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Jeanefer Jean-Charles: “O meu trabalho tornou-se mais fácil de divulgar com o Black Lives Matter”

Com uma carreira iniciada junto de várias comunidades, Jeanefer Jean-Charles fez uso da experiência com…

Texto de Sofia Craveiro

Fotografia cedida pela organização Festival dos Canais

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Com uma carreira iniciada junto de várias comunidades, Jeanefer Jean-Charles fez uso da experiência com pessoas para desenvolver projetos de dança em larga escala. A coreógrafa britânica, que trabalhou na direção criativa e na produção de eventos como a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos 2012, em Londres, ou o jubileu da Rainha Isabel II, já levou dança e arte a 21 países e até entrou para o Livro Guinness dos Recordes.

A sua abordagem à dança é vista como inovadora e compromete-se com a diversidade, dando muitas vezes voz a questões sociais e culturais que podem estar relacionadas com comunidades marginalizadas. Com uma trajetória marcada por diferentes estilos de dança, incluindo dança contemporânea, danças afro-caribenhas e danças urbanas, Jeanefer Jean-Charles Dance Fundou a sua própria companhia,  e desenvolveu trabalho com diversas organizações artísticas, como o Royal Opera House, o Southbank Centre e a BBC.

Jeanefer Jean-Charles esteve em Portugal para apresentar o seu mais recente espetáculo, “Black Victorians”, no Festival dos Canais 2023, que teve lugar entre 12 e 16 de julho, em Aveiro. “Espero que fiquem deslumbrados e espero que vá estimular uma curiosidade, da mesma forma que fez no Reino Unido”, confessou, a poucas horas da exibição.

Em entrevista telefónica ao Gerador, em inglês, a coreógrafa falou sobre esta performance, que mostra um outro lado da história negra britânica, e sobre o percurso que percorreu na organização de espetáculos de larga escala.


Em Portugal, veio apresentar a performance “Black Victorians”. Com este trabalho, pretendia trazer uma perspetiva diferente da Grã-Bretanha do século XIX?

Sim, pretendia. Por volta de 2018, estava a ler algo online e reparei, no site de um dos nossos jornais nacionais, o The Guardian, numa manchete [que dizia] ‘Black Britains’. À medida que fazia scroll na página, vi centenas de retratos de pessoas negras. Enquanto mulher negra que nasceu em Londres e que tem experienciado a sua história negra de uma perspetiva britânica, o tema principal é sempre em volta da escravatura e não vai muito além disso. Vi estas fotos e reparei que um curador tinha passado cerca de três anos e meio a encontrar as primeiras provas de pessoas negras na fotografia dos anos 1850. Eu fiquei completamente surpreendida, não só porque nunca as tinha visto antes, mas porque estas pessoas nas imagens, negras e asiáticas, estavam frequentemente bem-vestidas e pareciam abastadas, ou seja, não estavam acorrentadas, nem era de todo uma imagem de pobreza. Fiquei muito fascinada por isso. Foi assim que a jornada começou. Pensei que tinha de saber mais sobre isto, que mais pessoas negras na Grã-Bretanha iriam gostar de saber isto, e até o todo da sociedade britânica. Isto não é só sobre pessoas negras, é sobre a História de um país que tem sido escondida da sociedade e que era tempo de ajudar a contar. Foi assim que começou.

De certa forma queria mostrar uma visão diferente da história colonial britânica?

Sim, sim. E, para ser honesta, à medida que fui progredindo no projeto, percebi que o que estava a fazer era apenas do ponto de vista da história negra, de contar a história das colónias britânicas que não tinha sido contada ou aquela a que as pessoas não tinham sido expostas. Queria que fosse algo no exterior, para que qualquer pessoa pudesse ver. Além disso, à medida que fui progredindo com a peça, fui percebendo que havia semelhanças com o que estava a acontecer com as pessoas agora.

Por isso, quando mergulhei mais a fundo, vi que muitos dos retratos eram de desconhecidos [unkown sitter], pessoas não identificadas. E eu imagino como será olhar para a minha fotografia daqui a 100 anos e eu não ter nome, não ter identidade. Isto assemelha-se ao que se passa com os refugiados, pessoas que viajam pelos países e ficam perdidas no sistema, sem ter voz.

Este projeto, para mim, teve esta forma de permitir que as vozes fossem ouvidas. Por isso… sim. Foi em muitas direções. A peça é de 30 minutos, mas eu senti que gostava de a prolongar, porque havia muito mais para dizer sobre isso.

Como está o Reino Unido a encarar este debate em torno do racismo e colonialismo?

Eu não sou historiadora, portanto não vou fingir que tenho todas as respostas. Da minha perspetiva pessoal, penso que, o que normalmente fazemos, enquanto artistas, no mundo das artes… Eu tenho um mundo multicultural de pessoas: família, amigos, outros amigos, colegas. Eu criei o mundo perfeito para mim, em que todas as culturas são parte da minha vida e ela está repleta de cultura, mas, também, estou muito consciente de que na Grã-Bretanha há muitos movimentos para quebrar estereótipos sobre pessoas. Ainda é um grande problema e enquanto eu vivo em Londres, que tem todo o tipo de pessoas a viver lá, saindo da cidade a história é outra.

Em Londres eu tenho a minha audiência negra. Assim que saio de Londres, muitos dos festivais são maioritariamente de grandes audiências. Pensei que era muito importante para mim que as histórias falassem não apenas para pessoas negras, mas que audiências mais abrangentes pudessem responder. Foi bastante positivo poder dizer “eu não sabia isto acerca da nossa História, como posso saber mais?”, [ou seja], aumentar a curiosidade e fazer as pessoas quererem saber mais.

Como está a Grã-Bretanha a lidar com isso? Eu sou sempre positiva e acredito que há pessoas a trabalhar para a mudança, que há mudança, que as coisas melhoraram, que podem melhorar muito mais e que há pessoas lá fora que genuinamente querem saber a verdade, conhecer e compreender.

O movimento Black Lives Matter e toda a discussão que trouxe consigo, de alguma forma influenciou este trabalho?

Sim porque, quando aconteceu, eu já estava a fazer alguma pesquisa e desenvolvimento deste projeto. De facto, comecei por ter financiamento de palácios, porque em 2019 foi o centésimo aniversário da rainha Vitória, por isso tive a possibilidade de alinhar o meu trabalho, que apenas começara, com o facto de o Palácio de Kensington e o Hampton Court [Palace] terem dinheiro para investir em diferentes formas de contar a História. Foi uma espécie de timing perfeito. Também, obviamente, durante a pandemia, surge o Black Lives Matter e acho que, sem eu querer - que eu já tinha começado a jornada antes disso - tornou-se a hora e local perfeitos para contar a minha história. As pessoas queriam ouvir, estavam mais abertas a qualquer história que tivesse a ver com o Black Lives Matter, por isso o meu trabalho tornou-se ainda mais relevante.

Vamos lá ver, sempre foi relevante, mas tornou-se mais fácil de contar e divulgar por causa do que estava a acontecer.

Em Portugal temos falado cada vez mais sobre o nosso passado colonial, também. Era algo que era do seu conhecimento?

Sim, sim. Mais uma vez, como uma pessoa que não é historiadora e conhece melhor a cultura britânica, não tenho muito conhecimento sobre Portugal, mas estou consciente do básico, digamos assim, porque, na área onde eu vivo há um grande número de luso-africanos. [Além disso,] pessoas com quem trabalho e que são parte do meu círculo de amizades… Percebo que há uma outra história aí. Percebi que o [espetáculo] “Black Victorians” seria bastante relevante para trazer a Portugal porque há algumas semelhanças nas histórias que, provavelmente, não foram contadas e iria provocar essas questões também. Sim, senti que havia um grande alinhamento na minha história e a sua relevância para Portugal.

Como acha que o público pode responder?

Eu espero que eles queiram ter a História. Espero, realmente, acima de tudo, que eles gostem do espetáculo - porque é um espetáculo. Tenho cinco bailarinos fantásticos, espero que fiquem deslumbrados por eles e espero que vá estimular uma curiosidade, da mesma forma que fez no Reino Unido, para pegar no telefone, ver no website, procurar como podem ter mais informação e perceber que temos uma História similar e algumas ligações. Isso é o que espero mesmo, que se sintam ligados.

Não é o caso deste espetáculo, mas o seu trabalho tem-se desenvolvido, sobretudo, em eventos de larga-escala. Pode explicar-nos um pouco do que significa trabalhar com milhares de pessoas?

Sim. Isso é algo que é muito especial para mim porque, durante muitos anos, eu comecei a minha profissão a trabalhar em comunidades. Tinha-me qualificado como bailarina e completei a licenciatura em artes performativas e também era uma professora qualificada. Comecei a minha carreira em escolas. Trabalhei numa escola da classe trabalhadora muito dura, com crianças que, de facto, não tinham grandes aspirações e eu percebi que a dança era uma forma de lhes dar esperança, abrir-lhes os olhos, levá-las a ver coisas e formas de tocar as suas mentes criativas para que se apercebessem que o futuro que têm imaginado e planeado não tem de ser daquela forma, que há um espectro maior de coisas. Quando deixei o ensino, comecei a ensinar dança em comunidades por todo o país e no estrangeiro.

Quando me deparei com o meu primeiro projeto em larga escala, em 2006, o que me apercebi, sem saber, foi que todo o trabalho que tinha feito em comunidades era muito relevante, porque o meu ponto de partida para milhares de pessoas era trabalhar com as comunidades. Porque quando trabalho com milhares de pessoas, é muito raro que se tenham inscrito individualmente. O que tende a acontecer é que tens 50 de uma comunidade, com um grupo que se tem dedicado a estar junto durante anos, depois pode haver 25 de outro grupo, 10 de outro e tem-se uma grande variedade de pessoas.

Como se pode perceber, quando se trata de milhares de pessoas, não são milhares de bailarinos profissionais, que ganham a vida a dançar. São voluntários e comunidades que apenas querem uma experiência. Por isso, o que eu tendo a fazer, é trabalhar individualmente com os grupos.

Se estiver a trabalhar com, por exemplo, 500 pessoas, iria provavelmente visitar, pelo menos, vinte grupos diferentes com a minha equipa, encontrando-os no seu espaço seguro, no seu ambiente seguro e iria desenvolver o trabalho a partir do seu espaço. E é apenas quando se sentem prontos que os trago ao que chamamos de ensaios de massa, onde 500 ou mil pessoas aparecem num espaço e compreendem a visão para toda a peça e compreendem a escala da mesma. Nessa altura há, em primeiro lugar, um choque devido à quantidade de pessoas à sua volta, mas depois há um grande sentimento de empoderamento, de terem estado a trabalhar em algo que milhares de outras pessoas estiveram a trabalhar. Juntar tudo numa grande escala é maravilhoso, é uma grande sensação. É como pequenas peças de um quebra-cabeças em que se trabalha separadamente: fortalecem-se, assegura-se que todos estão confortáveis e fortes, no seu melhor e, quando as peças estão completas, juntam-se e montam-se [para formar] algo mágico.

Imagino que considere o número de pessoas envolvidas quando planeia os movimentos, as componentes artísticas, que talvez tenham de ser mais simples. Certo?

Sim. Honestamente, “simples” na minha carreira tem sido a coisa mais difícil. Sempre que estou a trabalhar em eventos de larga escala, tenho sempre uma equipa e uma das primeiras coisas que faço quando preparo um briefing sobre o que é o projeto, qual a nossa ambição, é dizer que o que estou à procura é de uma ideia muito simples. Quanto mais simples, mais eficaz será. É muito perigoso complicar um projeto de larga escala com milhares de pessoas. É um caminho para o fracasso, de facto. É muito melhor pensar em ideias simples, porque já é complexo ter mil pessoas num espaço. Não é necessário complicar mais, por isso a piada é procurar a simplicidade. Tenho de admitir que me sinto muito orgulhosa por conseguir [isso]. Adoro aquele momento que chamo de fator “uau”, em que toda a gente [exclama] “uau, isso está fantástico!”. Faz-me sorrir [risos], sim. 

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