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Entrevista ao Colectivo Retorno: a vida continua quando largamos as memórias

Sofia, Mariana e Hugo são três amigos do Porto que, por obra do acaso (ou…

Texto de Carolina Franco

Uma Frida © Sofia Berberan

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Sofia, Mariana e Hugo são três amigos do Porto que, por obra do acaso (ou da vida), acabaram por se reencontrar anos mais tarde em Lisboa. Conheceram-se enquanto estudavam na Academia Contemporânea do Espetáculo, há dez anos, e perderam a vista a Sofia, que seguiu para o Conservatório em Lisboa enquanto Mariana e Hugo continuaram no Porto, na ESMAE.

Hoje estreia Uma Frida, a primeira peça que criaram enquanto Colectivo Retorno, no Teatro D. Maria II, integrada no ciclo Recém-Nascidos. Numa conversa informal, na entrada do D. Maria II, juntaram-se antes de um ensaio para falar sobre o que os une, o que os motiva e sobre o que é, afinal, esta peça que, pelo título, imediatamente nos transporta para o universo de Frida Kahlo.

“A primeira parte do espetáculo é quase uma piada sobre a coincidência de nós termos conseguido todos estar em Lisboa ao mesmo tempo.”, começa por dizer Sofia, que rapidamente é completada pelas palavras de Hugo: “Além disso, houve outro acaso. À época, estávamos todos a passar por momentos conturbados na área do amor.”

Uma Frida conta histórias reais dos três, convertidas em ficção pelo texto de Sofia. Mais do que partilhar as histórias e gerar empatia, pretendem criar um “momento catártico”, como Sofia lhe chama, em que se despedem delas de uma vez por todas.

Entre não quererem libertar-se de alguém que lhes é muito especial e sentirem a necessidade de serem livres, procuram a melhor expressão para se despedirem das memórias; as tentativas acabam por ser sempre falhadas. Sofia conta que n’Uma Frida, “mais do que partilhar uma história individual importa este momento que é libertarmo-nos de uma memória boa e estarmos a separar-nos dela. A vida continua. É mais sobre essa largada da memória.”

A cumplicidade entre os três é notória. Durante a conversa, vão havendo trocas de olhares e frases completadas uns pelos outros, com uma naturalidade que não esconde os 10 anos de amizade que os unem. Na hora de criar em conjunto, continuam a ser os amigos que são nas horas vagas, mas tentam encontrar dinâmicas para não tropeçarem nas ideias uns dos outros. “Primeiro, a Sofia escreve o texto e, claro, há coisas que num primeiro momento não sentimos que sejam tão nossas e, em diálogo com ela, tentamos encontrar um equilíbrio.”, conta Hugo. Para Mariana, o mais estranho é ver a sua própria história com outra camada, de outra pessoa, com pormenores que nem sempre batem certo com a memória associada a essa mesma história, “mas ao mesmo tempo não importa”, remata.

Uma Frida fotografada por © Sofia Berberan 

A relação com Frida Kahlo é explicada prontamente por Sofia, que num primeiro momento a resume a “um pormenor”. A história de Frida com Diego e o desgosto amoroso que daí resulta são uma ponte para os desgostos vividos por si, por Mariana e por Hugo. Sofia partilha um momento da peça, como exemplo da presença de Frida Kahlo na peça: “Há um monólogo na história da Mariana em que fiz a ponte com o universo da Frida Khalo. E de repente a Frida está ali, mas representa as nossas feridas. Até há uma parte em que ela vai dizer: “Frida, para de olhar para mim!”, mas não é aquela Frida, são as nossas feridas amorosas. Funciona mais como um símbolo.”

Foi a partir desta criação —que carinhosamente já só apelidam de Frida — que decidiram unir forças em 2017 e assumir-se enquanto Colectivo. Sofia explica que o objetivo é poderem “reciclar-se” e falar do que querem, sem a imposição de outras coisas e outros trabalhos. Mariana completa: “Criar a nossa própria oportunidade.”

Depois de Uma Frida — que estreou nas Mostras de Dança Contemporânea, no Rivoli, e já foi apresentada no Mais Alguns, na Rua das Gaivotas 6, e no Teatro do Bolhão — já criaram a quatro mãos A Nossa Primavera e Nina Nina, esta última com estreia marcada para fevereiro de 2019, na Rua das Gaivotas 6.

Apresentar uma criação sua no Teatro D. Maria II é “um incentivo”, todos concordam. Hugo salienta que é bom para que “quem esteja na dúvida entre fazer ou não fazer alguma coisa, ver que não está tudo perdido e que ainda há espaço para quem queira criar novas coisas.”

Sofia, Mariana e Hugo entraram para o ensaio na Sala Estúdio, que hoje se abre a novos públicos. No dia 27 de janeiro, juntam-se aos outros criadores do ciclo Recém-Nascidos para uma conversa final.

A quarta edição do ciclo Recém-Nascidos, onde o teatro D. Maria II aposta nos projetos das mais jovens companhias e criadores em Portugal, abriu com E todas as crianças são loucas, do coletivo As Crianças Loucas, entre os dias 11 e 13 de janeiro. O intervalo de uma semana faz o respiro para receber Uma Frida, entre 18 e 20 de janeiro, e para encerrar com Teoria das Três Idades, de Sara Barros Leitão, em cena entre 25 e 27 de janeiro.

Texto de Carolina Franco

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