Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

WOMEX 2022: Um palco para a lusofonia

O dia 19 de outubro marcou o início da 28.ª edição do WOMEX, o mais internacional evento de música do mundo. Depois de passar pelo Porto em 2021, o festival esteve este ano em Lisboa, no feito inédito de ter duas cidades do mesmo país como sedes consecutivas. Fomos à cerimónia de abertura, no Teatro Tivoli, cujo hall de entrada abrigava da chuva sotaques e idiomas de todos os continentes.

Texto de Analú Bailosa

Fotografia de Yannis Psathas

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

No seu discurso de boas-vindas, Alexander Walter, diretor do WOMEX – Worldwide Music Expo, promovido pela companhia alemã Piranha Arts desde 1994, salientou como objetivo principal a oferta de uma plataforma de encontro onde os agentes culturais se podem conhecer e divulgar os seus trabalhos. Durante cinco dias, três mil profissionais da música, vindos de 113 países, reuniram-se numa feira, em conferências, sessões de mentoria, exibições de cinema e concertos espalhados por nove locais da capital.

O responsável pelo evento anual, em entrevista ao Gerador, explica que a ideia de uma visita à Lisboa surgiu durante o desenho da programação da última edição, acolhida pelo município do Porto. Segundo Alexander, ambas as opções pareciam promissoras e o festival decidiu, pela primeira vez, explorar duas regiões de um mesmo país sucessivamente. “Lisboa é mais cosmopolita e tem uma mistura na cultura musical diferente do Porto”, justifica o organizador, que vê vantagens ao mostrar os diferentes cenários nacionais ao público.

A multiculturalidade local também foi reconhecida pelos representantes da Câmara Municipal de Lisboa, do Turismo de Portugal e do Ministério da Cultura, apoiantes do WOMEX 2022 presentes na sessão de abertura. Na sua fala, o ministro Pedro Adão e Silva sublinhou que o pioneirismo do encontro deste ano legitima a relação positiva de Portugal com as artes e louvou a parceria entre as entidades públicas e privadas como uma maneira “virtuosa” de “oxigenar” o setor.

Cerimónia de abertura do 28.º WOMEX, no Teatro Tivoli, em Lisboa. Fotografia de Yannis Psathas.

Foi, no entanto, o concerto Lisbon Sounds – The New Traditional Lisbon que prendeu a atenção da plateia. A apresentação, com a assinatura da Why Portugal, AudioGest, Fundação GDA e Produtores Associados, centrou-se na reinvenção da tradição portuguesa e contou com a atuação de quatro projetos emergentes.

O pianista Júlio Resende levou o seu “fado-jazz” ao palco e homenageou Amália Rodrigues, enquanto Beatriz Felício, nome da nova geração de fadistas, como a artista referiu, deu uma prévia da energia que terá o seu primeiro álbum. Aos Expresso Transatlântico, influenciados pela música nacional, africana e brasileira, seguiram-se os Club Makumba, dedicados à fusão do rock com os ritmos do norte da África e de sonoridades clássicas com as contemporâneas.

Um caminho para a internacionalização

“Dançar como ato de resistir” é o mote do grupo que encerrou a noite no Teatro Tivoli. Formada por Tó Trips, João Doce, Gonçalo Prazeres e Gonçalo Leonardo, a banda Club Makumba lançou, em 2021, o seu álbum homónimo de estreia, do qual levou três temas ao WOMEX. Momentos antes, os músicos revelaram-nos que esperavam despertar a curiosidade de um público que não apenas o português com o seu som “físico” e conectado à lusofonia. “Estamos contentes de poder mostrar o caldeirão cultural que existe em Portugal”, disse o saxofonista Gonçalo Prazeres.

Club Makumba no concerto Lisbon Sounds - The New Traditional Lisbon. Fotografia de Yannis Psathas.

Já João Doce confessou estar expectante pelas conexões que o evento prova impulsionar. “Bandas que nós conhecemos tiveram aqui um espaço para cimentar a sua posição, criar impacto e ter mais concertos”, explicou o baterista, contente pelo convite para divulgar criações com múltiplas influências e sem fronteiras. “Hoje em dia, [é complicado] dizer que uma música é especificamente de um sítio”, enfatizou.

Se os Club Makumba lamentam que “para qualquer banda portuguesa, o país acaba por ser muito pequeno”, uma vez que não podem estar a tocar sempre nas mesmas localidades, e têm como próximo objetivo a internacionalização, António Miguel Guimarães, representante da organização nacional do WOMEX, considera que estão no lugar certo. “Isto [atuar no festival], com certeza, vai ter reflexos, como teve, no passado, para a Mariza, para o [António] Zambujo e a Ana Moura”, afirma ao Gerador.

O diretor geral da AMG Music acredita igualmente que, além de terem permitido dar a conhecer a fundo a cultura portuguesa, as últimas duas edições foram grandes oportunidades de promoção das músicas de outros países lusófonos. “Lisboa é cada vez mais uma cidade de confluência dos povos que falam a língua portuguesa. [Na cidade,] está a ser produzida uma sonoridade que cruza um pouco das culturas de todos”, admite, justificando a criação do Palco Lusofónica deste ano.

Ana Lua Caiano (Portugal), Bia Ferreira (Brasil), Pedro Jóia (Portugal) e Tito Paris (Cabo Verde) foram alguns dos artistas que estiveram em destaque na sala do Cinema São Jorge durante os dias do evento. Com eles, fecha-se uma lista de 30 músicos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que pisaram nos palcos dos WOMEX sediados em Portugal – um número que, segundo António Miguel Guimarães, equivale a 20 anos de trabalho.

Concerto de Ana Lua Caiano. Fotografia de Jacob Crawfurd.
Uma família global

Conforme os dados divulgados pela organização, a feira, que decorreu na Altice Arena, viu os seus 260 estandes esgotados e ocupados por 676 companhias. O processo de seleção para os concertos programados também não foi fácil, com 1300 propostas recebidas para 60 vagas disponíveis, revela o diretor da AMG Music, que integrou o júri internacional – os famosos “Sete Samurais”.

Estando Portugal entre os 40 países que tiveram artistas selecionados, o estilo musical dos números não esteve limitado ao tradicional fado, como previam as apresentações da cerimónia de abertura. A descoberta de outras nuances da música portuguesa foi, para Alexander Walter, uma surpresa trazida pelo trabalho na construção dos programas de Lisboa e do Porto, marcadas pelo aumento de participantes nacionais.

Feira WOMEX 2022, na Altice Arena. Fotografia de Yannis Psathas.

Uma experiência similar teve Zahra Habib, programadora do festival canadiano Sunfest, que, no seu primeiro WOMEX, foi introduzida à “poderosa diversidade” das produções lusófonas. Por outro lado, cruzámo-nos também com Pedro D-Lita, brasileiro radicado em Inglaterra e fundador do selo B•Mundo Label. Dedicado à música black britânica e ao cruzamento de nomes brasileiros com os ritmos do dub e do reggae, o produtor já compareceu a três edições e vê no evento uma família.

Após uma pandemia e um 2021 com atividades ainda a meio gás devido às restrições sanitárias, a direção mostrou-se otimista com a oportunidade de voltar a possibilitar novas inspirações e diálogos interculturais. Os números de 2022, relata Alexander Walter, são um alívio, uma vez que retratam que muitos profissionais continuam no setor depois de dois anos financeiramente desafiadores.

Conferências WOMEX 2022. Fotografia de Jacob Crawfurd.

Durante a sessão de encerramento, no Teatro São Luiz, o búlgaro Ivo Papasov recebeu o prémio anual concedido aos músicos da seleção, enquanto Francis Gay recebeu o galardão de excelência profissional, pelo seu trabalho na rádio COSMO (Alemanha). Ainda foram premiados 20 selos independentes, tendo sido o primeiro lugar ocupado pela igualmente alemã Glitterbeat Record.

Além do palco municipal, o 28.º WOMEX esteve, de 19 a 23 de outubro, na Altice Arena, Cinemateca Portuguesa, LAV – Lisboa Ao Vivo, Coliseu dos Recreios, Cineteatro Capitólio, Parque Mayer, Teatro Tivoli e Cinema São Jorge. Entre 25 e 29 de outubro de 2023, o festival viaja à cidade da Corunha, em Espanha.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

20 Abril 2026

Bons Sons regressa em agosto com a resistência como mote

30 Março 2026

Criar por necessidade: jovens artistas entre liberdade, pressão e resistência

16 Março 2026

Fazer jornalismo dentro das prisões

9 Março 2026

Torres vazias: por dentro do ‘boom’ desenfreado da construção em Tirana

9 Fevereiro 2026

Ainda há demasiadas pessoas a viver na rua na Europa

2 Fevereiro 2026

Em Bolonha, a história do movimento trans cruza-se com o acolhimento de migrantes

19 Janeiro 2026

Balcãs Ocidentais: “Gasto mais de metade do meu salário em contas e renda”

5 Janeiro 2026

Jornalistas freelancer: a precariedade que prejudica a democracia

22 Dezembro 2025

De proibições a “controlo de conversas”: a desconfortável missão da Europa para regulamentar o uso da Internet pelas crianças

19 Dezembro 2025

Para os pioneiros franceses da saúde, a mutilação genital feminina faz parte do “continuum da violência sexual”

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0