"Quero deixar de ser um incel", escreve um utilizador do Reddit na comunidade Healthygamergg. Confessa que desde os 13 anos pensa em querer estar com uma mulher, mas que aos 18 "ainda não conseguiu beijar nenhuma". Trabalhou no seu físico e na sua forma de se relacionar, mas garante que essa "necessidade de atração" continua muito presente. Tanto que lhe gera uma frustração "preocupante". O seu testemunho não é isolado. Em redes como o Reddit, o Discord ou o X, multiplicam-se os espaços onde jovens do sexo masculino, especialmente, partilham o mesmo sentimento de frustração e solidão que os levou a identificar-se com este termo. Apresentam-se como incel ou íncel, um acrónimo da expressão inglesa involuntary celibate (celibato involuntário) criada nos Estados Unidos, que tem seguidores em todo o mundo e ainda é difícil de aceitar para muitos adultos responsáveis por esses jovens.
Jornalistas do consórcio Pulse mergulharam em fóruns de toda a Europa para entender e analisar melhor um sentimento que se instalou nas escolas e se tornou um problema de segurança nacional. Com o tempo, a distância entre o simples discurso sexista e a radicalização até chegar à violência estreitou-se de tal forma que fez soar todos os alarmes. Os atos violentos relacionados com estes perfis multiplicaram-se, há milhões de comentários agressivos nas redes sociais e gerou-se um movimento ou discurso ideológico em torno do termo com um apoio significativo. Desde que, em 2014, Elliot Rodger, orgulhoso incel e herói do movimento, matou 6 pessoas e feriu 14 no chamado massacre de Isla Vista, na Califórnia, as forças policiais têm vindo a colocar cada vez mais o foco nestas práticas. Mas os especialistas alertam para a necessidade de não ficar por aí, e antes trabalhar para evitar que se chegue a esse ponto. Como pai, tutor legal ou professor de uma pessoa que começa a aderir a estes discursos, existem alguns pontos-chave que ajudam a identificar e explicar de onde surgem estes comportamentos e como evitar a radicalização.
Uma das especialistas que defendem uma abordagem diferente é a investigadora francesa Stéphanie Lamy. Especialmente porque para ela o problema não está tanto na identificação dos incels, mas no facto de eles serem "apenas a parte mais visível de uma realidade muito maior" que precisa de ser combatida. "Em França, sabemos que os incels geram uma forma de violência facilmente reconhecível. Portanto, do ponto de vista da segurança do Estado, a sua identificação não é complexa", conta. O problema é que esta abordagem centrada nos incels mais radicalizados faz com que "as pessoas evitem questionar o seu próprio discurso sexista ou misógino", que é a origem de tudo.
Capítulo 1 | Não estão apenas na ficção
Há alguns meses, a série britânica Adolescence introduziu o termo incel no nosso mundo, mas a realidade é que este tipo de atitudes há anos se manifestam nas esferas adolescentes. Às vezes sem se identificar com o termo incel, o fenómeno criou raízes nos espaços digitais, tem a sua própria linguagem e toda uma geração normalizou a sua existência na sua socialização. Há expressões de frustração masculina que, sem chegar ao extremismo mostrado na ficção, partilham a mesma lógica de ressentimento e competição afetiva e que se ouvem diariamente nas escolas secundárias. "Estas dinâmicas reproduzem-se em contextos concretos, como as salas de aula ou os pátios da escola", explica Jesús Moreno, psicólogo especializado em masculinidades ecoordenador de projetos da Fundação Iniciativa Social. Identifica estes espaços onde, para além do discurso nas redes sociais, "se geram e normalizam estereótipos e comportamentos já aprendidos na socialização de género".
Moreno salienta que, embora a "manosfera" não se tenha consolidado como identidade fixa em Espanha ou em outros pontos da Europa, alguns "discursos de fundo" sim. Entre eles, a ideia de que as mulheres têm, "em última instância, o poder sexual e que os homens atraentes gozam de privilégios", embora não se expressem como do outro lado do Atlântico. A sua grande obsessão é o medo de serem rejeitados sexualmente. Por isso, geraram um grande ressentimento que os vitimiza. Além disso, como nas últimas décadas o sistema adotou o feminismo nas políticas públicas, sentem que o Estado também lhes virou as costas. As redes sociais alimentam esses sentimentos. O TikTok, por exemplo, sugere automaticamente conteúdos misóginos. Fá-lo "por vezes de forma suavizada ou, em todo o caso, apelativa, como estratégia de visibilidade", afirma Silvia Semenzin, investigadora em sociologia digital na Universidade Complutense de Madrid.
Semenzin explica que alguns autodenominados influenciadores masculinos, como Andrew Tate, nos Estados Unidos, "Il Podcasterone", em Itália, ou Pedro Buerbaum ou Roma Gallardo, em Espanha, compreenderam que estas mensagens que exaltam a "energia masculina" vendem. E fazem-no através de outros conteúdos, como o gaming, o ginásio ou as finanças.
Capítulo 2 | Atenção ao vocabulário
"Entre os sinais de alerta para pais ou tutores está o vocabulário", aponta Jesús Moreno. Jesús confirma que Espanha tem as suas próprias formas de expressão, que são comuns aos termos da comunidade americana, mas que não são necessariamente uma réplica do discurso. Este vocabulário é partilhado e reinterpretado em todas as línguas. Um exemplo é o uso do conceito “red pill” (pílula vermelha), inspirado no filme Matrix, com o qual os incels defendem que as mulheres estão em superioridade em relação aos homens. Ou a expressão “It’s over” (“acabou”), que é usada pela comunidade após um fracasso. Os incels francófonos retomaram o conceito e, às vezes, também usam a sua versão em francês: “c’est foutu” (“está perdido”), como explica Louis Neymon na sua investigação sobre os incels em França.
Por sua vez, desde a década de 2010, usa-se na internet a figura do “nice boy” (o “bom rapaz”), como um clichê semelhante ao discurso incel. Afirma que as mulheres se sentem atraídas por homens que as maltratam e "não pelos bons rapazes", explica Neymon na sua investigação. Em Espanha, de um modo geral, o termo incel é considerado um insulto e é dirigido a comentários de jovens que parecem "não saber lidar com uma mulher". É comum encontrar em tópicos comentários como: "Nunca tocaste numa mulher na tua vida", "Não sejas incel" ou associá-los ao insulto "punheteiro". Com esta imagem pejorativa, é difícil apresentar-se como tal e, consequentemente, pedir ajuda. Não podemos esquecer que, no nosso país, muitas pessoas que se sentem sozinhas recorrem às redes sociais como principal meio de comunicação, o que complica ainda mais o tratamento destas situações. Porque o tratamento dado ao termo incel não evita que haja comentários relacionados com o nível de atratividade, o tipo de relações que se procuram ou o valor das mulheres que encaixam na perfeição neste fenómeno. A narrativa, seja sob o nome que for, está cada vez mais difundida e muito presente nos fóruns. Não é difícil encontrar tópicos que fazem referência ao valor do aspeto físico como fator de aceitação social, ao papel proativo do homem, à "facilidade das mulheres" ou à crítica à disponibilidade sentimental destas. Temas que entram de forma direta na chamada "manosfera".
Acesso direto a conteúdos sobre como engatar
A retórica incel encontra espaço até mesmo em perguntas simples feitas a um motor de busca, como: "o que fazer para agradar a uma rapariga", "como procurar namorada" ou "como ser mais atraente para as raparigas". A partir daí, chega-se a fóruns onde as posições derrotistas ganham força. Em vez de motivar os utilizadores, estes espaços reforçam a ideia de que o seu valor depende de padrões sociais e de que a rejeição confirma a sua suposta inferioridade. Intensificam-se assim sentimentos de impotência e ressentimento.
Na Europa, a comunidade incel conta com um grande número de seguidores em países como a Polónia. "A nossa impressão foi que, se eles queriam chamar a atenção do exterior, tinham de dizer algo misógino, porque, caso contrário, ninguém lhes prestava atenção", afirma Patricja Wieczorkiewicz, jornalista polaca e autora de um livro sobre os incels na Polónia. Wieczorkiewicz, juntamente com Aleksandra Herzyk, passou três anos a investigar a comunidade incel polaca. A autora observou a desigualdade de género no nível de escolaridade entre homens e mulheres como um dos principais problemas. Em 2020, as mulheres representavam 63% dos licenciados, 68% das pessoas com mestrado e 53% dos doutorandos, de acordo com a FRSE, 2024. Além disso, observou que os fóruns dos incels polacos não estão apenas cheios de misoginia, mas também abundam tópicos sobre depressão, bullying, problemas familiares, isolamento social ou a vivência com autismo. Muitos eram rapazes isolados em aldeias totalmente ligadas à internet.
Femcel, pick me ou tradwife
Semenzin explica que as investigações realizadas com sock puppets (perfis falsos) demonstraram que a velocidade com que as plataformas digitais mostram conteúdo misógino é exponencial, pelo que "são completamente cúmplices deste tipo de ideologia". Para Semenzin, uma imagem simbólica é a de Donald Trump ao lado de Zuckerberg, Elon Musk e o resto das Big Tech. "A tecnologia não é neutra", acrescenta.
A investigadora não estuda apenas como esta cultura afeta os homens, mas também o impacto que tem nas mulheres. Se no universo masculino o que se torna visível é esta cultura misógina, no feminino o algoritmo potencializa visões tradicionais da feminilidade. "É por isso que estamos a ver a explosão das tradwives (donas de casa tradicionais) e das mulheres sustentadas".
Paradoxalmente, "sob uma aparência de modernidade, reproduzem uma visão profundamente tradicional e reacionária do mundo", acrescenta. No outro extremo, existem mulheres que sentem essa rejeição afetiva. O termo femcel (female involuntary celibate) refere-se a mulheres que, apesar de desejarem ter relações românticas ou sexuais, não conseguem obtê-las. Estas partilham com os incels uma sensação de frustração e isolamento face à falta de atenção afetiva. As raparigas influenciadas por este discurso expressam-no sob a forma de insegurança ou autocrítica, analisando as razões pelas quais sentem que não se enquadram nos padrões de atração. Alguns utilizadores destes fóruns utilizam o termo "pickme girl" (literalmente "escolhe-me") como um conceito pejorativo para se referirem às mulheres que procuram a validação masculina e atrair a atenção de homens atraentes ou populares através de atitudes consideradas provocantes ou tentando "destacar-se" socialmente.
Em Espanha, o termo é utilizado e atribuído às mulheres que afirmam "não ser como as outras" ou "ter apenas amigos". Estas não têm uma imagem muito positiva entre a comunidade masculina e o termo é utilizado com um tom pejorativo. Na verdade, muitos utilizadores apontam-nas como uma das razões para a sua falta de sucesso com as mulheres, uma vez que, em muitas ocasiões, estas apenas procuram atenção e não "algo com eles".
Capítulo 3 | Sinais no seu comportamento
Por detrás destes termos, para muitos investigadores, esconde-se uma mistura de insegurança, falta de referências afetivas e isolamento. "Tudo isto começa na adolescência, porque é quando o cérebro e a personalidade estão a formar-se", identifica Lara Ferreiro, psicóloga especializada, entre outros campos, em relações tóxicas e autoestima. Ferreiro garante que é importante tratar o problema não só para evitar que se tornem "violadores", mas também para que saibam identificar de onde vem essa angústia. Porque, no final, "o ódio gera-lhes um stress emocional tóxico". "Um homem que mantém uma visão negativa das mulheres costuma ter uma vida sexual e afetiva empobrecida, com relações superficiais e falta de intimidade e empatia", enumera Ferreiro. Da mesma forma, acabam por se afastar socialmente, o que "lhes dificulta a manutenção de laços saudáveis com a parceira, amigas ou familiares". A psicóloga afirma também que esta atitude acaba por se associar a: "depressão, ansiedade, baixa autoestima ou um vazio existencial".
Uma investigação publicada em 2022 pela revista Evolutionary Psychological Science revelou que 75% dos participantes que se identificavam como incels tinham um diagnóstico clínico de depressão grave ou moderada. 45% sofriam de ansiedade grave. Um dado que é corroborado pelo último estudo elaborado pela Comissão para a Luta contra o Extremismo do Ministério do Interior do Reino Unido, que, após um inquérito a 561 homens que se identificam como incels, detetou níveis elevados de vitimização, raiva, misoginia e problemas de saúde mental entre os participantes.
O que veio primeiro: o incel ou a solidão?
Para a sua investigação, Wieczorkiewicz conversou com vários incels na Polónia e reuniu-se regularmente com quinze ou dezasseis deles. Quase todos eram rapazes com poucos privilégios do ponto de vista socioeconómico. Por isso, quando ouvem feministas de classe média de Varsóvia falarem na televisão sobre como os homens são privilegiados, como as mulheres são desfavorecidas e como a masculinidade é um problema, ficam frustrados e pensam: "Mas que raio? Eu não sou privilegiado", porque não são eles que beneficiam do patriarcado.
A perceção geral é que a solidão indesejada é um problema generalizado na sociedade. No caso dos homens, menos de um em cada cinco homens sente-se sozinho em Espanha, de acordo com o último Barómetro da Solidão realizado pelo Observatório Estatal da Solidão Indesejada. Um dos estudos mais recentes sobre a comunidade incel, realizado no Reino Unido e nos Estados Unidos com 561 participantes, evidenciou uma situação crítica em matéria de saúde mental: 39% cumpriam os critérios de depressão moderada e 43% apresentavam ansiedade. Além disso, 86% tinham sofrido algum tipo de assédio. Outros estudos elevam os números de depressão para 95% e apontam que mais de dois terços dos inquiridos consideravam o suicídio uma opção séria, o que reforça a ideia de muitos profissionais de apostar no apoio psicológico e social. Estes resultados acabaram por desmentir a ideia de um perfil associado. Mostraram que muitos deles se identificam com ideias de esquerda e pertencem a setores socioeconómicos baixos. Assim, a forma de entrar nesta narrativa não está ligada a nenhum fator específico. Quando o pedagogo italiano Matteo Botto, autor de uma investigação na Feminist Media Studies (2023), começou a investigar os incels, percebeu que faltavam análises sobre as razões pelas quais os homens entravam e saíam dessas comunidades. Observou que há duas razões pelas quais se juntam a elas: uma é a pressão do grupo: talvez eles já tenham amigos dentro, que lhes recomendem vídeos no YouTube de supostos influenciadores masculinos como Andrew Tate. Mas também pode ser porque simplesmente pesquisam no Google “como conquistar uma rapariga” e acabam no Reddit ou no YouTube e “entram num buraco que, em alguns casos, pode levá-los à radicalização”.
Capítulo 4 | Procurar apoio para evitar a radicalização
A mistura de vulnerabilidade emocional, anonimato e feedback constante cria um terreno fértil para a radicalização, que acaba por transpor o ecrã. Na Europa, foi em França que teve maior impacto, uma vez que, na última década, foram registados vários casos de violência ligados ao masculinismo e a movimentos afins, como os incels ou o MGTOW. Em 2014, um ativista armado do grupo "Pères Enragés" barricou-se, exigindo mudanças legais sobre a guarda partilhada; em 2020, um homem que se declarava membro do movimento MGTOW assassinou a ex-companheira num crime de cariz ideológico; e em 2024, dois ataques inspirados na violência incel foram frustrados, um planeado em Bordéus e outro contra uma festa feminista em Paris, sem que fossem aplicadas acusações de terrorismo.
Em 2025, França investigou, pela primeira vez, como incitação ao terrorismo, um menor simpatizante do movimento incel. O jovem de 17 anos foi baleado na perna e preso após ameaçar, no TikTok, atacar mulheres. De acordo com a Europol e a investigadora Stéphanie Lamy, estes atos revelam a ligação entre o antifeminismo, a teoria da "grande substituição" e a radicalização masculinista, uma ideologia que utiliza a subordinação das mulheres como ferramenta de coesão e recrutamento, embora ainda receba pouca atenção por parte das instituições europeias. O doutorando francês Louis Neymon investigou o movimento incel em França e tem uma visão muito clara das suas origens. Os discursos incel começaram a propagar-se no fórum “blabla 18-25” do site jeuxvideo.com, que, durante muito tempo, foi um espaço virtual totalmente desregulado, explica ao El Confidencial. Na sequência da censura desse fórum, surgiu outro, o Avenoel. E, embora os incels francófonos se apropriem de muitos conceitos provenientes da ideologia incel norte-americana, existem especificidades francesas que aproximam ainda mais os incels francófonos da extrema direita, explica Neymon.
Como sair?
Uma vez identificada esta realidade, percebendo com que tipo de conteúdo se relaciona e como se expressa nos fóruns, a pergunta importante passa a ser: o que está ao nosso alcance para evitar que se chegue a situações como as registadas em França? Quanto mais profunda é a radicalização e mais fundo se chega, mais difícil é sair. É por isso que Botto diz que sair destes grupos "é mais complexo do que parece", embora haja dois caminhos: "o racional" e o “emocional”
No primeiro caso, jovens que entraram com 15 anos e que, com o tempo e ao continuarem os estudos, "percebem que a “red pill” não se sustenta de todo". No segundo caso, veem um amigo que conseguiu superar a dependência das drogas, e cuja namorada continuou a apoiá-lo, apesar do que a red pilll diz sobre as mulheres, e começam a duvidar. “Mas afastar-se dessas comunidades não significa que eles se tornem feministas”, esclarece. “Podem continuar a ser misóginos, mas já não participam ativamente nesses fóruns”.
A psicóloga Lara Ferreiro defende a importância da prevenção quando os pais observam atitudes preocupantes. "Se o seu filho partilha discursos radicais, rejeita a igualdade, promove a hipersexualização das mulheres transformando-as em objetos, rompe relações com amigas, etc., podemos perceber que algo se está a passar", conta.
"Para prevenir ou reduzir estas atitudes em homens jovens, é possível intervir através da educação emocional precoce, ensinando a identificar e expressar emoções desde a infância, promover referências masculinas positivas, respeitosas e igualitárias", enumera. Esta especialista menciona as terapias individuais paratrabalhar traumas relacionados com a mãe e um possível complexo de Electra não resolvido. E, claro, o controlo do uso da Internet. "Para quê? Para ter outro tipo de círculos que incluam masculinidades saudáveis e porque os fóruns funcionam como seitas."
Moreno, por sua vez, lembra que "milagres não existem" e insiste "na intervenção estratégica, nas políticas públicas que promovem uma mudança estrutural, sendo a integração dos jovens apenas uma das muitas ações possíveis". A sua aposta passa por olhar o fenómeno do outro lado. A partir de uma maioria que não se identifica com estas atitudes. "Numa sala de aula, normalmente, a quantidade de alunos reativos é a minoria, mas ocupam muito espaço no discurso. Por isso, aulas participativas que os façam refletir e estimulem o espírito crítico são fundamentais. É preciso pensar que nós, rapazes, também chegamos à ideia ou perceção de que somos machistas porque as raparigas nos ensinam isso".
Todos os incels entrevistados pela investigadora Emilia Lounela para um relatório da Europol tinham ideias misóginas, embora manifestassem diferentes tipos de extremismo. Lounela adverte que a ideologia incel não surge do nada; alimenta-se de uma misoginia enraizada na sociedade e nos discursos de género dominantes. Portanto, "prevenir a violência misógina requer compreender a misoginia estrutural", afirma. Para abordar o fenómeno em casa, na escola ou na sociedade, "hoje em dia, a educação digital já não é opcional, é uma necessidade estrutural", afirma a formadora italiana Chiara Antoniucci, que trabalha na SCOSSE, uma associação de Roma que organiza workshops de educação emocional e sexual em institutos. Além disso, Botto destaca que, atualmente, se insiste apenas que os homens devem aprender a estar mais em contacto com as suas emoções, "e talvez seja necessário ir mais longe, como ensinar empatia: humanizar os grupos oprimidos, desenvolver a capacidade de se colocarem no lugar do outro". "A questão não é tanto a radicalização, mas o facto de os pais, as escolas e até a polícia não saberem como intervir", confirma Jesús Moreno. Com os seus workshops nas salas de aula, conseguem criar espaços de debate e reflexão onde tanto professores como alunos enfrentam uma realidade até agora oculta. Insistem que "duas horas de formação também não são suficientes para erradicar" este tipo de comportamentos, mas defendem uma "intervenção estratégica". "Se tentarmos criar referências positivas entre pares, em vez de apontar o dedo a quem está a falhar, talvez consigamos mudar alguma coisa", afirma.
Esta reportagem é uma investigação colaborativa entre Itália, França, República Checa e Espanha, como parte da rede do consórcio PULSE. Foi originalmente publicada a 30 de novembro de 2025, no site El Confidential.