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Reportagem de Sofia Craveiro
Edição de Tiago Sigorelho
Design de Frederico Pompeu
Digital de Inês Roque
Comunicação de Carolina Esteves e Margarida Marques
27.04.2026
Quando em setembro de 2025 foram revelados os números relativos à última fase do Concurso Nacional de Acesso (CNA) ao Ensino Superior, um dado gerou preocupação: foram colocados menos cerca de 10% de estudantes face ao ano lectivo anterior, o que representa uma queda de mais de 5 mil candidatos.
Olhando os dados mais de perto, em 2025 foram colocados 45.290 novos estudantes. Em 2024 o número ascendia a 50.612. Na altura, foram apontadas várias razões para esta diminuição tão significativa, que criou alarme entre os especialistas, dirigentes associativos, responsáveis políticos e entidades competentes.
O elevado custo do alojamento, a exagerada burocracia nas candidaturas e a mudança nos requisitos necessários para concluir o ensino secundário foram algumas das razões apontadas. Esta última foi particularmente destacada.
A pandemia de covid-19 motivou a flexibilização das regras de acesso ao ensino superior. Os exames nacionais deixaram de ser obrigatórios para concluir o ensino secundário, passaram a ser requeridos apenas para quem pretendia seguir para o superior e só às disciplinas específicas de cada área. Também a própria estrutura dos exames nacionais foi ajustada com questões opcionais, uma medida aplicada pelo governo de António Costa para, de alguma forma, minimizar os efeitos do confinamento nas aprendizagens.
Tudo isto culminou num aumento significativo do número de candidatos no ano lectivo de 2021/2022: a primeira fase do CNA às universidades e politécnicos reuniu 63 878 candidaturas, mais 11 mil em comparação com as vagas disponibilizadas inicialmente e o maior número registado desde 1996.
Em 2023, as alterações feitas em contexto pandémico foram revertidas, o que mudou novamente as regras, que entraram em vigor a partir do ano lectivo 2025/2026. Assim, passaram a ser necessários, pelo menos, três exames para concluir o ensino secundário: um de Português e dois de disciplinas diferentes. Este elemento foi particularmente impactante e, acredita o Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, aquele que fundamenta a drástica queda de candidaturas ao CNA registadas no presente ano lectivo: “aquilo que explica este resultado foram, de facto, as mudanças das condições para a conclusão do secundário, com os exames nacionais, que passaram a ser novamente obrigatórios para a conclusão do secundário, e as duas provas de ingresso no ensino superior.”
“Não é, apesar de tudo, nada que não fosse expectável”, acrescentou o ministro, a 2 de outubro de 2025, em declarações aos jornalistas. “No fundo, voltamos a ter as mesmas condições de acesso que tínhamos em 2019, e os dados [deste ano] ficaram em linha com os de 2019. A diminuição é fundamentalmente explicada por isso”, frisou.
Em resposta por escrito ao pedido de esclarecimento feito pelo Gerador, a tutela refere que
“de facto, a taxa de conclusão do secundário regressou a níveis próximos de 2018/19 (cerca de 75%), após vários anos acima de 80% durante o período em que vigoraram as regras implementadas na pandemia (2019/20-2023/24). No entanto, esta evolução também se verificou nos cursos profissionais, onde não existem exames nacionais, o que sugere que a redução poderá estar sobretudo associada ao fim de um período excecional de menor exigência, e não exclusivamente à reintrodução dos exames”. Além disso, “um menor número de diplomados pode, por si só, ter contribuído para a diminuição de candidatos ao Ensino Superior”, diz o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI).
“Em 2025, cerca de 80% dos cursos passaram de uma para duas provas, tendo-se observado uma redução particularmente acentuada de colocados nesses cursos, ao contrário do que aconteceu nos que mantiveram duas ou três provas. Estima-se que esta medida esteja associada a mais de 40% da quebra de colocados no CNA”, sublinha ainda o MECI.