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Opinião de João Albuquerque

Fabricado no Barreiro, 37 anos, pai de duas doses de noites mal dormidas. Formado na área da Ciência Política, História e Relações Internacionais, ao longo dos últimos quinze anos, teve o privilégio de viver, estudar e trabalhar por Florença, Helsínquia e Bruxelas, para além de Lisboa. Foi presidente dos Jovens Socialistas Europeus e é, atualmente, deputado ao Parlamento Europeu.

A Europa no divã

Nas Gargantas Soltas de hoje, João Albuquerque fala-nos sobre as ameaças existenciais à Europa e à democracia, e afirma que para sairmos desta crise, é preciso reinventar a esperança.

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2026 arrancou de forma avassaladora. Desconsiderando a euforia costumeira de quem celebra o início de um novo ano como se de uma nova vida se tratasse, a operação de captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por parte dos Estados Unidos, trouxe-nos de volta à realidade e às dinâmicas de alteração de poder que se consolidaram ao longo do ano passado.

Perante a inusitada franqueza do Presidente dos Estados Unidos em relação à ação militar do seu país – não se poupando a esforços para nos esclarecer de que o objetivo da operação era o controlo das reservas de petróleo da Venezuela –, vários analistas apressaram-se a dizer que estávamos perante a demonstração inequívoca de que o Direito Internacional nunca existiu e que o único instrumento de diálogo das relações internacionais é, e sempre foi, a força. Contudo, ao longo das últimas oito décadas, podemos encontrar vários exemplos em que o multilateralismo – não obstante as suas inúmeras imperfeições, tropeções e atrasos – permitiu mitigar e resolver vários conflitos de escala regional. Aceitarmos que a força é a única linguagem entendível entre estados e que ela determina as dinâmicas de poder e submissão entre eles implica cedermos à ideia de que o ser humano é, em exclusivo, intrinsecamente mau e egoísta – e não faltamprovas de que somos bem mais do que a redução aos nossos piores instintos.

A ação dos Estados Unidos não é uma novidade per se. A Guerra Fria foi marcada por inúmeras ações norte-americanas na América Central e do Sul, derrubando democracias e operando alterações de governo, sempre com o objetivo de favorecer os interesses globais dos EUA, e assentes na lógica de que aquele era o seu quintal (backyard) – ou, em linguagem mais académica, a sua esfera de influência. Estes objetivos constam do novo documento de Estratégia de Segurança Nacional, que reaviva a Doutrina Monroe e introduz o conceito de hemisfério ocidental. A lógica subjacente é a de que os EUA têm direito a intervir em todo o continente americano – e na sua esfera de influência alargada – para preservar os seus interesses e desincentivar fortemente a relação destes estados com quaisquer potências adversárias.

Não obstante este aparente business-as-usual, há um novo fenómeno. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o eixo do Atlântico Norte funcionou sempre como um espaço de diálogo e aliança entre a Europa e os Estados Unidos, sobretudo num contexto em que o modelo de democracia americana servia de polo de atração para os países do leste europeu sob domínio soviético. A Europa era vista como um ponto central na defesa dos interesses americanos face ao principal adversário, a União Soviética. Mas a implosão soviética, seguida de um processo acelerado de afirmação da China como potência mundial, sobretudo a partir da sua entrada na Organização Mundial do Comércio, em 2001, operou uma transferência dos interesses americanos do eixo Atlântico para o Pacífico. Das várias culpas que se podem apontar a Donald Trump, esta não lhe é exclusivamente imputável. Pelo contrário, é um processo lento, mas natural, decorrente da alteração dos centros de poder económico, demográfico e, finalmente, político.

Face a esta mudança, de que agora temos representações mais visuais, como é o caso daséria ameaça norte-americana à Gronelândia, o processo de choque na Europa é hojemaior. Incapaz de continuar a ignorar a nova realidade, a Europa está agora a tentar lidar com os resultados de décadas de interdependência com os Estados Unidos e com a forma de se desconectar e autonomizar-se do seu aliado de várias décadas. Para o fazer, a União Europeia está confrontada com vários problemas, nenhum de fácil resolução e todos exigindo um confronto consigo mesma, muito realismo e uma elevada dose de coragem.

1. A relevância demográfica e económica. Ao longo dos últimos anos, a extrema-direita conseguiu normalizar a ideia de que a UE é “vítima” de enormes fluxos migratórios e que se encontra sob elevada pressão demográfica. Com isto, forçou a UE a tomar decisões atentatórias aos seus próprios interesses, uma vez que é um continente tendencialmente envelhecido e com taxas de natalidade reduzidas, que beneficia e necessita de imigração para suprir as necessidades no mercado laboral e sustentar os sistemas de segurança social. Em oposição, os países asiáticos são, do ponto de vista demográfico, incomparavelmente superiores à UE – a China e a Índia têm, individualmente, populações três vezes superiores à da UE. Mas, com o aumento recente do seu PIB/capita, tornou-se também um mercado de consumo cada vez mais apelativo, que compete diretamente com o mercado europeu e aumenta a progressiva irrelevância global do nosso mercado único.

2. A relevância geoeconómica e produtiva. Parte das dificuldades que a UE enfrenta hoje está relacionada com a deslocalização da sua capacidade produtiva para os países asiáticos – um problema semelhante ao que os EUA enfrentam. Com cadeias de valor assentes na redução dos custos de produção, será difícil que a UE possa retomar de forma massiva e sustentada a força da sua produção industrial, sobretudo antendendo aos custos elevados de contexto, em particular os salários e o custo da energia. Acresce a isto que a Europa está hoje confrontada com uma situação que impôs ao resto do mundo nos últimos cinco séculos. Os recursos naturais que a economia digital exige não se encontram em território europeu. Ora, o poderio e dominância global que a Europa adquiriu até à Segunda Guerra Mundial  - extensível até às últimas vagas de descolonização – assentou numa lógica extrativista, em que a capacidade militar primeiro, e político-económica depois, permitia um acesso facilitado às empresas europeias. Atualmente, a China concentra grande parte do controlo sobre os minerais e as matérias-primas raras necessários ao desenvolvimento da economia digital. Entre outros fatores, é este controlo que torna a China a maior adversária dos Estados Unidos e confere à Europa um papel secundário na escala global – quer por não entrarem no eixo dos interesses estratégicos americanos, quer por não terem a mesma capacidade de aceder ou impor o seu acesso a estas matérias-primas fundamentais.

3. A relevância geopolítica e militar. Poucas dúvidas haverá hoje de que a China é a única grande potência individual capaz de ombrear com os Estados Unidos. O mesmo pode ser dito da capacidade de influência geopolítica, tendo o gigante asiático alargado fortemente o seu alcance, com uma forte presença em África e na América do Sul, para além do papel central que ocupa na sua região geográfica. Esta expansão chinesa está na base das mais recentes ações norte-americanas – incluindo as que ainda são apenas declarações de intenção. É o caso da Venezuela, da ameaça à Gronelândia – pelo controlo da rota do Ártico – ou do (Canal do) Panamá. É neste cenário que a impotência europeia se revela ainda mais preocupante. Por um lado, individualmente, a UE tem ficado aquém do necessário no apoio militar à Ucrânia, e são legítimas as dúvidas sobre qual seria a reação do bloco europeu em caso de uma ação hostil contra uma parte do seu território – sejam os EUA na Gronelândia ou a Rússia na frente leste. Por outro lado, a incapacidade europeia de apaziguar o seu passado colonial no estabelecimento de novas relações políticas e económicas com os estados anteriormente colonizados, juntamente com a incoerência demonstrada recentemente no tratamento dado a Gaza – Josep Borell afirmou mesmo que a Europa havia perdido a sua alma em Gaza –, tem dificultado o estabelecimento de novas alianças estratégicas que fortaleçam política e diplomaticamente a União – 25 anos para assinar um acordo de comércio com o Mercosul é suficientemente ilustrativo.

4. O dilema institucional. De todos os pontos, este é talvez aquele que nem o próprio pai da psicanálise seria capaz de resolver. A União Europeia é simultaneamente vítima da história do próprio continente europeu e do seu próprio sucesso. A história do continente europeu até à Segunda Guerra Mundial é a de afirmação dos Estados-nação. Por esta afirmação, ao longo da história, milhões de europeus morreram a combater entre si de modo a que pudéssemos afirmar e consolidar fronteiras territoriais que coincidissem com as diferentes identidades nacionais. Perante a maior de todas as carnificinas, vários destes estados compreenderam que o melhor caminho a trilhar era um de unificação e convergência, de solidariedade e complementaridade, em vez de rivalidade competitiva e de lutas hegemónicas. A forma como o projeto europeu se desenvolveu, garantindo várias décadas de prosperidade à sua população, fez da adesão à União um objetivo apelativo, para o qual vários estados apontam. No entanto, do ponto de vista institucional, e numa União composta por 27 – potencialmente mais de 30 a curto prazo – Estados-membros, a fórmula política encontrada não podia ser mais paralisante para a ação e para o impulso de que o projeto desesperadamente precisa. A UE continua a olhar para estes acontecimentos como business-as-usual e a pensar exclusivamente no reino do que existe, e não no que precisa de existir. Não há nenhum Estado europeu que consiga manter a sua relevância política e económica se sair da UE – ou se esta se desintegrar. É melhor nem sequer equacionar um cenário semelhante do ponto de vista militar. Isto implica que, à semelhança do que deveria estar a fazer em relação às suas políticas migratórias, a UE tem de contrariar o pensamento mainstream e a vox populi e trabalhar ativamente para acelerar os seus processos de integração política e de profunda reforma institucional – abraçando definitivamente a sua natureza supranacional e não cedendo aos fantasmas extremistas que fazem pender sobre as nossas identidades nacionais e tradições culturais uma ameaça inexistente.

Tal como eu, muitos dos que nasceram na década de 1980 habituaram-se a ouvir repetidos alarmes sobre as mais variadas e profundas crises mundiais. O fim do Muro de Berlim e a implosão soviética, o fim da Jugoslávia, os genocídios na Bósnia e no Ruanda, o 11 de setembro, a crise do subprime e uma pandemia são alguns dos acontecimentos que marcaram as últimas quatro décadas – período em que Portugal passou, também, a fazer parte desta comunidade europeia. Tenho dúvidas de que alguma destas crises tenha a dimensão existencial que esta tem. Esta crise ameaça a continuidade do projeto europeu, mas também põe em causa a afirmação da democracia liberal como a principal forma de sistema político no mundo ocidental ou no Norte global. Para a superarmos, teremos de ser capazes de nos reiventar e ultrapassar o individualismo reinante. É preciso reinventar a esperança num futuro coletivo e comum, radicado no melhor que habita em cada um de nós. E, como referiam Spinelli e Rossi no “Manifesto de Ventotene”, isso só é possível se “o ser humano deixar de ser um mero instrumento nas mãos de outros, mas for antes um autónomo centro de vida.”

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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