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Perfil de Maria Lamas

Uma mulher de ação movida pelo amor à humanidade

Fotografia da cortesia de Alice Vieira

 

PERFIL
Onde partilhamos um olhar sobre uma pessoa que admiramos.

Texto de Andreia Monteiro
Digital de Carolina Costa e Mafalda Cintra
Ilustração de Priscilla Ballarin

Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas. Uma mulher que não é reduzível a uma definição única. Ativista pelos direitos das mulheres, jornalista, escritora, por vezes fotógrafa, tradutora, antifascista e democrata. Amiga dos seus amigos, um coração aberto a todas as pessoas.
«O Amor exprime para mim a vida, explica a minha existência assim como define a minha personalidade», escreve a própria, em outubro de 1984, para publicação através de Helena Neves (Biblioteca Nacional de Portugal, Espólio E-28, caixa 53).

Minha querida amiga:

Espero que não veja como abuso este meu tratamento terno e próximo, mas sinto-nos, de facto, amigas. Uma amizade que se estreitou nos últimos meses ao acolher o desafio de redigir este perfil, que me levou longas horas passadas na companhia dos seus escritos e de mulheres que tenham privado consigo ou que estudam a sua vida e obra.

Sei que a carta era o formato de comunicação que utilizava. Agora, temos telemóveis e Internet, mas usarei a correspondência. Quero falar-lhe de mulher para mulher, de jornalista para jornalista. É com essa vontade que irei grafar as páginas deste perfil, que serão sempre insuficientes para abarcar a completude da sua obra e a marca que imprimiu em quem consigo se cruzou.

Disseram-me que encontramos tudo o que somos na nossa criança, mesmo que, por venturas e desventuras, nos esqueçamos de quem fomos na origem. Por isso, fui procurar a sua infância.

Numa entrevista que concedeu a Rose Nery Nobre de Melo, em 1975, presente no livro Mulheres Portuguesas na Resistência, conta-nos que veio de um meio burguês. Natural de S. Pedro, em Torres Novas, e nascida em 1893, tinha «uma mãe muito convencional, pouco instruída, rodeada de criados e muito preocupada com a missa». Já o seu pai, era de Mação e «filho de pequenos agricultores». «Foi guarda-livros, comerciante, industrial, provedor da Misericórdia, etc.» Relata que a sua mãe «tinha muita pena» que «não corresse e risse com as outras crianças da casa», pois preferia «ficar quieta a pensar», afinal desde pequena que se via preocupada com «certos problemas.» «Vivia fora da realidade que me rodeava, à procura de qualquer coisa», explica.

Na sua casa, havia apenas um rapaz, cuja educação ficou a cargo do seu pai e, a sua, da mãe. Alice Vieira, jornalista e escritora de quem era prima, contou-me que eram quatro irmãos, muito diferentes entre si, mas todos muito amigos. Já pequenina, mostrava-se como uma «apaixonada dos revolucionários franceses». «Ainda muito miúda li Victor Hugo, Zola, Robespierre», livros que provocavam em si uma «enorme vibração». Esses gostos causavam preocupações à sua mãe, sendo mandada, aos nove anos, para um colégio de freiras dirigido pelas Tercianas. Aí, apaixonou-se pela figura de Cristo, chegando a desejar ser freira, ideia que o seu pai contestou intransigentemente. «No futuro, vários acontecimentos arredariam para bem longe esse perigo da minha vida.» Em 1910, a sua fé sofreu um grande abalo quando se preparava para as férias de verão – identificou a incoerência no discurso da diretora do colégio, entre as conversas que tinham em privado e em frente aos seus pais. Pelo seu rosto escorreram lágrimas «de profunda deceção». No mesmo ano, esqueceu o colégio e viveu a Revolução de Outubro, com a proclamação da República. «Passei a estar interessada em igualdade, liberdade e fraternidade da Revolução.» De facto, consigo ver na sua infância muito da mulher em que se tornou.

Sei que me escreverá por linhas celestes. Guardo-lhe um abraço em que zelo por toda a amizade, estima e gratidão que lhe tenho por me ter permitido ser Mulher com outras liberdades.

Andreia Monteiro, agosto de 2021

«Os meus temas favoritos para as crianças, tudo quanto pode revelar-lhes beleza e fazê-las confiantes, otimistas e conscientemente boas. Para os meus romances, os assuntos surgem-me da própria vida, do drama humano insolúvel e eterno. Interessa-me principalmente o enigma de cada alma, o mundo que existe em cada um de nós! Assim como me interessam, também, os temas sociais.»,

Maria Lamas em entrevista a Guedes de Amorim após a edição do romance Para Além do Amor.

Maria Lamas © Cortesia de Alice Vieira

Maria Lamas, a escritora

Começou a escrever desde cedo, ainda no colégio de freiras em Torres Vedras – «era eu quem fazia poemas e quem escrevia peças de teatro para serem ditas e representadas nas nossas festas». «Mais conhecida por ser escritora», como nos descreve Regina Marques, membro da direção nacional do MDM (Movimento Democrático de Mulheres) – do qual Maria foi uma das fundadoras –, começa por escrever em publicações locais, sobre questões relacionadas com a guerra, por volta de 1913, sob os pseudónimos Maria Fonseca ou Serrana d’Ayre. Em 1923, com o pseudónimo de Rosa Silvestre, publica o seu primeiro livro de poesia, Humildes, seguindo-se o romance Diferença de Raças. Em 1925, começa a colaborar com publicações infantis escrevendo vários contos como Maria Cotovia (1925) ou A Montanha Maravilhosa, e novelas como Estrela do Norte (1934). Na revista infantil A Joaninha, publica, em folhetim, o romance O Relicário Perdido (1936). Em 1942, dedica O Vale dos Encantos à sua neta Maria Leonor. 

O primeiro romance que assinou com o nome de Maria Lamas foi Para Além do Amor (1935), em que reflete sobre o direito da mulher em ser ela própria e seguir o seu caminho, sem ser secundarizada no papel de esposa-mãe, e fazendo prevalecer o amor maternal. Em 1938, escreve o romance A Ilha Verde, que decorre na ilha de S. Miguel. A par da escrita autoral, fez traduções de grandes autores como Victor Hugo (em alguns fascículos de Os Miseráveis) ou Marguerite Yourcenar (em A Vida Apaixonante de Adriano).

Maria Lamas e a incursão pelo jornalismo

Os primórdios da sua atividade jornalística datam de 1914, no jornal O Foco, jornal regional de Torres Vedras, com o pseudónimo Madressilva. Em 1920, vai trabalhar para a Agência Americana de Notícias. Em 1925, estreia-se no jornalismo infantil com a fundação da revista infantil quinzenal O Pintainho, onde usa o pseudónimo de Rosa Silvestre. No entanto, é em 1929 que dá os primeiros passos como jornalista, em nome próprio, ao ingressar na redação d’O Século, passando, pouco tempo depois, a dirigir o suplemento feminino Modas & Bordados, até 1947. Colaborou com a revista Os Nossos Filhos, assim como outras publicações nacionais e internacionais. Destaca-se ainda o seu papel como diretora da revista Mulheres, cargo que ocupou até ao seu falecimento.

Decorrente da sua atividade jornalística, publicou ainda três grandes obras: a grande reportagem As Mulheres do Meu País, publicada em fascículos de 1948 a 1950; A Mulher no Mundo, editada em 1952 com dois volumes; e O Mundo dos Deuses e dos Heróis, Mitologia Geral, publicada, em 1960, em fascículos.

Alice revela: «foi através dela que me fiz jornalista». «[As Mulheres do Meu País] é um grande trabalho de jornalista e acho que isso também contribuiu para o ser.» Sobre este ofício, Maria ensinou-lhe que «tocamos muito mais as pessoas com um ponto final do que com muitas reticências», alertando «que não é preciso escrever muito para se fazer uma grande notícia». Aprendeu ainda que «os adjetivos só se devem utilizar quando for mesmo para aquilo» e que «quando estamos a escrever uma notícia, não abdicamos do que pensamos, sabemos, não somos neutros, mas temos de ser objetivos».

«A minha vida como antifascista foi
muito dura, mas, se tivesse de voltar
atrás, faria o mesmo»

Maria Lamas no livro Mulheres Portuguesas na Resistência

Maria Lamas na labuta contra o fascismo e censura

Tendo sido mãe muito nova, encarou a maternidade com elevada responsabilidade pelas suas filhas, o grande amor da sua vida, subordinando a mesma à sua educação e cuidado. «A partir do momento em que casaram, entreguei a minha vida à política», conta. Maria indica que o seu primeiro ato político foi «assinar as listas para a fundação do MUD Juvenil, em 1945.» «A partir daí, comecei a ter mais contactos com os políticos e entrei na luta clandestina contra o fascismo. Assinava papéis de carácter político e participava em várias reuniões», recorda na entrevista a Rose.
Quando o MUD se extinguiu, juntou-se ao Movimento Nacional Democrático (MND), o que conduziu à sua primeira prisão, «pois a PIDE atribuía ao movimento relações com os comunistas». Relata que foi presa em casa, cedo. «Sem me darem qualquer justificação, os pides levaram-me para a António Maria Cardoso. […] Essa cela era do mais miserável que imaginar se possa: dois catres, uma caixa de madeira, um lavatório, um balde e um jarro, mais nada. […] Fomos muito maltratadas nessa noite.»
A partir de 1946, começou a frequentar vários congressos internacionais. Na Bélgica, esteve «em contacto com dezenas de mulheres que tinham vivido a guerra, que tinham sofrido torturas e vexames de toda a ordem». Voltou a Portugal disposta a dedicar a sua vida à luta antifascista e às questões da paz. Em 1945, a par do trabalho n’O Século, passou a trabalhar no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, que tinha a «preocupação de defender as mulheres e as crianças e de acabar com a prostituição», tendo sido eleita presidente, do mesmo, em 1946. Pressionado por Salazar, o diretor do jornal, Pereira da Rosa, impôs que Maria escolhesse entre trabalhar para O Século ou no Conselho. Optou pelo segundo. Seguiu-se a organização, em 1947, de uma enorme exposição com livros escritos por mulheres de todo o mundo, que decorreu na Sociedade Nacional de Belas Artes, incluindo ainda retratos dessas mulheres feitos pelos alunos. Tendo a exposição um enorme eco, inclusive pela atenção que recebeu dos jornais, como nos conta Regina, a polícia judiciária fechou o Conselho, ação que mais tarde foi considerada ilegal.
Perante este cenário, e assumindo que seria sempre a presidente do Conselho, compromete-se em mostrar «como as mulheres portuguesas continuam a precisar duma organização que as defenda», partilha Regina. Assim, parte em viagem, assistindo-se à génese de As Mulheres do Meu País: «Durante dois anos viajei de burro, de jeep, a pé. Vi e fotografei. Leia-se o livro, e conclua-se de que modo é que o Estado protegia as mulheres», acerva Maria na entrevista a Rose. Tendo a reportagem sido escrita em fascículos, não pôde ser proibida. No entanto, quando foi publicada em livro, «a censura não gostou muito», relembra Alice. «Ainda tentou retirá-lo do mercado, mas houve muitas pressões e voltou à venda.» A partir daí, Maria viu-se proibida de publicar alguma coisa sem que passasse pela censura. Foi o que aconteceu com As Mulheres no Mundo, o que a fez concluir que toda a sua «obra literária foi muito prejudicada». «Dados os condicionalismos a que a censura me obrigava, abandonei um pouco a literatura e preferi atuar», declara Maria na entrevista.
Ainda durante a escrita de As Mulheres do Meu País, foi, novamente, presa. Na entrevista que concede a Rose, relembra essa prisão como uma das mais duras. «Dessa vez puseram-me sozinha, durante três meses. Eu não suporto a solidão. Preciso de comunicar. De modo que, em breve, estava com alucinações.» Atingindo um «estado de depressão muito grande», o seu advogado conseguiu que fosse hospitalizada. O hospital tornou-se numa das suas piores recordações: «Recordo aquele tratamento desumano, o desinteresse… Um horror!» Depois, voltou para a prisão de Caxias, sendo novamente isolada. Descreve como comunicava com outras presas através do autoclismo, os dias e noites que ocupava a escrever e a passear ao longo de «dezassete passos e meio de comprido, quartoze de lado», ou a escrever cartas de amor por uma rapariga analfabeta que a ela se juntou na cela.
Uma das primeiras memórias que Alice tem da prima, «ainda muito miúda», é tê-la ido buscar, com os seus tios, à prisão de Caxias. Lembra-se de ficar espantada ao ler a sua expressão. «Como é que ela, depois de presa, veio com um sorriso?» Anos mais tarde, na entrevista a Rose, deu uma resposta para esta interrogação: «Sofria muito, é certo, mas, quando voltava para a vida, vinha mais disposta ainda a continuar a lutar.»
Uma vez em liberdade, partiu em viagem para assistir a Congressos da Paz em países como o Japão, China, Ceilão, Repúblicas Soviéticas, Indochina ou Singapura. Depois de três meses de viagem, ao regressar de avião, apareceu um pide com uma nova ordem de prisão.

 

Revista Modas & Bordados © Cortesia do MDM

Ficha da PIDE de Maria Lamas © Cortesia do MDM

«No exílio, a vida foi dura. […] Tinha muitas dificuldades. […] Tinha muitos contactos com imigrantes portugueses que, muitas vezes, recorriam a mim para os ajudar»

Maria Lamas no livro Mulheres Portuguesas na Resistência.

Histórias do exílio em Paris (1961–1969)

Ouve-se o bater de uma mão sobre a porta. Do outro lado, aparece, «com um ar espantadíssimo», Maria Lamas. Sem fazer perguntas, deixa Alice Vieira entrar. «Disse-me logo que tinha ali lugar», recorda Alice. Durante dois anos, Alice viveu com Maria no Grand Hotel Saint Michel, no número 19 da rua Cujas. 

No mesmo hotel vivia Palmira, uma senhora que ajudava Maria, dada a sua idade avançada. «Normalmente, de manhã, a Palmira tratava dela, dava-lhe o pequeno-almoço, e estava mais calma – a trabalhar, a escrever. Mas, depois, vinha logo para a rua, ou tinha um encontro, ou uma conferência», descreve Alice. Nos quartos minúsculos, onde praticamente cabia apenas uma cama, e com paredes a precisarem de tinta, havia um ritual pré-acordado: «Quando ela não se importava que as pessoas lhe batessem à porta e entrassem, deixava a chave do quarto de fora. Quando não queria que a incomodassem, a chave estava dentro. Eu fazia exatamente o mesmo», explica Alice. 

«Se, durante a tarde, ela tinha estado com alguém importante, ao jantar, contava tudo – onde tinha estado, se tinha sido bom, o que tinham falado», continua. O jantar, tipicamente, era na Source, que se dizia pertencer a Françoise Sagan, com António José Saraiva, Teresa Rita Lopes, Maria Lamas e Alice Vieira. «Conversávamos sobre o que tinha acontecido noutros países, tudo. Era mais um momento de aprendizagem.»

Alice não hesita em dizer que aquela foi a sua grande universidade, por «todas as pessoas que lá iam, com quem ela se dava e com quem, depois, também me dei e conversei.» Foi-se cruzando com nomes como Pablo Neruda, Manuel Alegre, Jorge Amado, Zelia Gattai, Jorge Semprún ou Nicolas Guillém. A par disso, Maria «sabia imenso, porque andava pelo mundo. Não só conhecia a nossa cultura, como conhecia o mundo todo. Tinha [muita] abertura de espírito».

O exílio em Paris ficou também marcado pelo apoio que Maria deu aos refugiados políticos. «Todos os que saíam de Portugal iam lá e ela tentava orientá-los, dirigi-los para os melhores sítios. Não havia ninguém que saísse de cá, por essas razões [políticas], que não fosse logo ter com ela», nota Alice. A jornalista memora ainda a dona do hotel, Madame Savage, como uma «mulher extraordinária». Por existirem, nesse hotel, muitos refugiados, quando chegava alguém, «ela nunca mandava a pessoa subir sem primeiro telefonar para o nosso quarto a dizer que estava ali uma pessoa e a perguntar se podia subir.» A sua experiência com refugiados políticos não era algo novo. Aquando da revolução de Cuba, ajudou muitos refugiados, chegando Fidel Castro a recebê-la em Cuba «quase com honras de chefe de Estado». «Ela estava sempre a falar disso e a mostrar as fotografias», recorda. 

Em França, viveram também a Revolução de Maio de 68. Maria tinha 74 anos. A cidade ardia e as ruas cheiravam a gás lacrimogéneo. Alice e Maria foram para a rua, cada uma para seu lado, atirar pedras à polícia. «Houve um dia, em que senti uma mão puxar-me para dentro dum café, e era ela. Dizia – “espera, a polícia está a passar ali e é mau”. Esperámos que a polícia passasse e continuámos a atirar pedras», revive Alice. 

Há uns anos, voltou ao hotel. «Agora, é um hotel de charme, imagina. Que horror!», observa à gargalhada. 

 

Maria Lamas © Cortesia de Alice Vieira

«As mulheres que labutam de sol a sol na terra portuguesa costumam definir o seu destino com esta frase concisa e trágica: “A nossa vida é muito escrava”»,

Maria Lamas em As Mulheres do Meu País.

 

Maria Lamas, defensora dos direitos das mulheres de premonição feminista

Já enquanto diretora da Modas & Bordados, Maria fazia notar alguma predileção «pelas questões das mulheres» de uma forma que não coadunava com a filosofia do salazarismo, mas sim apresentando uma «grande solidariedade com as mulheres que têm filhos», as «questões de saúde da mulher» e a «valorização da mulher», expõe Regina. A título ilustrativo, a 3 de março de 1943, sai um artigo de Maria, na Revista Modas & Bordados N.º 1621, que se intitula «A atividade intelectual ou artística feminina prejudica a vida doméstica?». Nele, reflete sobre a discussão acerca das «desvantagens do labor extra-doméstico» e entrevista a artista e «mulher de lar» Nita Lupi, que dá valiosos contributos em relação à sua experiência. Nesse ofício, impulsionava mulheres, não só através das narrativas que publicava, como também ao dar oportunidades para que outras escrevessem, como aconteceu com Bernardete Simões, que viu a sua novela, Paulina, publicada na revista por ela dirigida. 

Em As Mulheres do Meu País, concretizou o «desejo de conhecer, em todos os seus aspetos, a vida da mulher portuguesa», como escreve a própria no prefácio do livro. «Olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras mulheres: umas resignadas e heroicas na sua coragem silenciosa; outras indiferentes, entorpecidas; e ainda aquelas que fazem do seu luxo a exibição de um privilégio. […] Basta contar como elas vivem e sonham e lutam e sofrem, para que o grande problema se revele no seu profundo e dramático sentido humano.» Nesta reportagem, não esquece a questão da interseccionalidade. «O contexto histórico, classe, cultura, características familiares, tudo isso influencia a noção de género», explica Regina. Enquanto folheia a 1.ª edição do livro, na sede do MDM, dá exemplos desta diversidade interseccional: vemos, por exemplo, as mulheres ligadas ao mar, à agricultura, algumas enfermeiras, lavadeiras, operárias de fábricas, costureiras, puericultoras, anotadoras de cinema, mulheres da cidade ou uma chauffeur de táxi. Mostra mulheres na praia, a andar de bicicleta, ou em festas. E fá-lo percorrendo todo o país. Para além das histórias destas mulheres por escrito, ilustra-as com fotografias e com pinturas de artistas seus contemporâneos.

Alice vê na obra um marco importante para o seu crescimento. «Quando era muito pequenina, pensava que só havia Lisboa. E lembro-me [de olhar para as fotografias dos fascículos] e de ver que aquelas pessoas não tinham nada que ver connosco ou com as pessoas que conheço. Então, o facto de as ver e saber que era no meu país, naquela altura, abriu-me os olhos», conta. Embora reconheça que hoje «os tempos são outros», defende que «a luta pelas mulheres ainda faz muito sentido», sendo útil a reedição deste livro. Como exemplo, relembra o estigma que existia em relação ao divórcio, do qual a prima foi vítima, e afirma que, ainda hoje, nota que «é melhor aturarmo-nos, divórcios nunca». Maria casou-se aos 17 anos com Ribeiro da Fonseca, indo viver para Angola com o marido. Aos 18, teve a primeira filha, aos 19, a segunda. Teve ainda uma terceira que morreu. «Mas aquilo não resultou. Ela nunca se queixou, mas o marido agarrava-a pelos cabelos e trazia-a pelo chão», relata. Voltou para Portugal com as filhas em 1913, mas apenas em 1919 conseguiu o divórcio. Em 1921, volta a casar. Com o jornalista monárquico Alfredo da Cunha Lamas, teve mais uma filha, acabando por se separar algum tempo depois. «Nem queira saber o que diziam dela. As pessoas chamavam-lhe nomes quando ela saía à rua.» Porém, recorda que Maria lidava bem com a situação – «entrava-lhe por um ouvido e saía pelo outro. Sempre foi assim: era a vida dela e ela fazia a vida que queria». 

Primeiras edições dos livros As Mulheres do Meu País e A Mulher no Mundo, de Maria Lamas

Já em A Mulher no Mundo, não se limita às questões de Portugal. «O meu intuito foi traçar uma síntese da História Humana em que a mulher apareça no primeiro plano […]. Considerei a mulher a par do homem e com ele partilhando todos os transes da jornada dramática e épica da humanidade; analisei, até onde me foi possível, a sua situação em relação ao trabalho, à família, à vida social e a todos os aspetos do progresso, no decorrer dos séculos e dos ciclos históricos», apresenta no prefácio do volume I. Ao folhear este volume, Regina vai destacando algumas das temáticas abordadas: a Vénus de Willendorf, as mulheres da pré-história, o Egito, as montanhas hindus. «Fala da questão do casamento, dos costumes, o suicídio das viúvas, as castas.» Interrompe a enumeração e deixa o dedo seguir uma linha escrita por Maria, que lê em voz alta: «Não se trata de recapitular simplesmente o que ficou exposto, mas de tirar algumas conclusões dos factos, procurando, ao mesmo tempo, as razões pelas quais a vida da mulher tomou determinados aspetos e não outros mais lógicos e justos. Podemos, porém, partir deste princípio de que a condição da mulher está de tal forma ligada aos problemas fundamentais da humanidade que não será possível separá-los.» No volume II, encontramos temas como o cristianismo, a escravatura, os feminismos, a prostituição, o adultério, a comuna de Paris, a Revolução Francesa ou a Segunda Guerra Mundial.

Embora a sua ação fosse claramente feminista, Maria nunca se assumiu como tal. À época, o feminismo era, muitas vezes, equiparado com o querer ter «uma atitude de homem», sendo muito malvisto, inclusive, pelos jornais – explica Regina. No entanto, «ela não queria ser como os homens, queria ser tratada de maneira igual», sem perder, por isso, «a sua ternura, carinho e forma de estar, com alguma diferença dos homens.» Eis uma mulher feminista.

«Não posso viver sem Amigos, sem participar na vida do meu País e na vida do Mundo. Dou tudo a cada Amigo, como se fosse único, e não prejudico nenhum no meu afeto»,

desabafa Maria Lamas, no texto de outubro de 1984 para publicação (Biblioteca Nacional de Portugal, Espólio E-28, caixa 53).

Maria Lamas, uma mãe universal

Maria Lamas era amor e, talvez por isso, tenha sido chamada de mãe por muita gente. «Orlando da Costa dizia-lhe – “amiga te chamamos, mãe te chamaríamos”. Muitos lhe chamavam mãe porque, no fundo, era a ela que chegava toda a gente», recorda Alice. «Era muito cuidadosa com a família e amigos, mas também dizia uma coisa de que nunca me esqueci – “a família é para a gente amar muito, mas de longe”», acrescenta com a melodia do seu riso.

O que mais admirava na prima era o facto de ter «um coração aberto a toda a gente. Fosse a que horas fosse, era uma pessoa que estava sempre disposta a resolver os problemas das outras pessoas. […] Quem fez aquela, esgotou o molde e nunca mais fez uma igual!», conclui com ternura. Dela, o conselho mais valioso que guarda é: «Fazer o que temos de fazer, no lugar em que é preciso.» E mais do que com palavras, ensinou-lho com ações.

A ternura, humildade e gratidão acompanharam-na até ao momento do eterno descanso. Antes de partir, em 1983, Maria escreveu as suas últimas palavras num cartão que deixou à família: «Muito obrigada por tudo o que fizeram por mim.»

Maria Lamas © Cortesia de Alice Vieira

Obrigada por tudo o que fizeste por nós, Maria!

 

 

Este foi o perfil publicado na Revista Gerador 35.
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