Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

“O Que Podem as Palavras”: Filme sobre as Novas Cartas Portuguesas estreia no Doclisboa

Sob o título “A Questão Colonial”, a 20.ª edição do Doclisboa arrancou no dia 6 de outubro. Inserida na programação está a estreia mundial de “O Que Podem as Palavras”, documentário sobre as Três Marias e o livro “Novas Cartas Portuguesas”. Entrevistámos as realizadoras Luísa Marinho e Luísa Sequeira, que, assinalando os 50 anos da publicação, destacam a relevância de revisitar o passado.

Texto de Analú Bailosa

Fotografia da cortesia de “O Que Podem as Palavras”

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

O filme, que começou a ser pensado antes do aniversário de 40 anos do lançamento do livro, nasce de uma proposta da poetisa Ana Luísa Amaral, autora, ao lado da investigadora Marinela Freitas, da coletânea As Novas Cartas Portuguesas Entre Portugal e o Mundo.

Com o apoio das realizadoras convidadas, formou-se um pequeno grupo que, durante mais de dez anos, trabalharam para levar aos cinemas as histórias do processo de escrita coletiva de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa – as Três Marias.

O Que Podem as Palavras, como afirmam Luísa Marinho e Luísa Sequeira, em videochamada com o Gerador, pretende, no entanto, ultrapassar a fronteira do livro enquanto publicação, expondo a sua repercussão social numa altura em que a comunicação era mais limitada. A tradução e disseminação do texto pelo mundo e a votação como a primeira ação feminista internacional – em 1972, pela National Organization for Women (NOW), em Boston, nos Estados Unidos – são alguns detalhes que também compõem a narrativa do documentário, o qual estreia, em projeção única, no dia 9 de outubro, na Culturgest, em Lisboa.

Gerador (G.) – Como decorreu o processo de filmagem das entrevistas? O que sentiram durante essa etapa da produção?

Luísa Sequeira (L. S.) – A Ana Luísa conseguiu reunir com cada uma delas e fomos às casas das três, o que eu acho que foram momentos de grande cumplicidade, principalmente porque a equipa era bem pequena. Estas entrevistas, inicialmente, iriam ser preparatórias para outra filmagem, com um melhor equipamento ou uma equipa maior, mas são as que usamos neste documentário, porque, ao longo do tempo, não conseguimos apoio para voltar a filmar. Tivemos de nos desenrascar. Se estivéssemos à espera de ter a câmara ideal íamos ficar paradas, então, de certa forma, esse arquivo é muito rico por causa disso, porque foi com o que tínhamos na altura.

Luísa Marinho (L. M.) – Uma coisa que acho que toda a gente que esteve nessas entrevistas sentiu foi a cumplicidade e a disponibilidade das três para falarem com a Ana Luísa e nos receberem em casa. Houve muita generosidade em todo o processo, isso foi espetacular.

L. S. – Tanto que estava ali a filmar e às vezes esquecia-me completamente que tinha de estar a olhar [para a câmara] (risos), estávamos muito envolvidas. A Ana Luísa quebrava muito a quarta parede e falava connosco – é bom, porque não é uma coisa encenada. Foi uma escrita cúmplice, e eu acho que as filmagens também foram muito cúmplices nesse sentido. Realmente não havia melhor pessoa para conduzir as conversas do que a Ana Luísa Amaral.

G. – Houve algum relato específico que as marcou?

L. M. – Era interessante que todas elas, as Três Marias, eram muito diferentes. Conseguimos ter empatia com todas as três, e isso foi muito interessante. Claro que com a Ana Luísa, como era amiga das três, era muito mais fácil aceitarem-nos ali. Com a Maria Isabel Barreno, ficámos uma tarde inteira a conversar, [ela] tinha uma cabeça espetacular no raciocínio, não parava de pensar e de conversar, foi muito bom. E depois [ouvimos] histórias de um tempo que nós não vivemos e pensámos que [foi preciso] coragem. Uma coisa que a Isabel Barreno diz, quando a Ana Luísa Amaral pergunta do medo de ir para a cadeia, é que ela já se sentia tão oprimida com tudo à sua volta e que estava a fazer uma coisa que gostava, a escrever um livro com pessoas de quem gostava, que não queria saber se ia ser presa ou não. Era um ato de coragem escrever um livro. Isso toca-me muito, essa ideia de como é que se pode resistir num ambiente que não é propício, sabendo que a tua vida pode acabar ou podes ir presa, e a tua liberdade é muito limitada. Todas elas tiveram uma coragem incrível a escrever aquele livro, eu acho que elas até nem tinham muita noção do que estavam a fazer.

L. S. – Foi muito intenso, uma viagem. Senti-me uma privilegiada por estar ali naquelas salas. O que também é muito interessante é que foram nove meses de gravidez coletiva daquela escrita, daquele livro que é realmente um libelo de liberdade. Hoje em dia, nós estamos com tantas coisas que uma pessoa quase não tem tempo para parar. Elas não, foram ao restaurante, ao Treze, ou em casa, e havia esse ritual, o tempo de gestação. Foi realmente muito forte estar nas salas delas a ouvir essas histórias na primeira pessoa.

As realizadoras Luísa Sequeira e Luísa Marinho. Créditos: Sama
G. – E, numa perspetiva criativa, de que forma tentaram trazer esses testemunhos para a narrativa do filme?

L. M. – O essencial era ter as entrevistas com as três, já não era preciso mais nada (risos).

L. S. – E no mesmo recorte temporal.

L. M. – Sim, foi tudo no mesmo ano, acho eu. Também decidimos incluir alguma animação, porque queríamos que [o filme] fosse um objeto um pouco híbrido, como é o próprio livro das Novas Cartas Portuguesas, que tem poesia, contos, ensaios e outros géneros que nem se conseguem bem definir.

L. S. – Temos a leitura das cartas pela Mia Tomé, que tem um projeto com a Natália Correia, que editou as Novas Cartas. Estes fios invisíveis que vão ligando as pessoas estão no filme. As animações também, um pouco com a estética da altura dos anos 70, bem orgânica e visceral. O filme não fala só sobre a escrita do livro, mas muito sobre essas ligações e sobre o facto de ter tido um impacto internacional enorme.

G. – Mesmo com esse impacto internacional, há mais histórias sobre as Novas Cartas Portuguesas que o público pode ainda não conhecer?

L. M – Sim, o filme tem muitas histórias que pouca gente sabe. Não há nenhum segredo específico, mas, por exemplo, eu acho que pouca gente sabe quem é a Gilda Grillo e como ela conseguiu que o livro fosse conhecido lá fora. Mesmo as manifestações que se fizeram em Nova Iorque, as ocupações de embaixadas que se fizeram, por exemplo, em Haia, na altura, eu acho que há muitas pessoas que não sabem disso.

L. S. – Há muita gente que não sabe o que se passou com as Três Marias e como esse processo se desenrolou, tínhamos o objetivo de contar isso. É bem documental, de contar uma história e de olhar para trás, mas contextualizando. Nós temos uma entrevista com o Adelino Gomes, que estava no pós-25 de Abril, quando elas são libertadas, fundam o Movimento de Libertação das Mulheres e fazem uma manifestação no Parque Eduardo VII, então também temos o que acontece depois.

L. M. – Tentamos levar um bocadinho de tudo isso. Claro que não coube tudo, mas acho que faz um apanhado do que está disponível sobre as Cartas. Nós também tivemos acesso ao arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

L. S. – Que tem imensas coisas, uma pilha de documentos e de cartas de apoio que eram enviadas para as embaixadas. Aliás, o Governo português, na altura, nunca pensou que estas mulheres iriam ter este impacto internacional. De repente, meios de comunicação social internacionais vêm a Portugal para falar sobre as Três Marias. Elas fizeram muito barulho. Há várias coisas, mas o importante, para mim, é realmente sentir o coletivo que fez mexer a estrutura patriarcal.

Ana Luísa Amaral em entrevista com Maria Velho da Costa. Fotografia da cortesia de "O Que Podem as Palavras".
G. – Qual a relevância, na vossa opinião, de revisitar estes momentos, 50 anos depois?

L. S. – Eu acho que temos de olhar sempre para a história. Primeiro, porque a história não está congelada, então é sempre bom olhar para trás com outras lentes e ver outras camadas. Segundo, grande parte da história foi escrita por homens, então nós temos de olhar para trás mais vezes ainda e trabalhar os arquivos silenciados. Há uma frase do Mark Twain que diz que a história não se repete, mas rima. Rima e o tempo de intervalo é cada vez menor. Acho que, nestes momentos, não é olhar para a frente e falar do futuro, da rapidez e da velocidade. Há que ter tempo para isso [pensar a história], e só tem tempo quem tem disponibilidade financeira para parar. Se calhar, as pessoas não têm tempo, estão a trabalhar, sempre a correr de um lado para o outro, alienadas porque têm de sobreviver. Acho que a luta de classes é algo que está muito presente no livro e no filme também.

L. M. – O livro é um pouco isso – três escritoras a olharem para o presente delas e a analisarem o passado a partir das visões delas, por isso foram buscar a Mariana Alcoforado. Não é bem uma dualidade, mas há sempre o ir ao passado para falar do presente e vice-versa. O livro é riquíssimo, fala da ecologia, da Guerra Colonial e vai buscar todos os pontos pertinentes daquela época a partir da cultura portuguesa, da cultura europeia. Isso é muito interessante e continua a ser atual por causa disso. É um livro muito contemporâneo, mesmo esteticamente.

L. S. – E há o diluir da autoria, que é muito potente e realmente original, é uma escrita coletiva que depois resulta num movimento coletivo internacional muito importante. Foi algo único, algo mágico. O que acontece, hoje em dia, é que, às vezes, as coisas não saem das redes sociais. Neste caso, as pessoas foram para a rua. É o [conceito do] corpo-manifesto, no sentido de fazerem cartazes, de estarem ali. Acho que isso é fundamental, [mostrar que] nós estamos aqui e não somos um número que está na tela. Estamos mediados pelo ecrã e, se isso tem alguma potência, também, por outro lado, fragmenta alguns movimentos. O que me ensinou muito a trabalhar com estes arquivos, com estes textos, com estas cartas, com as fotografias que nós vimos, foi, realmente, estes corpos, estas mulheres na rua, a lutarem e a reivindicarem.

Maria Teresa Horta. Fotografia da cortesia de "O Que Podem as Palavras".
G. – O que foi mais desafiador no processo como um todo?

L. M. – Foi mesmo acabar o filme (risos), porque já tínhamos muita coisa e parecia que não avançava. Estivemos assim por vários anos. Também tanto eu como a Luísa Sequeira temos outros trabalhos e, só mais recentemente, quando conseguimos, finalmente, ter algum apoio, o fizemos. Foi muito fácil voltar a ver as imagens e definir tudo. Foi entusiasmante fazer esse trabalho final.

L. S. – O tempo de espera. Isso reflete muito tempo de espera da mulher, que é outro, mais lento. Não foi só porque tínhamos outras coisas. Esse processo de não conseguir apoio foi muito complicado. Tínhamos de comprar imagens de arquivo, por exemplo, que são caras.

L. M. – Precisávamos de dinheiro para comprar as imagens de arquivo que queríamos e não havia hipótese – ou fazíamos uma coisa muito pequenina, só com três entrevistas. Queríamos fazer uma coisa melhor, mais contextualizada, e precisávamos de ter imagens. Foi o tempo que demorou a termos estes meios para fazer, muito tempo.

L. S. – É doloroso também que a Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa não viram o filme.

G. – O Que Podem as Palavras estreia mundialmente, em sessão única, no dia 9 de outubro, no Doclisboa. Quais as expetativas para o lançamento?

L. M. – Otimistas. Acredito e gosto do produto final. Não foi por ter sido nós a fazê-lo, mas acho que se vê bem, a história é interessante, e as pessoas que entrevistamos conseguem captar muito bem os momentos. Acho que o público vai ficar muito entusiasmado também e se apaixonar por aquelas pessoas que estão a falar connosco. Estou muito contente, ainda estou é um bocado nervosa (risos).

L. S. – Sempre fico muito ansiosa com um novo projeto. Eu demoro algum tempo, às vezes, a terminar as coisas, e elas andam comigo e vivem comigo aqui em casa, nas paredes e em todo o lado. Parece que quando termino ainda não é o final, acho que são três pontinhos e vai haver mais desdobramentos. Vou encenar a peça Rosas de Maio, no Rivoli, que também, de certa forma, tem a ver com as Novas Cartas Portuguesas. Eu acho que há estes desdobramentos em vários objetos que fazem parte desta constelação das Três Marias.

Maria Isabel Barreno. Fotografia da cortesia de "O Que Podem as Palavras".
G. – Há planos para mais exibições?

L. S. – Nós gostaríamos muito de exibir comercialmente.

L. M. – Sim, vamos tentar ter mesmo o filme nas salas de cinema. Eventualmente também vai passar num sítio ou noutro, mas ainda não há nada certo. A distribuição cinematográfica é outra luta.

G. – Por fim, na vossa opinião, que já se questionam isso há mais de dez anos, o que podem as palavras, afinal?

L. M. – As palavras podem mudar o mundo. Não estou a dizer que de um dia para o outro, mas é importante porque as palavras refletem uma época, necessidades e indivíduos, muitas coisas. As palavras podem, de facto, ajudar a mudar – tem é, claro, que haver ação sempre. As palavras já fazem parte dessa ação, escrever já é uma ação e mostrares aquilo que escreveste já é uma ação. Eu acredito mesmo que as palavras, as artes em geral e, enfim, tudo o que o ser humano pode fazer tem a possibilidade de mudar alguma coisa no mundo. Não são as palavras dentro de uma gavetinha, fechadas, mas palavras partilhadas.

L. S. – Daqui a pouco vou pensar numa resposta espetacular (risos). Às vezes as palavras também não nos ocorrem na altura certa, mas ficam aqui, na cabeça, e as palavras movimentam pensamentos. As palavras são importantes, fazem parte do nosso léxico, do imagético, e são elas que nos permitem sonhar e movimentar.

O Gerador é parceiro do Doclisboa.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

23 Março 2026

Natalia Sliwinska: “A perspetiva 3D pode desbloquear certas memórias”

2 Março 2026

Laboratório de Ação Cívica: “Dentro dos partidos é muito difícil ter uma intervenção concreta”.

23 Fevereiro 2026

Luís Paixão Martins: “ Os nossos políticos não estão habituados a trabalhar em minorias”

26 Janeiro 2026

Alexandre Alaphilippe: “Mentir e espalhar desinformação já não é penalizado nas eleições”

12 Janeiro 2026

Pedro Jerónimo: “Se não existirem meios locais, que informação as pessoas terão [sobre as suas regiões]?”

22 Dezembro 2025

João Bernardo Narciso: “Grande parte dos alojamentos locais está na mão de grandes proprietários” 

10 Novembro 2025

Mckenzie Wark: “Intensificar o presente é uma forma de gerir a nossa relação com o tempo”

3 Novembro 2025

Miguel Carvalho: “O Chega conseguiu vender a todos a ideia de que os estava a defender”

6 Outubro 2025

Carlos Eugénio (Visapress): “Já encontrámos jornais [em grupos de partilha] com páginas alteradas”

15 Setembro 2025

Chisoka Simões: “Há que sair desse medo do lusotropicalismo”

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0