No seu discurso de boas-vindas, Alexander Walter, diretor do WOMEX – Worldwide Music Expo, promovido pela companhia alemã Piranha Arts desde 1994, salientou como objetivo principal a oferta de uma plataforma de encontro onde os agentes culturais se podem conhecer e divulgar os seus trabalhos. Durante cinco dias, três mil profissionais da música, vindos de 113 países, reuniram-se numa feira, em conferências, sessões de mentoria, exibições de cinema e concertos espalhados por nove locais da capital.
O responsável pelo evento anual, em entrevista ao Gerador, explica que a ideia de uma visita à Lisboa surgiu durante o desenho da programação da última edição, acolhida pelo município do Porto. Segundo Alexander, ambas as opções pareciam promissoras e o festival decidiu, pela primeira vez, explorar duas regiões de um mesmo país sucessivamente. “Lisboa é mais cosmopolita e tem uma mistura na cultura musical diferente do Porto”, justifica o organizador, que vê vantagens ao mostrar os diferentes cenários nacionais ao público.
A multiculturalidade local também foi reconhecida pelos representantes da Câmara Municipal de Lisboa, do Turismo de Portugal e do Ministério da Cultura, apoiantes do WOMEX 2022 presentes na sessão de abertura. Na sua fala, o ministro Pedro Adão e Silva sublinhou que o pioneirismo do encontro deste ano legitima a relação positiva de Portugal com as artes e louvou a parceria entre as entidades públicas e privadas como uma maneira “virtuosa” de “oxigenar” o setor.

Foi, no entanto, o concerto Lisbon Sounds – The New Traditional Lisbon que prendeu a atenção da plateia. A apresentação, com a assinatura da Why Portugal, AudioGest, Fundação GDA e Produtores Associados, centrou-se na reinvenção da tradição portuguesa e contou com a atuação de quatro projetos emergentes.
O pianista Júlio Resende levou o seu “fado-jazz” ao palco e homenageou Amália Rodrigues, enquanto Beatriz Felício, nome da nova geração de fadistas, como a artista referiu, deu uma prévia da energia que terá o seu primeiro álbum. Aos Expresso Transatlântico, influenciados pela música nacional, africana e brasileira, seguiram-se os Club Makumba, dedicados à fusão do rock com os ritmos do norte da África e de sonoridades clássicas com as contemporâneas.
Um caminho para a internacionalização
“Dançar como ato de resistir” é o mote do grupo que encerrou a noite no Teatro Tivoli. Formada por Tó Trips, João Doce, Gonçalo Prazeres e Gonçalo Leonardo, a banda Club Makumba lançou, em 2021, o seu álbum homónimo de estreia, do qual levou três temas ao WOMEX. Momentos antes, os músicos revelaram-nos que esperavam despertar a curiosidade de um público que não apenas o português com o seu som “físico” e conectado à lusofonia. “Estamos contentes de poder mostrar o caldeirão cultural que existe em Portugal”, disse o saxofonista Gonçalo Prazeres.

Já João Doce confessou estar expectante pelas conexões que o evento prova impulsionar. “Bandas que nós conhecemos tiveram aqui um espaço para cimentar a sua posição, criar impacto e ter mais concertos”, explicou o baterista, contente pelo convite para divulgar criações com múltiplas influências e sem fronteiras. “Hoje em dia, [é complicado] dizer que uma música é especificamente de um sítio”, enfatizou.
Se os Club Makumba lamentam que “para qualquer banda portuguesa, o país acaba por ser muito pequeno”, uma vez que não podem estar a tocar sempre nas mesmas localidades, e têm como próximo objetivo a internacionalização, António Miguel Guimarães, representante da organização nacional do WOMEX, considera que estão no lugar certo. “Isto [atuar no festival], com certeza, vai ter reflexos, como teve, no passado, para a Mariza, para o [António] Zambujo e a Ana Moura”, afirma ao Gerador.
O diretor geral da AMG Music acredita igualmente que, além de terem permitido dar a conhecer a fundo a cultura portuguesa, as últimas duas edições foram grandes oportunidades de promoção das músicas de outros países lusófonos. “Lisboa é cada vez mais uma cidade de confluência dos povos que falam a língua portuguesa. [Na cidade,] está a ser produzida uma sonoridade que cruza um pouco das culturas de todos”, admite, justificando a criação do Palco Lusofónica deste ano.
Ana Lua Caiano (Portugal), Bia Ferreira (Brasil), Pedro Jóia (Portugal) e Tito Paris (Cabo Verde) foram alguns dos artistas que estiveram em destaque na sala do Cinema São Jorge durante os dias do evento. Com eles, fecha-se uma lista de 30 músicos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que pisaram nos palcos dos WOMEX sediados em Portugal – um número que, segundo António Miguel Guimarães, equivale a 20 anos de trabalho.

Uma família global
Conforme os dados divulgados pela organização, a feira, que decorreu na Altice Arena, viu os seus 260 estandes esgotados e ocupados por 676 companhias. O processo de seleção para os concertos programados também não foi fácil, com 1300 propostas recebidas para 60 vagas disponíveis, revela o diretor da AMG Music, que integrou o júri internacional – os famosos “Sete Samurais”.
Estando Portugal entre os 40 países que tiveram artistas selecionados, o estilo musical dos números não esteve limitado ao tradicional fado, como previam as apresentações da cerimónia de abertura. A descoberta de outras nuances da música portuguesa foi, para Alexander Walter, uma surpresa trazida pelo trabalho na construção dos programas de Lisboa e do Porto, marcadas pelo aumento de participantes nacionais.

Uma experiência similar teve Zahra Habib, programadora do festival canadiano Sunfest, que, no seu primeiro WOMEX, foi introduzida à “poderosa diversidade” das produções lusófonas. Por outro lado, cruzámo-nos também com Pedro D-Lita, brasileiro radicado em Inglaterra e fundador do selo B•Mundo Label. Dedicado à música black britânica e ao cruzamento de nomes brasileiros com os ritmos do dub e do reggae, o produtor já compareceu a três edições e vê no evento uma família.
Após uma pandemia e um 2021 com atividades ainda a meio gás devido às restrições sanitárias, a direção mostrou-se otimista com a oportunidade de voltar a possibilitar novas inspirações e diálogos interculturais. Os números de 2022, relata Alexander Walter, são um alívio, uma vez que retratam que muitos profissionais continuam no setor depois de dois anos financeiramente desafiadores.

Durante a sessão de encerramento, no Teatro São Luiz, o búlgaro Ivo Papasov recebeu o prémio anual concedido aos músicos da seleção, enquanto Francis Gay recebeu o galardão de excelência profissional, pelo seu trabalho na rádio COSMO (Alemanha). Ainda foram premiados 20 selos independentes, tendo sido o primeiro lugar ocupado pela igualmente alemã Glitterbeat Record.
Além do palco municipal, o 28.º WOMEX esteve, de 19 a 23 de outubro, na Altice Arena, Cinemateca Portuguesa, LAV – Lisboa Ao Vivo, Coliseu dos Recreios, Cineteatro Capitólio, Parque Mayer, Teatro Tivoli e Cinema São Jorge. Entre 25 e 29 de outubro de 2023, o festival viaja à cidade da Corunha, em Espanha.