Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Ó LEITOR – FLORES

Todos os dias são um bom pretexto para se escrever sobre este livro. Começa assim…

Texto de Gerador

SAMSUNG CSC

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Todos os dias são um bom pretexto para se escrever sobre este livro. Começa assim a sinopse: “Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais...” Este homem é o senhor Ulme, que perdeu a memória devido a um aneurisma. A pergunta que faço é esta: as tragédias que vemos todos os dias na televisão, aquelas que também lemos nos jornais e nas redes sociais, afectam-nos assim tanto? Talvez mais a uns que a outros. Muitas vezes, o escândalo aumenta consoante a proximidade da tragédia. Se estiver perto do nosso umbigo, é um problema muito grande.

O protagonista, que é o narrador e vizinho do senhor Ulme, procura ajudá-lo a recuperar a sua vida, ou, melhor dizendo, a conhecer alguns momentos importantes do seu passado: “Como não conseguia resolver a minha vida, decidi continuar a recuperar a do senhor Ulme”, lê-se na página 150.

Não se sabe ao certo o nome do narrador. Arrisco-me a dizer que podemos mesmo ser todos nós. Em frente ao espelho, ele encontra a dura realidade (a gordura que aumenta de dia para dia, a voz que o tenta convencer a desistir de viver, a viagem às memórias mais marcantes), mas também procura olhar-se como o herói que ele próprio não é.

“Hoje o espelho devolve-me aquilo a que chamamos realidade, que em mim ganha a forma disto que se acumula na cintura e de uma vida conjugal a desmoronar-se, a cair de uma ribanceira depois de uma curva apertada.

- O chapéu continua em cima da cama – disse eu ao espelho”, página 113.

A nossa vida é dura e, por isso, também este livro o é. Quando a última página chega, custa um pouco. E isso não acontece só pela qualidade da escrita. Acontece, sobretudo, porque vivem ali partes da nossa vida, como se levantassem o véu e lá estivesse o nosso lado mais negro: todos temos esse lado.

"...mas sei que isso nos acontece, queremos o conforto da banalidade, daquilo que conhecemos, sentarmo-nos num restaurante e pedir sempre o mesmo bitoque, olhar para a corrupção quotidiana como quem olha uma montra de um pronto-a-vestir, fazer sempre as mesmas maldades, dobrar as camisolas da mesma maneira, votar nos mesmos criminosos, saber que as meias estão na gaveta certa, ignorar a miséria e ter a certeza absoluta de que os chapéus não serão jamais pousados em cima da cama. Eu faço isso, não faço? Faço." pág.72-73.

Mas há esperança. Em Flores, há a ideia de que o fim é, muitas vezes, um recomeço. Há um elogio brilhante à memória, à importância da mãe e do pai na construção de tudo o que nos conseguimos lembrar, um apelo à urgência que devemos ter em viver e em agarrar as coisas que nos fazem bem. Nem sempre temos essas prioridades bem definidas.

“A minha vida foi trocada por objectos patéticos, que se riem da minha estupidez. Dei o meu sangue todo, vendi-o por pedras que me enterrarão e são palavras de escárnio sussurradas ao meu ouvido: uma vida a trabalhar pelo vazio que te oferecemos nas estantes de mogno, nas paredes pintadas de azul-cobalto, tinta importada de Damasco, mãe, de Damasco, nas veias entupidas de gordura, na memória esgotada, neste anel de prata etíope que uso no dedo anelar, no lenço de seda no bolso do casaco italiano que uso em casamentos e funerais, nas louças chinesas do armário de abeto.”, pág.185.

Porque não importa olhar se não repararmos. Esta é uma mensagem muito importante que Afonso Cruz nos deixa em cada página: olha-te ao espelho e vê a tua vida toda, como ela é, como gostavas que fosse, para que não se morra sem se ter vivido. Haverá sempre Flores para quem as quiser ler.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

26 Março 2026

Dar uma volta com Vicente Wallenstein

26 Março 2026

Dia 31 de março vem assistir à apresentação do documentário “Ecos de Lisboa”

25 Março 2026

Residências Insubmissas Gerador: dia 17 de abril pensamos o colonialismo em voz alta

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

23 Março 2026

Natalia Sliwinska: “A perspetiva 3D pode desbloquear certas memórias”

20 Março 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

19 Março 2026

FALA: o escritor Nuno Nepomuceno participa no Clube de Leitura “Entre Capas” a 11 de abril em Alcanena

16 Março 2026

Visita até 17 de março a obra “Fetiche”, de Suelen Calonga, no Curva, em Lisboa

16 Março 2026

Fazer jornalismo dentro das prisões

14 Março 2026

Franco Berardi e Forensic Architecture em destaque no segundo dia de Uncover

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0