Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Miguel Honrado

A hora do lobo

Encontro-me em estado de vigília! Será que, no momento em que escrevo, o mundo pode…

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Encontro-me em estado de vigília! Será que, no momento em que escrevo, o mundo pode verdadeiramente mudar? Não tenho uma visão catastrofista da existência humana, porque acredito que aquela lhe é inerente. O Homem transporta em si o seu próprio thánatos! Nas palavras de Buchner: “Todo o Homem é um abismo, e alguém é capaz de ter vertigens se olhar para baixo”. Todavia, neste momento, joga-se além Atlântico mais uma partida de xadrez que definirá, sem dúvida, o nosso futuro. E a palavra futuro, está hoje, como nunca, carregada, diria mesmo, sufocada de significado.

Não será, decerto, a primeira vez que se instala na Humanidade esta insónia angustiada, mas, talvez, nunca tenhamos tido tanto a perceção de que estamos globalmente suspensos, expectantes da resposta de um povo. Haverá um povo por detrás desta escolha? Sobreviverá ainda nos nossos dias este sinónimo de coletivo, de construção, de escolha e decisão.

O cinismo europeu, mantendo a necessidade de uma amizade malgré elle même, tem, ao longo de décadas esboçado um retrato de uma América puerilmente maniqueísta, como nos western e nos dramas clássicos de Hollywood. O que se passa, porém, neste terceiro dia do mês de novembro do vigésimo ano do segundo milénio está, como todas as coisas profundas e absolutas, para além do bem e do mal.

Fala-nos eloquentemente de uma sociedade próxima do seu estertor em que o aniquilamento ontológico cavado por anos de distanciamento entre governantes e governados, cedeu passo à voragem do espetáculo permanente. O que presenciamos, então, é uma gigantesca náusea, um mal de vivre avassalador que prenuncia uma sentença de morte. A física evidentemente, mas além desta individual, íntima e solitária, a monstruosa morte dos ideais.

O match será provavelmente trágico nesta luta de irrisórios titãs. Por um lado, o clownesco, o non sens, a efabulação e a mentira, por outro um discurso cansado em que o desfiar dos valores humanos não é mais do que mera forma. O vazio hipnotizante da forma contra o vazio anestesiante do conteúdo. A vontade de poder manobra na sombra.

Na mitologia nórdica o lobo é assimilado a Cronos, devorando os filhos e o tempo que passa. Creio que nunca estivemos globalmente tão perto da carnificina e do fim do tempo. As imagens que nos chegam diariamente são disso prova: a indigência tomou conta da cidade, disformes são os rostos, terríficos são os esgares, trágica a boçalidade. Como nas pinturas de Ensor! Quando o pensamento trai a vida, a vida vinga-se e perde-se com ele.

A Hora do Lobo paira sobre toda a terra, estaremos vigilantes ou paralisados, capazes de mergulhar no abismo de nós mesmos salvando-nos? Para além dela…. Nascimento ou morte, danação ou salvação?

Será que despertaremos?

-Sobre Miguel Honrado-

Licenciado em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e pós-graduado em Curadoria e Organização de Exposições pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa/ Fundação Calouste Gulbenkian, exerce, desde 1989, a sua atividade nos domínios da produção e gestão cultural. O seu percurso profissional passou, nomeadamente, pela direção artística do Teatro Viriato (2003-2006), por ser membro do Conselho Consultivo do Programa Gulbenkian Educação para a Cultura e Ciência – Descobrir (2012), pela presidência do Conselho de Administração da EGEAC (2007-2014), ou a presidência do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II (2014-2016). De 2016 a 2018 foi Secretário de Estado da Cultura. Posteriormente, foi nomeado vogal do Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém. Hoje, é o diretor executivo da Associação Música, Educação e Cultura (AMEC), que tutela a Orquestra Metropolitana de Lisboa e três escolas de música.

Texto de Miguel Honrado
Fotografia de Estelle Valente

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

7 Abril 2026

Valério e Gonçalo vão à luta

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

27 Janeiro 2026

Museu dos sapatos

13 Janeiro 2026

A Europa no divã

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0