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Reportagem de Sofia Craveiro
Edição de Tiago Sigorelho
Design de Frederico Pompeu
Digital de Inês Roque
Comunicação de Carolina Esteves e Margarida Marques
27.04.2026
Quando em setembro de 2025 foram revelados os números relativos à última fase do Concurso Nacional de Acesso (CNA) ao Ensino Superior, um dado gerou preocupação: foram colocados menos cerca de 10% de estudantes face ao ano lectivo anterior, o que representa uma queda de mais de 5 mil candidatos.
Olhando os dados mais de perto, em 2025 foram colocados 45.290 novos estudantes. Em 2024 o número ascendia a 50.612. Na altura, foram apontadas várias razões para esta diminuição tão significativa, que criou alarme entre os especialistas, dirigentes associativos, responsáveis políticos e entidades competentes.
O elevado custo do alojamento, a exagerada burocracia nas candidaturas e a mudança nos requisitos necessários para concluir o ensino secundário foram algumas das razões apontadas. Esta última foi particularmente destacada.
A pandemia de covid-19 motivou a flexibilização das regras de acesso ao ensino superior. Os exames nacionais deixaram de ser obrigatórios para concluir o ensino secundário, passaram a ser requeridos apenas para quem pretendia seguir para o superior e só às disciplinas específicas de cada área. Também a própria estrutura dos exames nacionais foi ajustada com questões opcionais, uma medida aplicada pelo governo de António Costa para, de alguma forma, minimizar os efeitos do confinamento nas aprendizagens.
Tudo isto culminou num aumento significativo do número de candidatos no ano lectivo de 2021/2022: a primeira fase do CNA às universidades e politécnicos reuniu 63 878 candidaturas, mais 11 mil em comparação com as vagas disponibilizadas inicialmente e o maior número registado desde 1996.
Em 2023, as alterações feitas em contexto pandémico foram revertidas, o que mudou novamente as regras, que entraram em vigor a partir do ano lectivo 2025/2026. Assim, passaram a ser necessários, pelo menos, três exames para concluir o ensino secundário: um de Português e dois de disciplinas diferentes. Este elemento foi particularmente impactante e, acredita o Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, aquele que fundamenta a drástica queda de candidaturas ao CNA registadas no presente ano lectivo: “aquilo que explica este resultado foram, de facto, as mudanças das condições para a conclusão do secundário, com os exames nacionais, que passaram a ser novamente obrigatórios para a conclusão do secundário, e as duas provas de ingresso no ensino superior.”
“Não é, apesar de tudo, nada que não fosse expectável”, acrescentou o ministro, a 2 de outubro de 2025, em declarações aos jornalistas. “No fundo, voltamos a ter as mesmas condições de acesso que tínhamos em 2019, e os dados [deste ano] ficaram em linha com os de 2019. A diminuição é fundamentalmente explicada por isso”, frisou.
Em resposta por escrito ao pedido de esclarecimento feito pelo Gerador, a tutela refere que
“de facto, a taxa de conclusão do secundário regressou a níveis próximos de 2018/19 (cerca de 75%), após vários anos acima de 80% durante o período em que vigoraram as regras implementadas na pandemia (2019/20-2023/24). No entanto, esta evolução também se verificou nos cursos profissionais, onde não existem exames nacionais, o que sugere que a redução poderá estar sobretudo associada ao fim de um período excecional de menor exigência, e não exclusivamente à reintrodução dos exames”. Além disso, “um menor número de diplomados pode, por si só, ter contribuído para a diminuição de candidatos ao Ensino Superior”, diz o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI).
“Em 2025, cerca de 80% dos cursos passaram de uma para duas provas, tendo-se observado uma redução particularmente acentuada de colocados nesses cursos, ao contrário do que aconteceu nos que mantiveram duas ou três provas. Estima-se que esta medida esteja associada a mais de 40% da quebra de colocados no CNA”, sublinha ainda o MECI.

*1º fase CNA
Fonte: Direção-Geral do Ensino Superior
Diogo Machado, Presidente da Federação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Superior Politécnico (FNAEESP), diz que o problema está mesmo na alteração de critérios: “Foi um retrocesso ter-se mudado a fórmula de acesso, colocando mais uma prova [de ingresso]”, afirma o dirigente. “Nós consideramos que um estudante que quer ingressar no ensino superior e quer aceder a esta formação, deve apenas fazer as provas de ingresso que são específicas e necessárias à sua área de formação. Portanto, se o estudante quer ingressar, por exemplo, em engenharia, tem que fazer um exame de matemática ou de física”, esclarece.
Esta foi a “principal razão” para a grande queda do número de novos alunos, acredita também Luís Loures, Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), que diz ter ficado, à partida, diminuído o número de estudantes que concluem o secundário e, portanto, de potenciais candidatos. “A pergunta que devíamos estar a fazer é se, efetivamente, estas ‘novas condições’ garantem alguma coisa de positivo, porque a resposta é fácil e é não”.
O investigador Pedro Luís Silva considera que é cedo para alarmismos, visto que um ano lectivo não é suficiente para retirar conclusões sobre uma tendência de decréscimo a longo prazo. “Nós tivemos mais gente a concluir o ensino secundário nesses anos [pós-pandemia] e, portanto, naturalmente, mais gente a entrar no ensino superior”, frisa o especialista do Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior (CIPES) da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP). “Nós podemos ter tido – e isso ainda não está analisado -, por exemplo, gente que entrou [no ensino superior], e não teve que fazer exames nacionais obrigatórios para conclusão do secundário, pois não sabemos se o seu abandono, relacionado com essa primeira questão, se manteve ou não”, já que podem ter-se candidatado por outras vias ou feito apenas as provas de ingresso no ano seguinte, por exemplo.
Além disso, a diminuição da exigência aquando dos processos de candidatura pode deixar dúvidas quanto ao desempenho dos estudantes. “Muitas vezes discute-se a questão do acesso sem suceder a questão do sucesso”, acrescenta.
Não obstante, Pedro Luís Silva acredita que a diminuição do número de candidatos foi o resultado de “uma combinação de fatores”, que vão desde a mudança nas regras de acesso, a fatores demográficos, aumento de custos de alojamento, etc.
A tutela informou estar em curso uma “análise” da situação, “através de um estudo que será publicado em breve”. Diz, apesar disso, que a redução de candidatos também pode estar relacionada com a demografia: “Portugal apresenta uma forte dependência de estudantes jovens recém-diplomados do Ensino Secundário e enfrenta uma tendência de diminuição dessa população. Segundo a OCDE, projeta-se uma redução de cerca de 14% no grupo dos 15–19 anos e de 18% nos 20–24 anos entre 2025 e 2040. Este contexto reforça a necessidade de diversificar os perfis de entrada no Ensino Superior, nomeadamente através da captação de adultos”, lê-se, nas respostas escritas enviadas ao Gerador.
“Estudar no ensino superior custa dinheiro, não é? Para muitas famílias, até da classe média, é muito difícil ter um filho a estudar fora, mas essas condições não se alteraram assim tanto desde [o ano lectivo] 2024/ 2025 para 2025/2026. Na verdade, essas condições, essas dificuldades financeiras e de alojamento, têm sido vividas pelos nossos estudantes já há alguns anos”, explica, por sua vez, a investigadora Susana da Cruz Martins, socióloga e investigadora no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa.
“O que há de verdadeiramente novo de um ano para o outro é a mudança do modelo de conclusão do ensino secundário e de acesso ao ensino superior”, refere a especialista, que também aponta esta como a principal razão para a diminuição do número de candidatos. “Não me parece que tenha havido um problema maior e a sua reintrodução [de mais provas de ingresso] neste último ano acho que prejudicou alguns alunos nas possibilidades de acederem ao ensino superior”, acrescenta.
Certo é que as normas foram novamente alteradas. Uma simulação da tutela mostrou que, se continuasse a ser necessária apenas uma prova de ingresso, teria havido, supostamente, mais cerca de 20 000 colocações na 1.ª fase do CNA. Assim, em fevereiro deste ano, Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República ainda em exercício na altura, promulgou – com reservas assumidas -, a lei que deixa ao critério das instituições de ensino superior a exigência de uma, duas ou três provas de ingresso aos seus candidatos. Este requisito passa, assim, a ser definido por cada instituição.
Para o próximo CNA, “das 1.519 composições possíveis entre instituição e curso que podiam optar por um único exame, 1.330 decidiram fixar pelo menos um elenco com apenas uma prova de ingresso, o que corresponde a 88% do total”, diz o MECI.
Haverá, no entanto, outros fatores a considerar? Que problemas persistem no sistema de ensino superior português? Enquanto diminui o número de candidatos – e, consequentemente, de colocados -, aumentam as desistências, havendo cada vez mais estudantes a abandonar os cursos.
Vejamos um exemplo.
Inicialmente, Diogo Cândido esforçou-se muito para conseguir pagar as propinas e assegurar a licenciatura em Engenharia Electrodinâmica e Computadores no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, na qual ingressou em 2015. Na altura tinha 18 anos e a convicção de que o seu percurso profissional iria necessariamente ser precedido pela conclusão do ensino superior.
Enquanto estudante bolseiro, Diogo “pagava” o apoio que recebia para propinas através de um trabalho de 15 horas por semana na universidade, onde fazia digitalizações de teses. Natural de Oeiras, vivia em casa dos pais, pelo que não tinha necessidade de suportar custos de alojamento adicionais.
Após cerca de ano e meio a frequentar o curso, decidiu cancelar a matrícula. Os custos elevados aliados a problemas familiares influenciaram a sua decisão, que se tornaria definitiva quando percebeu que a remuneração que iria auferir posteriormente poderia não corresponder às suas expectativas. “Eu fazia parte também de uma associação de estudantes na área, portanto, convivia com colegas mais velhos, que estavam a entrar no mercado de trabalho e outros que já tinham entrado. À medida que ia conhecendo outras pessoas e fazendo outras cadeiras, tendo outros professores, via que realmente as perspetivas, para primeiro emprego, não eram incríveis”, explica o jovem de 28 anos.
“Em termos de carreira iria demorar até ter um rendimento que eu considerava suficiente”, acrescenta Diogo Cândido. Esse facto aliado à necessidade de apoiar a família desmotivou-o por completo. “Estava a ver que era um investimento que eu estava a fazer em termos de tempo, que não ia trazer-me um retorno mais à frente, a não ser que eu emigrasse e isso não era uma opção.”
Após deixar a universidade, trabalhou em várias áreas, incluindo entregas, restauração e atendimento ao público, antes de se estabelecer na área financeira como intermediário de crédito. Atualmente, Diogo trabalha por conta própria, tendo constituído empresa em 2025. Neste momento diz ter estabilidade financeira, casa própria, parcerias com nove bancos diferentes e até já contratou um funcionário. No geral, não desvaloriza a importância da formação superior mas, no seu caso concreto, está convicto de que desistir foi uma decisão acertada.
De facto, a taxa de abandono do ensino superior tem vindo a aumentar.
Segundo uma análise divulgada em fevereiro de 2025 pela plataforma Edulog, feita a partir de dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), “após uma redução entre 2012/2013 e 2015/2016, de 9,9% para 8,2%, respetivamente, o abandono no ensino superior tem vindo a aumentar de forma continuada desde 2017/2018 (10,8%): comparando com 2017/2018, a percentagem de alunos que deixaram o ensino superior após o 1º ano aumentou 2,1 pontos percentuais em 2021/2022”.
Neste ano lectivo registou-se, pela primeira vez na última década, uma taxa superior de abandono no ensino superior público, ainda que a diferença seja mínima, ou seja, 13% vs. 12,6% no privado. Este é o valor mais alto registado no ensino superior público desde 2012.
“Já o ensino privado, que tendencialmente apresentava uma taxa de abandono superior à do público, nos últimos três anos letivos tem vindo a registar um ligeiro decréscimo, de 13,3% em 2019/2020 para 12,6% em 2021/2022”, lê-se no relatório.

Em relação à natureza do ensino, a mesma fonte destaca que “a taxa de abandono no ensino superior tem sido sistematicamente mais elevada no ensino politécnico do que no universitário.” Tendo como referência novamente o ano lectivo 2021/2022, a percentagem de alunos que abandonaram o curso após o primeiro ano foi de 15,6% no ensino politécnico versus 11% do ensino universitário. “Não obstante, a tendência ao longo dos anos tem sido bastante similar em ambos os tipos de ensino com a taxa de abandono a aumentar paulatinamente de 2017/2018 até 2021/2022, quer no politécnico (de 12,3% para 15,6%) quer no universitário (de 9,8% para 11%)”, lê-se.

Se a análise for feita por ciclo de estudos salta à vista o abandono dos cursos profissionais ou Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP), que em 2021/2022 atingiu os 25,7%.

A questão do abandono é, para Luís Loures, Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), “falaciosa”. No caso concreto do Instituto Politécnico de Portalegre (IPP), que também preside, afirma que os programas existentes de apoio social são bem-sucedidos e permitem evitar o abandono dos estudantes por razões estritamente financeiras. A questão mais grave é, para o responsável, o facto de ainda existir muita burocracia associada às bolsas de ação social.
Não obstante, a explicação que diz ser mais plausível para os estudantes abandonarem o curso no primeiro ano é a “inadaptação” dos alunos, em particular dos que estão deslocados. “Chegam aqui e é tudo novo. Aqui [em Portalegre] ou noutro sítio qualquer, não se adaptam. Têm dificuldade em adaptar-se, são pouco resilientes e muitos abandonam por isso”. Daí que esta instituição tenha também programas de acompanhamento e integração dos novos alunos, promovendo o contacto com estudantes de outros anos.
As dificuldades de adaptação são, de facto, uma das razões que justificam o abandono dos estudos, de acordo com um estudo publicado em 2024 pelo Observatório Social da Fundação La Caixa, mas há outras: “segundo os dados obtidos, os preditores mais significativos da intenção de abandono dos estudos são a exaustão académica, as dificuldades vocacionais na adaptação académica e um reduzido grau de ligação social à universidade”, lê-se. Também a “frequência de licenciatura (em comparação com o mestrado) e uma menor autoeficácia académica foram também preditores significativos da intenção de abandono”.
Note-se que este estudo procurou “identificar quais as características que influenciam a intenção de abandono do ensino superior ao longo de todo o percurso académico, e não apenas no primeiro ano”. A amostra incluiu estudantes de instituições públicas, privadas, universitárias e politécnicas de diferentes regiões do país.
O Gerador questionou o MECI sobre o problema das desistências e sobre o facto de ser mais preponderante nos CTeSP. A tutela disse já ter adjudicado ao CIPES “um estudo de avaliação de uma década destes cursos, que analisará, entre outros aspetos, os percursos dos estudantes, as taxas de abandono e conclusão, e o grau de adequação da formação ao mercado de trabalho, permitindo identificar fatores explicativos, boas práticas e áreas de melhoria”. A par disso, o ministério diz estar previsto no programa do Governo o desenvolvimento de “instrumentos que incentivem as Instituições de Ensino Superior a desenvolver uma cultura de mérito em todas as suas atividades”.
“Deste modo, estamos a estudar formas de adaptar o financiamento com base no seu desempenho, nomeadamente em matéria de eficiência académica, ou seja, em reduzir o abandono e aumentar a conclusão dos cursos”, diz o MECI.
O presidente do CCISP, Luís Loures acredita, também, que muitos alunos não chegam a concluir os cursos porque entram no mercado de trabalho precocemente. “Os alunos vão estagiar no terceiro ano, no segundo semestre e ficam a trabalhar e a ganhar muito, automaticamente. E o empregador não valoriza ele ser licenciado ou não. Valoriza se ele é bom ou não a programar, se é bom ou não na gestão de projetos… O aluno fica com a tese ‘pendurada’ ”, já que terminá-la deixa de ser prioridade, acredita.
Quando se fala de diferenças entre universidades e politécnicos existem, sobretudo, fatores “reputacionais”, na visão do responsável que critica, ainda, a forma como as candidaturas ao CNA são divulgadas pela comunicação social, que deturpam a real interpretação da realidade. “Há várias formas de ingresso”, frisa o presidente do IPP. “Nós abrimos, no total 1040 [vagas] e colocámos 1182 alunos, mais alunos do que vagas”, pois essas são só referentes ao CNA, mas há estudantes a entrar por outras vias.
“Um exemplo simples: Engenharia Civil.Tivemos um colocado. A turma tem vinte alunos. Os vinte alunos que ingressaram foi por via de titulares de curso superior, mudança de instituição, estudantes internacionais, detentores de CTeSP, maiores de 23, etc.”
“As vagas do CNA que não são ocupadas, depois revertem para os outros regimes.Temos alunos aprovados, à espera nos outros regimes, a rezar para que não entrem alunos via CNA, para poderem ter um acesso ao ensino superior”, explica Luís Loures.
Estas formas de entrada no ensino superior, alternativas ao CNA devem ser “politicamente reforçadas e valorizadas”, na visão da socióloga Susana da Cruz Martins, mas isso não significa que haja uma atenção excessiva dada aos dados do CNA. “Há talvez uma falta de atenção às outras formas de aceder ao ensino superior, mas isso porque também há uma desvalorização dessas formas, quer em termos políticos, quer em termos até das próprias famílias, da forma como ainda se percepcionam essas questões.”
Não obstante, a académica deixa claro que acredita ser “muito importante” atentar ao regime geral de acesso e “à forma como grande parte dos estudantes concluem o ensino secundário”.
É sabido que muitos jovens veem o seu futuro condicionado pela falta de meios financeiros para fazer face às despesas inerentes a um curso superior. Mesmo beneficiando de uma bolsa de ação social ou até de uma residência universitária (no caso de estudantes deslocados), os apoios estatais não são suficientes para suprir todas as necessidades e podem mesmo levar ao abandono dos cursos. É o próprio MECI que reconhece este facto, dizendo que “o modelo de ação social continua a apresentar limitações”.
“Apesar de melhorias na elegibilidade, persistem níveis baixos de apoio médio, complexidade administrativa e alguma incerteza associada às regras, fatores que podem desincentivar candidaturas, sobretudo entre estudantes com situações financeiras mais vulneráveis”, afirma a tutela, que assim indica que a reforma em curso prevê “tornar o sistema mais simples, previsível e eficaz na promoção da equidade no acesso ao Ensino Superior”.
Para Luz Vencelau, jovem de 24 anos residente em Albufeira, a questão financeira é decisiva. Após concluir o curso profissional de fotografia que frequenta atualmente, na Escola de Tecnologias, Inovação e Criação do Algarve – ETIC Algarve, quer seguir fotojornalismo mas não tem certezas se conseguirá pagar os custos da deslocação para Lisboa, de modo a fazer a licenciatura, algo que valoriza muito. Idealmente, gostava de poder ter acesso ao curso na sua região. Não havendo, para já, essa possibilidade, acredita que tudo seria mais fácil se o pagamento de propinas fosse simplesmente abolido. “Há pessoas que têm bastante dificuldades e depois nem todos conseguem arranjar uma bolsa”, explica. “Em universidades públicas haver propinas… eu acho uma estupidez”.

O valor real das bolsas, face à inflação, caiu na última década, com a maioria dos estudantes a indicar que o apoio só chega para cerca de 20% das despesas, conforme descrito num estudo da Universidade Nova de Lisboa sobre o sistema de ação social, divulgado em setembro de 2025 pelo Diário de Notícias.
Para Diogo Machado, Presidente da FNAEESP, este facto não é novidade. “Temos vindo a propor que exista um aumento do valor das bolsas mínimas”, que se situa atualmente nos 871 euros, ou seja, 125% do valor da propina.
O dirigente associativo explica, em entrevista ao Gerador, que já houve alguns avanços positivos no que respeita a alterações ao sistema de ação social, com destaque para a atribuição automática de bolsas aos estudantes do 1º ano de licenciatura colocados através do CNA e que fossem beneficiários dos escalões 1, 2 ou 3 do Abono de Família a 31 de maio do ano anterior.
No final de 2025, o Governo apresentou uma proposta de reforma geral, que, entre outras medidas, prevê também a criação de uma bolsa de incentivo, destinada aos estudantes beneficiários do escalão 1 do abono de família, no valor de 1.045 euros anuais (2 IAS), e que seria atribuída automaticamente aquando da matrícula no primeiro ano de licenciatura.
Diogo Machado considera que o facto de estar a ser discutida uma reforma total deste sistema é, por si só, algo positivo, mas admite reservas quanto ao modelo em discussão. É que a proposta prevê, ainda, um novo método de cálculo das bolsas de ação social, que seria ajustado ao custo de vida do concelho onde se estuda. “O custo real de vida passa a ser estimado para cada concelho onde exista oferta de ensino superior, incluindo despesas com propina, alimentação, transporte e alojamento. Passa ainda a ser feita uma diferenciação entre estudantes não deslocados e estudantes deslocados, garantindo que o apoio é proporcional aos encargos suportados”, lê-se no comunicado divulgado pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI).
Na prática, isto significa que as bolsas atribuídas terão um valor superior se o estudante se deslocar para regiões onde os custos são mais elevados. Para Diogo Machado, esta mudança pode constituir um incentivo à deslocação para instituições do litoral, agravando ainda mais o problema da assimetria demográfica.
“Cria-se dois perfis de estudante bolseiro: o deslocado e não deslocado, atribuindo um valor superior ao não deslocado”, diz o dirigente estudantil. “Nós olhamos para este modelo como uma forma de incentivar a estudar onde é mais caro e, sobre isso, temos algum receio, justamente porque também temos esta sensibilidade com as instituições que estão localizadas nas regiões que têm menor pressão demográfica e que têm uma dificuldade maior em atrair estudantes”, frisa.
Ana Paula Duarte, reitora da Universidade da Beira Interior, tem a mesma opinião e considera que essa medida “prejudica” as instituições localizadas em zonas de baixa pressão demográfica, que incluem também as regiões autónomas. “Se [os alunos] tiverem mais apoios para continuar numa universidade do litoral, obviamente que estas universidades vão ficar prejudicadas”, afirma, destacando que o custo de vida, que é mais baixo na cidade da Covilhã face ao Porto, por exemplo, deixa de ser um atrativo. Mesmo que não existam medidas de discriminação positiva, Ana Paula Duarte pede que “pelo menos, não haja discriminação negativa”.
Questionado sobre isto, o MECI remete para a “recuperação ou construção de 135 residências”, sem especificar de que modo isso vai colmatar as diferenças entre regiões. “Trata-se de um investimento de cerca de 500 milhões de euros que irá resultar em mais de 11 mil camas em relação às que existiam antes do Plano de Recuperação e Resiliência, de modo a reduzir a pressão sobre o alojamento estudantil em cidades onde estão instaladas Universidades e Politécnicos”, responde, por escrito, ao Gerador.
O Gerador também contactou o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas para responder a perguntas sobre este tema mas não foi manifestada disponibilidade para agendar uma entrevista.
Após ter frequentado – e desistido – de uma licenciatura no Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB), Camila Romão, natural de Alcobaça, afirma que existem muitas diferenças, sobretudo ao nível dos recursos disponíveis. “No interior há menos alunos, há carência – pelo menos na minha escola -, de material disponível. Acho que é um facto que não se investe o suficiente no interior, até a nível de transportes. É terrível. Eu, para vir até aqui, de Leiria, são duas horas de carro. Eu tenho que fazer uma viagem de cinco horas de autocarro” exemplifica a estudante.
Grande parte dos docentes que lecionaram as aulas do seu curso de Música – Variante de Música Electrónica e Produção Musical são, também, deslocados. “Os meus professores vêm de Lisboa para dar aulas cá, o que também não é nada conveniente”, afirma. “Posso dizer que, em relação ao meu curso, sinto que não é apoiado o suficiente”, lamenta a estudante, que desistiu do curso no IPCB para estudar a mesma área mas na Dinamarca, com melhores condições e apoios.
A questão geográfica torna-se mais complexa quando se considera que a naturalidade dos estudantes é, também, um fator que influencia o seu percurso académico, conforme demonstrado no Desigualdades Regionais e Mobilidade de Estudantes no Acesso ao Ensino Superior, publicado em novembro de 2025 pela Edulog.
Os investigadores Pedro Luís Silva, Carla Sá e Madalena Temudo analisaram como a distância, as características regionais e institucionais influenciam a mobilidade dos estudantes no acesso ao ensino superior. Os especialistas concluíram que “as condições socioeconómicas e demográficas dos municípios de origem revelam-se decisivas”.

“A proporção de diplomados do ensino secundário privado no município de origem surge como um dos preditores mais fortes da mobilidade, funcionando como indicador indireto dos recursos familiares e refletindo desigualdades no acesso. Em contrapartida, uma maior proporção de alunos abrangidos por apoios socioeconómicos (ASE-A) associa-se a fluxos mais reduzidos, evidenciando como a condição socioeconómica de partida condiciona a disponibilidade para a mobilidade no ensino superior”, lê-se no documento.
Continuam, assim, a existir desigualdades territoriais já que, havendo uma maior rede de instituições de ensino superior concentradas nas áreas metropolitanas, os alunos que já residam nesta área terão menor necessidade de se deslocar. Já os estudantes de regiões do interior, onde há menos oferta formativa, têm quase sempre de considerar custos de deslocação, o que pode limitar as suas escolhas.
Em última instância, este facto condiciona até a área profissional que se vai seguir no futuro, já que os cursos considerados “de elite” – como medicina, engenharias, direito -, estão mais concentrados no litoral, conforme explica, em entrevista ao Gerador, o investigador Pedro Luís Silva, coordenador do referido estudo. “As instituições não escolhem os estudantes, mas ainda existem desigualdades no acesso, do ponto de vista regional e, sobretudo, do ponto de vista socioeconómico”, frisa o especialista do Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior (CIPES) da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP), que coordenou o estudo.
Sobre a questão do agravamento da assimetria demográfica, o investigador afirma que é necessário repensar o sistema de vagas, em particular em cursos que tenham maior procura como Medicina, que está disponível na Universidade da Beira Interior, por exemplo. “Se há maior procura por esses cursos, podíamos ajustar aqui o número de vagas para os cursos em que há maior procura. Isso não quer dizer que tenha que ser só em Lisboa, não é?”, questiona o especialista.
Conseguir terminar a licenciatura é o grande objetivo de “Catarina” (nome fictício), desde há vários anos. A sua primeira candidatura foi feita em 2015, ano em que ingressou no curso de Engenharia Geotécnica e Geoambiente no Instituto Superior de Engenharia do Porto. As dificuldades em conciliar as aulas com o horário de trabalho a part-time, na padaria do pai – onde sentia ser necessário ajudar à continuidade do negócio -, que mantinha em simultâneo, impediram-na de concluir a formação. Até 2021 frequentou o curso “de forma intermitente”, batalhando para acompanhar a matéria e finalizar as cadeiras, ao mesmo tempo que o trabalho a obrigava a faltar a aulas e a afastar-se por alguns períodos. A dada altura viu-se mesmo forçada a interromper os estudos durante um ano, por não ter o mínimo de créditos para avançar na formação.
“Não consegui ter o aproveitamento escolar porque é extremamente difícil manter as duas coisas. Eu estava a estudar de dia e a trabalhar à noite só que… uma pessoa fica cansada, e não consegue ter o melhor aproveitamento. Às vezes, eventualmente, tinha que faltar às aulas, perdia matéria, perdia o fio à meada por assim dizer, e acabava por tornar [tudo] muito mais difícil”, lamenta a jovem de 30 anos, natural de Valongo.
A falta de flexibilidade por parte da universidade e dos professores agravou a situação e Catarina ficou desmotivada. Passou de um horário de trabalho a part-time, para um a full-time, desta feita numa cadeia de fast-food. “O dinheiro começou a fazer jeito e a faculdade acabou por ficar um bocado em segundo plano”, explica. Apesar disso, não desistiu e, cerca de ano e meio depois, voltou a reingressar na faculdade, mas encontrou as mesmas dificuldades na conciliação de horários.

Quando a pandemia obrigou ao confinamento e muitas empresas ficaram em lay-off, Catarina teve, por fim, a oportunidade de se focar inteiramente na licenciatura. “Para mim foi a melhor coisa de sempre. Consegui fazer praticamente um ano inteiro de disciplinas”. Mesmo assim, não foi suficiente. Em 2021 acabaria por abandonar o curso, por não conseguir alcançar “nem sucesso académico, nem sucesso profissional”.
Não perdeu, no entanto, a vontade de se licenciar. Focada no seu objetivo, voltou à carga assim que possível. Agora que conseguiu mais estabilidade e flexibilidade laboral, no departamento financeiro de uma empresa transportadora, fez o reingresso, de forma a aproveitar os créditos de cadeiras já concluídas para depois poder mudar para o curso de Engenharia Informática, que é agora a sua ambição. Catarina valoriza muito a licenciatura e acredita ser essa a etapa em falta para evoluir profissionalmente. “Quero subir na minha carreira e, para isso, preciso de uma licenciatura” frisa. “Acredito que me vai ajudar a conseguir oportunidades melhores, que não tenho conseguido alcançar por causa disso.”
A visão da jovem encontra fundamento nos dados mais recentes.
De acordo com o Balanço Anual da Educação 2025, publicado pelo think thank Edulog, da Fundação Belmiro de Azevedo, a taxa de desemprego em Portugal é mais baixa para jovens com maior qualificação, ainda que continue elevada face ao contexto europeu.
“A pandemia acentuou a valorização do ensino superior”, lê-se no documento. “Nos últimos cinco anos, a crise pandémica agravou o desemprego dos jovens, penalizando sobretudo os menos qualificados. Apenas os diplomados do ensino superior apresentavam, após três anos de recuperação, taxas de desemprego inferiores às anteriores à pandemia (abaixo de 6%). Os mestres beneficiaram ainda mais, com taxas próximas de 4,7%. As taxas de desemprego dos diplomados do ensino secundário ou pós-secundário só em 2024 pareciam ter recuperado o maior impacto sofrido durante a pandemia”, segundo a mesma fonte.
Pelo contrário, “a população ativa com o 3.º ciclo do básico continuou com desemprego superior ao período pré‐COVID, e os detentores de cursos superiores de curta duração (CTeSP) exibiram ainda taxas acima de 10%, traduzindo menor resiliência ao choque pandémico”.

Os dados da Edulog também revelam que, entre 2021 e 2022 aumentou o risco de desemprego para pessoas que possuam qualificações até ao 3º ciclo do ensino básico (de 1,09 para 1,68), enquanto que diminuiu para licenciados (0,9 para 0,73). Para os mestres também se verificou um aumento: de 0,53 para 0,70.
Apesar de o ensino superior ser uma vantagem aquando da entrada no mercado de trabalho, vários jovens entrevistados pelo Gerador consideram que o diploma é, em muitos casos, uma “formalidade”, uma espécie de requisito padrão que, embora seja exigido pelos empregadores, não reflete necessariamente maior competência profissional para o desempenho da função, nem garante um melhor salário. Nas entrevistas realizadas não foi encontrada uma postura de desvalorização da formação, nem do ensino superior de forma abstrata, porém, muitos estudantes tecem críticas à forma como estão organizados os cursos, ao ensino “excessivamente teórico” e à falta de aprendizagens mais práticas, que efetivamente sejam úteis para exercer a profissão que ambicionam.
“À medida que vou trabalhando outras coisas […] consigo ver os diferentes caminhos das pessoas e consigo perceber que, na verdade, o ensino superior, pelo menos cá em Portugal, não nos prepara assim tanto para o mercado de trabalho, nem nos dá assim tantas oportunidades como as pessoas pensam que dá”, diz Marisa Santos, jovem de 25 anos, do Porto, que ingressou por duas vezes em licenciaturas e desistiu, por diferentes razões. Pretende agora seguir formas alternativas de formação em artes, a área que mais aprecia.
“Acho que também falta um bocado a parte prática nos cursos. Eu sei que existe, mas sinto que é sempre um bocadinho desconectado do mundo lá fora, do trabalho”, diz, por sua vez, Maria Luís, jovem portuense de 24 anos pensa que as licenciaturas são “demasiado longas”, exigindo um grande investimento financeiro e de tempo que pode não compensar a nível de competências adquiridas. Maria já frequentou o ensino superior, na Universidade de Middlesex, em Londres, mas as dificuldades financeiras obrigaram-na a desistir. Atualmente, está a fazer uma formação em Music Business, na Arda Academy, de curta duração, que considera mais adequada às suas necessidades por ser prática e ministrada por profissionais da área.
Estes fatores são, portanto, uma justificação apontada para desistir ou optar por formas diferentes de aprender, que permitam um contacto mais direto com o mercado de trabalho. O que está na base desta percepção é o facto de a parcela da população com mais qualificações estar a “pressionar” os outros grupos, pois não existe oferta de trabalho suficiente para absorver as pessoas mais qualificadas em profissões condizentes com a sua formação, segundo a socióloga Susana da Cruz Martins. “Essas ‘descoincidências’, esses ritmos diferenciados têm gerado dificuldades em perceber, interpretar as qualificações como relevantes”, explica a especialista.
Veja-se ainda o caso de Camila Romão, estudante de 22 anos que no início deste ano frequentava a licenciatura em Música – Variante de Música Electrónica e Produção Musical no Instituto Politécnico de Castelo Branco (e cujo testemunho já foi indicado anteriormente): “o ensino superior dá o diploma que qualquer pessoa espera que o trabalhador que vai contratar tenha, apesar de eu não concordar com isso”, afirma.
Embora reconheça que em muitas áreas, nomeadamente as científicas, a formação superior é necessária e importante, na área artística em particular, Camila Romão acredita existirem muitas alternativas que, não sendo licenciaturas, acabam por ser mais eficazes para adquirir competências específicas. “Eu acho que uma licenciatura no campo das artes não é assim tão necessária”, frisa a jovem, natural de Alcobaça, Leiria. “Acho que é mais [importante] o mercado, o contacto com o meio, fazer cursos com pessoas que percebem [do assunto], que podem dar um certificado, que pode valer tanto como aquilo que aprendemos numa licenciatura”.
“No meu caso, eu sinto que a estudar música o ritmo [de aprendizagem] é muito lento. Às vezes sinto que aprenderia muito mais num curso intensivo, de um ano ou de dois anos, do que propriamente numa licenciatura com todas as suas formalidades. Até porque nos cursos fora da licenciatura, existe também muito a parte prática, que nas artes é o que conta mais, na verdade”, acrescenta Camila Romão que no passado frequentou a licenciatura em Artes Plásticas, no Politécnico de Leiria, mas desistiu devido a dificuldades financeiras e desmotivação geral com o curso.
Não obstante a sua preferência por cursos mais práticos, Camila Romão pretende licenciar-se, por acreditar que o diploma irá facilitar a sua entrada no mercado de trabalho.
De facto, a “construção mediática” em torno do emprego jovem e a forma como muitas vezes são destacadas situações particulares, em que os jovens desempenham funções que não vão de encontro às suas qualificações – como o exemplo clássico do jovem licenciado que trabalha num supermercado ou call center – pode, segundo Susana da Cruz Martins, criar uma percepção de desvalorização no público. Apesar disso, a socióloga e investigadora do ISCTE, explica, em entrevista ao Gerador, que a maioria dos jovens inquiridos no âmbito da investigação Eurostudent VIII – Inquérito Socioeconómico aos Estudantes do Ensino Superior em Portugal que coordenou em 2023, afirmava que a sua formação académica foi relevante no âmbito da preparação para o futuro. “A generalidade dos estudantes diz que a formação os prepara, lhes dá competências, conhecimento, para a inserção profissional, o que contraria um bocadinho esta ideia de que a licenciatura ou os estudos são uma formalidade.”
Voltemos a Camila Romão, e ao seu percurso académico.
Após um período de incerteza quanto à sua permanência em Castelo Branco, a jovem foi aceite na Royal Danish Academy of Music em Aarhus, na Dinamarca, no curso de Composição de Música Electrónica. Não pensou duas vezes. Enquanto em Portugal Camila vivia na incerteza quanto à atribuição de uma bolsa para fazer face aos custos, na Dinamarca conseguiu ser aceite nesta instituição estatal, onde não paga propinas. “Eles acolhem muito bem estudantes estrangeiros”, relata, explicando que irá integrar um programa governamental através do qual terá de trabalhar pelo menos 10 horas semanais, de forma a ter direito a um apoio mínimo de 950 euros para estudar. A jovem de Leiria acredita que nestas condições conseguirá pagar todas as despesas e concluir a formação que tanto ambiciona sem os constrangimentos que enfrentou no seu país.
Esta é, aliás, uma alternativa que é seguida por cada vez mais jovens e surge como consequência de Portugal ter a sétima propina mais elevada dos países da União Europeia, conforme descrito no Estudo Comparativo dos Custos Associados à Frequência do Ensino Superior na União Europeia, elaborado e divulgado pela Associação Académica de Coimbra (AAC) em fevereiro de 2025. A propina média, atualmente fixada em 697 euros por ano, é quase o dobro da média europeia, que se situa nos 381 euros, segundo a mesma fonte, o que acaba por motivar muitos jovens a procurar alternativas fora de portas.
Questionado sobre este assunto, o MECI afirma que “o congelamento das propinas não só é regressivo, porque obriga toda a sociedade a pagar a frequência do Ensino Superior de uma parte da população que vai beneficiar diretamente em termos salariais por ter um diploma do Ensino Superior, como prejudica a autonomia e a competitividade das instituições”, num ambiente internacional “que determina a qualidade da sua oferta formativa e da sua capacidade de formação e atração de talento do nosso país”.
“O congelamento das propinas torna as Instituições de Ensino Superior mais dependentes do Estado e limita-as na sua capacidade de angariação de receitas próprias, que são essenciais para o desenvolvimento de projetos inovadores e diferenciadores”, diz ainda a tutela.