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De acordo com dados da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria de 2016, 12% das doenças em todo o mundo são do foro mental, valor que sobe para os 23 % nos países desenvolvidos. As perturbações por depressão são a terceira causa de carga global de doença (primeira nos países desenvolvidos), estando previsto que passem a ser a primeira causa a nível mundial em 2030, com agravamento provável das taxas de suicídio e parasuicídio.

 

Em Portugal, mais de um quinto dos portugueses sofre de uma perturbação psiquiátrica (22,9 %), sendo o segundo país com a mais elevada prevalência de doenças psiquiátricas da Europa. Entre as perturbações psiquiátricas, as perturbações de ansiedade são as que apresentam uma prevalência mais elevada (16,5 %), seguidas pelas perturbações do humor (7,9 %). As perturbações mentais e do comportamento representam 11,8 % da carga global das doenças em Portugal, mais do que as doenças oncológicas (10,4 %) e apenas ultrapassadas pelas doenças cerebrocardiovasculares (13, 7%).

 

Com a chegada da pandemia da covid-19, os temas relacionados com a saúde mental ganharam maior visibilidade, pelo impacto que o confinamento teve nas pessoas, nomeadamente no desenvolvimento de quadros de ansiedade e depressão. Quisemos perceber quais são os grandes desafios da saúde mental hoje, os apoios que existem para a promoção da mesma e como é ser jovem e viver com uma perturbação mental em Portugal. Para tal, fizemo-nos acompanhar das histórias de Célio Dias e Marta Guerreiro como fio condutor para o revelar de variadas dimensões que este tema engloba, no nosso país.

Célio Dias cresceu na casa em que nos recebeu. “Como já percebeste, os meus pais são brancos, então sou adotado e não tenho contacto com a minha família [biológica] desde os 15 meses”, nota com um sorriso contagiante. Conta-nos que sempre foi educado para o sucesso. “Ainda hoje tento perceber o porquê, mas sinto que as pessoas, em tudo o que faço, esperam o melhor de mim ou, pelo menos, essa é a minha fantasia.” No entanto, admite que a maior pressão que enfrenta é a que exerce sobre si mesmo. Tendo acesso a uma educação privilegiada, lembra-se de que “o facto de ter uma inteligência acima da média” era algo que tinha dificuldade em aceitar. “Estudei num colégio onde eu era o único negro”, conta, explicando que, por isso, sentia ter “uma escolaridade e educação maiores” em relação a outras pessoas negras com quem se ia cruzando, “o que cria uma distância”.

 

” O Atleta é alguém forte que não pode chorar ” 

Célio Dias

 

Célio ficou primeiramente conhecido enquanto atleta de judo. Quanto à imagem do atleta, partilha que “é aquela pessoa que tem de ter um determinado padrão, fisionomia e é suposto cumprir determinados tipos de sucesso. E quando o atleta não os cumpre, tudo o que faz é hipotecado”, revelando reconhecer que, neste papel social que se viu assumir, o “atleta não tem voz”. Partilha que, quando se lesionou no ombro, impedindo-o de competir, recorreu à psicóloga Inês Vigário. Em 2016, competiu nos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, altura em que era considerado o 21.º do mundo. Porém, não teve o resultado que ambicionava, tendo sido eliminado na 1.ª ronda da categoria de 90 kg. Nesse momento, pensou para consigo mesmo que não iria chorar – “o atleta é alguém forte que não pode chorar”. “Aquele momento foi a apoteose de todo o preconceito, também associado ao conceito tóxico de masculinidade, que tinha na minha cabeça e que, agora, está reestruturado”. Essa decisão fundou o momento de rutura para Célio, desencadeando o seu primeiro surto psicótico. Hoje, com 28 anos, reconhece que a carga emocional que reprimira “foi a base, a precipitação de todo o acontecimento”. “Não é bom nós reprimirmos as nossas emoções […], como não me permiti vê-las, de facto, isso foi um dos fenómenos que precipitou o surto psicótico”.

Mais a norte da Europa, em Inglaterra, chegámos até à poeta e artivista Marta Guerreiro, via Zoom. Foi através da sua página de Instagram, na qual, a par doutros temas, alerta para questões relacionadas com a saúde mental, que ouvimos os primeiros relatos da sua história.

Quando tinha 9 anos, nasceu a sua irmã, que tem paralisia cerebral. Por instinto, passou a assumir essa responsabilidade – “a minha vida era só a minha irmã e a minha mãe, porque a minha mãe não estava bem”. Por volta dos seus 12/13 anos, lembra-se de começar a ter crises de ansiedade, embora o diagnóstico de ansiedade generalizada só tenha chegado aos seus 16, tendo feito terapia para esse efeito. Por volta dos 12/13 anos foi violada, porém “só por volta dos meus 18 é que a ficha me caiu”, altura na qual reconhece ter começado a apresentar comportamentos mais autodestrutivos. “Aos 20 anos, já estava com um historial muito grande de automutilação, de tentativas de suicídio”, atingindo “um estado muito crítico da minha saúde mental.” “Não conhecia ninguém que tivesse uma depressão ou que tivesse tido, sem ser a minha mãe, mas a forma de ver a saúde mental dela, enquanto filha, também acabava por bloquear alguns dos meus parâmetros”, conta. Nesta altura, já tinha emigrado para Inglaterra e recorda que a única pessoa que estava a acompanhar toda esta situação era a sua companheira.

“Fui obrigado a descer até ao local de sombra e, da sombra, só nasce uma coisa – a luz”

Célio Dias

 

“É uma experiência avassaladora de emoções, em que o teu cérebro é capaz de fazer conexões de coisas incríveis. Portanto, claro que tem o seu lado desorganizador, mas também tem um lado de viver um assoberbar de emoções”, assim descreve Célio o que sentiu durante o surto psicótico.

Antes dos Jogos Olímpicos, não tinha passado por nenhum “quadro de depressão”. Porém, ao surto psicótico seguiram-se cerca de 11 meses em que não tinha forças para se levantar da cama, ficando 2 meses sem conseguir tomar banho, e fazendo duas tentativas de suicídio. Sentia-se num “estado de decadência, duma derrota interior”, em que se questionava sobre tudo. “É uma crise existencial que vives”, explica, em que se sente uma grande “letargia” e a “incapacidade de ter um pensamento coerente fora do quadro depressivo”. Após a segunda tentativa de suicídio, recorreu a acompanhamento médico e foi-lhe diagnosticada uma depressão, algo que recebeu com alívio, “não por causa do diagnóstico, mas por saber que, com ele, poderia ter uma ajuda mais especializada para o tipo de desafio que tinha em mãos”, conta. No total, passou por 4 internamentos.

Em 2018, altura em que já se encontrava lúcido no hospital e em que a medicação já estava a fazer efeito, foi-lhe diagnosticado esquizofrenia. Ouvia 8 vozes. Durante a nossa conversa, apresentou-nos 3 delas. Solivan era o “vilão da história”, que lhe dizia para matar ou magoar pessoas, algo que o assustava, pois “tinha medo de não saber se ia fazer aquilo ou não”. Porém, as restantes vozes não tinham este caráter, havendo, por exemplo, o Jefferson, que era um filósofo e o Carter, um poeta.

Partilha ainda que a doença levou cerca de 3 anos a estabilizar, mas hoje já não ouve vozes. “As doenças psiquiátricas demoram bastante tempo a recuperar. O cérebro não recupera com a mesma celeridade de um músculo, um joelho ou articulação”, explica. Já tendo feito cursos que versavam a esquizofrenia, consegue explicar-nos que existem causas genéticas e causas situacionais para o surgimento da doença. Não tendo acesso às suas informações genéticas, Célio consegue identificar alguns episódios que podem ter contribuído para este desfecho: “o judo pode ser um desporto traumático, e eu fui, efetivamente, várias vezes com a cabeça ao chão, no aparato de uma queda. Depois, todas as questões relacionadas com o stress também podem desencadear estas coisas. Então, no fundo, eu era uma bomba atómica pronta para explodir que explodiu nos Jogos Olímpicos”, diz, sempre por entre risos.

“Aos 20 anos já estava com um historial muito grande de automutilação, de tentativas de suicídio”

Marta Guerreiro

 

Marta Guerreiro sentia-se num “estado quase constante de falta de esperança, em que nós achamos que somos o problema de praticamente tudo e que tudo seria mais fácil se, naquele momento, deixássemos de existir. Não quer dizer que a depressão seja necessariamente o querer morrer. Às vezes, as pessoas só queriam deixar de existir naquele momento, porque aquilo dói tanto”, aponta. No seu caso, não tomava banho, se a sua companheira não lhe levasse comida, não comia, não saía da cama. Realça ainda um “estado de muito cansaço”. “Costumo dizer que ter uma depressão é como estarmos debaixo de água e respirarmos por uma palhinha que está rasgada e o esforço é tanto para conseguirmos um bocadinho de oxigénio que parece que mais vale largar a palhinha, porque já não há energia para [continuar]”, ilustra.

Foi também após uma tentativa de suicídio que Marta Guerreiro pediu ajuda. Dirigiu-se a uma consulta de urgência em que um médico de clínica geral lhe diagnosticou depressão clínica. “Foi aí que comecei a medicação e um novo capítulo de terapia e acompanhamento que durou cerca de 5 anos. Aos 25, consegui deixar a medicação. Tive uma fase muito plena e muito saudável e, mais recentemente, voltei à depressão clínica”, conta.

Demonstrando muita vontade de perceber a origem dos seus diagnósticos, revela achar que tem “muita predisposição genética”. Para além disso, mais recentemente, conseguiu relacionar fases mais depressivas com os seus ciclos menstruais. Em relação à ansiedade, destaca a responsabilidade que assumiu com o nascimento da sua irmã e o historial de bullying na escola. Quanto à depressão, considera que um dos “fatores principais foi ter-me apercebido da violação, porque bloqueei o trauma durante muitos anos.” Nota ainda que, com a entrada na faculdade, acabou por cometer alguns excessos no consumo de álcool que acentuaram o declínio da sua saúde mental.

De facto, o diagnóstico é, muitas vezes, um dos momentos mais importantes para recuperar o autocuidado. “Tem como objetivo identificar qual o quadro clínico da pessoa e que perturbações interferem no seu bem-estar, orientando a abordagem e tratamento, face às suas necessidades e objetivos. Para além de se trabalhar as dificuldades, procura-se explorar os recursos e potencialidades, pela compreensão do funcionamento e personalidade da pessoa, segundo uma perspetiva biopsicossocial”, explica-nos Carolina Oliveira Borges, psicóloga clínica e da saúde e cofundadora do projeto Rumo.

Quanto às causas para os números elevados de perturbações mentais no nosso país, “não conhecemos as causas de nenhuma doença. O que nós utilizamos são modelos associados a fatores de risco, de modo a entender como estes se relacionam com uma maior probabilidade do aparecimento da doença x, y ou z. No caso da depressão, esses são de origem genética e temperamental, de maneira que eu não posso excluir uma componente genética nesta prevalência tão elevada em Portugal. Existem ainda outros fatores de risco, segundo estudos feitos de vários países, que são de natureza socioeconómica, tais como a pobreza, a precariedade, a dívida, seguidas ainda da desigualdade social existente”, explica Miguel Xavier numa entrevista publicada em dezembro de 2020 no Jornal do Médico.

 

“Liguei à minha mãe a dizer: ‘eu acho que não passo de hoje’”

Marta Guerreiro

 

Há seis meses que Marta não saía de casa, mas, estando emigrada, a sua família não o sabia. Deixou de trabalhar e havia alturas em que dizia à Carol, “a pessoa com quem estou casada”, que não conseguia que ela fosse trabalhar, pois tinha medo de ficar sozinha. “Isto estava a afetar a minha vida, a vida dela, embora ela tenha sido sempre incrível comigo”, desabafa.

Sobre a noite em que cometer mais uma tentativa de suicídio, que viria a ser a última, relata: “Quando me apercebi, e foi talvez dos episódios mais marcantes para mim, de que me tinha magoado a um nível em que talvez não sobrevivesse, fui chamar a Carol e disse-lhe que não queria morrer, só precisava mesmo de ajuda.” No entanto, não deixava que a sua companheira ligasse a alguém para pedir ajuda, porque tinha “fobia de ser internada numa ala psiquiátrica”. No dia seguinte, ligou à sua mãe, pois na noite anterior tinha percebido que se continuasse nas condições em que estava ia “haver um momento em que, de facto, não acordo”. “Procurar a ajuda da minha mãe foi uma forma de impedir que esse dia chegasse. A minha mãe ficou supermal, mas não teve o impulso de me fazer entrar numa ala psiquiátrica pelo meu próprio pé. Disse-me que tinha de ir ao centro de saúde, pedir ajuda.” Apercebendo-se do que se estava a passar, a sua mãe disse-lhe que não sairia do telefone até saber que Marta estava a ser atendida.

Já no centro de saúde, falou cerca de meia hora com um médico de clínica geral. “Respondi a imensas perguntas, fui brutalmente honesta sobre aquilo que estava a acontecer na minha vida e do estado em que estava.” Dar esse passo foi muito difícil: “estava há 2 anos naquele buraco e, de forma mais aguda, estava há 6 meses naquele sítio sem o conseguir descrever ou falar.” “Não era por não querer admitir o problema, mas, às vezes, também é muito difícil pôr uma depressão em palavras. […] Achamos sempre que as pessoas nos vão descredibilizar, não vão perceber a dimensão da nossa dor”, explica. Destaca que esta dificuldade não tem tanto que ver com vergonha, mas sim com uma necessidade de validação.

“Não era por não querer admitir o problema, mas, às vezes, também é muito difícil pôr uma depressão em palavras”

Marta Guerreiro

 

Para além de lhe ter sido receitada medicação, foi encaminhada para a terapia. Começou a medicação nesse próprio dia e, com o tempo, foi melhorando. “Ninguém fica bem com a primeira consulta ou o primeiro comprimido. Mas a verdade é que, dentro de nós, o facto de sabermos que estamos a fazer alguma coisa para nos ajudarmos é, por si só, uma ajuda e o maior passo para conseguirmos recuperar a paz e estabilidade emocional que queremos”, defende Marta. Agora, com 26 anos, voltou a entrar num quadro depressivo e, embora desta vez tenha pedido ajuda rapidamente, admite que falar sobre o assunto voltou a ser muito difícil, mesmo com todo o trabalho de normalização de questões relacionadas com saúde mental que tem vindo a desenvolver.

Célio conta que, aquando do surto, foi com um amigo às urgências, ainda sem ter consciência do que se estava a passar. Só mais tarde se apercebeu de que precisava de ajuda. Foi depois da sua segunda tentativa de suicídio que Célio decidiu dar esse passo. “Para mim, foi Deus que, naquele momento, disse – não vou permitir que faças isto. A tua existência ainda não acaba aqui, tens um propósito.”

“O suicídio é um problema multifacetado, envolvendo fatores de risco individuais, familiares, comunitários e sociais. Os seus determinantes são de natureza antropológica, psicológica, biológica e social, e atuam muitas vezes simultaneamente”, escreve Miguel Xavier no livro Prevenção do suicídio – manual para jornalistas. Sónia Farinha Silva, interna de Formação Especializada em Psiquiatria na Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo, destaca ainda que o suicídio não é uma doença, mas sim um comportamento, embora este último possa estar associado a uma doença.

 

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (2016), existem cerca de 800 000 suicídios por ano, no mundo, o que equivale a uma morte por suicídio a cada 40 segundos. Porém, o número de tentativas de suicídio poderá ser até 30 vezes superior a este número. Em Portugal, de acordo com dados da Direção-Geral da Saúde (DGS), em 2018, a taxa de mortalidade por suicídio foi de 9,7 óbitos por 100 000 habitantes. Verifica-se ainda que a taxa de suicídio nos homens foi bastante superior (15,2/100 000) que a das mulheres (4,8/100 000). No entanto, estima-se que as tentativas de suicídio nas mulheres são superiores às dos homens. Em termos etários, apesar de o suicídio ser uma causa de morte importante a considerar em jovens, verifica-se que a taxa de suicídio aumenta com a idade, encontrando-se a taxa mais elevada entre os 75 e 84 anos. Em 2019, segundo dados apresentados pelo INE, a taxa de mortalidade por suicídio nos homens foi de 15,2, enquanto que nas mulheres foi de 4,4. De facto, Joana Jesus, psicóloga júnior na plataforma Rumo, partilha que “as mulheres tendem a pedir mais ajuda, a sofrer mais de ansiedade e depressão do que os homens. Os homens, quando sofrem desses problemas, têm menos tendência a pedir ajuda. E também pelo preconceito de que ‘o homem não chora e não pede ajuda’”, o que revela ainda uma prevalência de masculinidade tóxica na nossa sociedade.

 

Os dados mais recentes correspondem ao ano de 2019, não se conhecendo se a taxa de suicídio aumentou ou diminuiu durante a pandemia. Ademais, Sónia partilha ainda uma dúvida que permanece na comunidade científica que se relaciona com a precisão das estatísticas sobre suicídio em Portugal, uma vez que estes números podem ser maiores por existir um problema de subnotificação por parte das autoridades, pois existem várias notificações de mortes violentas por causas indeterminadas, que poderão, ou não, corresponder a suicídios, uma vez que apenas é investigada a hipótese de homicídio e, quando essa é descartada, nem sempre se faz mais investigação.

 

Sabendo que “o suicídio é multideterminado” e que “não existe uma só causa” para o mesmo, tal como nos salienta a Sónia, podemos, no entanto, identificar grupos de pessoas que estão mais suscetíveis ao suicídio: adolescentes, pessoas mais velhas, sobreviventes (ou seja, amigos e familiares de pessoas que tenham morrido por suicídio – “estas pessoas estão em risco, não por uma questão de contágio, mas porque estão mais vulneráveis por ter acontecido aquilo àquela pessoa e por poderem passar a ver como uma solução a ação levada a cabo pela mesma […]. São pessoas que também sofrem de estigma, porque as pessoas à volta culpabilizam-nas”), pessoas com doenças crónicas, pessoas trabalhadoras do sexo, a população prisional, em situação de sem-abrigo, membros das comunidades LGBTQI+, pessoas com deficiência intelectual, ou pessoas com perturbações psiquiátricas graves (“porque são pessoas que sofrem de alguma discriminação social”), os profissionais das forças de segurança, profissionais de saúde e agricultores (“porque têm maior acesso a meios letais”) e ainda “pessoas que sofreram traumas importantes, que podem vir a desenvolver doença mental”. Aliás, mais de 90 % dos suicídios consumados ocorrem em pessoas que têm alguma doença mental, e, destas, 60 % tinham uma doença afetiva, das quais se destaca a depressão, como nos indica Sónia.

Em outubro de 2021, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou um estudo sobre o impacto negativo da pandemia na deterioração da saúde mental dos jovens. Os dados mostram que 1 em cada 5 jovens entre os 15 e os 24 anos diz sentir-se deprimido e 1 em cada 7 jovens entre os 10 e os 19 vive com um distúrbio de saúde mental diagnosticado. Para além disso, o estudo revela que uma criança morre a cada 11 minutos por suicídio. Anualmente, cerca de 45 800 jovens suicidam-se, a nível mundial, constituindo a quarta principal causa de morte em jovens entre os 10 e os 19 anos.

 

Dados europeus de 2017 do Institute for Health Metrics & Evaluation mostram que 1 em cada 6 mortes de jovens entre os 10 e os 29 anos, em Portugal, ocorre por suicídio, constituindo a principal causa de morte junto de crianças e jovens adultos, segundo Ana Matos Pires, assessora do Programa Nacional para a Saúde Mental em entrevista ao Expresso.

 

Marta Guerreiro partilha achar que, cada vez mais, existem quadros de saúde mental não saudáveis nos jovens, algo que consegue associar a determinados usos das redes sociais: “para muitas coisas, são uma ferramenta essencial, mas também acho que ninguém estava preparado para como as redes sociais iam consumir as gerações”, partilha. Cuidando de duas adolescentes, de 13 e 15 anos, e observando a vivência da sua irmã, nota que já se fala sobre saúde mental nas escolas e entre amigos, mas não só falam sobre o assunto como o experienciam. “A comparação com os outros é constante. O bullying que sofri, e que foi mau o suficiente, no recinto escolar, em casa não o tinha. Hoje, vejo que, tudo o que acontece na escola, elas trazem para casa. Houve um problema na escola, bullying, que passa a cyberbullying. Existe uma influencer de 16 anos que, entretanto, é milionária, e, como tal, tenho duas adolescentes em casa a tentar descobrir de que forma vão ser milionárias aos 16 anos. É a constante comparação com vidas que não são reais.” Célio também identifica este excesso de comparação, que é nocivo: “Hoje, toda a gente quer ser o Cristiano Ronaldo e acredito que esse vale tudo para chegar ao sucesso tem duas razões: uma comunicação muito violenta e invasiva e o facto de o nosso ego se encontrar desestruturado, dividido e hipersexualizado”.

 

“As pessoas viviam sobretudo no real e, de repente, passam a ter de ir para o virtual, o que é extremamente desafiante para quem está mais vulnerável pela sua identidade sexual e de género”

Jorge Gato

Jorge Gato, psicólogo, investigador e professor universitário, ao mencionar um estudo em que está a participar, que tem que ver com as pessoas LGBTQ na pandemia, destaca a importância de as redes sociais serem reguladas. “As pessoas viviam sobretudo no real e, de repente, passam a ter de ir para o virtual, o que é extremamente desafiante para pessoas à partida vulneráveis pela sua identidade sexual e de género. […] Estas pessoas LGBTQ [envolvidas no estudo] queixam-se de passarem mais tempo no mundo virtual e que começam a aperceber-se que também ali têm de lidar com uma série de preconceitos e discriminações, porque é mais fácil quando se está atrás de um ecrã de um computador.”

 

Reconhecendo que o suicídio nos jovens é o tema difícil de tratar, o psiquiatra e colaborador do projeto Manicómio, João Costa Ribeiro, aponta “esta sociedade da produção” como “parte do problema”. Esta cultura vai sendo construída, desde logo, na infância, pois a “escola é uma grande máquina de produção”. “A criança que não produz ou que não consegue acompanhar vai sentir-se envergonhada, fracassada, e a identidade acaba por ficar colada ao produzir. […] Se, mais tarde, é difícil arranjar trabalho, ou conquistar os tais sonhos que vão criando, sentem fracasso a um nível identitário muito grande. Obviamente, isto pode levar à depressão e ao suicídio.” Por outro lado, com a chegada das redes sociais, considera que “a identidade se tornou um produto”. “O corpo é visto como um produto, e eu compro produtos para construir a minha identidade. Está tão entranhado com o capitalismo que para conseguir ter um certo formato, uma certa referência, é muito a imagem que passa para fora, que plasmamos nas redes sociais, e é muito pouco a vivência do corpo por dentro, das emoções e dos afetos, das relações”, aponta.

Uma abordagem de prevenção, desde cedo, poderia contribuir para a diminuição dos números de pessoas com doença mental e suicídios. Mas ao longo da infância e adolescência, e finalmente na vida adulta, o acesso a cuidados de saúde mental nem sempre é facilitado, seja por questões monetárias, pela falta de profissionais no serviço público, ou por barreiras que se vão colocando em sessões de terapia. Com as longas listas de espera nos serviços de saúde públicos, há quem procure uma alternativa mais rápida no privado. Uma consulta de psicoterapia num consultório privado custa, em média, cerca de 50 €. Num país onde o ordenado mínimo está nos 740 € por mês, ter um acompanhamento continuado, entre duas a quatro consultas mensais, representa um valor significativo de investimento – e nem todas as pessoas têm a possibilidade de o disponibilizar.

 

João Costa Ribeiro aponta para a organização da sociedade como a vivemos agora como o principal obstáculo à doença mental. “No mundo do trabalho, acontece que a pessoa tem de produzir, tem de estar neste estado de consciência produtivo e maquinal, e se começar a produzir menos, é mal vista. Não é permitido que isso aconteça. O que é valorizado é estar ocupado: the glorification of busy [a glorificação de estar ocupado]. É altamente tóxico, cria estes sentimentos de vergonha quando não se é produtivo, e se tem variações na produtividade”, explica.

 

Esta estigmatização de quem não produz tanto quanto era suposto resulta numa sensação de falha, de não-pertença. Olhando à evolução da psiquiatria, João Costa Ribeiro nota que “as pessoas já não se sentem oprimidas pela psiquiatria, mas procuram a psiquiatria ativamente para voltar a reparar-se”. Este modo de vida em que se privilegia a produção tem, naturalmente, efeitos na forma como as pessoas se veem a si mesmas, mas também como veem a doença mental. Outra das causas que, à partida, pode representar um entrave ao acesso a consultas nas áreas de saúde mental é o estigma, um dos maiores inimigos à procura por apoio profissional.

 

“Se houvesse mais discurso sobre doença mental, se o problema não fosse considerado uma falha do indivíduo, isso sim transformaria a vergonha”, sublinha o médico. A seu ver, um dos fatores que contribui para que o estigma persista é a perpetuação da ideia de que “o problema está na pessoa”. “A psiquiatria e a psicologia sofrem desta questão: se alguém sofre psicologicamente, o problema é-lhe atribuído, por oposição ao seu contexto social, e, portanto, é a pessoa que tem de procurar ajuda, e o mainstream da saúde mental são os tratamentos individuais, por baixo dos quais está este princípio da privatização dos problemas”. Desta forma, a sensação de culpa torna-se ainda maior.

O contexto histórico da evolução da ideia de saúde e o conceito de sujeito universal podem explicar algumas das desigualdades e dos estigmas que existem ainda hoje – quem o diz é a psicóloga Shenia Karlsson, especialista em diversidade e diretora no INMUNE. “Todos os sujeitos ditos na literatura como ‘não normativos’ sempre foram utilizados como objetos de estudo. Foram corpos negros, com deficiência, indigentes, homossexuais, judeus, que serviram como objeto para o avanço da medicina, da psicologia e muitas outras ciências, e, nesse processo, foram sistematicamente violados e colocados na condição de sub-humanos”. Para si, um dos grandes desafios do agora é chegar às periferias e “implementar uma campanha de consciencialização e desconstrução de estigmas sobre os psicólogos”.

 

 

Nos planos curriculares dos cursos de Psicologia, em Portugal, as questões LGBTQI+ inserem-se “no chapéu do género” e surgem superficialmente. Para Jorge Gato, não é suficiente. “Dentro das identidades LGBTQI+, existem muitas nuances. Há diferenças, por exemplo, em termos de acesso a cuidados de saúde, de vivência do estigma, de saúde mental”. É essa complexidade, e o caminho pela despatologização das identidades LGBTQI+, que torna tão necessário que se reveja a importância que lhes é conferida no campo universitário. Mas é também necessária sensibilização e abertura, segundo Marta Guerreiro.

 

Sendo uma pessoa queer e não-monogâmica, Marta conta que já sentiu o estigma vir do lado de quem, à partida, deveria estar aberto para ouvir a sua história sem julgamentos. “Existe uma descredibilização que te diz que se te deixares dessa vida e viveres uma mais formatada, mais dentro daquilo que a sociedade pede, vais ver como não terás nada disso”, partilha. A certa altura, começou a evitar mencionar a sua relação não-monogâmica nas consultas, por prever que se tornaria o assunto principal dentro das quatro paredes que idealmente corresponderiam a um espaço seguro. “Sabia que isso ia consumir a consulta toda, quando era tudo menos aquilo que me estava a pesar ou que eu precisava sequer de falar.” Quando percebeu, através de uma partilha nas suas redes sociais, que mais pessoas LGBTQI+ tinham passado pelo mesmo, decidiu criar uma lista de psicólogos LGBTQI+ friendly. Desde que criou a lista, tem recebido mensagens de várias pessoas que decidiram começar a fazer terapia graças à sua existência.

 

Conhece a lista que a Marta recolheu de psicólogos LGBTQI+ friendly.

Shenia Karlsson, fotografia da sua cortesia

 

“o lugar do cuidado não pode ser o lugar da violência, da relativização, da negação da experiência” 

Shenia Karlsson

Shenia Karlsson tem como base do seu trabalho as prerrogativas de uma Analista Safe, expressão que surgiu em França nos anos 2000 após se ter percebido que havia uma procura por “profissionais com requisitos específicos: Psicólogos negros, gays, lésbicas, com deficiência, feministas”. “São profissionais que se comprometem para que as violências sociais não sejam perpetuadas no lugar que deve ser o lugar do cuidado, que de alguma forma asseguram que certos grupos sociais mais suscetíveis às violências historicamente construídas possam estar seguros e acolhidos. É um compromisso, uma postura, é político. Transcende discursos vazios encerrados na empatia que, por si só, não é uma garantia significativa”, explica. Para a psicóloga, é fundamental perceber que “o lugar do cuidado não pode ser o lugar da violência, da relativização, da negação da experiência” e que “muitas vezes está fora do campo de entendimento de certos profissionais, que devem assumir uma postura humilde e admitir que talvez não possam ajudar”.

 

No caso de Célio Dias, os grandes desafios surgiram no período de internamento. Sentiu-se subestimado quando percebeu que talvez não lhe estivessem a dar toda a informação sobre o seu quadro clínico, e olhou para a postura dos profissionais de saúde mental com que se cruzou com alguma “arrogância”. Era como se houvesse um “eu, médico” e “outro, paciente” que criava um fosso incapaz de gerar uma relação de proximidade. “Se esta entrevista for lida por algum médico, gostaria de o convidar a pôr-se no papel do utente e perceber que, se calhar, alguns têm a capacidade para pensar sobre si e o mundo de uma forma mais profunda, e que esse modo de vida e maneira de ver a realidade deveria ser mais cuidada e respeitada”, sugere.

Entre as pessoas entrevistadas para esta reportagem, existe a certeza de que um acompanhamento regular e desde os primeiros anos de vida faria toda a diferença. Filipa Palha, presidente da direção da associação ENCONTRAR+SE, alerta para a importância da literacia e para uma preocupação com a saúde mental de cada ser humano desde o momento em que nasce e, antes de nascer, “de quem está à sua espera”. Foi a pensar nesse acompanhamento e a partir da sua própria experiência que Joana von Bonhorst criou o Cordão, “um diário comunitário sobre o processo de ter filhes”, “na tentativa de abranger o maior número possível de perspetivas e experiências, com o objetivo de representar o espectro existente e tantas vezes condicionado aos preconceitos da sociedade em que vivemos”.

 

Joana é mãe há três anos e meio, passou por um parto traumático e, acredita, por um síndrome de stress pós-traumático não diagnosticado. Recentemente, Joana decidiu fazer uma sondagem amadora através da conta de Instagram do Cordão, com uma amostra de cerca de 1000 mulheres. Com esta sondagem conseguiu perceber que “84 % dizem não ter sido questionadas sobre histórico de doenças ou perturbações mentais, 75 % diz não ter sido informada sobre doenças e perturbações que podem surgir durante a gravidez e no pós-parto e apenas 16 % das mulheres dizem ter tido uma avaliação do seu bem-estar psicológico e da sua saúde mental na avaliação do pós-parto”. Alerta ainda para “casos de perdas gestacionais que, hoje em dia, são minimizadas e subvalorizadas do ponto de vista psicológico pelo SNS”, visto que de 254 mulheres que dizem ter sofrido uma perda gestacional, só 23 tiveram apoio psicológico.

 

É como se a depressão pós-parto fosse, em muitos casos, um não-assunto. Esta é também uma preocupação de Marta Guerreiro que, hipoteticamente, levanta a hipótese de haver uma mãe solteira, com 3 filhos, que tem “contas para pagar” e as suas implicações: “Tem de ser funcional, porque tem pessoas dependentes dela. E ser funcional implica, muitas vezes, sorrirmos, tentarmos parecer bem. Muitas pessoas com depressões estão no meio da nossa sociedade, no meio dos locais de trabalho, das escolas”. Para Joana, o caminho a fazer é bastante evidente: “é essencial que os profissionais de saúde que contactam primária e diretamente com as mulheres no acompanhamento da gravidez (obstetra e médico de família) e no pós-parto (obstetra, médico de família e pediatra) sigam as recomendações internacionais e da própria DGS e questionem as mulheres sobre o seu bem-estar, que utilizem os manuais de promoção da saúde mental materna e os questionários de despiste desenhados para o efeito, que existem”.

 

“O que importa é que o bebé está bem’ é, provavelmente, a frase mais ouvida por mães que expõem as suas dificuldades e fragilidades e é, com certeza, a mais cruel de todas. Ouvi-a muitas vezes”, diz a fundadora do Cordão. Para combater esta subvalorização, o acompanhamento, a vigilância desde o primeiro momento da gravidez e a informação são uma resposta possível. No trabalho de literacia que tem vindo a ser feito, Joana von Bonhorst destaca a psiquiatra Teresa Reis, coordenadora do projeto Mentalizando a parentalidade. Está certa de que o caminho se começa a fazer por aí.

 

“deixar de pensar na existência da psicologia só para a doença e para a desgraça, e usá-la naquilo que é o contributo que tem para o desenvolvimento de um comportamento humano saudável, de um projecto de vida e de identidade saudável, feliz e realizado” Filipa Palha

 

 

Desde o começo do século XXI uma série de projetos de apoio e emancipação em prol da saúde mental foram surgindo no panorama português. Com a evolução do pensamento, também eles foram evoluindo e outros foram surgindo. Há já 15 anos que a ENCONTRAR+SE, na altura Associação de Apoio a Pessoas com Perturbação Mental Grave, tem vindo a lutar para que exista literacia de saúde mental e que as boas práticas que existem na literatura sobre o tema se tornem parte do dia a dia de todo o país.

 

“Socorremo-nos daquilo que eram as equipas de investigação e clínicas de todo o mundo, onde estavam a ser desenvolvidos esses modelos, juntámos pessoas que se tornaram os nossos consultores externos, fizemos adaptação de modelos e intervenção em diferentes áreas, alguns livros para sensibilizar e para informar, e fomos disponibilizando tudo isso”, recorda Filipa Palha, presidente da direção. Nesta década e meia, foram desenvolvendo iniciativas “de informação e combate ao estigma”, e perceberam que fazia mais sentido apelidarem-se de Associação para a Promoção da Saúde Mental.

 

Entre as muitas ações e projetos, encontram-se o grupo Vozes de Esperança, em que pessoas com doença mental dão o seu testemunho, e que já se metamorfoseou numa peça de teatro, o UPA KIDS, “um conjunto de projetos que temos nas escolas, a levar a saúde mental onde ela não chega, criar condições para as pessoas terem aprendizagem e desenvolvimento de conhecimentos socioemocionais”, e o Mind at Work, que se dedica a promover a saúde mental nos locais de trabalho, apoiando as empresas no processo de adaptação de boas práticas.

 

Para Filipa Palha, é preciso “deixar de pensar na existência da psicologia só para a doença e para a desgraça, e usá-la naquilo que é o contributo que tem para o desenvolvimento de um comportamento humano saudável, de um projeto de vida e de identidade saudável, feliz e realizado”. Foi nessa perspetiva de subversão do estigma e das ideias dominantes que surgiu o Manicómio, “um local que conjuga a criação e a aproximação dos artistas residentes que experienciaram ou experienciam doença mental com o público, num único espaço de inovação e criatividade”. No Manicómio, habitam esculturas, pinturas e todas as expressões artísticas que melhor servirem aos artistas que lá têm o seu atelier. Sandro Resende, um dos fundadores, deixa claro em todas as suas intervenções sobre o projeto que “não é terapia” que se faz no Manicómio, é arte.

 

Este espaço artístico criado em março de 2019, em Lisboa, tem sido distinguido pelo combate ao estigma através da valorização dos seus artistas. Mas ainda que não seja um espaço de terapia, acolheu um projeto do qual João Costa Ribeiro faz parte, as Consultas sem Paredes. A premissa é simples, ter uma consulta neste espaço num lugar escolhido pela pessoa. “As pessoas têm gostado imenso de ter consulta neste conceito – há sofás, há vista para o rio, há mais do que uma varanda, e há o assumir que se vai a um sítio falar sobre o seu sofrimento e está tudo bem. E isto empodera a pessoa, porque deixa de ser uma coisa para ir a um gabinete privado, e que está ligado a uma certa vergonha”, explica.

Carolina Borges,

RUMO – Instante Falante Associação

 

Francisco Valente Gonçalves,

RUMO – Instante Falante Associação

 

Reconhecendo ainda um outro desafio – a falta de meios ou conhecimento de onde se pode procurar ajuda para quem emigra ou está longe – surge a plataforma Rumo. Esta é uma plataforma online que permite a qualquer pessoa, independentemente do lugar em que se encontre, ter acesso a serviços de saúde mental. Carolina Oliveira Borges e Francisco Valente Gonçalves, fundadores da Rumo, ao terem experiências de emigração, confrontaram-se com um desafio comum: “Onde vou encontrar apoio?” Não encontrando “uma resposta mais orientada para as questões da mobilidade”, criaram a Rumo, cujos objetivos são “educar, promover e sensibilizar para estas questões da saúde mental”, descreve Carolina. A psicóloga partilha ainda que, embora os seus serviços sejam pagos, parte dessa receita é direcionada para “o apoio de responsabilidade social”. É uma forma de conseguirmos oferecer [consultas], sem substituir o SNS”, destaca. Nota ainda que são “uma equipa bastante diversificada, de vários contextos culturais, o que dá a possibilidade de as pessoas escolherem alguém com quem se possam identificar”.

 

Margarida Vale tinha 16 anos quando a sua mãe teve a primeira manifestação da sua doença. “Ao perceber nela mudanças drásticas de comportamento – não conseguir dormir, ter energia e vontade de se expressar durante todo o dia e a uma velocidade fulminante, sentir-se perseguida ou alvo de ameaças que eram imaginárias, ganhar uma profunda admiração por Deus e pela Bíblia, quando antes não o tinha –, percebi que algo não estava certo. “A minha mãe mudou!, mas não sabia que se trataria de um problema de saúde mental”, partilha. Alguns anos depois, chegou o diagnóstico de bipolaridade. Até este diagnóstico formal chegar, Margarida conta que passou por momentos complicados. “Um dos momentos que mais me marcou, mas, por outro lado, salvou, foi quando ela pediu para que saíssemos de casa. Senti-me mais segura e apoiada, com mais condições para prosseguir com os meus estudos. Por outro lado, afastando-me do cenário, que era um terror, e da sua vida, deixou-me sem a capacidade de controlo que antes ainda poderia tentar ter. Não sabia onde ela estaria, em que situação se estaria a colocar.”

 

Maria é o nome da sua mãe, e é também o nome que decidiu dar à associação que criou recentemente para apoiar pessoas que não saibam o que fazer em situações mais complicadas que envolvam alguma doença mental no seu círculo próximo. “Fui aprendendo a gerir este aspeto particular da minha vida sozinha. Não tinha ninguém, ou quase ninguém, que me compreendesse, que tivesse passado pelo mesmo. Para além disso, tinha de gerir todo o julgamento externo, de familiares menos próximos, vizinhos, amigos da minha mãe. Também me autoexcluía – às vezes o preconceito está dentro de nós e é importante reconhecer isso”, conta. Além disso, “sempre senti que os médicos, enfermeiros e assistentes sociais não entendiam que a família precisava de ser mais bem informada, que tínhamos muitas dúvidas, que também precisávamos de apoio”.

 

Hoje o seu entendimento é outro. “Quando ela começou a ter comportamentos diferentes, perdi a minha referência de mãe. Já não a admirava, porque não conseguia distinguir a minha mãe enquanto pessoa da sua doença. A minha mãe sempre foi a minha melhor amiga, naquele momento perdi-a. Era a minha mãe que falava comigo e me insultava, não a doença. Eu não conseguia fazer essa distinção. Hoje sei quem ela é versus quem ela se torna por consequência da manifestação da doença que tem. Recuperei a minha admiração por ela, a estima, porque entendo que doença é, como se manifesta, que consequências tem”, partilha Margarida.

 

Oferecendo workshops online e gratuitos, específicos para cada doença, dados pelas profissionais de saúde, a maior parte das pessoas que se juntam à comunidade maria são jovens adultos, entre os 20 e os 30 anos. “São, sobretudo, filhos de pessoas com doença mental, mas também temos pais com idades próximas aos 50, que têm filhos com doença mental”, partilha. Aos jovens que convivam com alguém que tenha doença mental, Margarida pede que “não deixem que o assunto fique dentro das suas quatro paredes”. O fim da privatização do sofrimento também importa quando se fala de quem acompanha a vida de alguém com doença mental.

Margarida Vale, fotografia da sua cortesia

 

“A saúde mental, tal como a saúde física, requer muita disciplina e bastantes cuidados”, Marta Guerreiro

 

 

Para Marta, o cuidado com a sua saúde mental passa por um conjunto de regras rígidas: acorda todos os dias do ano a uma hora específica, não bebe álcool, não dorme sestas e o ambiente à sua volta tem de estar organizado. A par disto, Marta escreve, tendo já publicado o livro Amor (im)próprio, e recorre à ilustração para dar forma às mensagens que acha importantes vincular enquanto ativista. Para si, esta é a fórmula que melhor se aplica ao seu caso e rotina.

 

No caso de Célio, uma das suas formas de autocuidado é a procura de informação, o que lhe permite racionalizar aquilo que lhe acontece. “Sou uma pessoa que, apesar de ter este ar brincalhão, sou extremamente académico e cuidado no tipo de informação [que consumo] e naquilo a que submeto a minha atenção”, explica. Aponta que não vê televisão ou séries, mas, para si, “os livros são uma forma de autocuidado”, uma vez que gosta de ir à procura do seu desenvolvimento pessoal. Toda a sua vivência relacionada com a saúde mental, fê-lo almejar estudar “Medicina e seguir Psiquiatria, porque acredito que tenho características com as quais posso ajudar outras pessoas”. A este objetivo, junta a sua, já terminada, licenciatura em Psicologia.

 

Hoje, não se resume ao campo de atleta e abraça o artístico: “Quero ser escritor, ator, performista, porque, nestes âmbitos, consigo falar das minhas dores, que são as dores de toda a gente.” Pegando nesta relação entre arte e saúde mental, o psiquiatra João Costa Ribeiro explica que “o ato de criar estimula a saúde mental – que pode ser equacionada com criatividade, espontaneidade, flexibilidade, que são conceitos muito subtis, mas que dizem respeito a esta capacidade de dar respostas novas aos problemas, de haver um potencial que não se esgota na pessoa, e só o simples ato de criar permite descobrir coisas novas”. “Acredito que a arte pode ser terapêutica em si mesma, mas também pode ser muito destrutiva.”

 

No momento de criação artística, Célio partilha que é importante, para si, “a capacidade de se situar naquele ponto em que a realidade e a irrealidade estão separadas por uma nesga que não consegues distinguir muito bem e criares.” “Percebi que, para criar, preciso de estar num lugar de sombra” que é controlado. Aprendeu, ainda, que “podes ter tudo, mas não ao mesmo tempo. Tens de priorizar”, partilha.

 

Enquanto ativista, embora não goste de rótulos, assume três: é um homem negro, homossexual e com doença mental, pois ainda encontra um desafio no que diz respeito a ter-se um “lugar de fala”. Assume como propósito de vida “contribuir para a sustentabilidade mental da sociedade portuguesa”, recorrendo a três esferas de ação: “aumentar a representatividade afrodescendente nos círculos intelectual e artístico”, “inspirar as pessoas a inspirarem-se nelas mesmas para contarem as suas histórias de sucesso” e “criar uma maior consciencialização em torno da saúde mental”.

 

Quanto aos jovens, deixa-lhes um conselho: que tenham um diário e que escrevam. “Acho que terem a capacidade de padronizar os seus comportamentos é brutal, porque lhes dá a possibilidade de planear e estruturar aquilo que são as rotinas”, explica.

“o preconceito, a descriminação, o estigma é veiculado por toda a comunidade escolar — professores, assistentes operacionais e colegas”

Jorge Gato

Jorge Gato aponta que “a escola é o grande socializador e o grande veículo de transmissão não só de conhecimento, mas de valores”, salientando que “o preconceito, a discriminação, o estigma, é veiculado por toda a comunidade escolar – professores, assistentes operacionais, e colegas”. Nesse sentido, é importante promover também a educação dos docentes para todas as questões que se relacionam com processos de discriminação e de que formas se pode combater estigmas. João Costa Ribeiro defende que a escola deveria “ser muito mais virada para as relações, os afetos, a filosofia, a ética, os problemas do mundo”, ao invés do foco maioritário na aquisição de conhecimentos.

 

Reconhecendo a importância da educação para a saúde mental, quer seja em termos da gestão de emoções, de reconhecimento de sinais de alarme ou na desestigmatização destes temas, para todos e desde a infância, a Associação Nacional de Internos de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (ANIPIA) criou o projeto FundaMENTAL. Visando uma abrangência nacional, o projeto assenta em três premissas: formar, educar e sensibilizar. A primeira dimensão destina-se à formação de profissionais de saúde de forma a promover uma abordagem holística da saúde mental da criança. “É fundaMENTAL educar” é dirigido a crianças e jovens, através da articulação com escolas, integrando temas de saúde mental infantil na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Por fim, “É fundaMENTAL sensibilizar” visa promover a saúde mental infantil para toda a comunidade.

 

A educação socioemocional tem vindo a assumir uma importância crescente e comprovada em contexto escolar, e essa mudança de paradigma já se começa a ver em Portugal. Outro exemplo é a implementação do programa de educação socioemocional Calmamente – Aprendendo a Aprender-se no ano letivo 2020/2021. O programa foi integrado no horário curricular de quatro escolas em Matosinhos e dinamizado pela Academia Mente de Principiante com o apoio das Academias Gulbenkian do Conhecimento. O projeto que envolveu mais de 400 alunos com idades compreendidas entre os 8 e os 11 anos, 13 docentes e um total de 19 turmas, revelou um “impacto positivo da educação socioemocional, reconhecendo a sua implementação como imperiosa para a educação integral de crianças e jovens e, ainda, como ferramenta de prevenção ao nível da saúde mental”, lê-se em comunicado. No próximo ano letivo, avançarão com uma formação inicial de professores para a literacia emocional.

 

 

 

Foi aprovada, a 24 de julho de 1998, a Lei da Saúde Mental. As atualizações que foram sendo feitas, bem como os Planos de Saúde Mental que foram sendo elaborados, caminharam num sentido evolutivo. Ao fazer uma leitura de Coisas de Loucos — O que eles deixaram no Manicómio, livro de Catarina Gomes escrito a partir do fecho do Hospital Miguel Bombarda, viajamos para tempos que, felizmente, já não são os nossos, mas inevitavelmente notamos que existe um contexto hoje que vem desse lugar. De um lugar de exclusão, de solidão, de total descredibilização em que se fala por, e não se ouve quem tem algo a acrescentar na primeira pessoa.

 

No Programa Nacional de Saúde Mental em curso, com implementação prevista até 2030, pretende ultrapassar-se “o paradigma consulta-internamento dos últimos 30 anos” – são palavras de Miguel Xavier em entrevista ao Público, em março deste ano. Miguel Xavier reconhece que não há psicólogos suficientes nos centros de saúde, e pretende criar equipas que façam visitas regulares a casa das pessoas, e que funcionem em diálogo com os cuidados de saúde primários. Uma das medidas realmente transformadoras é a que propõe que as cerca de 400 pessoas que residem em hospitais psiquiátricos sejam “desinstitucionalizadas e colocadas em residências na comunidade”, com equipas que as acompanhem.

 

Porque não só as consultas são caras, mas a medicação também o é, o diretor do Plano Nacional de Saúde Mental propôs a dispensa gratuita de antipsicóticos nos serviços de saúde. Ainda que estes sejam comparticipados pelo Estado, continuam a representar uma fatia representativa do salário ou subsídio, sobretudo para pessoas em situação de desemprego. João Costa Ribeiro acredita que “se queremos medicalizar menos, temos de investir noutras abordagens”, mas sublinha a importância da proposta da dispensa gratuita de antipsicóticos. “Não concordo é que só se medique, nem concordo que só se individualize os problemas. Temos de pensar antes nas causas sociais que estão atrás dos problemas de saúde mental, e temos que intervir nelas”, contextualiza.

 

Ana Pinto Coelho,©João Gata

 

 

“[devia existir] um psicólogo, um psiquiatra e um conselheiro em qualquer unidade de cuidados de saúde”, Ana Pinto Coelho

 

 

João Costa Ribeiro está, neste momento, na equipa de psiquiatria do Hospital Beatriz Ângelo que começou a implementar uma terapia inovadora, com psicadélicos. “Há evidências muito fortes e promissoras de que são tratamentos muito eficazes na depressão, mesmo em pessoas que eram resistentes a outros tratamentos – e essa é a grande revolução”, explica. Até agora, o processo tem-se mostrado bastante positivo, mas o médico não deixa de notar que ainda que exista vontade de inovar e fazer mais, os recursos são escassos. O mesmo diz Ana Pinto Coelho, diretora do Festival Mental e conselheira especialista em adições, que acredita que devia existir “um psicólogo, um psiquiatra e um conselheiro em qualquer unidade de cuidados de saúde” para que o rumo da saúde mental em Portugal fosse mais positivo. E para que estes profissionais de saúde estejam de forma efetiva nas unidades de cuidados de saúde, é necessário zelar pela sua saúde mental e pelas suas condições laborais que, como lembra Carolina Oliveira Borges, cofundadora da Rumo, nem sempre são as melhores – “muitos estão em contratos temporários”, avisa.

 

Para o psiquiatra do Manicómio, seria também necessário “investir na medicina ocupacional para a saúde mental”. “Neste momento, os psiquiatras tornaram-se os escudos e os protetores de trabalhos tóxicos de pessoas que adoecem através de baixas médicas para não regressarem a trabalhos onde provavelmente voltarão a adoecer se regressarem. Por isso, enquanto as empresas não se consciencializarem para promover a saúde mental dentro dos seus espaços de trabalho, acho que a medicina ocupacional devia ser mais dominante na garantia da saúde mental, seja através da prescrição de modificações nas condições de trabalho, seja por o regresso ao trabalho poder ser faseado”, explica.

 

A mudança de paradigma parece não estar longe. O segredo, acredita Shenia Karlsson, está em perceber que vivemos uma “existência coletiva”, distanciada da individualização promovida pelo conhecimento eurocêntrico. Célio Dias parece concordar: “Todos queremos as mesmas coisas, mas temos diferentes modos de batalhar, e acho que o requinte estaria em percebermos como podemos batalhar juntos e não de formas polarizadas.” E tal como qualquer pessoa pode ter, a dado momento, uma doença mental, trabalhar pela defesa da saúde mental é uma tarefa de todos. “Educação para a saúde mental, falar sobre o assunto desde sempre, e pressionar os governos para que exista uma responsabilidade para criar postos de emprego para profissionais de saúde mental” é a chave da mudança aos olhos de Marta Guerreiro. O caminho far-se-á por aí.

 

Contactos e Serviços Disponíveis

Se sentires que precisas de ajuda, ou conheces alguém nessa situação, podes recorrer a vários serviços fidedignos:

Linhas de Crise

 

SOS Voz Amiga

15h30 – 0h30
213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660
Website: sosvozamiga.org

Conversa Amiga

15h00 – 22h00
808 237 327 | 210 027 159

Vozes Amigas de Esperança de Portugal 

16h00 – 22h00
222 030 707

Telefone da Amizade 

16h00 – 23h00
222 080 707

Voz de Apoio

21h00 – 24h00
225 506 070
Email: sos@vozdeapoio.pt

APAV 

8h00 – 22h00
166 006

Centro GIS

E-mail: gis@associacaoplanoi.org
966 090 117

Número Nacional de Emergência Médica

 112

SNS24 (Serviço Nacional de Saúde)

808 24 24 24

Internet

 

Programa Nacional para a Saúde Mental

Website: www.saudemental.min-saude.pt

Serviço Nacional de Saúde

Website: www.sns.gov.pt

Direção-Geral da Saúde

Website: www.dgs.pt

Sociedade Portuguesa de Suicidologia

Website: www.spsuicidologia.com

Campanha Nacional de Prevenção do Suicídio

Website: prevenirsuicidio.pt

iFightDepression

Website: ifightdepression.com/pt/start

Organização Mundial de Saúde

Website: www.who.int/health-topics/suicide (em inglês)

International Association for Suicide Prevention

Website: iasp.info (em inglês)

American Association of Suicidology

Website: suicidology.org (em inglês)

American Foundation for Suicide Prevention

Website: afsp.org (em inglês)

Sobre Viver Depois do Suicídio n

Website: facebook.com/depoisdosuicidio/

Esta foi a reportagem de capa publicada na Revista Gerador 36. Podes comprar a revista aqui

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