viver no Porto há oito anos, regressou às raízes, na aldeia de Videmonte, Guarda, durante o confinamento, achando que seria algo temporário. «Não foram duas semanas, foram meses», relata.
«Houve uma certa altura, quando tudo começou a voltar ao normal, que eu percebi que gostava muito do estilo de vida que tinha lá, da parte económica, da poupança.» Por isso, resolveu ficar. A empresa onde trabalha, a plataforma online de venda de moda de luxo, Farfetch, continuou a permitir o trabalho à distância após o confinamento, o que facilitou a decisão.

«começamos a questionar: porque é que vivemos em cidades? Será que é porque sempre foi assim? Porque os meus pais sempre me disseram que nas cidades é que há boas oportunidades? Se calhar, nas zonas rurais também há boas oportunidades, mas é preciso arriscar, sair da zona de conforto e querer experimentar algo diferente»

Inês Cunha

 

«Nós não precisamos de estar em Lisboa ou no Porto, ou seja onde for, para conseguirmos aproveitar tudo o que a cidade tem para nos dar. Vivemos num país pequeno em que facilmente conseguimos lá chegar»

Carlota Marques

Uma das coisas que Andreia Proença diz ter sido mais surpreendente é a conclusão de que a opção de mudar não significa, necessariamente, abdicar do que se tem nas grandes cidades. «Eu, quando mudei, tinha também um preconceito – que acho que muita gente tem – sobre o que é viver no Interior. Mas era ponto assente que, ao ir viver para lá, eu não podia renunciar nem abdicar da minha vida cultural.» E a verdade é que não teve de o fazer. Manteve-se atenta à programação local e diz que essa componente está hoje «tão ou mais ativa [na sua vida]» do que quando vivia no Porto.

Além disso, sempre que deseja desloca-se até à cidade ou mesmo até ao estrangeiro. «O meu equilíbrio basta-me. A cidade [só é necessária] em alguns momentos», explica.

Esta é uma das principais mensagens que os coletivos de jovens quiseram transmitir: a mudança para o Interior não tem de ser uma escolha dual. «É mesmo importante conseguirmos perceber que Portugal é pequeno», frisa Carlota Marques, para quem a distinção entre Interior e Litoral apenas existe porque há uma distribuição assimétrica da população. «Nós não precisamos de estar em Lisboa ou no Porto, ou seja onde for, para conseguirmos aproveitar tudo o que a cidade tem para nos dar. Vivemos num país pequeno em que facilmente conseguimos lá chegar», explica a presidente da INterioriza-te. «Se estivermos [a viver] no Interior, num local onde há qualidade de vida e conseguimos poupar e gerir melhor o nosso tempo e dinheiro, conseguimos na mesma aproveitar aquilo que as grandes cidades vão ter sempre para oferecer», acrescenta.

As duas faces da moeda

Apesar de tudo, é inegável que as zonas de baixa densidade populacional têm ainda lacunas que é necessário colmatar para potenciar o desenvolvimento.

Uma das últimas tentativas que foram feitas a nível nacional, para estimular a mobilidade através do teletrabalho, foi a criação de uma rede de espaços de coworking no Interior. O anúncio da medida foi feito pelo Governo, em julho de 2021, e a promessa era, numa primeira fase, serem criados espaços nas regiões do Norte, Centro, Alentejo e Algarve, num total de 57 municípios. Uma notícia do ECO, publicada a 18 de novembro de 2022, já dava conta da existência desta valência em 89 municípios – 21 na região norte, 35 na região centro, 19 no Alentejo e 14 no Algarve, de acordo com dados do Ministério da Coesão Territorial. Em conclusão, estavam ainda os espaços de coworking dos concelhos de Penamacor, Idanha-a-Nova, Coruche, Elvas, Serpa, «entre outros».

«O que atrai uma pessoa para um espaço de coliving ou de coworking não é o espaço em si, é o que acontece lá», diz, criticamente, João Almeida, que alerta que os novos espaços, por si só, não irão ser motivo de atração de pessoas.

«A grande dificuldade nestes espaços é conseguirem, mais uma vez, dinâmica para que tenham pessoas regularmente», diz o fundador da Rural Move. «Tem de haver alguma coisa de vantajoso e, normalmente, essa coisa é a existência de uma comunidade, ou seja, a existência de outras pessoas, a existência de eventos engraçados, esse tipo de coisas». Por esta razão, lamenta que «dezenas» de espaços de coworking acabem por estar vazios.

«Se não houver alguma iniciativa, não se introduz mudança, mas, para mim, a diferença estará na capacidade de integrar medidas e de dar uma resposta concertada àquilo que são as necessidades em termos de vida quotidiana»

Cristina Sousa Gomes

O investigador Alcides Monteiro, que reside na Covilhã, afirma que estes locais destinados a trabalho remoto ajudam: «Não tenho a menor dúvida sobre essa matéria, mas terão de ter articulação com outros recursos e outras possibilidades», assegura. Neste sentido, refere os problemas ao nível da educação, transportes, saúde e «outras necessidades que as pessoas e as famílias têm e que nem sempre estão integralmente garantidas», e que constituem um entrave à dinamização do território. «Isto implica, de facto, um trabalho mais articulado e mais continuado», diz o docente da Universidade da Beira Interior.

Também Cristina Sousa Gomes, demógrafa da Universidade de Aveiro, duvida da eficácia da medida de forma isolada. «Se não houver alguma iniciativa, não se introduz mudança, mas, para mim, a diferença estará na capacidade de integrar medidas e de dar uma resposta concertada àquilo que são as necessidades em termos de vida quotidiana», diz.

Para a investigadora, que trabalha temáticas relacionadas com o despovoamento rural, não basta «criar um só fator ou mecanismo», mas antes é necessário conjugar vários aspetos para gerar atratividade. «As coisas só vão funcionar se forem integradas e tiverem a capacidade de responder a diferentes dimensões da vida», como a vertente de trabalho, mas também a da saúde, mobilidade, família, entre outras.

Por todas estas questões, Carlota Marques não se cansa de referir que «há sempre dois lados quando falamos do Interior». «Aqui, estás sempre num círculo vicioso que é: tens de ter o lado público e das entidades empregadoras para criar oportunidades, criar espaços, criar tudo e mais alguma coisa, mas depois tens de ter os jovens que vão dar resposta a esses espaços. Como é que isto se resolve?». Segundo diz, este é o grande desafio da associação que lidera, e a grande questão que continua por resolver.

Esta reportagem fundamental foi publicada na Revista Gerador 40.

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