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REPORTAGEM
 DEMOCRACIA 

A Madrinha

 

Texto de Isabel Cunha Marques e Ana Patrícia Silva
Edição de Débora Dias e Tiago Sigorelho
Ilustrações de Marina Mota
Produção de Martim Campos e Sara Fortes da Cunha
Vídeo: captação e edição de imagem de Marta Bao
Comunicação de Carolina Esteves e Margarida Marques
Digital de Teresa Gomes e Inês Roque

 

22.04.2024

Ao longo de 15 anos, a troca de correspondência integrava uma estratégia muito clara: legitimar a guerra. Mais conhecidas por madrinhas de guerra alimentaram um programa oficioso, criado pelo Estado Novo, cujo objetivo era integrar as mulheres no esforço nacional correspondendo-se com militares na frente de combate. Esta é a primeira parte da investigação “A Madrinha: a correspondente que ‘marchou’ na retaguarda da guerra”.

Natércia Martins, aos 81 anos, começou por dizer que vinha com tempo. Enquanto esfregava o olho direito, notava que as portas do Museu Monográfico de Conímbriga, em Condeixa-a-Nova, ainda permaneciam fechadas. Lia-se em letras gordas, em frente, que o museu apenas abriria pelas 12 horas nos dias de feriado. Era feriado.

A dificuldade em ler fez com que Natércia se recordasse de que não tinha os óculos de leitura consigo.

“Vai ser um desafio ler as cartas”, diz com um ar de riso. O seu nome é muito grande, mas assina sempre com o seu primeiro e último, Natércia Martins. Sempre gostou de escrever e, também por essa razão, decidiu ser professora. Enquanto aguardava pela disponibilidade da sala de auditório, sentada num sofá de pele castanho, não tirava os olhos das grandes portas e janelas envidraçadas do museu. Naqueles 20 minutos de espera, foi inundada por memórias. Paulo Cunha, responsável pelas visitas guiadas do museu, passava por lá uma e outra vez e não deixava de o notar. Também diretor do Instituto das Artes, conhece Natércia há mais de três décadas, primeiro enquanto professora e, depois, enquanto membro do coro da terra. Viajaram muito juntos, concordam.

“Esta senhora tem tanto para contar” , insiste o engenheiro.

Seguimos para o auditório. Este espaço destacava-se das salas da galeria, localizadas no lado direito do museu. Todas elas tinham uma vista engolida pelas ruínas de Conímbriga. Já do lado esquerdo está o púlpito, paralelo à mesa que se encontra no centro do palco de madeira, rodeado por uma cortina em tons de bordô que percorre o auditório de uma ponta a outra. A vista é “ofegante”, admite. Mais de 100 cadeiras em escala, vazias. Era exatamente ali que Natércia Martins queria estar: no centro. Sentou-se. Começou por dizer que era uma mulher de muitas palavras. Pegou numa caixa retangular e colocou-a também no centro da mesa, rematando: “Sou uma mulher das histórias.”

A memória em nada lhe falha ao reconhecer que não tinha consciência do que eram e quem eram as madrinhas de guerra aos olhos do sistema político, reconhecido como o Estado Novo. Ninguém se metia “na política”, mas as madrinhas de guerra também se tratavam de um elemento político, mesmo que as personagens das histórias que se seguem não o soubessem.

Hoje, de cabelo grisalho, porque “o loiro cortou-o no dia em que conheceu o seu correspondente”, Natércia afirma que, em Ferreira do Zêzere, “não tinham consciência do que era uma ditadura.”.

E esta foi uma visão que se estendeu ao longo de meio século de democracia.

Rondava o ano de 1968. Com 26 anos, Natércia Martins viu um alento na correspondência que trocava com António Martins, que, à data, combatia em Moçambique. Não foi o único afilhado com quem se correspondeu. Confessa que não tem o número preciso, pois “perdeu-lhe as contas”. Mas era com António que partilhava um dos seus grandes interesses: a escola. “Escrevia-lhe cerca de oito aerogramas por dia”, relembra.

Os aerogramas – folhas de papel que, dobradas, assumiam o formato de um envelope e seguiam para distribuição por avião – asseguravam as comunicações regulares entre militares e madrinhas. Durante os 13 anos de Guerra Colonial, foram distribuídos centenas de milhões de aerogramas. Neles, estas mulheres procuravam tranquilizar os militares, apoiando-os moralmente e incentivando-os ao sacrifício pela pátria. O tema foi estudado por Diana Martins , mestre em Ensino de História no 3.º ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Segundo a autora, os aerogramas destinavam-se, em particular, a militares de famílias não alfabetizadas e com baixos rendimentos.

No relato de Natércia dava-se a primeira troca de um aerograma entre eles. António, alferes atirador de infantaria, pertencia à Companhia de Caçadores 2550 formada em Tomar e cumpria comissão no norte de Moçambique. Este dado é relevante, porque, para Natércia, a forma como António lhe escrevia não permitia perceber, “quão perigoso era aquele cenário quer para eles quer para quem lá residia”.

Nesse mesmo ano, em 1969, o Governo de Marcelo Caetano dava à PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) um outro nome: Direção-Geral de Segurança (DGS). Apesar de lhe mudar a “roupagem”, as missões e os procedimentos mantiveram-se os mesmos. Continuava-se a matar e a morrer em Moçambique e nem só em combates e emboscadas.

A mobilização de milhões de homens para a guerra fez com que as mulheres fossem incorporadas pelo regime no trabalho da retaguarda. Ao longo de 13 anos de Guerra Colonial, estas mulheres também “asseguraram a manutenção da sociedade civil”. Quem o afirma é Zília Osório, autora de Mulheres em Tempo de Guerra (2016). Embora se associe a figura da madrinha de guerra à manutenção do colonialismo – em especial, ao conflito iniciado em 1961 e que levou milhares de pessoas a combater nos territórios colonizados em África no período do Estado Novo –, o conceito nasceu durante outra conjuntura.

Uma correspondência de guerra

 

A jornalista Marta Martins Silva, no livro Madrinhas de Guerra (2020) relata que foi na Primeira Guerra Mundial (1914–1918) que surgiu a atribuição dada à rapariga ou senhora, que estivesse disponível para aceitar a “missão de apoiar moralmente um soldado desconhecido que se encontrasse na linha da frente da Grande Guerra”.

É a partir desta ideia que Gabriela Silva, hoje com 73 anos, realça a sua vontade de não guardar nada consigo, pois em determinada fase da sua vida começou “a trabalhar no desapego”. “Peguei em tudo o que era mais antigo e queimei”, disse. O mesmo aconteceu aos aerogramas.

A madrinha que sempre viveu na Ilha das Flores, uma das ilhas mais pequenas e isoladas dos Açores, começou a trocar aerogramas com apenas 13 anos. Escrevia-os poucas vezes à luz das velas, o que era “estranho” à altura. Isto porque a sua casa era das poucas que tinham eletricidade durante os anos 1960.

“Naquele tempo, os soldados não tinham, na sua maioria, mais nenhuma correspondência senão a das madrinhas de guerra e da família”, explica.

Tal como Natércia Martins, Gabriela Silva afirma que gostava muito de escrever, mesmo que reconheça que, naquele tempo, havia pouco papel. Professora desde a década de 1970, hoje aposentada, Gabriela lembra que uma das coisas da qual mais se orgulha de ter feito foi ler os variados livros da biblioteca ambulante, que a Fundação Calouste Gulbenkian fazia chegar a casa das pessoas que viviam na ilha.

Dessa leitura, encadeou uma escrita positiva e apaixonada: havia “o papel de dar força, de encorajamento e o papel da pessoa fiel que está à espera”. Para ela, ser madrinha de guerra foi uma das suas funções mais importantes.

Estas duas mulheres não foram as únicas que “cumpriram o serviço militar através da escrita”, expressão que Gabriela Silva insiste em usar enquanto recorda uma e outra vez os longos textos que escrevia. Gesticulava comodamente, quase como um apoio à sua memória. Mesmo que algumas palavras falhassem, não demorava mais do que segundos para que recordasse os tempos em que as piores notícias chegavam. Desejava que não lhe fossem próximas:

“Lembro-me dos gritos lancinantes das mães na rua a chorar pelos filhos, porque tinham morrido na baleia [em combate]. Os rapazes que chegavam da guerra, a gente tinha de os enterrar, e aquilo fazia parte de uma certa normalidade. Morreram muitos soldados nas Flores.”

Gabriela Silva

Um programa que mobilizou Portugal

 

De norte a sul do país, este e oeste, continente e ilhas, foram mobilizadas cerca de 24 mil mulheres, enquanto madrinhas de guerra, que se correspondiam com mais de 33 mil militares.

Dos Açores até Amarante, a viagem é longa. Lá, conversamos com outras duas mulheres que estiveram entre as milhares de madrinhas de guerra do país. Foi entre serras e rio que as irmãs Fonseca relembram aqueles que foram, para elas, “tempos de revolução”.

Maria Helena Fonseca começou a escrever aos 18 anos e, agora com 71, destaca que já era muito responsável naqueles anos. Lembra que, quer ela, quer a irmã, assumiam “qualquer coisa” que lhes fosse proposta. Mais tarde, formou-se em Educação e, tal como Natércia Martins e Gabriela Silva, lecionou durante o Estado Novo. Tornou-se uma prática comum professoras corresponderem-se com militares, pois, como Marta Silva explica, apesar de todas as mulheres poderem corresponder, havia uma preferência pelas que soubessem ler e escrever, numa altura em que as taxas de analfabetização eram muito elevadas.

“Perguntaram-me se queria ser madrinha de guerra e o que, para mim, era ser madrinha de guerra na altura? Era dar apoio moral, era para manter uma conversação enquanto eles lá estivessem… Não me assustou.”

Maria Helena

Embora acredite que a sua escrita foi algo significativo para a vida de, pelo menos, dois militares, Maria Helena não deixa de assinalar que um dos seus correspondentes apelou ao cuidado na escrita, porque acreditava que as cartas eram abertas, uma e outra vez, pela PIDE para que houvesse uma garantia de que nenhuma informação que ameaçasse o regime fosse mencionada.

Já para a sua irmã, a visão era outra. Maria Teresa Fonseca, hoje com 73 anos, recorda ter “uma ideia terrível da guerra”. “Aliás, eu era contra. Sempre fui de esquerda, muito revolucionária”, ressalta. No relato apresenta-se como uma contestadora das regras impostas: tentou fugir com o namorado e deixou sempre claro que estava do lado oposto da guerra. Mas também relembra que se sentia na obrigação de dar apoio moral aos militares. “Escrevi durante dois anos.” Correspondeu-se com um militar, filho de amigos dos pais. Apesar de se reconhecer como uma mulher politizada já naquela altura, o sentimento de dever, face ao seio familiar daquela jovem, era maior.

Maria Teresa Fonseca partiu para Lisboa pouco tempo antes de se assinalar o 25 de Abril. Trabalhava como técnica nos Correios de Portugal e, pelas suas mãos, passaram centenas de milhares de cartas e aerogramas. A sua relação com a escrita e com o papel dobrado em quatro e colado num e noutro envelope não era de desconfiar. Durante algum tempo, o seu então namorado não sabia das cartas que trocava com os combatentes.

“Havia uma separação minha enquanto madrinha de guerra e namorada.”

Maria Teresa Fonseca

Não se manifestava, nem dizia que recebia correspondência de um soldado porque “sabia que ele não gostava. Não era por uma questão de ciúmes, mas era uma pessoa mais informada do que eu e sabia que isso não era correto”, explica.

O sentimento que Maria Teresa descreve como “dever” foi aos olhos de Sara Roque, licenciada em Antropologia e mestre em Colonialismo e Pós-Colonialismo, e professora no Agrupamento de Escolas de Benfica, em Lisboa, de uma utilidade mestra de que o regime se apoderou: “Aderimos [mulheres portuguesas] por pena e, sobretudo, porque a mulher portuguesa durante anos teve um sentido maternalista brutal”, analisa.

Para a investigadora, a mesma utilidade que considera ter existido para o regime já se lia nas entrelinhas: “as madrinhas de guerra também viveram disso e o regime fez com que elas entendessem que era algo como: ‘estamos a pedir-te, faz um esforço… tu tens de te esforçar”, insistiu.

Duas filhas, duas madrinhas: a do alfaiate e a dos bordados

 

Rondavam os primeiros meses de 1962 quando a cidade de Lisboa recebia a família de Elisa. Chegou com dez anos vinda de Trás-os-Montes. Na viragem de mais uma década – aos 20 anos –, começou a trocar aerogramas com aquele que hoje é, há mais de 40 anos, o seu marido, Francisco Janeiro. Ainda que distantes do lugar marcado para a entrevista, estavam de mãos dadas na rua. As suas alturas diferenciavam-se bem, mas caminhavam em conjunto: “um empurra o outro, um segura o outro”, começa a dizer Elisa à medida que se aproxima da porta da Central do Gerador, em Lisboa.

Francisco Janeiro entra calado, senta-se numa das cadeiras dispostas de costas para a porta principal e prepara-se para começar a conversa, mesmo sem ainda nos dizer que a sua esposa tinha sido a sua madrinha de guerra. Seguem-se 45 minutos de memórias e recortes temporais, em que reforçava as condições em que os militares voltaram, principalmente, em realidades com graves sequelas motoras, visuais ou psicológicas. Todas elas “inaceitáveis”. Por vezes, até “desumanas”. Foi nesses momentos que se apoiou na sua esposa e, sem mais nem menos, lançou aquela que seria a deixa para que percebêssemos que Elisa tinha correspondido consigo ainda antes de começarem a namorar.

Os pais de Elisa faziam fardas para o exército. “Houve uma época em que [eles] faziam 100 fardas, por semana, cerca de 200 a 300 por mês. Tinha de ser muita gente”, lembra. Na altura, Elisa sabia que cerca de 60 % do orçamento geral do Estado era para a defesa, porque o investimento no vestuário não deixava de estar incluído naquele bolo. Recorda ainda, sorrateiramente, o que ouvia em casa: aquele era dinheiro garantido. Ainda assim, as fardas não ocupavam todo o seu tempo. Restavam-lhe ainda algumas horas para se dedicar à correspondência.

Os “pinguinhos” a perfume nos aerogramas – mesmo quando não eram permitidos –, a troca de fotografias e os relatos de quem nascia, morria ou emigrava (ou desaparecia) não escapavam da descrição do dia a dia do que acontecia no país. Do outro lado, nada muito detalhado, porque os militares sabiam o que lhes custaria.

Depois de Lisboa, a próxima paragem foi Aveiro, local onde vive o casal Silva: Mário e Rosa. Mário explica que as madrinhas na Guerra Colonial representavam a “ligação mais contínua do país”. E quando os militares a quebravam “politicamente” ou “socialmente” por escrito, “a PIDE, que estava nas fronteiras, prendia-nos”.

Sentados num grande café, na rua principal da Praça Central, Mário e Rosa espantam-se com a curiosidade sobre algo que se tornou efémero. Mas nem tudo. Tornaram-se um casal e “algo duradouro ficou”, ainda que não fosse regra na relação das madrinhas de guerra com afilhados militares.

De freguesias diferentes da zona, Cedrim e Esmoriz, Rosa e Mário começaram por se corresponder quando ela tinha 15 anos. Aprendeu a bordar cedo, era o que as adolescentes “daquela altura tinham de fazer”, acrescenta. Escreveram-se pela primeira vez em 1972.

“A minha mãe incentivava-me a ajudar o rapaz a ter conforto e, como ele era lá de perto, ainda mais me entusiasmou escrever”, remata Rosa Silva, depois de tentar falar uma e outra vez. A comunicação mostrava-se tão difícil quanto recordar um e outro detalhe. Todos os dias ia aos correios para ver se tinha cartas.

Rosa admite com timidez que, ainda hoje, não deixa de olhar para o relógio pelas quatro da tarde – era a hora que costumava levantar ou receber os seus aerogramas.

“Estava mais empolgada em receber uma carta dele do que se fosse um namorado. Eu ajudava-o, mas ele também me ajudava.”

Rosa

A ex-madrinha lembra-se bem de como tudo começou. O carteiro era conhecido, entregou-lhe um aerograma por baixo de outra carta e disse-lhe que ficasse com ele.

“Nunca tinha visto nada assim”, diz admirada, recriando aquela sensação que uma adolescente de 15 anos sente quando algo inapropriado acontece.

Durante dois anos, sabia bem onde se dirigir para receber os aerogramas e enviá-los. Era sempre a mesma senhora, no mesmo lugar.

“Quando precisava de aerogramas, chegava lá, e pedia dez ou 20.”

Gastava muitos, porque enviava discos pedidos para Mário. A senhora que a recebia era muito simpática, recorda. Além desta característica da sua personalidade, Rosa esforça-se por recordar um outro detalhe que nunca questionou, mas que também não esqueceu, mesmo que precisasse de fechar os olhos uma e outra vez para que o alcançasse: o pin que trazia junto ao colarinho naquele período.

“Refinado, em prata e com uma frase que me soa muito mal em letras grandes – “‘Por Deus e pela Pátria!’”, enuncia. Assim se apresentavam as representantes do Movimento Nacional Feminino (MNF).

A madrinha em ponto grande

 

Até os dias de hoje, Natércia Martins acredita, fielmente, que foi obra do destino ser madrinha de guerra daquele militar. “Tinha de ser ali e tinha de ser assim”, diz-nos com um tom convicto, enquanto sorri e observa a correspondência trocada. “É engraçado porque de um grupo de sete ou oito nomes, só este militar [António] é que lhe saltou à vista. Não era um nome comum…”, reflete, insistindo, novamente, na ideia de que “o destino é o destino e foi ali”.

Em Santarém, onde exercia a profissão de professora primária, relata que foi uma senhora daquele lugar, de estatuto alto, madura, chamada Maria José, mais conhecida por “Mizé”, que a recrutou. “Ferreira do Zêzere, hoje, é uma cidade, mas, naquele tempo, não tinha praticamente nada. Tinha um café e a casa da Mizé. Era filha de um advogado e, portanto, já tinha um estatuto mais alto do que qualquer uma de nós”, descreve a professora reformada. Nesse tempo, “era essa senhora que tratava das coisas da tropa e que recebia os militares. Ela escrevia para muitos. Um dia perguntou-me se eu não queria escrever também para um soldado”, explica.

Ao longo dos anos 1960, o Estado Novo difundia a premissa de que, para vencer um conflito, no caso a Guerra Colonial, era necessário um esforço “de todos pela pátria”, quer fosse com a participação direta ou prestando apoio moral. Foi nesta última faceta que um grupo de mulheres, onde se enquadra a “Mizé”, se dedicou à criação do MNF (1961–1974).

O movimento foi dirigido por Cecília Supico Pinto, membro integrante de um conjunto de mulheres de alta classe. Também apelidada de elite feminina do Estado Novo, o MNF mostrou ser uma organização feminina com características da ditadura portuguesa, o que garantia o sucesso de todas as ações feitas por este. Estima-se que, em Portugal, mais de 80 mil mulheres, integradas em 22 secções, dirigidas por uma Comissão Central, com sede em Lisboa, aderiram. Manuela Cruzeiro, investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, faz um levantamento detalhado destes dados no artigo “As mulheres e a Guerra Colonial: Um silêncio demasiado ruidoso”.

É nestas secções que se enquadra também o “Serviço Nacional de Madrinhas”. Um instrumento que a investigadora Helena Neves explorou, no artigo “Amor em tempo de guerra: Guerra Colonial, a (in)comunicabilidade (im)possível”, reforçando que este serviço conseguiu mobilizar, até ao final do conflito, dezenas de milhares de mulheres, partindo de diversas frentes, como escolas, igrejas ou casas do povo.

Para que fosse atribuída uma madrinha de guerra a um soldado e iniciassem correspondência, cada interessado deveria enviar um pedido à Comissão Central do MNF. Diana Martins analisou estas exigências no seu relatório de mestrado em Ensino de História na Universidade do Porto. A historiadora explica que os pedidos deveriam apresentar dados como o nome, o posto e o número do indicativo postal militar.

Nos vários pedidos de atribuição de madrinha de guerra que consultamos no arquivo da Hemeroteca Digital de Lisboa, o mesmo procedimento acontecia com as mulheres que pretendiam aderir ao programa e ter atribuído um afilhado.

Naquele lugar, Natércia Martins conta que a “Mizé” funcionava como uma espécie de “madrinha em ponto grande”.

“Ela escrevia para militares desde Caminha até ao Algarve. Tinha imensos. Alguns nem terá conhecido, porque eram de aldeias e não tinham possibilidade de ir até Ferreira do Zêzere. E, de nome, conhecia-os a todos”, assegura.

Consciente de que esta figura feminina pudesse estar ligada ao regime, descreve-a ainda como alguém que não tinha interesse pela política. “Interessava-lhe unicamente a conversa com os militares. Não tinha outros objetivos. Como era uma pessoa madura, tinha outro conhecimento e outra sabedoria. Só lhe interessava escrever e receber notícias dos afilhados”, garante Natércia Martins. Para ela, “Mizé”, só queria o bem-estar dos militares.

Já Elisa Janeiro, que permaneceu na confeção das fardas até então, começou a se corresponder por incentivo dos orientadores da Ação Católica Portuguesa, organização do apostolado laical que formava militares.

“Diziam-me que os militares precisavam de ter ânimo. E que era bom que as pessoas lhes contassem coisas.”

Elisa Janeiro

Além disso, havia um conjunto de orientações que a antiga costureira devia procurar seguir. “Esses orientadores diziam-nos o que se devia ou não dizer. Por exemplo, não os podíamos incentivar a fugir”, esclarece.

 

As madrinhas de guerra deveriam tranquilizar os militares, apoiando-os moralmente e incentivando-os ao sacrifício pela pátria. E estas eram orientações que cumpriam a narrativa do regime que até então se vivia. Mas nem todas as cidades tinham esta figura de forma tão clara. Amarante era uma delas.

“Nessa altura, todos os soldados que iam para a Guerra Colonial gostavam de ter uma madrinha de guerra, porque já era algo institucionalizado”

Maria Teresa

Para esta amarantina, o convite para ser madrinha surgiu de um casal de compadres dos pais. “Foram eles que perguntaram aos meus pais se alguma das filhas não se importava de ser madrinha de guerra do namorado da filha deles. Como a minha irmã já era madrinha de guerra, fiquei eu”, justifica com uma risada discreta.

A irmã Maria Helena Fonseca assumiu as rédeas da correspondência depois do convite de um militar conhecido e de uma amiga da mãe. Não a assustou, porque o que sabia sobre ser madrinha de guerra parecia ser muito simples: escrever para ouvir, apaziguar e encorajar. “Não era algo que me assustasse”, remata.

Diretamente dos Açores, na ilha de São Miguel, a história de Gabriela Silva em nada se alienou. Na altura, conta-nos que foi o irmão que a recrutou para ser madrinha de guerra. “O meu irmão foi para a Guiné e tinha um grande amigo alentejano. Fui madrinha dos dois”, relembra, com um sorriso.

A apetência “natural” e o gosto pela escrita levaram esta açoriana a ter “dezenas” de afilhados de guerra, maioritariamente da ilha, ainda era ela adolescente. “Conhecia todos os rapazes da ilha das Flores, pois eram pessoas com quem tinha convivência e de quem eu era amiga. Aliás, muitos desses rapazes deram o meu contacto a outros militares”, conta. “É claro que talvez não fossem fazer de madrinha de guerra qualquer rapariga. Faziam daquelas que gostavam mais de escrever e que mostravam mais apetência para isso”, esclarece Gabriela Silva.

Os aerogramas e a escrita de guerra

 

Os aerogramas tornaram-se, desde cedo, o principal meio que ligava os que iam e os que ficavam.

“O aerograma era um pedaço de papel quadrado que se dobrava, fechado, em forma de envelope. E, nesses aerogramas, escrevia-se só por dentro”, explica a ex-madrinha Gabriela Silva ao Gerador, enquanto exemplifica como se dobrava e escrevia nos mesmos.

Ao longo da Guerra Colonial, o correio foi objeto de ação programada e eficaz do MNF com a criação e distribuição dos aerogramas, também conhecidos como papa-estradas. “Foram editados mais de 300 milhões de aerogramas pelo MNF”, lê-se no artigo “Correspondência na Guerra Colonial; aerogramas entre Portugal e Angola (1967-1973)” , da autoria de Joana Castro, professora auxiliar de História e Estudos Políticos Internacionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Diana Martins relembra ainda o discurso de Maria de Nazareth Alves, presidente da Comissão Distrital de Leiria do MNF durante o I Congresso do Movimento Nacional Feminino, no ano de 1966. Naquela altura, a dirigente explicou que a escrita de guerra tinha de ser, acima de tudo, uma escrita do quotidiano.

“As cartas não precisam de ser grandes, mas sim oportunas. Sei que, para os rapazes das nossas freguesias rurais, dá-lhes a maior alegria que lhes falemos das coisas mais importantes que se passam nas suas terras, feiras, romarias, casamentos, etc.”

Gabriela Silva

Gabriela Silva encara os aerogramas como “o Tik Tok daquela época”. “O Tik Tok é uma mensagem breve, mas carregada de significado. O aerograma era uma intenção em ponto pequeno: o fazer sentir que aquela pessoa não estava sozinha porque tinha recebido uma mensagem. E que, num determinado lugar de Portugal, havia alguém a pensar naquele soldado”, reflete.

A escrita de aerogramas não demorou a convencer militares e famílias a partilharem os seus dias e interesses. Marta Martins Silva dá conta, no livro Madrinhas de Guerra (2020), de que, em agosto de 1961, já haviam sido enviados “milhares”: 243 mil aerogramas para Angola; 51 mil para Moçambique; 11 mil para a Guiné; 11 mil para Cabo Verde; 47 mil para a Índia e dois mil para São Tomé.

As características de um aerograma foram definidas ainda antes do início da Guerra Colonial, em 1952, no Congresso da União Postal Universal (UPU), realizado em Bruxelas. Segundo Alberto Oliveira Pinto, o aerograma consistia “numa folha de correspondência cujo volume, depois de dobrada e fechada, correspondia ao de um postal de correio”. Não podia conter qualquer tipo de objeto. Na obra “A História Postal do SPM: Aerogramas e Movimento Nacional Feminino”, o historiador explica que o papa-estradas devia ser dobrável, em duas ou quatro partes e as dimensões não podiam exceder os 15 x 10,5 centímetros (cm), nem ter uma medida inferior a 10 x 7 cm.

Inicialmente impressos em azul e, a partir de março de 1962, também em amarelo, os aerogramas tinham diferentes destinos. Eduardo Barreiros e Luís Barreiros, em a História do Serviço Postal Militar (2004), realçam que os aerogramas azuis eram vendidos na metrópole por 30 centavos e os amarelos tinham como destino o Ultramar, sendo distribuídos gratuitamente pelos militares destacados.

Até junho de 1963 coube à revista Eva, à Plateia e ao Diário Popular dar um especial apoio na angariação de madrinhas de guerra. Através delas eram publicados vários anúncios de militares pedindo “as madrinhas”. Neles, os jovens militares faziam a descrição pormenorizada do tipo de madrinha que gostavam de ter.

 

“A madrinha de guerra era fundamentalmente uma amiga e uma confidente, mas havia também a certeza de que era transitório. Sem deixar de ser uma pessoa muito importante era uma amiga ocasional. Era alguém que estava ali com uma missão”

Gabriela Silva

Diana Martins acrescenta ainda que os aerogramas podiam ser adquiridos em comissões e delegações do MNF, em juntas de freguesia, em casas do povo e em departamentos públicos ou comerciais que quisessem colaborar com o movimento.

Os aerogramas tinham, contudo, normas de circulação específicas, sendo que o seu incumprimento levava à devolução ao seu remetente. Segundo o artigo 1, da Portaria n.º 18 545 , emanada pelos Ministérios das Comunicações e do Ultramar, em 1961, estavam isentos de pagar franquia postal as “correspondências de índole familiar que fossem expedidas para qualquer ponto do território português”. A medida aplicava-se aos três ramos das forças armadas, às corporações militarizadas destacadas nas colónias, aos expedidos do continente e ilhas, assim como aos familiares e às madrinhas de guerra.

No entanto, Elisa Janeiro relata que, na sua experiência, os aerogramas eram distribuídos em número limitado na zona de Lisboa.

“Tínhamos direito a quatro ou cinco, por mês. O resto era através das cartas… e para quem tivesse poder económico para isso. Quando não se tinha mais aerogramas, tínhamos de ceder uns aos outros.”

Elisa Janeiro

A madrinha acrescenta que, muitas vezes, os papa-estradas chegavam com “dois meses de atraso”.

“Uma das coisas que passei a ter noção, enquanto madrinha de guerra, foi da cronologia. Já estruturava as coisas de modo que quando ele lesse não misturasse os assuntos.”

Se só podiam viajar sem franquia postal os aerogramas de índole familiar, o endereço que neles constava também era muito específico. “Naquela altura, o endereço era muito simples. Era o nome da freguesia e vamos embora”, descreve Gabriela Silva.

Distribuídos pelos CTT [Correios de Portugal] e pelo SPM [Serviço Postal Militar], muitos foram os aerogramas devolvidos pelo incumprimento das normas. O transporte de documentos, fotografias ou objetos era uma das principais infrações cometidas. Mais tarde, a entrada dos Transportes Aéreos Portugueses (TAP) veio a aumentar ainda mais o interesse por este meio de comunicação já que tornou o correio mais rápido. A média mensal de aerogramas até setembro de 1962 foi de, aproximadamente, 424 mil aerogramas, tendo aumentado para quase 664 mil até abril de 1963. Estes dados foram analisados em profundidade por Eduardo e Luís Barreiros, no livro História do Serviço Militar.

Quando enviados para os territórios colonizados, os aerogramas só podiam conter o nome, o posto e o número do Indicativo Postal Militar ou SPM que era atribuído a cada militar. Qualquer referência a localidade ou unidade a que o soldado pertencesse estava estritamente proibido.

Apesar de não haver legislação para a censura destes meios de correspondência, a PIDE, mais tarde transformada em DGS (1969), controlava nas colónias a distribuição dos aerogramas. A falta de lacre nesses, desde cedo, provocou desconfiança junto dos militares.

“Qualquer pessoa podia desfazer e abrir porque os aerogramas eram uma folha de papel A4. Mas não. Nunca nenhum meu foi aberto.”, explica Natércia.“Nós também nunca nos metemos na política…”, continua recordando que escreveu, pelo menos, 365 papa-estradas.“Os pais dele moravam aqui em Condeixa e tinham um tasco onde vendiam vinho e faziam bom cabrito, principalmente, na Páscoa. Era sobre isso que lhe escrevia. Às vezes, mandava-lhe a receita daquilo”, realça.

Para Eduardo Barreiros e Luís Barreiros , além dos aerogramas, com o passar dos anos, foram criados alguns mecanismos de segurança por parte dos militares e das madrinhas, de forma a manter a confidencialidade. Para além da boa selagem das margens dos aerogramas “com bola, com fita adesiva ou mesmo com adesivo medicinal”, tornou-se frequente encontrar a “assinatura do remetente sobre a pala do fecho”, lê-se no mesmo livro.

Já Espírito Santo define os bate-estradas como “um símbolo de união entre a retaguarda e as frentes” e um “espaço de partilha de pedaços de vida, de sonhos, de fantasias e saudades”, informação que fez notar no livro “Adeus, até ao teu regresso – O Movimento Nacional Feminino na Guerra Colonial (1961–1974)”.

Se o objetivo do regime era, de alguma forma, vincular o contacto entre madrinhas e militares, o serviço postal permitiu criar uma onda “de carta coletiva”, escreve Norberto Cardoso . Assim, através de um facilitado sistema epistolar, neste caso, com a gratuitidade dos aerogramas e com a criação das madrinhas de guerra – que funcionaram como correspondentes – o regime desenvolvia um mecanismo que pretendia ter mais controlo sobre os militares. No fundo, o objetivo era passar uma ideia que funcionasse como uma espécie de “pacto circular”: todos eram incluídos e todos apoiavam, permitindo assim uma maior mobilização para a guerra. Para alguns dos envolvidos, os aerogramas foram o ex-líbris da Guerra Colonial.

A ideia do “destino” vs “obscurantismo do regime”

 

Gabriela Silva nunca se questionou se a guerra era justa ou injusta. “Havia muita pouca informação. Para nós [madrinhas], eles estavam na defesa do território, da pátria e ponto. Era uma causa importante porque era um território nosso e estavam a defendê-lo… Devia ter pensado melhor se era realmente nosso ou deles”, reflete, com um tom de voz abalado.“Na altura, toda a gente achava natural… É por isso que hoje já não acho tão natural”, afirma.

Naquele tempo, relata que sentia, por parte de quem governava, uma “aparente” inquietação.

“A preocupação de fazer chegar algumas mensagens. Houve dezenas de mulheres que desempenharam esse papel. O papel de dar força, encorajamento e o papel de pessoa fiel que está à espera… Era quase como se estivéssemos todos sentados na cadeira à espera que a guerra acabasse para eles voltarem”, compara.

 

Agora, com uma maior consciência política, Helena Fonseca diz sentir-se com uma “sensação de tristeza”.

“Revolta sempre, pensar que os homens eram obrigados a ir para uma guerra. Por exemplo, eu tenho filhos. O mais novo tem 35 anos e o mais velho, 44. Quando penso, se eles tivessem de ir… É de uma violência tremenda. Ninguém gosta da guerra”

Helena Fonseca

Quase a atingir a idade adulta esta era uma das preocupações dos jovens. Quando chegavam aos 17 anos, as possíveis idas dos filhos, irmãos, namorados ou quaisquer outros familiares assombrava a sociedade portuguesa.

O mesmo sentimento é descrito por Rosa Silva. “Eu comecei a escrever quando recebi o primeiro aerograma, mas era uma coisa mesmo quase a medo”, expõe. “A nós diziam-nos que não podíamos falar sobre certos assuntos porque depois íamos presos… Era o que nos diziam em canalha”, confidencia.

“Aquele tempo visto à luz dos meus 81 anos era tudo obscurantismo”, reflete Natércia Martins. Para esta professora reformada, que sempre acreditou na função de madrinha como destino, só mais tarde é que se apercebeu do regime em que vivia. “Talvez houvesse meia dúzia de pessoas que soubessem, mas nós não tínhamos essa consciência”, reflete.

Para si, também a Guerra Colonial significava defender um território que era “nosso”. O conhecimento que lhes era conferido não permitia que contornassem quaisquer pensamentos que atentassem o regime. Natércia não tinha consciência de que “aquilo era uma ditadura”.

“Havia quem tivesse porque vivia em Lisboa, numa cidade ou numa sociedade mais aberta. Nós vivíamos numa sociedade mais fechada. Portanto, para nós, os soldados iam defender o que era nosso. Mas, afinal, não era bem assim. “Eu nem sei como começou o conceito de madrinha de guerra…”, reconhece.

Elisa Janeiro conta que, por Lisboa, “toda a gente sabia” da influência do regime na questão dos aerogramas. Não se podia contestar o regime ou pôr até o funcionamento do mesmo em causa. De lés a lés, a regra era a mesma: se o fizessem, seriam logo vigiados.

Apesar de nunca ter sido politizada, esta transmontana de gema admite que, desde cedo, teve noção do que era a guerra pela vivência. “Em Sete Rios, não havia metro, mas aquele espaço físico já existia. Esse espaço estava cheio de jipes, de carros de combate que levavam o pessoal atrás… Aquilo eram centenas. Estavam ali 15 dias e ao fim de 15 dias eram embarcados”, recorda com tristeza.

As madrinhas enquanto apoio psicológico

“Esqueci-me da vida”, desabafa Natércia Martins enquanto folheia um livro e nos mostra uma entrevista que concedeu. É então que a mais velha das madrinhas encontra um dos seus poemas no meio do livro, escrito pouco tempo depois do seu marido, António, voltar a Lisboa. Foi o acaso que considerou ser menos expectável. Seguia-se um tema de conversa em que algumas madrinhas só queriam esquecer, outras já teriam sido esquecidas e das muitas outras que restavam, nada mais tinham a dizer a não ser: foi “efémero”.

As várias madrinhas de guerra que o Gerador entrevistou assumem uma grande dimensão psicológica neste que viria a ser o “processo terapêutico” da escrita e da escuta para quem se correspondia. “Éramos mulheres de apoio aos homens que estavam em guerra”, responsabiliza-se Natércia Martins. As madrinhas de guerra assumiam assim um pilar essencial – tornaram-se no apoio psicológico para os militares, mesmo quando eles preferiam contar-lhes o que não contavam à família. Isto porque, como reforça Maria Helena enquanto ajeita os aerogramas que trouxe consigo para a conversa juntamente com postais “com a família era um tipo de relação, connosco era outra”, continua engolindo em seco.

É neste “varrer” de memórias que salta à vista um excerto de que Maria Helena não consegue abdicar a leitura: “É preciso enfrentar todas as adversidades sempre de pé firme e de modo algum deixarmo-nos arrastar pela angústia ou pela saudade. Por isso, te agradeço que me escrevas”, termina.

A Guerra Colonial mobilizou cerca de 800 mil homens, dos quais morreram cerca de 80 mil, e resultaram cerca de 100 mil vítimas de stress de guerra. Estes dados apresentados em 2004, por Helena Neves, investigadora do CES, no artigo “Amor em tempo de guerra: Guerra Colonial, a (in)comunicabilidade (im)possível”, não identificam ainda o número de homens que recorreram a apoio psicológico partindo da procura das suas companheiras e esposas, algumas delas, suas madrinhas de guerra.

O homem que regressou nunca é o mesmo que partiu. “Estas mulheres são as primeiras a procurar os psicólogos para os maridos, porque veem o namorado ou o marido mais agressivo, com outras questões que elas não conseguem resolver”, adianta Sara Roque. Ainda assim, alerta a investigadora, “e as mulheres que cá ficaram? Que escreveram? Que cuidaram dos filhos e leram acontecimentos trágicos?”. E onde ficaram estas mulheres? Para Gabriela Silva, ficaram ali, reservadas àquele fim. “As cartas funcionavam muito taco a taco. O que vinha eu dava resposta ao que me perguntavam ou simplesmente aquilo que eu sentia que precisavam de ouvir de volta. Era para isso que nos destacavam. A minha escrita era sempre intensa porque eu tinha muita consciência dessa dor”, responde a madrinha açoriana.

O desaparecimento da madrinha

Maria Helena e Maria Teresa não conheciam o MNF na íntegra. A sua estrutura orgânica era representada por comissões distritais, concelhias e de freguesia. O organismo deste movimento tinha secções especializadas que atuavam em diferentes áreas de intervenção, como de notícias, a secção das bibliotecas de contencioso, de farmácia, de assistência à família, de participação de baixas, de emprego, de encomendas, da secção de passagens, do serviço de embarque, de lembranças individuais e coletivas, a caixa correio que funcionava no âmbito da distribuição gratuita do serviço nacional de madrinhas de guerra, entre muitas outras.

O cariz era sempre o mesmo: feminilidade, representação e assistência. Neste sentido, as madrinhas de guerra integravam as secções do movimento, oriundo do regime do Estado Novo que, aos olhos de algumas destas mulheres, hoje, foi uma ideia “brilhante da ditadura”: “pedir à mulher portuguesa, sem consciência nenhuma ideológica, que fizesse parte deste esforço de guerra e a mulher portuguesa fez. Sem qualquer consciência”, reconhece indignada a investigadora Sara Roque.

Este “instrumento”, utilizado durante a Guerra Colonial, revelou-se efémero. Gabriela Silva reforça que “a sociedade portuguesa sempre deu muito pouco valor à mulher e, o sistema, talvez tenha achado que isto era uma manobra de diversão – escrever cartas”.

A também ex-deputada do Partido Socialista nas eleições parlamentares de 2007 sempre tentou gozar da liberdade quando esta parecia viver nas sombras dos territórios colonizados. Naqueles tempos, enquanto escrevia, lia Manuel Alegre, Zeca Afonso, Júlio Dinis, Eça de Queirós e Miguel Torga. “Adorava-os.” Para Natércia Martins, “eles [soldados] tinham consciência da importância do correio que recebiam de cá”, mas, no seu entender, não passava disso. Maria Teresa não deixa de concordar com aquela que foi a madrinha que trocou mais de três centenas de cartas, mas, para si, não era só dos militares que dependia, “o sistema não dava apoio, talvez por sermos mulheres”, lamenta.

As madrinhas de guerra foram úteis ao regime? A investigadora Sara Roque acredita fielmente que sim, mesmo sabendo que as madrinhas de guerra “do dia a dia” que se correspondiam na altura, hoje, não têm consciência de que fizeram parte de uma “máquina do sistema”. “Há várias madrinhas de guerra, tal como explica a investigadora: por interesse; as que não têm interesse algum e o único interesse é manter o soldado animado e as que veem no soldado uma forma de se libertarem de uma fragilidade emocional. Para Sara, pode até ser chocante as madrinhas saberem de que se trataram de “uma ideia brilhante de Salazar.”

A investigação “A Madrinha: a correspondente que “marchou” na retaguarda da guerra” foi realizada ao longo dos últimos dois anos. Por essa razão, algumas das idades dos entrevistados/as, identificadas ao longo dos seis artigos podem já não corresponder à realidade.

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As madrinhas de guerra foram um “sintoma” político e social durante o Estado Novo

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Que espaço ocupam as mulheres na memória coletiva sobre a Guerra Colonial?

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