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Em Portugal, hoje, segundo dados do Eurostat, 47,5 % dos jovens entre os 25–34 anos tem um curso superior, acima da média da União Europeia. Um número que tem vindo a orgulhar e muito o nosso país. Mas… estarão as cidades preparadas para garantir as condições de habitação necessárias à permanência destes estudantes durante o período de aulas?

Nos últimos anos, tem sido cada vez mais difícil – e, portanto, um entrave – para muitos estudantes conseguirem ambientar-se nesses locais novos onde vão iniciar um novo desafio, muito devido ao preço para arrendar casa em Portugal. Com o aumento do número de estudantes, a oferta não tem capacidade para acompanhar este ritmo e o que existe acaba, muitas das vezes, por extravasar as posses que muitos pais têm.

 

Em Trás-os-Montes, especificamente em Vila Real, os estudantes universitários têm duas opções de residência: a de Codessais e a de Além-Rio. A Residência Codessais e Instalações da Sede dos Serviços Sociais (ao abrigo do mesmo edifício) foram inauguradas no dia 10 de dezembro, de 1989.

 

Escondida e rodeada pelo parque Corgo e pela escola secundária Diogo Cão, quem nela não reparasse, diria estar diante de um edifício solitário de vários andares, com feição pouco apelativa, deixado ao acaso de um dia soalheiro.

Codessais, outrora cheia de afluência devido à cantina aberta, agora é somente abrigo para muitos estudantes. Em anónimo e em entrevista, a revolta pela permanência do fecho de uma das cantinas mais frequentadas vem de alguém que está atento às condições dos alunos. «A cantina fechou com todas as valências de higiene, segurança, equipamento, qualidade e bem-estar. Tinha tudo! Foi uma das piores decisões alguma vez tomadas. Uma desgraça! Tinha condições de higiene e de preparação de carne, de peixe e ainda de legumes, tudo por divisões. Continha arcas frigoríficas em condições, para além do espaçamento e da organização.»

 

Para a pessoa entrevistada, a cantina estar fechada dá um prejuízo sobretudo para os alunos, ainda para mais quando as divisões estão desocupadas, ao abandono, com os objetos lá dentro. «Se um aluno que viva deste lado da cidade, do lado de cá do Corgo, ou esteja na residência, quiser fazer uma refeição, tem de, pelo menos, fazer 2 km para comer. Só tem duas opções, atualmente: comer na cantina da UTAD e em Além Rio.» Com uma expressão pouco satisfeita, acrescenta: «Antes, quando a de Codessais estava aberta à noite, todas as outras fechavam, porque em termos de condições e acessibilidade, a de Codessais era a melhor, por ser um lugar estratégico. Hoje, um aluno terá de ir à outra cantina, que nem cantina é. Se estiver muita gente, no inverno, ficas na rua, à espera. Em termos de condições, é evidente que a de Codessais as superava em tudo.»

A cantina encerrou em 2019. Para acalmar os ânimos, houve um acordo entre a administradora Elsa Justino e a Comissão de Residentes. Este acordo foi destinado apenas aos residentes de Codessais, tendo em conta que a cantina apenas ficou aberta na hora do almoço. Os alunos que queriam ter jantar, pagavam às cozinheiras para estas prepararem refeições em taparueres, deixando-os no frigorífico e os guardas-noturnos entregavam essa comida aos estudantes durante a noite.

Esse acordo ficou para a posteridade num despacho que, ainda hoje, é visível na porta de entrada da cantina de Codessais. Podemos ver que foi prometido aos alunos a criação de uma cafetaria no CIFOP, ao lado da residência de Codessais, destinada a todos os estudantes. A cafetaria existiu e foi devidamente equipada, porém nunca foi aberta. Atualmente, algum material ainda se encontra na sala vazia.

O edifício do CIFOP, onde a dita cafetaria se encontra, ao lado da residência, foi outrora um ponto crucial na convivência e no dinamismo para os residentes, já que estava subdividido em duas categorias: a cultura e o desporto. Na parte da cultura, havia um anfiteatro, que acabou por ser vandalizado e que agora se encontra abandonado. Era usado para fazer conferências, aulas e as RGA (reuniões gerais de alunos), servia de sala de ensaios das tunas e também continha salas de estudo. Na parte do desporto, o ginásio, Active Gim, que acabou por ser encerrado em março de 2020, com a pandemia.

Todo este núcleo está destinado aos estudantes da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro – uma das muitas universidades do país que tem vindo a albergar cada vez mais estudantes. A procura é cada vez maior, mas será a oferta capaz de corresponder às necessidades?

António Amaral, de 53 anos, vive em Vila Real e é assistente operacional como guarda-noturno, há 22 anos, em Codessais. Adorado pelos alunos, sempre disposto a ajudar, prontifica-se para os animar, presta-se com um sorriso acolhedor, sobretudo quando lhe dão atenção para uma conversa sempre imprevisível (já que tanto pode durar dez minutos, como uma ou duas horas). Quanto aos hábitos que a rotina agora obriga, numa parte do dia em que muitos estão a dormir e Amaral está acordado, este último vê essas horas como alguém que apenas lida com “a parte funcional de cada guarda-noturno”, além de que “o hábito e ter andado na tropa” o ajudaram. Existe uma escala noturna que vai da meia-noite às nove da manhã, partilhando-a com mais outros colaboradores, incluindo estudantes que se candidatam e veem nesse trabalho uma ajuda para pagar os estudos.

Amaral vê a sua relação com os alunos, apesar de muito unida, diferente da de há mais de dez anos, e isto muito em boa conta pela diferença dos tempos. Há dez anos, “os alunos passavam mais tempo nas residências, até porque os cursos tinham uma longa duração, e isso criava uma certa harmonia no ambiente, se bem que havia residentes muito complicados”. Por se fixarem mais anos na residência do que atualmente, Amaral via os jovens “mais revolucionários, muito ativos quanto aos serviços de alojamento e em relação às bolsas, mas também no apoio ao aluno”.

 

Pelo facto de as condições também não serem as mesmas das dos dias de hoje, os alunos eram “mais reivindicativos”. Como nos diz o guarda-noturno, “havia mais pressão, e eles estando agora menos tempo por cá, devido ao Tratado de Bolonha, acabam por não ter essa mesma atitude. Já têm, de alguma forma, o que foi conquistado noutros tempos.”

O que é facto é que, hoje, os alunos notam e apontam as falhas ao que ainda falta colmatar. Desde a manutenção, como os próprios espaços específicos para os alunos, como a cozinha e até a cantina que fechou, o funcionário admite que, reduzirem os funcionários e não colocarem pessoas especializadas nas áreas, torna algumas dificuldades visíveis na gestão de uma residência. E os tempos mudam, é certo. Ainda assim, Amaral recebe visitas de ex-alunos e confessa que o ambiente é de “família”. E acrescenta, com um sorriso que lhe é caraterístico, demonstrando, assim, o seu orgulho pelo local onde trabalha e as pessoas que tanto estima: “É a melhor residência do país. Tem tudo de bom, desde estar no centro da cidade, mas também por causa dos quartos serem grandes. É a residência mais carinhosa do país e o mesmo é dito por ex-alunos residentes.”

Que ao funcionário António Amaral não escapam elogios, já nos apercebemos; mas a crítica, essa, cabe a quem vive dentro de Codessais e a quem lidera e faz parte da Comissão de Residentes. Mas, afinal, para que serve uma Comissão de Residentes?

A Comissão de Residentes de Codessais existe pela mão de Daniela Mestre, atual presidente. Algarvia de gema, viu a sua única oportunidade de alojamento na residência e, à falta de mais opções, acabou por ficar em Codessais. Entrando na segunda fase, sem casas disponíveis na cidade de Vila Real, alugar o quarto na residência acabou por ser a “solução mais rápida e direta que havia; além disso, tinha apenas três dias para arranjar casa.”

Foi, sobretudo, com a avaria de há mais de um ano dos elevadores que os residentes que quisessem vir morar para Codessais teriam de enfrentar o dilema de ficar, mas com a condição de que teriam de carregar a sua mala de viagem até ao piso que lhes estava destinado. A atual presidente da Comissão de Residentes de Codessais logo reparou nas falhas que a Residência tinha. “Falta de fogão, falta de maneiras de cozinhar, de elevadores…”. Ainda assim, não viu outra opção senão ficar.

A Lista para a Comissão de Residentes surgiu do agrupamento de pessoas que estavam interessadas em fazer mudanças, em prol dos alunos residentes. A presidente Daniela frisa que a Comissão trabalha em conjunto, sendo que todas as ideias são debatidas e decididas em unanimidade, em reuniões gerais. Mas o que faz, afinal, uma Comissão de Residentes? Para fazer cumprir a sua missão, Daniela vê a Comissão como “um meio de comunicação entre os residentes, a direção e os administradores”. E reforça. “Somos nós que falamos por eles, que pegamos nas condições miseráveis que temos e tentamos tornar a residência um bocadinho melhor. E somos nós que transpomos para os superiores tudo o que se está a passar de mal e onde é que eles têm de mudar.”

Esse levantamento de problemas é feito para além das reuniões feitas pela Comissão. Em reuniões gerais, e sempre em conversação com os residentes num chat, estes fazem as suas queixas e todas elas são levadas à grande sala das decisões. Já há material que foi requisitado e que, apesar de imprevisível quanto à sua chegada, estará para breve. “As placas, com exaustor, o fogão e o forno são alguns exemplos que requisitámos.”

Quanto à comunicação que têm enquanto Comissão em relação à administração não há dúvidas de que é acessível. “Até agora, tudo o que nós pedimos [Comissão de Residentes] tem vindo a ser feito. Demorou algum tempo. Não há nada que eu tenha pedido que ele [doutor Daniel] não tenha feito. Nada. Até a parte do fogão, ele está a tratar disso. E dos elevadores. As fichas também foram entregues.”

Numa altura em que a pandemia estava em vigor, a falta de comunicação entre os residentes dificultou a convivência. Diana Oliveira, 19 anos, vice-presidente da Assembleia da Comissão de Residentes de Codessais, explica: “Nós encontrávamo-nos apenas na cozinha, só dizíamos bom dia, boa tarde e boa noite. Apenas isso. Acho que o maior desafio foi esta dinâmica, porque nós não tínhamos fogão, tínhamos de trazer a comida de casa, se não a tivéssemos claro que teríamos de a ir comprar.” Apesar disso, Diana considera que o facto de não haver esse material necessário na cozinha acabou por ser benéfico, porque desta forma não teve de desperdiçar tempo a confecionar comida, restando para, por exemplo, estudar.

Para além dos preços ser um dos motivos atrativos para quem vem morar para uma residência como a de Codessais, Diana também nos faz referência à convivência que existe entre os residentes, sendo esse um ponto-chave para quem vive numa residência. “Conheces pessoas de regiões diferentes, partilhas experiências, conceitos e tradições, simples palavras.” Este é o segundo ano da vice-presidente, mas recorda-nos de que, assim que chegou, encontrou algumas falhas na receção aos alunos. “No ano passado, quando aqui cheguei, foi assim um bocado chocante, porque estava tudo sujo. O que nos dizem é que eles [funcionárias da limpeza] limpam durante as férias. E até que são capazes de limpar, mas o que acontece é: pelas portas passa um bocado de ar e, então, acaba por ganhar pó; apesar de tudo, ganha pó. Nós [alunos] tivemos de limpar tudo.”

A residência de Codessais pode ser apontada como a melhor para Amaral, pode até ser alvo de crítica pelos membros principais de quem vive e faz parte da Comissão de Residentes. O que é certo é que esta é o lar de muitos estudantes que procuram os preços que as casas para arrendar não oferecem, muitas das vezes. O Governo, consciente da realidade que cada vez mais assola o número de estudantes que aumenta a cada ano, já disse que vai investir cerca de 375 milhões de euros até junho de 2026. É através do Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior que o Governo pretende aumentar em 15 000 o número de camas disponíveis, estando previsto o apoio para a construção, reabilitação e renovação das residências.

Resta aguardar e perceber que mudanças serão feitas na residência Codessais, em Vila Real.

Podes ficar a conhecer melhor a artista por trás desta obra fotográfica aqui.

Esta obra foi publicada na Revista Gerador 39, que podes comprar aqui.

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