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Opinião de Paulo Pires do Vale

História do futuro

“O que foi nunca mais será?”                                                                                                            Vasco Araújo, Eco Começamos pelo paradoxo: como…

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“O que foi nunca mais será?”

                                                                                                           Vasco Araújo, Eco

Começamos pelo paradoxo: como pode escrever-se uma história do futuro? Não é a história investigação do passado, do já realizado, do morto? Não é o futuro o imprevisto, o inapreensível porque ainda inexistente?

Foi precisamente na argumentação para provar a possibilidade e a necessidade de escrever uma História do Futuro que Pe. António Vieira se demorou mais, no livro com esse mesmo título. E ao longo dessas páginas inteligentes, mostra como a profecia a que se propõe não é a adivinhação de um porvir traçado na palma das mãos, nas cartas ou nas estrelas. Não é destino. A profecia a que se sente impelido é a leitura projectiva da história. O futuro está, assim, escrito no passado. Não nos factos exactos, mas nos processos onde se revela a condição humana.

A história podia ser mestre, a maior de entre eles, mas aprendemos pouco com ela. Cada geração parece sempre a primeira, um começo, pouco ou nada assimilando da anterior. A grande pre-vidência de Vieira é compreender que ao olharmos o passado podemos ver mais longe para o futuro. Não se dirige o olhar em direcção ao morto, mas ao vivo[1]. A história é feita do que nela permanece vivo para o presente – e para o futuro. Do fecundo. Daquilo que nos ajudar a orientar no horizonte que é ou será o nosso. Não apenas o que nos agrada, mas o que incomoda e nos pode mesmo por em causa. Nesse sentido, perceber-se-á melhor a enigmática exigência evangélica de “deixar os mortos sepultar os mortos”[2], e retomar da história o que dá vida. O redivivo. O que se dirige ao que vem, ou melhor, o que é já futuro.

A história do futuro é, então, uma história feita da novidade de coisas não-novas: “É uma História nova sem nenhuma novidade, e uma perpétua novidade sem nenhuma cousa de novo”[3]. E Vieira percebeu bem que é a intencionalidade do olhar do receptor que produz o novo: “Quando Adão saiu flamante das mãos de Deus, abriu os olhos, e viu tanta cousa nova, e todas eram mais antigas que ele. Nem eram elas as novas; ele era o novo. A novidade da nossa História há-de ser mais dos leitores que dela”[4].

         Apesar da escrita da História ser uma heterologia, um discurso sobre um outro,  mudo e ausente; porque humanos, o que de humano (ou in-humano) da história se desprende não nos é estranho. São as nossas possibilidades - os meus horizontes do possível - o que procuramos na pesquisa histórica. E também por isso, Nietzsche, numa carta a Burckhardt, afirmou de modo radical: “no fundo, sou todos os nomes da história.”[5].

         Somos seres incarnados e históricos. O conhecimento da história é um dos necessários desvios hermenêuticos para fugir da ilusão de um conhecimento imediato de si, de uma consciência auto-transparente e segura. A história é mediação necessária, não só para o eu, mas para o nós, recusando o postulado de um cogito que se julga auto-conhecer imediatamente, claro e certo para si mesmo. Em vez da imediatez da intuição, chega-se a si por um desvio mais longo: “a de nos reapropriarmos de nós mesmos, através das múltiplas expressões do nosso desejo de ser”[6]. A história é o palco onde se expõe este desejo de ser. As obras de arte são a manifestação contínua e renovada dessa sede.


[1] Cfr José Mattoso, A Escrita da História. Teoria e métodos. Lisboa: Editorial Estampa, 1997, p.21.

[2] Lc 9, 60. Ou ainda, no mesmo sentido: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus”. Lc 9, 61

[3] António Vieira, História do Futuro, vol. I. Lisboa: Sá da Costa Editores, 2008, p.139.

[4] Ibidem, p.140.

[5] Carta a Burckhardt, 6 de Janeiro 1889: Friedrich Nietzsche, Sämtliche Briefe, Kristische Studienausgabe, Band 8. Berlin/New York, Walter de Gruyter,1986, p. 578 

[6] Paul Ricoeur, Le conflit des interprétations. Essais d´herméneutique I. Paris, Seuil, 1969. Trad. port. O conflito das interpretações. Porto: Rés, p. 221

Excerto inicial do texto Breve Sumário da História do Futuro publicado no livro Vasco Araújo, Debret. Lisboa: Assírio & Alvim. 2010

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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