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Zine Insubmissa Gerador: Pensar o Colonialismo em voz alta

Textos de Neusa Sousa, Joana Gorjão Henriques, Tiago Sigorelho (Gerador) e Marta Dineia Gamito (Casa Capitão)
Cartazes de Diogo “Gazella” Carvalho
Ilustração ao vivo de Emma Make
Vídeos e fotografias de Danilo Godoy
Web design de Inês Roque

17.02.2026

As Residências Insubmissas Gerador são um espaço de programação regular na Casa Capitão, em Lisboa, para pensar em voz alta os temas que mexem com a sociedade. Dedicámos a terceira edição, que aconteceu no dia 17 de abril de 2026, ao tema do colonialismo, reunindo artistas, jornalistas, investigadores e público. Conscientes da impossibilidade de condensar numa única página todas as reflexões desta noite, convidámos algumas das vozes que nos ajudaram a trilhar caminho a partilhar connosco pistas para continuar a conversa. O resultado está à vista, podes ler tudo em baixo.

Pensar o colonialismo em voz alta

Texto de Neusa Sousa, Fundadora Chá de Beleza Afro (CBA)

 

Ilustração Emma Make

Quando olho à minha volta, é impossível não pensar no colonialismo. Não apenas no colonialismo dos livros, das datas e dos monumentos, mas naquele que continua presente nas estruturas, nas oportunidades e nos silêncios.

Nunca acreditei na meritocracia. O que fiz durante muito tempo foi tentar não pensar demasiado nisso, para não viver consumida pela frustração. Optei por trabalhar, criar os meus próprios espaços e seguir com autenticidade.

Mas a falta de oportunidades sempre me inquietou.

Faço televisão há mais de nove anos. Trabalho, preparo-me, dou provas, mas muitas vezes sinto que não consigo sair do meu gueto comunicacional: um espaço onde parecemos autorizadas a existir, mas raramente a ocupar centralidade.

E quando isso se repete, instala-se a pergunta: o problema sou eu ou é o sistema?

Estas perguntas acompanham muitas pessoas negras e racializadas. Porque quando as portas não se abrem, a sociedade raramente aponta para a estrutura. Faz-nos acreditar que o problema está em nós.

Lembro-me de Viola Davis, quando fala da linha que a separa das mulheres brancas: a linha das oportunidades. Talento sem oportunidade continua invisível. Potencial sem espaço continua bloqueado.

Vivemos numa sociedade estruturalmente racista, com pouca representatividade da mulher negra nos espaços de decisão. A mulher negra sustenta silenciosamente grande parte desta sociedade, mas continua marginalizada na empregabilidade, na valorização e na ascensão profissional.

Por isso, pensar o colonialismo em voz alta é também falar de trabalho, dinheiro, reconhecimento e dignidade.

Houve um momento em que percebi que não queria ficar presa apenas à dor. Estava cansada de ver pessoas negras convidadas apenas para falar de racismo, pobreza ou discriminação, como se a nossa existência se resumisse ao sofrimento.

A dor existe. Marca-nos. Mas não nos resume.

Quis mostrar também aquilo que temos de belo e poderoso: criatividade, alegria, música, dança, empreendedorismo, inteligência coletiva e capacidade de amar apesar de tudo.

Quis fomentar uma África positiva. Não romantizada, mas inteira, humana e complexa.

Foi dessa inquietação que nasceu o Chá de Beleza Afro.

O CBA nasceu para fomentar o afroempreendedorismo e o networking feminino. Sempre disse que queria que fosse uma espécie de Web Summit de mulheres negras: um espaço seguro onde se discutem problemáticas reais, mas também onde se criam negócios, alianças e visibilidade.

Porque também é político celebrar-nos.

O Chá de Beleza Afro já provou impacto, consistência e relevância. Ainda assim, continua muitas vezes tratado como periférico. Isso mostra que nem sempre a invisibilidade nasce da falta de mérito; muitas vezes nasce de quem decide o que merece ser visto.

Lembro-me então de Cida Bento e do pacto narcísico da branquitude: esse acordo silencioso que preserva privilégios e exclui pessoas negras dos lugares de poder.

Aprendi que é importante dar nome às coisas. Se não nomearmos as microagressões e exclusões, começamos a duvidar de nós próprias.

Descolonizar o pensamento, para mim, não é só denunciar. É construir. É questionar porque continuamos a reproduzir os mesmos convites, os mesmos especialistas, os mesmos rostos.

É também parar de esperar que sejamos sempre nós a educar os outros sobre racismo e colonialismo. Hoje toda a gente tem acesso a livros, documentários, internet e ferramentas para aprender.

Uma mulher negra com dois ou três trabalhos talvez não queira passar o pouco tempo livre a explicar dores que já vive diariamente. Talvez queira apenas descansar, rir, dançar e sentir leveza. Isso também é político.

bell hooks escreveu sobre o amor como prática de cura. Talvez resistir também seja isso: amar-nos, proteger-nos e criar espaços onde possamos existir inteiras.

Ser invisível durante anos, sem rede de afeto, sem pessoas conscientes que nos relembrem do nosso potencial, pode fazer-nos começar a ver-nos como invisíveis também.

Talvez descolonizar seja também isto: parar de esperar que nos deem espaço e criar o nosso próprio espaço.

Da memória mitificada ao silêncio

Texto de Joana Gorjão Henriques, jornalista

“O criado era a maneira de fazer com que o miúdo se sentisse eleito. (…) Os que nasceram em Moçambique, mas também os que vieram da Europa, de Portugal continental, e se fixaram em Moçambique, tinham a consciência de serem uma espécie de eleitos. Naquela altura, cada família tinha um certo número de criados. Imagine-se uma criança, filho de um colono, com quatro ou cinco anos, a dar ordens a cinco criados que podiam ter 60 anos. Isto é decisivo para a formação — terrível. Levei anos em França, depois, para me libertar dessa consciência de ser um eleito. Espero tê-lo conseguido.”

A afirmação, do filósofo José Gil, em entrevista para a minha investigação Colonos, Retornados e a Revolução por cumprir (Tinta-da-china) representa bem a forma como o racismo se enraíza em níveis profundos, em particular entre populações brancas de países que foram colonizadores, como Portugal. Por mais que queiramos e achemos que escapámos, há momentos nas nossas vidas individuais ou colectivas em que acaba por emergir.

Estando na base da definição do racismo a ideia de eleição é uma tecnologia de poder que se vai reconfigurando. Há uma “raça”, branca, que monta a hierarquia — o dispositivo racial define as relações.

O racismo contemporâneo não pode ser compreendido sem colocar o colonialismo português no centro da análise, e não estou a falar de algo difuso no tempo e no espaço mas de algo activo agora. A ideia de um colonialismo “excepcional” português, assente numa alegada relação harmoniosa com as populações locais, persiste em múltiplas dimensões — da geografia simbólica ao espaço público, passando pelas relações de poder quotidianas.

Peguemos no mapa de Henrique Galvão, da década de 1930, que aproximava artificialmente os territórios africanos de Portugal, projetando a imagem de um império vasto e coeso, com o título Portugal não é um país pequeno. Essa representação contribuiu para a consolidação de uma narrativa sobre a dimensão e o papel histórico do país, que ainda hoje é convocada em vários discursos: fomos grandes, maiores do que as nossas minúsculas fronteiras.

Olhemos para as narrativas contemporâneas da extrema-direita sobre identidade nacional, a valorização acrítica da história dos “Descobrimentos” e a amplificação do papel geopolítico de Portugal. Encontram eco para além desse campo político, reproduzem-se nos currículos escolares, nos monumentos, na cultura, na organização do espaço urbano.

A memória colonial opera como poder que define o que é visível e o que fica de fora da imagem.

A ausência reflete e reforça hierarquias. Porque tão importante como olhar para o que está e como está no espaço público é imaginar o que não está e o que deveria estar.

Na verdade, o papel do colonialismo português não aparece apenas como pano de fundo, não está algures nas vidas dos nossos antepassados, é um quadro estruturante que ajuda a olhar e a compreender o racismo contemporâneo.

Ilustração Emma Make

O colonialismo continua visível e nomeado no espaço público, o que é uma escolha política, feita por elites e por uma hierarquia predominantemente branca.

Está em estátuas coloniais no Jardim Tropical, em intervenções recentes no espaço urbano, como os brasões das antigas colónias inscritos no chão em Belém; no Portugal dos Pequenitos, onde persistem representações estereotipadas do império, expostas sem contextualização.

E, como dizia, está ainda no que não está: Portugal não tem um memorial público dedicado à escravatura, apesar do seu papel central no tráfico transatlântico. Em 2017, a Câmara Municipal de Lisboa aprovou a construção de um memorial, por iniciativa da associação Djass. Nove anos depois, não foi concretizado. A ausência é uma escolha política.

O colonialismo causa danos: o poder determina que sofrimentos contam como história e quais se tornam invisíveis, quem é reconhecido como humano e quem não é.

É importante documentar os seus efeitos, mas também confrontar as instituições de poder que continuam a replicá-lo numa memória pública selectiva.

Fazê-lo é importante, e ainda mais importante é não permitir que isso nos deixe numa posição de bloqueio. Não é só o risco de o nosso silêncio ser cúmplice.

Este gesto implica deslocar o foco exclusivo das consequências sobre as populações negras, implica dissecar o nosso papel como brancos nesse sistema e nos mecanismos que permitem este eterno retorno – e tomar acções concretas.

Sem isso, a crítica ao racismo pode ficar apenas como descrição sem atingir o nervo que o produz e se reproduz. E a ideia de que fomos — e ainda somos — “eleitos” deixa de ser memória para continuar a ser prática.

Clica na seta para descobrir o olhar atento da ilustradora Emma Make, que ao longo do evento desenhou ao vivo o que estava a acontecer

 

Insistir, sempre

texto de Tiago Sigorelho, diretor editorial do Gerador

A última edição das Residências Insubmissas Gerador confirmou uma suspeita que nos tem acompanhado desde o início deste projeto: quando se criam lugares abertos, rigorosos e vivos para falar dos temas difíceis, as pessoas aparecem. Querem ouvir, perguntar, discordar, juntar à conversa aquilo que carregam no corpo, na memória, na família, na escola, na língua, nas imagens que herdaram e nas histórias que nunca lhes foram contadas por inteiro.

Durante demasiado tempo, temas como colonialismo, racismo, lusotropicalismo, reparação histórica ou memória coletiva foram empurrados para lugares muito específicos como a academia, os livros especializados, algumas conferências, certos círculos ativistas, algumas páginas de jornalismo mais atento. Todos esses lugares são fundamentais. Mas não chegam. Não chegam quando percebemos que o colonialismo continua a organizar a forma como olhamos para o passado, para o território, para a nacionalidade, para a cultura, para o que se celebra e para o que se apaga. Não chegam quando há tanta gente à procura de fóruns onde estas perguntas possam ser colocadas sem solenidade excessiva, mas também sem simplificação.

Foi por isso que quisemos trazer esta conversa para a Casa Capitão. Não para a tornar mais leve, mas para a tornar mais próxima. Pensar o colonialismo em voz alta não significa transformar a história num debate de opiniões equivalentes. Significa criar condições para que uma sociedade possa olhar para as suas narrativas fundadoras com mais coragem do que conforto.

A noite começou com o LEAP – Legacy in Progress, projeto europeu em que o Gerador participa e que procura precisamente criar espaços de reflexão, diálogo e transformação em torno dos legados coloniais e das suas ligações ao racismo contemporâneo. Não era apenas uma introdução ao programa. Era também uma forma de dizer que esta residência não surge isolada, nem como uma reação pontual ao tema do momento. No Gerador, temos vindo a insistir neste campo há vários anos, com são exemplo o projeto Lusotropicalismo, que procurou desmontar o mito de um colonialismo português excecionalmente brando; o MANIFEST, dedicado a novas perspetivas artísticas sobre a memória do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas; e agora com o LEAP, que continua esse trabalho a partir da arte, da educação, da investigação e do debate público.

Insistir é talvez a palavra certa. Porque falar de colonialismo em Portugal continua a exigir insistência. Exige repetir que memória não é nostalgia. Que reconhecer violência não é apagar história. Que desmontar mitos nacionais não é atacar um país, mas recusar que ele continue preso às versões mais convenientes de si próprio.

Com Joana Gorjão Henriques, o mapa dos legados coloniais tornou-se mais concreto. Falou-se de instituições, linguagem, desigualdades, direitos humanos, memória e esquecimento. Falou-se do que permanece quando uma sociedade prefere celebrar a aventura em vez de enfrentar a violência.

Depois, Patrícia Ferraz de Matos ajudou-nos a entrar no coração de um dos grandes mitos portugueses: a ideia de que Portugal teria tido uma relação colonial diferente, mais suave, mais mestiça, mais aberta, mais humana. É difícil discutir o presente sem voltar a este ponto. Durante décadas, esta narrativa serviu para transformar dominação em encontro, violência em exceção, racismo em mal-entendido, exploração em vocação universalista.

A conversa sobre colonialismo na cultura digital trouxe o tema para outro território, aparentemente mais recente, mas profundamente ligado ao mesmo problema. Com Fábio Silva, Neusa Sousa, Raquel Nhaga e Eliana Silva, olhámos para a inteligência artificial, os algoritmos, a moderação de conteúdos, a produção de imagens e os discursos de ódio como espaços onde desigualdades históricas podem ser reproduzidas, aceleradas e normalizadas.

Uma das forças desta noite esteve também no público. Nas perguntas que surgiram, nas inquietações que ficaram suspensas, na vontade de continuar. E essa vontade interessa-nos muito. Porque há um cansaço democrático que se instala quando nos convencem de que certos temas são demasiado difíceis, demasiado identitários, demasiado divisivos, demasiado perigosos. Mas o que vimos naquela noite foram pessoas disponíveis para a complexidade, para a escuta, para o desconforto, para a aprendizagem coletiva. Pessoas que não estavam à procura de slogans, mas de linguagem. Não de conclusões fechadas, mas de ferramentas para pensar melhor.

É precisamente neste tempo, de ambiente político mais duro, mais agressivo e mais tentado por simplificações violentas, que precisamos de falar mais destes temas. Não menos. Quando a extrema-direita cresce alimentando ressentimentos, fantasias de pureza, revisões históricas e hierarquias de pertença, a resposta não pode ser empurrar as conversas difíceis para debaixo do tapete. O silêncio nunca é neutro.

Ao longo da residência, Emma Make foi desenhando a sua leitura da noite. Esse gesto, aparentemente paralelo, é parte essencial do que queremos fazer com estas residências, que envolve memória. No final, o DJ set de N▲N▼ devolveu-nos ao corpo. E talvez isso também faça parte da resposta. Porque pensar temas difíceis não tem de nos retirar da vida comum, da noite, da música, da presença dos outros. Pelo contrário, é aí que muita coisa ganha sentido.

Ainda falta falar. Ainda falta ouvir. Ainda falta desmontar muito do que nos foi transmitido desde sempre. É por isso que vamos continuar a insistir nas próximas Residências Insubmissas Gerador.

Pensar o Colonialismo em Voz Alta

texto de Marta Dineia Gamito, responsável de programação da Casa Capitão

Pensar o colonialismo em voz alta é reconhecer que os seus legados não terminaram com o fim administrativo dos impérios. É reconhecer que continua inscrito nas narrativas e nas estruturas contemporâneas, que persiste como infraestrutura normativa das formas de organização social, económica, cultural e política. Em Portugal, não podemos não fazer esta reflexão e devemos reconhecê-lo em voz alta.

O legado do colonialismo não se limita a estruturas políticas e económicas assimétricas. Uma das suas heranças mais persistentes é a forma como continua a organizar o olhar sobre o mundo, determinando ideias de progresso, desenvolvimento, modernidade e até humanidade.

Muitas das crises contemporâneas assentam nessas hierarquias históricas, construídas a partir de epistemologias coloniais que sobreviveram ao fim administrativo dos impérios. É por isso que o colonialismo não pode ser pensado apenas como uma questão histórica, técnica ou ambiental, mas civilizacional e política.

As formas contemporâneas de produzir, consumir, explorar recursos, ocupar território e hierarquizar vidas continuam marcadas por lógicas extrativistas e coloniais que permanecem naturalizadas no presente. Talvez seja precisamente essa naturalização que torna o colonialismo contemporâneo tão difícil de reconhecer.

As Residências Insubmissas Gerador são insubmissas porque trazem temas instáveis e investigação crítica para um espaço informal e coletivo de discussão e participação. Pensar o colonialismo em voz alta foi também isso: desarrumar narrativas naturalizadas e discutir heranças coloniais que continuam a atualizar o presente.

Aliás, é precisamente nessa capacidade de produzir alguma desordem no que aprendemos a aceitar como natural que reside a insubmissão das Residências Insubmissas Gerador.

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