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Alexandre Alaphilippe: “Mentir e espalhar desinformação já não é penalizado nas eleições”

Entrevista ao diretor executivo da organização sem fins lucrativos EU DisinfoLab

Texto de Sofia Craveiro

Fotografia cedida pelo entrevistado

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A desinformação tornou‑se um problema crescente nos vários países pertencentes à União Europeia, imiscuindo-se nas democracias e corroendo a coesão do projeto comunitário. 

Especialista em comunicação digital e desinformação, Alexandre Alaphilippe, diretor executivo da EU DisinfoLab, acompanha o desenvolvimento e evolução deste problema no contexto da organização independente sem fins lucrativos que dirige.

Nesta entrevista, o especialista traça um retrato abrangente do ecossistema da desinformação na Europa, sublinhando que, embora existam narrativas e tendências comuns entre Estados‑Membros, a sua eficácia depende fortemente das especificidades culturais e dos públicos visados. “Se olharmos especificamente para a interferência estrangeira na desinformação, percebemos que diferentes países são também alvo de diferentes tipos de atores de ameaça”, afirma, em entrevista ao Gerador.

O responsável da EU DisinfoLab aborda ainda a regulação das plataformas digitais, os limites da literacia mediática, os incentivos políticos e financeiros por detrás da produção de desinformação e os riscos acrescidos trazidos pela inteligência artificial, defendendo que a resposta europeia terá de ser coordenada e multidisciplinar. 

Como encara o panorama da desinformação na União Europeia? É algo que se reflete numa tendência generalizada ou é diferente entre cada Estado‑Membro?

Estamos aqui há oito anos, por isso vimos como a ameaça tem vindo a deslocar‑se e a tornar‑se central em todos os Estados‑Membros onde era menos o caso, diria eu, há quatro ou cinco anos. Vemos que, hoje, as apostas são muito mais altas em todos os Estados‑Membros. O que é, no entanto, interessante é que, se conseguirmos identificar algumas narrativas comuns ou tendências comuns no que está a ser disseminado e no tipo de atores que o disseminam, também conseguimos ver que existem adaptações locais baseadas na cultura, no contexto e em fatores que funcionam mais nuns países do que noutros. É muito interessante. 

Vemos também que, se olharmos especificamente para a interferência estrangeira na desinformação, percebemos que diferentes países são também alvo de diferentes tipos de atores de ameaça. Sabemos que Portugal ou Irlanda, por exemplo, são menos visados pela desinformação russa, mas podem ser mais visados por outro tipo [de narrativas]. No caso da Irlanda, por desinformação proveniente dos EUA, como vimos no referendo ao aborto. 

Também para Portugal vemos que houve uma circulação diferente de desinformação na comunidade lusófona, partilhando narrativas comuns com o Brasil, sendo possível importar e exportar narrativas. 

Portanto, vemos que a ameaça evoluiu para uma ameaça central, que também depende muito dos diferentes públicos, das diferentes culturas e dos diferentes países.

Isto prejudica de alguma forma os valores europeus? O espírito europeu, nos diferentes países, de pertença à UE, é algo que pode estar em perigo, basicamente?

Não tenho a certeza de que a desinformação seja o principal ator aí. Acho que existem muitos fatores políticos diferentes que estão a atuar contra isso.

É verdade que a instrumentalização de desinformação específica dirigida à UE tem sido usada por determinados atores, também dentro da Europa. E vimos, por exemplo, como na Hungria o governo atual tem atacado a UE para promover diferentes visões sobre como retirar a Hungria da união. Também vemos atualmente que existe uma tendência política instalada. Portanto, vemos que alguns movimentos estão definitivamente a usar isto para tentar quebrar uma abordagem europeia comum e jogar mais com as emoções do que com a racionalidade em termos de como lidar com a atual crise geopolítica que a Europa enfrenta neste momento.

Mas existem tendências regionais, certo? Quero dizer, países da Europa Central têm narrativas de desinformação muito diferentes das do Sul.

Podem ser diferentes ou podem ser iguais. Vimos, por exemplo, que depois da crise na Síria, em meados da década de 2010, tivemos muita desinformação dirigida contra migrantes na Europa Central e sobre a perda de identidade, algo que não vimos no Sul da Europa. E vimos muito mais políticas de identidade, por exemplo em Espanha, especificamente na Catalunha do Sul, ou diferentes identidades regionais que tiveram um peso grande, ou o debate sobre o fascismo e o franquismo. Portanto, vemos que algumas destas coisas podem ser comuns e outras podem ser muito, muito diferentes. Do que observei, vemos também menos destaque da desinformação sobre vacinas, por exemplo, em alguns países em comparação com outros.

Na Europa Central, por exemplo, temos muitas falsas narrativas russas a serem disseminadas [para influenciar negativamente a opinião pública]. A Eslováquia é um desses casos. Isto é algo que vos preocupa?

O que preocupa não é o facto de essas narrativas estarem a ser disseminadas, porque a Rússia sempre disseminou essas narrativas. A principal preocupação é como as plataformas online estão a permitir que este tipo de narrativas, empurradas a partir do exterior do país, consigam circular dentro do país e fazer parte do debate público, quando, sem este tipo de amplificação, incentivo e complexificação, isso não aconteceria, ou aconteceria muito menos.

Portanto, é mais uma questão de como a desinformação está a ser promovida por um sistema online que atualmente remunera esse tipo de conteúdo, tanto política como financeiramente, mais do que o conteúdo em si a ser produzido. 

Acho que devemos olhar menos para a produção de conteúdo e mais para qual é o dano e qual é o benefício para as pessoas que produzem esse conteúdo, comparativamente à produção de jornalismo de qualidade.

E quais são os benefícios, na sua opinião?

Existem ganhos políticos. Agora estamos a ver que mentir e espalhar desinformação já não é, como antigamente, algo que é penalizado nas eleições. Pelo contrário, está a ser recompensado. Mas acho que a segunda parte são os ganhos financeiros. Vemos que muito conteúdo online está a ser remunerado através da publicidade e dos sistemas de distribuição algorítmica, que ajudam pessoas a promover esse tipo de conteúdo falso e a ganhar muito dinheiro com isso. [Também] através da geração de conteúdo de fraca qualidade feito por IA, que muito frequentemente é falso, mas é reconhecido pelo Google e, mais recentemente, gera ganhos adicionais através de resultados ou de prompts de IA.

Que países acha que são mais vulneráveis a campanhas de desinformação na Europa?

Não acho que haja uma competição. Acho que todos são vulneráveis. Basta encontrar o ponto certo. Portanto, não é uma questão de vulnerabilidade [per se]. Pode haver mais resiliência nuns do que noutros. Há aquela ideia de que a Finlândia é excelente a ensinar crianças desde cedo [a reconhecer notícias falsas], mas acho que é a mesma questão de saber quem são as melhores pessoas a identificar desinformação. Por vezes, os países que estão mais protegidos podem ser os mais vulneráveis a um tipo específico de narrativa em determinado momento. Portanto, não acho que exista aqui uma competição sobre quem é o melhor ou o pior.

Não é possível, então, realmente dizer qual é o caso mais grave.

Não. E também, em termos de resposta, há países que são melhores a fazer certas coisas e outros melhores noutras. Por exemplo, a Finlândia é muito boa em literacia mediática, a França neste momento é muito boa a expor este tipo de operações, mas não há um país que reúna tudo isto e seja o modelo para toda a gente.

A literacia mediática é a melhor forma de combater os impactos da desinformação ou acha que existem outras formas e outras medidas que os países deveriam tentar aplicar?

A literacia mediática é a base do que é necessário para realmente conseguir ler, digerir e compreender notícias e entender o que está a acontecer. [A questão é que a pessoa] pode ter o melhor curso de literacia mediática de sempre, mas se todo o conteúdo que vê online for desinformação, as suas competências de literacia mediática não vão ajudar muito. Por isso, temos de olhar para isto tanto da perspetiva do cidadão, sobre o que pode fazer, como perceber que não podemos ter uma sociedade onde toda a gente passa duas horas a verificar cada informação, porque é preciso ter linhas de confiança e uma compreensão clara de quem tem a responsabilidade de fornecer informação de qualidade. Também precisamos de uma regulação adequada das plataformas e de compreender como o conteúdo que vemos diariamente é escolhido, além [de ser necessário] perceber porque vemos determinadas coisas e porque as plataformas lucram com o que vemos e não têm interesse em mostrar coisas que não lhes trazem dinheiro.

Acha que a Europa está no caminho certo em termos de regulação?

Acho que a Europa é a única parte do mundo onde existe uma regulação séria a ser concebida. A principal questão neste momento é a capacidade da Europa para assumir esse poder, impor a sua própria regulação e mostrar a sua independência e soberania no mundo. E acho que essa é uma questão crucial agora.

O quadro regulatório foi desenhado para funcionar. As primeiras multas que vimos ao abrigo do DSA [Digital Services Act] são um excelente primeiro sinal positivo, mas ainda são sinais muito tímidos. Portanto, precisamos de garantir que isto é devidamente aplicado. Não se pode avaliar uma regulação com base num único caso.

Não se pode dizer: “apanhei cinco [infrações], logo a regulação está a funcionar”. Está a funcionar se apanhar todos os cinco de forma regular e se ninguém estiver a fugir com o dinheiro. É assim que se avalia uma regulação. Portanto, veremos daqui a alguns anos.

Na sua opinião, as redes de desinformação exploram a diversidade cultural e linguística dentro da Europa? Isso também beneficia a disseminação das narrativas?

Acho que estão a tentar e acho que o facto de a tradução por IA ter ficado tão barata tem ajudado. Vemos também isso com o uso de áudio e vídeo gerados por IA a surgir.

Acho que vemos cada vez mais menos desinformação estrangeira a ser operada claramente a partir de fora, e cada vez mais operações integradas dentro dos próprios países. E, claro, a identidade desempenha sempre um papel importante na construção das mensagens e em garantir que chegam ao público certo, sendo realmente direcionadas a culturas, línguas ou minorias específicas.

Mas há coisas que se repetem entre os vários Estados‑Membros, certo?

Sim, vemos isso sobretudo com identidade, migração, ecologia, como a cidade dos 15 minutos. A COVID foi um exemplo perfeito disso. Conseguimos ver - e mostrámos isso logo na primeira semana do confinamento - que a Itália, que foi o primeiro país a entrar em confinamento, teve uma série de narrativas. E quando a França entrou em confinamento, três semanas depois, vimos exatamente a mesma cadeia de narrativas a surgir. Portanto, conseguimos ver que, mesmo sem coordenação, o mesmo tipo de coisas apareceu. Portanto, sim, essas narrativas repetem‑se e são adaptadas, claro.

Este é um problema que está a piorar principalmente devido ao desenvolvimento da IA e dos deepfakes? Ou, por exemplo, a IA pode ser uma ferramenta para cada um de nós identificar narrativas falsas?

A IA é comparável ao que os motores de pesquisa fizeram. Portanto, o principal risco da IA é o facto de as pessoas a estarem a usar cada vez mais para substituir os motores de pesquisa. Sabemos que, ao contrário do que tínhamos até agora, os nossos cérebros foram treinados para ter acesso a uma biblioteca com uma lista de fontes. Basicamente, todos os artigos são escritos assim, com uma lista de fontes. É assim que o Google funciona, é assim que a biblioteca funciona: várias fontes classificadas da mais pertinente para a menos pertinente. O que a IA faz é misturar as fontes. Portanto, não se sabe exatamente de onde vem cada coisa e o principal risco disso é que está a produzir cada vez mais conteúdo adaptado ao que queremos ver, o que pode empurrar fortemente para a auto-radicalização. 

Vimos isso fora do contexto da desinformação, por exemplo na prevenção do suicídio, em que ferramentas de IA e agentes generativos trouxeram consigo riscos de auto-radicalização. E sabemos que é muito fácil envenenar um grande modelo de linguagem com desinformação. A Anthropic, que é uma empresa de IA, publicou um artigo a mostrar que basta inserir 250 documentos num modelo para envenenar o modelo inteiro, mesmo que tenha milhares de milhões de documentos [fidedignos]. Portanto, os riscos são muito elevados. E, claro, a IA vai mudar completamente a nossa abordagem ao que está disponível, ao que lemos e ao que vemos. Ainda não sabemos como os nossos cérebros e como, enquanto sociedade, nos vamos adaptar a isto, mas é definitivamente uma mudança de paradigma. Da mesma forma que hoje não sabemos como funcionávamos sem motores de pesquisa, acho que daqui a 10 anos não saberemos como funcionávamos sem IA.

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