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Rosa-pássaro, o bailarino

Um conto da autoria de Armando Luís, aluno do curso da Academia Gerador “Desarrumar a escrita: oficina prática”. Este conto foi selecionado para publicação nos canais digitais do Gerador pelo formador do curso, Samuel F. Pimenta.

Texto de Gerador

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Rosa, o pássaro, era tecelão. Tinham-lhe colocado esse cognome devido à designação comum dada aos pássaros da família dos ploceídeos, que tecem ninhos muito elaborados com ervas e pequenos ramos.  

Quando lhe perguntavam donde vinha a sua arte, respondia que toda a vida sentira energia nas mãos e inquietação nos pés, qu’isso lhe dava um certo jeito de bailarino. Dizia: 

- O que mais gosto de fazer é a urdir a teia. Parece mesmo que estou a dançar com os fios. 

Urdir a teia é o início das ‘fases do tear’. São dois pinos presos na parede, da largura do tear, a metro e meio de altura, serve para esticar os fios da direita para esquerda e da esquerda para a direita. Para executar, é necessário fazer um movimento largo com o braço, ao mesmo tempo que vais flectindo e esticando as pernas, baloiçando o corpo no seguimento do gesto grande do braço. Na segunda fase, entranças a teia, colocas duas mãos junto aos pinhos, esticas, mantendo os fios tensos, e saltas para a terceira fase, em que montas o tear, colocando a teia nele.  

Não tenho a certeza se basta descrever as três primeiras fases do tear para se perceber o jeito de bailarino que o Rosa falava da fase da urdideira, por isso, acrescento, para reforçar a ideia da leitora, as imagens que se seguem, porque tudo parece ser um movimento perpétuo: 

-o gesto é grande e largo, depois tenso. Vira e alarga mais para montar; grande, largo e tenso. Vira, alarga para montar; grande, largo, tenso. Vira, alarga, monta; grande, largo, tenso, vira, alarga, monta. 

Quem se demora a observar o Rosa sentado no seu tear, tem o prazer de ver a energia das mãos e a inquietação nos pés, na forma qu’ele bate o tecido, puxando com as mãos o batente, e como segue a marcha da trama do tecido dando os pés aos pedais. Todas estas acções acompanhadas pelos sons de ranger do tear, a madeira que bate na madeira com o seu batente, e os guinchos dos pedais.  

Rosa, o pássaro era conhecido de todos, mas mais famoso era o momento semanal d’urdir a teia. Dava-se um reboliço à beira do tear só para vê-lo dançar. Todos concordavam que era contagiante a alegria do Rosa, ao mesmo tempo que não deixavam de achar uma figura estranha naqueles jeitos de bailarino. Rosa gostava daquilo. E por causa dessa crescente romaria ao seu tear, tinha aprimorado os movimentos na urdideira de maneira que já se aproximava duma apresentação, era o momento dele. Chegavam mesmo a bater palmas no fim. E ele agradecia com uma vénia. Duas vénias. Três vénias. Ficava com as duas mãos juntas ao coração, os olhos lacrimejavam, as mãos pareciam segurar um coração que queria saltar e abraçar todas as pessoas. Lançava um beijo e saía para trás do tear. 

Na semana seguinte, as pessoas já encontraram um bilhete à porta: espectáculo começa às 17h. As portas fechadas; começava-se a ouvir o batente do tear na madeira, tal como as pancadinhas de Mólière: sete pancadas rápidas: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete;  

três lentas: uma, duas, três, começava a música Movimento Perpétuo, de Carlos Paredes.  

A porta abriu-se. Rosa, o pássaro estava vestido com um fato preto, tipo macacão, colado ao corpo e um chapéu, preto também; parecia mais alto que nunca, tão esticado que estava; a música passou para A Valsa, também de Carlos Paredes.

Grande, largo, tenso, vira, alarga, monta; grande, largo, tenso, vira, alarga, monta; suspendia, redopiava, flectia, esticava, redopiava, grande, largo, tenso, vira, alarga, monta; grande, largo, tenso, vira, alarga, monta, suspendia, congelava, respirava, (agora mais rápido) grande, largo, tenso, vira, alarga, monta; grande, largo, tenso, vira, alarga, monta; grande, largo, tenso, vira, alarga, monta. Suspendia, redopiava, flectia, esticava; ia ao chão, levantava-se pronto a entrançar a teia e montar o tear. Olhava as pessoas com os braços esticados à frente, a teia colorida, tensa entre eles; aplausos; três vénias; um beijo e saía. 

Repetiu todas as semanas. Cada vez vinham mais pessoas. Até veio o jornal, Rosa-pássaro, o bailarino, dizia o título da reportagem. Tinham-lhe mudado o cognome. 

Rosa-pássaro, o bailarino continuava a ser tecelão, nos outros dias da semana, e a tecer as peças que aprendera: gorros; cachecóis; camisolas; meias.  

Ele fazia peças por encomenda, e havia uma enorme lista de espera, isto porque o Rosa tinha um método peculiar de fazer cada peça. Uma forma demorada e personalizada.  

Cada pessoa que lhe queria comprar uma peça tinha que se sentar à frente do tear, com ele.  Achavam aquilo tudo muito estranho. Por que queria sentar-se com elas durante uma hora só para fazer um simples gorro, questionavam. Mas acediam sempre à convocatória de Rosa para um encontro intimista. Iam todos cheios de curiosidade. 

Para Rosa-pássaro, o bailarino, não eram só simples peças. Iam carregadas de boas intenções. Cheias de carinho e afecto, capazes, segundo ele, de tonificar corações, com as suas camisolas; iluminar percursos de vida, as suas meias; fortalecia suas vozes, os cachecóis; esclarecia as ideias, gorros. Todas as pessoas tinham que passar por um ritual. Começava com perguntas sobre a infância; juventude; se eram bem casadas; sofriam de amor; que mais lhes perturbava; as suas queixas; sonhos; desejos; anseios. Rosa levantava-se: 

- Abre os braços, esticados para a frente, pedia; começava a entrançar, os movimentos semelhantes ao de urdir a teia.

- Respira fundo, acompanhando os movimentos da teia, sugeria. E entoava:  

- Ai, ai, tenho aqui o que tu procuras, ai, ai, minhas mãos te farão caminhar, ai, ai, este fio conduzir-te-’à boa ventura, ai, ai, meus pés te darão paz, ai, ai. Respirava fundo. Pegava na teia, punha-a à volta dos ombros delas. Respiravam.

Com cuidado, retirava a teia e a caminho do banco do tear retomava os movimentos; grande, largo, tenso, vira, alarga, monta; grande, largo, tenso, vira, alarga, monta. 

O olhar de estranheza que as pessoas tinham no início, normalmente desaparecia quando o ritual começava. Diziam sentir-se acarinhadas. 

A peça que levavam era sempre sugerida por Rosa, a encomenda que faziam era uma mera formalidade. Depois do questionário e ritual feito, ele sabia exactamente de que peça precisavam para a sua vida.

As pessoas partilhavam, emocionadas, como Rosa-pássaro, o bailarino, tinha mudado a sua vida. A lista de espera do Rosa foi aumentando. Mais e mais pessoas vinham para assistir ao espectáculo da urdideira. Todas elas levavam uma peça dele no corpo. 

- Sintam-se abraçadas por este que vos quer muito bem, dizia sempre ele no fim da urdideira.


Texto da autoria de Armando Luís. Ilustração de Frederico Pompeu.

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