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Opinião de João Duarte Albuquerque

Fabricado no Barreiro, 37 anos, pai de duas doses de noites mal dormidas. Formado na área da Ciência Política, História e Relações Internacionais, ao longo dos últimos quinze anos, teve o privilégio de viver, estudar e trabalhar por Florença, Helsínquia e Bruxelas, para além de Lisboa. Foi presidente dos Jovens Socialistas Europeus e é, atualmente, deputado ao Parlamento Europeu.

Podemos carregar no ”Pause” e humanizar?

Nas Gargantas Soltas de hoje, João Albuquerque insurge-se contra a leitura de nomes de crianças no Parlamento e insta-nos a procurar o humanismo que ainda existe em nós.

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Há vários meses que circulavam pelas redes sociais, vídeos falsos que tinham como intuito vender a ideia de que crianças estrangeiras estariam a retirar o lugar de crianças portuguesas, em creches ou escolas. Sem quaisquer preocupações com a veracidade desta campanha xenófoba, uma deputada do Chega recorreu às redes sociais para ler uma alegada lista de uma escola de Lisboa onde constavam vários nomes de aparente proveniência estrangeira. Como se tal ato não fosse suficientemente grave, o líder do seu partido achou melhor ideia repetir a ação na Assembleia da República, perante o assentimento incompreensível do Vice-Presidente que presidia aos trabalhos.

Os dois casos são igualmente desumanizantes e ambos têm uma intenção notoriamente xenófoba. É pena que as redes sociais, que tantas vezes bloqueiam conteúdo por razões de sensibilidade política, não tenham visto problema na divulgação do vídeo da deputada do Chega, ou que não o tivessem considerado violador das suas normas relativas ao discurso de ódio. Ainda assim, o caso muda de gravidade quando ocorre diretamente no interior do hemiciclo da Assembleia da República. E que tal ação não tenha sido imediatamente cortada e sancionada.

Quando ouvi a leitura dos nomes daquelas crianças, num ato que as desumaniza e as expõe a possíveis atos de discriminação e, até, violência, foi impossível não pensar no que aconteceria se o caso se passasse ao contrário. Na escola do meu filho, com quase 5 anos, em Bruxelas, há crianças de várias nacionalidades. Três crianças, pelo menos, são portuguesas, ou filhos de portugueses. O meu nasceu em Lisboa, numa maternidade pública, de onde é natural. Para além de belgas, há outros europeus, italianos, espanhóis, franceses, britânicos, búlgaros, alemães ou romenos. Também há crianças da Palestina, do Paquistão, de Marrocos ou da China.

Entre eles, a língua franca é o francês e têm pouca noção das diferenças que as suas proveniências representam para os adultos. Sabem que cada um fala com as respetivas famílias noutra língua e observam com fascínio e curiosidade essas interações em idiomas que (ainda) não conhecem. Entre eles, as divergências são sobre quem ganhou uma corrida, quem pode trepar primeiro aos baloiços ou todas as outras coisas que ocupam as mentes e os dias das crianças.

A dor de assistir ao que assistimos na Assembleia da República vem da partilha do medo e da revolta que os pais daquelas crianças terão certamente sentido quando ouviram os nomes dos seus filhos serem proferidos num órgão de soberania nacional. É o medo e a revolta que eu sentiria se alguém ousasse pronunciar o nome do meu filho em qualquer um dos parlamentos belgas.

Isto não é uma questão de somenos. Não são só uns nomes numa lista, embora também sejam uns nomes numa lista. É sempre o princípio de algo maior. É o momento inicial de criação de uma ordem maniqueísta, de ‘nós’ e ‘os outros’. Os ‘nós’ bons, merecedores de todos os direitos e méritos; os ‘outros’ causadores de todos as desgraças e tragédias. O eterno problema desta ordem é que os ‘outros’ são muito variáveis. Num dia são uns, noutro dia são outros, até eventual e inevitavelmente os ‘outros’ sermos ‘nós’. É urgamente carregarmos no ‘pause’ e voltarmos a humanizar-mo-nos mutuamente.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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