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As Moradas do Silêncio

Um conto da autoria de Peter Pina, aluno do curso da Academia Gerador “Desarrumar a escrita: oficina prática”. Este conto foi selecionado para publicação nos canais digitais do Gerador pelo formador do curso, Samuel F. Pimenta

Texto de Peter Pina

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Todas as cartas escritas merecem uma resposta. Todas as respostas merecem ser bebidas pelo tempo. Quando o tempo se enraíza nas madeiras, os ponteiros dos relógios dançam no sentido oposto. As casas respiram. Naquela casa, no último andar de um prédio sobrevivente ao terramoto, existe uma porta que nunca mais foi aberta. Dizem que a bengala dele ainda se ouve. Mas nunca mais ninguém o viu. 

Naquela casa, moram duas casas. Ou talvez mais. As janelas são pintadas na luz de pequenas ondas. As janelas espelham o brilho do mar, que pede o rio em casamento. A claridade acorda as paredes vestidas de madeiras brancas. As janelas, sempre abertas, sopram a brisa e o vento, que parece saber o nome de todas as vidas ali vividas. Os móveis antigos, encontrados nessas ruas com 500 anos, são pintalgados em tons de verde. São vasos que embalam a vida. São plantas que dançam nas paredes. São plantas que dançam na luz. 

Quando a lua uiva, nessa casa, o ar torna-se espesso. As paredes guardam murmúrios como pulmões de cal. Todas as noites, à mesma hora, uma vela é acesa. Todas as noites, à mesma hora, a vela é embalada pelo vapor do chá. A luz trémula desenha o rosto dele, partindo-o em dois. Ele é metade sombra, metade lembrança. Sobre a mesa, são dispostas cartas como quem organiza fantasmas. Cada envelope é corpo. Cada envelope é fragmento. Os dedos enrugados escrevem devagar, com uma caneta que ainda sangra tinta. As palavras deslizam como passos sobre neve. Nunca dizem o nome. Chamam-lhe apenas meu amor, como quem sonha um pássaro que fugiu. Existe uma ternura antiga nas frases.  Existe uma respiração de miocárdio acelerado. Por vezes, a meio de uma frase, as mãos adormecem. As mãos não adormecem. As mãos recusam-se a escrever. O silêncio completa o que a voz teme. Outras noites, as lágrimas fazem amor com a tinta derramada. As letras difusas quase abandonam o papel que talvez quisesse chorar. As frases recordam a troca de olhos, das almofadas noturnas, nesse momento de amantes. A respiração quente. Os lábios dele. Os beijos sem lábios, de almas que se tocam sem corpos. As frases lembram essas mãos adormecidas à procura do corpo dele. O rosto que se cola ao peito e se confunde com o ninho. As frases relembram uma massa de carne, onde braços e pés se entrelaçam, nessa cama que tantas noites os viu sonhar. São páginas de pequenos-almoços que abrem os cortinados, sempre ao som da cantora sem nome. Todos os nomes são escondidos dessas páginas. Os nomes e as datas. Antes de cada página se vestir de envelope, antes de cada página se despedir da tinta, apenas uma palavra é cravada, Roma. Apenas Roma. 

A bengala encurvada arrasta-se até ao quarto. O corpo desaparece nessa cama, testemunhada em tantas cartas. Os flocos de neve confundem-se nas almofadas. Em cima da cadeira, as roupas que se esqueceram de contar calendários adormecem. O silêncio dorme depois das horas, numa casa sem relógios. Ao cimo das escadas, a porta continua numa espécie de coma. Nunca mais ninguém viu o vizinho do último andar. 

Quando o bairro acorda, todos os degraus do prédio trocam palavras frescas. Depois daquele moço se ir embora, o vizinho nunca mais foi o mesmo. E o que será feito do outro moço, vizinha? Levava uma mala na mão. Enquanto descia dizia, até já casa. Era sobrinho? Não, mulher. Eram amigos. Amigos especiais. Um homem daquela idade, com um rapaz tão novo? E lá existe idade para se gostar? Sempre foste muito moderna, vizinha. Eu cá, não entendo essas modernices. Homens que amam homens? Vi-os uma vez, de mão-dada. Não disse nada. Já passaram quantos anos? Então, o meu mais novo ainda não ia à escola, agora já está a acabar o curso. Que idade terá o homem agora? Já deve estar com os pés para a cova. O vizinho nunca mais foi o mesmo. Roupas gastas. Olhos plantados no chão. A última vez que o vi, já nem boa tarde se ouvia. Mas as janelas estão sempre abertas. Eu há uns anos, ainda fui lá acima, chamar por ele. Mas nada.      

Dentro da casa, tal como todas as noites, à mesma hora, uma vela é acesa. Tal como todas as noites, à mesma hora, a vela é embalada pelo vapor do chá. Sobre a mesa, são novamente dispostas as cartas, como quem organiza vultos sentados em memórias. São linhas que recordam o primeiro beijo em frente ao rio. São linhas que lembram os abraços molhados, quando a escultura grega emergia do mar. Ali são desenhadas todas as camas, de todos os hotéis, de todas as viagens. Ali são ouvidas as gargalhadas joviais que transformavam a idade do vizinho do último andar, na idade dos apaixonados. Ali eles foram felizes. Ali, seja lá onde ali for, eles foram felizes. É assim que se diz. Foram felizes. O som da caneta no papel é a única música da casa. Existe uma espécie de prazer em escrever sobre a dor. Uma espécie de amor, na verdade. Na receita do amor, o ingrediente fulcral é a dor. As cartas alinham-se como pequenas sepulturas, numa ordem quase religiosa. As mãos quase deixam cair a tinta, como se nela estivesse a alma de um tempo, em que as palavras ainda tinham voz. Escrevem suavemente, como quem traduz o invisível. As frases são curtas. Mas carregam um carinho denso, na saudade de quem fala para a memória. E ainda assim, acredita ser ouvido. As cartas acumulam-se. São aves que nunca levantam voo. Por vezes, os olhos, com o brilho de quem conhece o sabor dos anos, releem algumas delas. Volta a dobrá-las. Sela-as. Sela-as com uma delicadeza quase amorosa. Não há pressa. O envio é a morte. A permanência, o consolo. As cartas empilham-se ao longo dos meses. Ao longo dos anos. São um exército de saudades disciplinadas. Nunca as envia. São mantidas ali, em repouso, como corpos à espera de reencarnação.

Uma tarde, debaixo de um chapéu de chuva, as cartas, abraçadas no bolso da gabardina, saem à rua. A rua dorme. Ninguém viu sair o vizinho. Nessa tarde, pintada de antracite, talvez por fadiga, talvez por esperança, ele decidiu levá-las aos correios.

O carteiro, um homem de mãos ásperas e olhar simples, olhou para o molho de cartas. Sorriu. Disse qualquer coisa sobre a beleza de ainda se escrever à mão. E a mão começou a desfolhar os envelopes. Quando leu os endereços, o sorriso desfez-se. As ruas não existiam. As cidades eram criações. Os códigos postais, ficção. O rosto confuso do carteiro, atrás do balcão, perdeu todos os pensamentos. O vizinho levantou o olhar e, calmamente, justificou ao rosto incrédulo: talvez não existam para si. O carteiro, sem saber o que fazer, guardou as cartas. Vou ver o que posso fazer. Disse.

Uns dias depois, o carteiro subiu os cinco andares do prédio, com as cartas na mão. Bateu à porta do último andar. Ninguém respondeu. O som ecoou longamente, como se a própria casa tivesse engolido a voz. Pela porta entreaberta, entrou. Foi o carteiro que conheceu a terceira casa, que habitava na casa do último andar. As plantas desmaiadas no chão. Os ramos que morreram de sede. Os cortinados gastos. As janelas empoeiradas. As teias de aranha que escondem os espelhos e algumas fotografias, que se parecem com o homem que ainda há dias viu nos correios. O carteiro sentiu que aquele lugar já não pertencia ao tempo. A vida já não vivia ali. Na mesa, ao lado dos restos de cera empoeirada, por baixo de uma caneta seca, apenas um envelope permanecia. Endereçado com a mesma caligrafia trémula de todas as cartas: Ao homem que ainda há de voltar, Roma.

O rosto confuso do carteiro perdeu toda a voz que alguma vez usara. A casa estava morta. Dizem que há casas que respiram. E outras aprendem a sonhar. Naquela casa, o silêncio era corpo. Naquela casa, o silêncio era memória de lume e sombra. Entre a vela e o vento, alguém continuava a escrever. Talvez o próprio tempo. São cartas que ninguém leria, mas que, ainda assim, existiam. Porque há amores que não precisam de destinatário. Precisam apenas de lugar. E ainda esperam uma resposta, ainda que esta nunca chegue.

Ilustração de Frederico Pompeu

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