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Apesar de ser a geração mais instruída de sempre, é comum encontrar jovens com planos na gaveta durante largos anos. Nesta Reportagem Essencial, abordamos o acesso a um mercado de trabalho competitivo, que é feito de rampas constantes, de precariedade continuada e de desafios intergeracionais.

 

Algo apontado por grande parte dos jovens como primeira oportunidade são os estágios profissionais. É de ressalvar que estes estágios são promovidos pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), no âmbito da medida ATIVAR.PT, e têm como mote promover a integração profissional dos jovens desempregados que tenham adquirido um novo nível de qualificações. Funcionam também como um apoio às empresas, que veem a bolsa de estágio ser comparticipada entre 65 % a 80 %, sendo que um jovem licenciado tem direito a uma bolsa de 789,86 €.

 

Fomos à procura de experiências de jovens recém-licenciados para perceber os seus desafios e identificar os tipos de precariedade laboral existentes em contextos de início de carreira. Conhece os testemunhos.

 

«Tenho de cada vez mais de me adaptar a criar as minhas próprias oportunidades, porque não há outra forma»

 

Micael Silva, de 25 anos, diz estar a criar as suas próprias oportunidades. Tem o objetivo de fazer a diferença em Portalegre, onde nasceu e cresceu. «Não me vejo a ir embora daqui, vejo-me a lutar até conseguir. Quando não conseguir mais, aí talvez me vá embora.» Licenciou-se em Gestão, mas depressa percebeu que era pela vertente do marketing que queria enveredar.

Atualmente, trabalha numa loja, em part time. «Tenho sobrevivido assim, entre isso e fazendo uns biscates de vez em quando.» Na entrevista, conta que se juntou recentemente com a namorada e ambicionam construir uma casa e investir num negócio de alojamento local. No entanto, neste momento, «a ganhar cerca de 450€ por mês, não consigo investir, nem em mim, nem na minha vida.» Recentemente tirou um curso de formador e está também a tentar angariar empresas para começar a fazer consultoria.

Por observar que o mercado de trabalho está muito competitivo, a psicóloga Filipa de Lima sugere que se deve procurar fazer a diferença através da obtenção de mais competências. 
«Se toda a gente tem estudos, é importante apostar para além disso.» Dá o exemplo de formações ou workshops, voluntariado e construir redes de contacto com profissionais na sua área de interesse.
«A proatividade e as soft skills são, hoje, a chave para o sucesso na procura de emprego, até porque, agora, procura-se uma pessoa para várias funções.»


 

 

 

«O clima de emprego em Portugal, em 2013, estava horrível. Havia falta de visão»

 

Corria o ano de 2013, quando Ana Afonso, de 28 anos, deixou a Covilhã, aos 21 anos, esperançosa, para ir à procura de melhores oportunidades. Na altura, já licenciada em Biologia Humana, recorda que o clima de emprego em Portugal era «horrível, havia falta de visão».

«Na altura, não sabia se ia ficar muito tempo ou não, não tinha ideia do que ia acontecer», relembra Ana. Desde então, já lá vão sete anos. Apesar de Ana ter arriscado, conta que, depois de se mudar para Inglaterra, foi «abençoada» porque encontrou trabalho fixo numa famosa cadeia de restaurantes, onde foi promovida e passou a dar formação. Apesar de não ser o cenário ideal para um recém-licenciado e de obrigar a uma constante adaptação, interessou-se pelo ensino. Acabou por fazer uma pós-graduação para poder lecionar em Inglaterra e hoje é professora de Biologia.

Na entrevista, Ana não esconde que o «desenrasque» típico português lhe dá muito jeito e que, nos dias de sol, se vê preenchida com nostalgia e memórias. Tem certos hábitos que a fazem voltar a casa.

Ouvir rádio portuguesa é um deles. Já quando há mais saudades, «há que fazer a comida como a mãe faz», afirma orgulhosa. Nem tudo é um mar de rosas e, às vezes, «dá vontade de pegar em tudo e voltar».

 

«Foi um período muito incerto para todo o país, e a empresa preferiu mandar embora as pessoas que estavam lá em período experimental»

 

Beatriz Freitas-Branco, de 23 anos e natural de Lisboa, admite ter tido sorte na entrada no mercado de trabalho, por ter surgido uma primeira oportunidade na sua área de formação relativamente rápido. Licenciou-se em Jornalismo e não tardou a encontrar emprego com contrato sem termo, o que não reflete a realidade dos contratos de trabalho.

As coisas corriam bem para Beatriz até que, faltando duas semanas para terminar o período experimental de seis meses do seu contrato, todos foram mandados para casa, em março de 2020, devido à covid-19.

 

«Foi um período muito incerto para todo o país, e a empresa preferiu mandar embora as pessoas que estavam lá em período experimental», explica Beatriz.

Apesar de, depois de alguns meses, a empresa que a tinha anteriormente dispensado a ter convidado a voltar, confessa que durante a procura de novo trabalho foi um momento «muito frustrante». Durante esse período, partilhou a sua experiência no YouTube. Completou as duas semanas que lhe faltavam do período experimental e faz agora um ano que trabalha na empresa a contrato sem termo.

«Apesar de não ser o meu trabalho de sonho, não me posso queixar. Tenho muitos colegas que estão a recibos verdes», constata.

 

 

 

«A precariedade abre caminho ainda nas universidades»

 

Para Fernando Teixeira, a morar em Coimbra, a precariedade abre caminho ainda nas universidades, algo que considera ser transversal a diversas áreas de estudo. «A precariedade começa logo no acesso à universidade, na forma como é feita, de como se entra e o que se paga.»

Mas o caminho da precariedade é mais vincado assim que se deixa o ensino superior. Para o jovem de 26 anos, licenciado em Direito e pós-graduado em Direito do Trabalho, grande parte do problema está nos estágios após licenciatura. Na advocacia é necessário realizar um estágio curricular, de cerca de um ano e meio. Um estágio que, regra geral, não é remunerado. Ainda que formalmente não seja um trabalho, o jovem refere que as obrigações que se cumprem são as mesmas de uma relação assalariada.

Na entrevista, Fernando enumera outros problemas e acredita que «tudo isto passa por um objetivo da própria Ordem dos Advogados de manter a elitização da profissão e de não conseguir olhar para a realidade de hoje. E o objetivo é conseguido». Ao longo do percurso, muitos vão desistindo, conta.

 

 

Respondeu a um anúncio de emprego que referia contrato de trabalho. Após a entrevista, foi-lhe perguntado se estava em condições para fazer estágio profissional, o que acabou por acontecer. Está no segundo estágio profissional e não há meio de arranjar um vínculo permanente.

 

«Enquanto grande parte dos meus amigos tinham dúvidas do que realmente queriam seguir, eu tinha apenas um objetivo: ser Engenheiro Civil»

 

Desde tenra idade que tudo o que tinha gruas, andaimes, pedreiros e serventes em movimento despertava a atenção de Ricardo Domingos. «Venho do seio de uma família humilde, onde a vida sempre foi pautada pelo trabalho.»

Ser engenheiro civil era um objetivo e tornou-se um estudioso da matéria bem antes de o poder afirmar. «Enquanto grande parte dos meus amigos tinham dúvidas do que realmente queriam seguir, eu tinha apenas um objetivo: ser Engenheiro Civil».

O jovem natural de Faro, com 25 anos, formou-se em Engenharia Civil. Com convicções bem assentes, considera que, naquele momento, foi para onde ninguém queria ir. «Tinha a perspetiva de acabar a licenciatura numa altura de mudança de paradigma económico.»

Quando começou a procurar o seu primeiro trabalho na área, em 2016, sentiu que a oferta era reduzida e que havia pouco respeito pela profissão, tanto monetariamente, como no que era exigido ao trabalhador. Apesar disso, está agora empregado, mas também a tirar mestrado, porque considera que a licenciatura apenas dá bases para exercer a profissão.

Ricardo acredita que, atualmente, as empresas refugiam-se em estágios profissionais para chegar a profissionais «altamente qualificados» que desenvolvam trabalho especializado «quase de forma gratuita», com o Estado a encarregar-se de parte importante da remuneração. «Eu fui um deles e garanto que recebi mais em experiência do que em salário.» A recompensa de anos de estudo tarda a chegar, o que já o levou a ponderar o risco de sair do país. Porém, partilha que apenas o faria no caso de identificar a priori uma oportunidade de trabalho concreta no estrangeiro.

 

 

 

«Tenho mesmo de sair de Portugal»

 

Liliana Ferreira, de 24 anos, licenciada em Pintura e aluna de mestrado em Artes Plásticas, nas Caldas da Rainha, de onde é natural, pretende sair do país assim que terminar os estudos. «Tenho mesmo de sair de Portugal», desabafa em entrevista. «Querer ser artista em Portugal não é de todo fácil, sobretudo quando não se tem muitas possibilidades», explica. Sempre pensou em ter de emigrar e grande parte da minha família também o fez.

Liliana, que conjuga os estudos com o trabalho num restaurante, planeia ir para Londres, onde «há uma diversidade cultural enorme, e isso, para o trabalho de um artista, é muito importante». Ver outras culturas, abrir horizontes: «Perceber que o mundo não é isto, é muito mais».

 

 

 

 

 

«Agradeço ao programa de realojamento que ajudou famílias necessitadas, mas é também necessário continuarmos a apostar nestas políticas de habitação»

 

Francisco Azul, de 28 anos, afirma que nunca escondeu a etnia. «Nem tinha de o fazer, enquanto português cigano tenho muito orgulho nas minhas raízes», reforça. Apesar de ter tido uma entrada natural no mercado de trabalho, sabe que essa não é a realidade para muitos jovens ciganos, que, por isso, «já esconderam a sua pertença à comunidade cigana».

Na gratidão ao programa de realojamento, que ajudou famílias necessitadas, Francisco destaca a necessidade de se continuar a apostar em políticas de habitação inclusivas. «Foi o que me tornou no que sou hoje.»

O desporto acompanhou-o, seja no percurso escolar, seja nos sonhos. Decidiu ir para a licenciatura em Serviço Social, com o objetivo de aliar o desporto com a integração social em meios mais desfavorecidos.

No segundo ano, em 2016, foi convidado a trabalhar no Alto Comissariado para as Migrações, no núcleo de apoio às comunidades ciganas. Desde então, desenvolve trabalho como técnico nesse núcleo do Alto Comissariado para as Migrações. Os bons resultados estão à vista.

Ter pessoas ciganas na malha urbana, a conviver com pessoas não ciganas, seria, para Francisco, o melhor projeto social, mas aponta que ainda há muitos entraves nos arrendamentos.

 

«Eu era a única pessoa negra naquele grupo de alunos e a única a ser colocada naquela posição.»

 

De espírito aventureiro, Rita Almeida, de 24 anos, após a licenciatura em Sociologia e sem saber ao certo o que queria fazer a seguir, foi para a Bélgica tirar um ano sabático. Aprendeu a língua, viajou e trabalhou como babysitting.

Foi nesse ano que percebeu que gostava de investir na área da comunicação. Quando voltou para Sintra, de onde é natural, inscreveu-se numa pós-graduação em jornalismo, que corria bem até chegar a altura do estágio curricular.

Foi a única do grupo de alunos que não teve oportunidade de fazer jornalismo, ficando num estágio de produção. «Eu era a única pessoa negra naquele grupo de alunos e a única a ser colocada naquela posição.» Sem conseguir aceitar o porquê, ganhou coragem e começou por reclamar o seu direito. «Eu não ia terminar o meu estágio sem fazer jornalismo, mas foi visto como um ataque, e, para mim, foi evidente que aquilo se tratava de um caso de racismo.» Sentiu-o em vários momentos.

 

Após terminar o estágio, foi a única que não ficou, num grupo de cerca de dez estagiários. Com algum receio de que a situação de preconceito volte a acontecer, Rita decidiu afastar-se do jornalismo.

Ainda que lhe tenham sido trocadas as voltas, encontrou uma oportunidade na área dos recursos humanos, em estágio profissional. Apesar de não ser a área que lhe interessa, foi surpreendida por uma equipa respeitadora.

 

 

A inserção laboral pode tomar formas conturbadas, mas a resistência dos sonhos faz-se notar em muitos jovens. Contudo, a desproteção e instabilidade laboral leva, muitas vezes, a problemas de saúde mental e de exclusão.
A psicóloga Filipa de Lima defende que, nestas alturas, é importante que as pessoas não se autorresponsabilizem, mas que não deixem de ter uma postura ativa. «Quanto mais pensamos que somos únicos no ato falhado, mais peso acarreta em cima de nós.»

 

Esta reportagem, criada no
âmbito da Bolsa Gerador
Ciência Viva para jovens jornalistas
,
foi inicialmente publicada na
Revista Gerador 36, que podes
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