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Apesar de ser a geração mais instruída de sempre, é comum encontrar jovens com planos na gaveta durante largos anos. Nesta Reportagem Essencial, abordamos o acesso a um mercado de trabalho competitivo, que é feito de rampas constantes, de precariedade continuada e de desafios intergeracionais.

 

Algo apontado por grande parte dos jovens como primeira oportunidade são os estágios profissionais. É de ressalvar que estes estágios são promovidos pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), no âmbito da medida ATIVAR.PT, e têm como mote promover a integração profissional dos jovens desempregados que tenham adquirido um novo nível de qualificações. Funcionam também como um apoio às empresas, que veem a bolsa de estágio ser comparticipada entre 65 % a 80 %, sendo que um jovem licenciado tem direito a uma bolsa de 789,86 €.

 

Fomos à procura de experiências de jovens recém-licenciados para perceber os seus desafios e identificar os tipos de precariedade laboral existentes em contextos de início de carreira. Conhece os testemunhos.

Micael Silva, 25 anos
Operador de loja em part time
Ana Afonso, 28 anos
Professora emigrada em Inglaterra
Sofia Oliveira | 26 anos
Estágio profissional em Design Industrial

 

«Tenho de cada vez mais de me adaptar a criar as minhas próprias oportunidades, porque não há outra forma»

 

Micael Silva, de 25 anos, diz estar a criar as suas próprias oportunidades. Tem o objetivo de fazer a diferença em Portalegre, onde nasceu e cresceu. «Não me vejo a ir embora daqui, vejo-me a lutar até conseguir. Quando não conseguir mais, aí talvez me vá embora.» Licenciou-se em Gestão, mas depressa percebeu que era pela vertente do marketing que queria enveredar.

Atualmente, trabalha numa loja, em part time. «Tenho sobrevivido assim, entre isso e fazendo uns biscates de vez em quando.» Na entrevista, conta que se juntou recentemente com a namorada e ambicionam construir uma casa e investir num negócio de alojamento local. No entanto, neste momento, «a ganhar cerca de 450€ por mês, não consigo investir, nem em mim, nem na minha vida.» Recentemente tirou um curso de formador e está também a tentar angariar empresas para começar a fazer consultoria.

Por observar que o mercado de trabalho está muito competitivo, a psicóloga Filipa de Lima sugere que se deve procurar fazer a diferença através da obtenção de mais competências. 
«Se toda a gente tem estudos, é importante apostar para além disso.» Dá o exemplo de formações ou workshops, voluntariado e construir redes de contacto com profissionais na sua área de interesse. 
«A proatividade e as soft skills são, hoje, a chave para o sucesso na procura de emprego, até porque, agora, procura-se uma pessoa para várias funções.»


 

 

 

«O clima de emprego em Portugal, em 2013, estava horrível. Havia falta de visão»

 

Corria o ano de 2013, quando Ana Afonso, de 28 anos, deixou a Covilhã, aos 21 anos, esperançosa, para ir à procura de melhores oportunidades. Na altura, já licenciada em Biologia Humana, recorda que o clima de emprego em Portugal era «horrível, havia falta de visão».

«Na altura, não sabia se ia ficar muito tempo ou não, não tinha ideia do que ia acontecer», relembra Ana. Desde então, já lá vão sete anos. Apesar de Ana ter arriscado, conta que, depois de se mudar para Inglaterra, foi «abençoada» porque encontrou trabalho fixo numa famosa cadeia de restaurantes, onde foi promovida e passou a dar formação. Apesar de não ser o cenário ideal para um recém-licenciado e de obrigar a uma constante adaptação, interessou-se pelo ensino. Acabou por fazer uma pós-graduação para poder lecionar em Inglaterra e hoje é professora de Biologia.

Na entrevista, Ana não esconde que o «desenrasque» típico português lhe dá muito jeito e que, nos dias de sol, se vê preenchida com nostalgia e memórias. Tem certos hábitos que a fazem voltar a casa.

Ouvir rádio portuguesa é um deles. Já quando há mais saudades, «há que fazer a comida como a mãe faz», afirma orgulhosa. Nem tudo é um mar de rosas e, às vezes, «dá vontade de pegar em tudo e voltar».

 

«Tinha noção de que, infelizmente, não teria muitas saídas profissionais na minha cidade»

 

Sofia Oliveira tem 26 anos e cresceu no interior do país, na Covilhã. Mas nunca teve muitas expectativas em encontrar emprego na área perto da sua cidade. O gosto pelas artes levou Sofia à licenciatura e mestrado em Design Industrial, porém «tinha noção de que, infelizmente, não teria muitas saídas profissionais na minha cidade».

Ainda assim, «fui tentando no pouco que havia a nível do interior, em que não obtive nenhum sucesso.» «Não me fiquei apenas pela procura de trabalho na área estudada», explica. Foi assistente de call center, mas não relembra como uma experiência positiva.

A pandemia não facilitou a procura de emprego. «Foi um grande obstáculo, que penso ter sido comum para muita gente. Muitas empresas tinham receio de fazer contratações que não conseguissem suportar». Contudo, foi este ano que a Sofia conseguiu encontrar a sua primeira oportunidade de trabalho: mas só como estágio profissional e, como previa, longe de casa, em Paços de Ferreira. Diz não corresponder exatamente àquilo que estudou. «Infelizmente o curso está um pouco mal estruturado».

Mas vê neste estágio perspetivas de futuro «Sei que a empresa onde estou a realizar o estágio pretende que fique após concluí-lo». A acontecer, reconhece como um ponto positivo. «Infelizmente poucas são as empresas que não descartam o estagiário após os nove meses.

Para a advogada Margarida Pinto, «o estágio é, muitas vezes, uma forma precária a nível laboral, que vem satisfazer as necessidades que não são temporárias.» «Falta ir ao terreno, ver as necessidades. Perceber o que correu mal para não se celebrar um contrato de trabalho após o estágio.» «Há uma série de situações que têm de, urgentemente, ser reguladas», garante a advogada, referindo que existem outras situações em que, de facto, há um grande desrespeito pela lei. Dá o exemplo do uso abusivo de recibos verdes ou das bolsas de investigação — «a maior parte dos bolseiros têm o grau de doutoramento, com situações de trabalho bastante precárias». «Há diversas formas de vínculos laborais, neste momento que, a meu ver, limitam, e muito, os nossos direitos fundamentais e, depois, claro, há as consequências inevitáveis.»

 

 

Beatriz Freitas-Branco, 23 anos
Redatora de conteúdos, contrato sem termo
Fernando Teixeira, 26 anos
Estágio profissional em Advocacia
Joana (nome fictício), 24 anos
Jornalista, contrato sem termo

 

«Foi um período muito incerto para todo o país, e a empresa preferiu mandar embora as pessoas que estavam lá em período experimental»

 

Beatriz Freitas-Branco, de 23 anos e natural de Lisboa, admite ter tido sorte na entrada no mercado de trabalho, por ter surgido uma primeira oportunidade na sua área de formação relativamente rápido. Licenciou-se em Jornalismo e não tardou a encontrar emprego com contrato sem termo, o que não reflete a realidade dos contratos de trabalho.

As coisas corriam bem para Beatriz até que, faltando duas semanas para terminar o período experimental de seis meses do seu contrato, todos foram mandados para casa, em março de 2020, devido à covid-19. «Foi um período muito incerto para todo o país, e a empresa preferiu mandar embora as pessoas que estavam lá em período experimental», explica Beatriz.

Apesar de, depois de alguns meses, a empresa que a tinha anteriormente dispensado a ter convidado a voltar, confessa que durante a procura de novo trabalho foi um momento «muito frustrante». Durante esse período, partilhou a sua experiência no YouTube. Completou as duas semanas que lhe faltavam do período experimental e faz agora um ano que trabalha na empresa a contrato sem termo.

«Apesar de não ser o meu trabalho de sonho, não me posso queixar. Tenho muitos colegas que estão a recibos verdes», constata.

 

 

 

«A precariedade abre caminho ainda nas universidades»

 

Para Fernando Teixeira, a morar em Coimbra, a precariedade abre caminho ainda nas universidades, algo que considera ser transversal a diversas áreas de estudo. «A precariedade começa logo no acesso à universidade, na forma como é feita, de como se entra e o que se paga.»

Mas o caminho da precariedade é mais vincado assim que se deixa o ensino superior. Para o jovem de 26 anos, licenciado em Direito e pós-graduado em Direito do Trabalho, grande parte do problema está nos estágios após licenciatura. Na advocacia é necessário realizar um estágio curricular, de cerca de um ano e meio. Um estágio que, regra geral, não é remunerado. Ainda que formalmente não seja um trabalho, o jovem refere que as obrigações que se cumprem são as mesmas de uma relação assalariada.

Na entrevista, Fernando enumera outros problemas e acredita que «tudo isto passa por um objetivo da própria Ordem dos Advogados de manter a elitização da profissão e de não conseguir olhar para a realidade de hoje. E o objetivo é conseguido». Ao longo do percurso, muitos vão desistindo, conta.

 

 

Respondeu a um anúncio de emprego que referia contrato de trabalho. Após a entrevista, foi-lhe perguntado se estava em condições para fazer estágio profissional, o que acabou por acontecer. Está no segundo estágio profissional e não há meio de arranjar um vínculo permanente.

 

«É impossível sair de casa por minha conta continuando a trabalhar nesta empresa»

 

A ideia de sair de casa dos pais está muito distante para Joana (nome fictício). «É impossível sair de casa por minha conta continuando a trabalhar nesta empresa.» Conta que a sua situação precária começou quando se candidatou a um estágio profissional num jornal local, na zona do Porto, de onde é natural. A licenciada em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo, de 24 anos, esteve três meses em espera para que arrancasse o estágio, mas começou de imediato a trabalhar, ainda que não estando abrangida por um contrato de trabalho. A empresa não tinha as contas com a Segurança Social regularizadas e foi necessário mais tempo para a situação ficar normalizada.

De acordo com a advogada Margarida Pinto, esta é uma situação que devia ser regulada, encontrar uma solução para o tempo de espera para aprovação do estágio quando a empresa precisa de alguém em entrada imediata. «Se a empresa quer mesmo ou precisa daquela pessoa, esta deve ser remunerada por isso. O problema é que o estagiário não pode ter tido nenhum vínculo com a empresa antes do estágio.» É aqui que surge a lacuna na lei, explica.

«Recebia cerca de 250 € por mês»

 

A jovem jornalista viu a sua situação melhorar em fevereiro, quando o estágio profissional foi aprovado. Mas a pandemia logo a surpreendeu, em março. Recebeu o valor completo, a tempo e horas, de dois meses. Naquele momento, a empresa já tinha despedido funcionários e foi-lhe proposto receber a parte correspondente da empresa e, depois, quando o IEFP pagasse, o restante. Pensando tratar-se de uma situação temporária, aceitou. Nunca esperou que a situação se estendesse por dez longos meses. Depois de completar o estágio, ainda esperou mais três para receber o valor total. «Durante esse tempo, recebia cerca de 250 € por mês.»

A compartição na bolsa de estágios profissional por parte do IEFP acontece, geralmente, em três partes. «A lei diz que, primeiro, é o empregador que tem de pagar, e esperar ser reembolsado. Não é o estagiário que tem de sofrer essas consequências», sublinha a advogada. «Um estagiário nunca vai ser a mesma coisa que um trabalhador e não se podem confundir, até porque não tem os direitos de um trabalhador».

Terminado o estágio, em dezembro, e até maio, Joana esteve a trabalhar na empresa, mas sem contrato e sem garantias, sobretudo, «de que iam chegar ao final do mês e que me iam pagar». Agora, com contrato com termo, frisa a possibilidade de chegar até ao dia 15 ou 20 e não ter o salário completo. «Havendo dificuldades, pagam-me o ordenado partido.» As preocupações crescem e apenas o suporte familiar, nomeadamente o facto de viver em casa dos pais, permite que este período não seja insuportável.

A este propósito, a advogada Margarida Pinto afirma que os contratos com termo têm o objetivo de suprimir necessidades temporárias de uma empresa, por exemplo, para substituir alguém e, nesse caso, o contrato devia ter apenas a duração do período de substituição. A advogada salienta que é necessário ter em consideração se ainda há fundamento para esse contrato. «Muitas das vezes, já não é uma necessidade temporária, é uma necessidade efetiva».

 

 

Ricardo Domingos, 25 anos
Engenheiro Civil, contrato sem termo
Liliana Ferreira, 24 anos
Trabalhadora-estudante em Artes Plásticas
Vanessa Lopes, 26 anos
Estagiária não-renumerada em Comunicação

 

«Enquanto grande parte dos meus amigos tinham dúvidas do que realmente queriam seguir, eu tinha apenas um objetivo: ser Engenheiro Civil»

 

Desde tenra idade que tudo o que tinha gruas, andaimes, pedreiros e serventes em movimento despertava a atenção de Ricardo Domingos. «Venho do seio de uma família humilde, onde a vida sempre foi pautada pelo trabalho.»

Ser engenheiro civil era um objetivo e tornou-se um estudioso da matéria bem antes de o poder afirmar. «Enquanto grande parte dos meus amigos tinham dúvidas do que realmente queriam seguir, eu tinha apenas um objetivo: ser Engenheiro Civil».

O jovem natural de Faro, com 25 anos, formou-se em Engenharia Civil. Com convicções bem assentes, considera que, naquele momento, foi para onde ninguém queria ir. «Tinha a perspetiva de acabar a licenciatura numa altura de mudança de paradigma económico.»

Quando começou a procurar o seu primeiro trabalho na área, em 2016, sentiu que a oferta era reduzida e que havia pouco respeito pela profissão, tanto monetariamente, como no que era exigido ao trabalhador. Apesar disso, está agora empregado, mas também a tirar mestrado, porque considera que a licenciatura apenas dá bases para exercer a profissão.

Ricardo acredita que, atualmente, as empresas refugiam-se em estágios profissionais para chegar a profissionais «altamente qualificados» que desenvolvam trabalho especializado «quase de forma gratuita», com o Estado a encarregar-se de parte importante da remuneração. «Eu fui um deles e garanto que recebi mais em experiência do que em salário.» A recompensa de anos de estudo tarda a chegar, o que já o levou a ponderar o risco de sair do país. Porém, partilha que apenas o faria no caso de identificar a priori uma oportunidade de trabalho concreta no estrangeiro.

 

 

 

«Tenho mesmo de sair de Portugal»

 

Liliana Ferreira, de 24 anos, licenciada em Pintura e aluna de mestrado em Artes Plásticas, nas Caldas da Rainha, de onde é natural, pretende sair do país assim que terminar os estudos. «Tenho mesmo de sair de Portugal», desabafa em entrevista. «Querer ser artista em Portugal não é de todo fácil, sobretudo quando não se tem muitas possibilidades», explica. Sempre pensou em ter de emigrar e grande parte da minha família também o fez.

Liliana, que conjuga os estudos com o trabalho num restaurante, planeia ir para Londres, onde «há uma diversidade cultural enorme, e isso, para o trabalho de um artista, é muito importante». Ver outras culturas, abrir horizontes: «Perceber que o mundo não é isto, é muito mais».

 

 

 

 

 

«O país não está feito para jovens que vivem sozinhos e que precisam de pagar as contas»

 

Vanessa Lopes, de 26 anos, foi obrigada a parar de estudar no 9.º ano. Acredita que, infelizmente, a etnia é mais uma barreira na inserção profissional. Começou a trabalhar aos 18 anos e conta que, no início, não fazia menção à etnia cigana. «Acho que não temos de dizer, mas, depois, obviamente surge em conversa.»

Com receio, mudou a sua maneira de falar, a postura, a forma de vestir, tudo para que não se notasse. Fê-lo com medo do preconceito, que diz estar «enraizado».

A força de vontade foi maior e, mais tarde, completou o 12.º ano e formou-se em Ciências da Comunicação, conciliando os estudos com a vida laboral, em produção e realização de programas. Mas os tempos que se seguiram não foram fáceis. Ficou desempregada nos últimos meses da licenciatura, na pandemia. «Felizmente, já tinha preparado o meu caminho antes e juntado dinheiro para as propinas.»

Está licenciada desde o passado mês de junho e começou recentemente um estágio de três meses, não remunerado. Espera, entretanto, encontrar trabalho pago para conciliar.

Desiludida, aponta que um dos problemas do mercado de trabalho é o facto de as empresas não quererem ter despesas e manter as pessoas durante muito tempo. Refere ainda que como o país não está feito para pessoas como ela, «jovens que vivem sozinhos e que precisam de pagar as contas».

 

 

Francisco Azul , 28 anos
Técnico no Alto Comissariado para as Migrações
Rita Almeida, 24 anos
Estágio profissional em Recursos Humanos
Sara Castro, 25 anos
Auxiliar de ação educativa, vínculo efetivo

 

«Agradeço ao programa de realojamento que ajudou famílias necessitadas, mas é também necessário continuarmos a apostar nestas políticas de habitação»

 

Francisco Azul, de 28 anos, afirma que nunca escondeu a etnia. «Nem tinha de o fazer, enquanto português cigano tenho muito orgulho nas minhas raízes», reforça. Apesar de ter tido uma entrada natural no mercado de trabalho, sabe que essa não é a realidade para muitos jovens ciganos, que, por isso, «já esconderam a sua pertença à comunidade cigana».

Na gratidão ao programa de realojamento, que ajudou famílias necessitadas, Francisco destaca a necessidade de se continuar a apostar em políticas de habitação inclusivas. «Foi o que me tornou no que sou hoje.»

O desporto acompanhou-o, seja no percurso escolar, seja nos sonhos. Decidiu ir para a licenciatura em Serviço Social, com o objetivo de aliar o desporto com a integração social em meios mais desfavorecidos.

Ter pessoas ciganas na malha urbana, a conviver com pessoas não ciganas, seria, para Francisco, o melhor projeto social, mas aponta que ainda há muitos entraves nos arrendamentos.

 

«Eu era a única pessoa negra naquele grupo de alunos e a única a ser colocada naquela posição.»

 

De espírito aventureiro, Rita Almeida, de 24 anos, após a licenciatura em Sociologia e sem saber ao certo o que queria fazer a seguir, foi para a Bélgica tirar um ano sabático. Aprendeu a língua, viajou e trabalhou como babysitting.

Foi nesse ano que percebeu que gostava de investir na área da comunicação. Quando voltou para Sintra, de onde é natural, inscreveu-se numa pós-graduação em jornalismo, que corria bem até chegar a altura do estágio curricular.

Foi a única do grupo de alunos que não teve oportunidade de fazer jornalismo, ficando num estágio de produção. «Eu era a única pessoa negra naquele grupo de alunos e a única a ser colocada naquela posição.» Sem conseguir aceitar o porquê, ganhou coragem e começou por reclamar o seu direito. «Eu não ia terminar o meu estágio sem fazer jornalismo, mas foi visto como um ataque, e, para mim, foi evidente que aquilo se tratava de um caso de racismo.» Sentiu-o em vários momentos.

Após terminar o estágio, foi a única que não ficou, num grupo de cerca de dez estagiários. Com algum receio de que a situação de preconceito volte a acontecer, Rita decidiu afastar-se do jornalismo.

Ainda que lhe tenham sido trocadas as voltas, encontrou uma oportunidade na área dos recursos humanos, em estágio profissional. Apesar de não ser a área que lhe interessa, foi surpreendida por uma equipa respeitadora.

 

 

 

«É frustrante investir no nosso percurso escolar e no fim ganhar um salário em que apenas seria necessário possuir o 12° ano de escolaridade»

 

Sara Castro tem 25 anos e é natural de Santa Maria da Feira. Licenciou-se em Serviço Social e, ainda no decorrer do mestrado, em Ciências da Educação, foram várias as tentativas para entrar no mercado de trabalho. No entanto, a resposta mais ouvida foi: «Não corresponde ao perfil que procuramos.» «As instituições de cariz social procuram profissionais com muitos anos de experiência.»

A advogada Margarida Pinto defende que devia haver uma ponte entre as universidades e o mercado de trabalho. É com o objetivo de ajudar nessa ligação que existem os Gabinetes de Inserção Profissional (GIP), como é o caso do GIP da Universidade do Minho. É um serviço que concede apoio a jovens e adultos desempregados no percurso de inserção no mercado de trabalho, em cooperação com as unidades locais do IEFP. No entanto, a entidade reconhece que «os estudantes não procuram o GIP tanto quanto o poderiam fazer, por desconhecimento ou desinteresse, assim, procuramos manter um papel ativo no seio da comunidade académica».

Candidatou-se para estágio profissional na sua área, e após realização de várias entrevistas para uma instituição, foi a escolhida. «Recordo-me de ter ficado feliz, mas com o pressentimento de que algo não estaria correto.» Ao longo do processo, os recrutadores nunca foram objetivos. Na última reunião, na qual iria assinar contrato de estágio profissional, foi informada de que estavam a precisar de uma profissional para fazer horário noturno numa casa de «emancipação de jovens com deficiência». «Perante este cenário, compreendi de imediato que seria impossível realizar projetos e o trabalho de Assistente Social, uma vez que as pessoas estariam a dormir.»

«Cheguei a receber email de lojas de roupa, referindo que a minha escolaridade era muito elevada»

Como resposta à adversidade, Sara começou também a enviar currículos para outras áreas. «Cheguei a receber email de lojas de roupa, referindo que a minha escolaridade era muito elevada.»
Agora, está efetiva numa Instituição Particular de Solidariedade Social como auxiliar de ação educativa, onde trabalha há cerca de dois anos. Apesar de não se sentir concretizada naquilo que faz, reconhece que este emprego dá alguma estabilidade. «É frustrante investir no nosso percurso escolar e, no fim, ganhar um salário em que apenas seria necessário ter o 12. ° ano de escolaridade.»

 

 

A inserção laboral pode tomar formas conturbadas, mas a resistência dos sonhos faz-se notar em muitos jovens. Contudo, a desproteção e instabilidade laboral leva, muitas vezes, a problemas de saúde mental e de exclusão.
A psicóloga Filipa de Lima defende que, nestas alturas, é importante que as pessoas não se autorresponsabilizem, mas que não deixem de ter uma postura ativa. «Quanto mais pensamos que somos únicos no ato falhado, mais peso acarreta em cima de nós.»

 

Esta reportagem, criada no
âmbito da Bolsa Gerador
Ciência Viva para jovens jornalistas
,
foi inicialmente publicada na
Revista Gerador 36, que podes
comprar aqui:

 

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