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Assim desapareceram (num ano e meio) os cães vadios de Bucareste

Várias propostas legislativas defendem a proibição da eutanásia de cães saudáveis na Roménia, onde, se em 14 dias ninguém adotar um cão capturado na rua, ele é abatido.

Texto de Lola García-Ajofrín Pitești (Roménia)Sebastian Pricop (Hotnews. Roménia) Mediapool.bg (Bulgária) Francesca Barca (Voxeurope. Paris) | Tradução de Rita Azevedo/Voxeurop

Fotografia de 毛 祥 via Unsplash

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Foi em 2013 que a morte do pequeno Lonuț Anghel, um menino romeno de 4 anos, desencadeou uma comoção nacional na Roménia. A criança tinha sido atacada por uma matilha de cães vadios em Bucareste. O então Presidente da Câmara da capital romena, Sorin Oprescu, chorou na conferência de imprensa. Após a comoção geral, o governo discutiu e aprovou, em tempo recorde, uma lei para a gestão dos milhares de cães vadios, que vinha a ser adiada há anos e que, entre outras medidas, prevê a eutanásia em massa dos cães capturados se não forem reclamados ou adotados no prazo de 14 dias após a sua captura. No Parque Tei, perto de onde ocorreu o incidente, uma placa vermelha e branca indica que os cães são proibidos. “A culpa é das pessoas, que não respeitam as regras”, resmunga uma mãe que empurra a filha num baloiço, ao lado de uma amiga.

Os vizinhos lembram-se dos detalhes do incidente – e do que aconteceu depois – quase com as mesmas palavras: a criança foi mordida centenas de vezes por uma matilha, quando ela e o seu irmão, de 6 anos, brincavam perto do Parque Tei e “saíram da beira da avó, que se tinha sentado num banco”, esclarece uma avó que brinca com o seu neto e diz que ouviu a notícia na televisão. “Depois, as crianças entraram num terreno privado”, diz outra. Não foi o primeiro nem o único ataque fatal. Em 2011, morreu uma mulher após ser atacada nas instalações da empresa onde trabalhava e, em 2006, morreu um empresário japonês que se esvaiu em sangue após ter sido mordido numa artéria. Um ano antes da nova legislação, em 2012, tinham sido registados 16 mil casos de mordeduras. Naquela altura, estimava-se que havia cerca de 65 mil cães a vaguear por Bucareste. E, tal como o vendedor ambulante do livro “Uma sensação estranha”, do escritor turco Orhan Pamuk, muitos moradores de Bucareste aprenderam a caminhar sem alterar a velocidade do passo, “mas quando os cães, que tinham ficado calados por um instante, começaram a ladrar novamente, desataram a correr”.

O fenómeno resultava de múltiplas causas: vizinhos que se mudaram para apartamentos mais pequenos, sem espaço para cães, após as demolições em massa de habitações; cães usados como guardas, acorrentados a obras e fábricas; e falta de consciencialização dos seus donos, que os deixavam andar sem esterilizar até regressarem a casa. Até que, em dezembro de 2013, o executivo romeno aprovou a conhecida Lei “Ionut” (Lei n.º 258/2013) e começaram os abates em massa. Um passo semelhante ao dado recentemente pela Turquia. “Levaram os cães da noite para o dia”, recorda, enquanto dá uma passa num cigarro, Alexandra M., uma veterinária de 30 anos que trabalha numa loja de animais em frente ao parque Tei, em Bucareste. “Tínhamos um problema e, como costuma acontecer, só nos apercebemos quando morre alguém”, acrescenta.

“O que as pessoas não entendem é que se trata de um ecossistema: querem cachorros, mas depois não cuidam deles e nascem mais seis”, critica, dando mais uma passa no cigarro. “A Roménia é o país da Europa com o maior problema na gestão de cães vadios, uma vez que mantém uma legislação de abate que aplica ativamente”, afirma, em entrevista ao El Confidencial, Manuela Rowlings, responsável pela secção de animais vadios que precisam de cuidados na Four Paws, uma organização internacional com sede em Viena, que há 25 anos trabalha na gestão de cães e gatos vadios na Europa de Leste. De acordo com dados de canis públicos, recolhidos recentemente, “dos mais de 100 canis públicos na Roménia, pelo menos 50% continuam a matar cães”, acrescenta Rowlings.

“Nem sequer podemos chamar-lhe eutanásia, trata-se de sacrificar animais saudáveis apenas para libertar espaço e, em alguns casos, os cães são quase como um recurso renovável: chegam, são abatidos e depois há muitos outros contratos que permitem às pessoas lucrar com os cães”. “E tanto a cremação como a captura são todos contratos que o município concede a empresas privadas com fins lucrativos”, continua. Além disso, “há muito sofrimento animal: os cães são capturados com varas; sofrem imenso durante a sua estadia no canil devido à sobrelotação, às doenças e à falta até dos cuidados mais básicos, como comida e água diárias, apenas para serem abatidos algumas semanas depois ou morrerem devido às condições”, detalha. A Câmara Municipal de Bucareste anunciou numa conferência de imprensa, em janeiro de 2015, que tinha capturado mais de 51.200 cães desde outubro de 2013 e que “cerca de 30 mil cães tinham sido abatidos e entre 23 mil e 24 mil dados para adoção”, afirmou Razvan Bancescu, diretor do projeto da Autoridade de Supervisão e Proteção Animal (ASPA) numa entrevista ao HotNews.ro, em fevereiro de 2015, num baile de números. Uma equipa de homens fardados com redes em frente a jaulas e ao lado das carrinhas em que percorrem a cidade ilustra a Gestão de cães vadios no website da ASPA (Autoridade de Supervisão e Proteção Animal), um serviço público da Câmara Municipal de Bucareste. Entre 2018 e 2023, a ASPA capturou cerca de 13.500 cães na capital romena, segundo dados oficiais.

O problema parecia resolvido, até que, em janeiro de 2023, uma mulher de 43 anos morreu depois de ter sido atacada por uma matilha enquanto corria junto ao lago Morii, em Bucareste, e o debate ressurgiu. Várias organizações romenas levaram ao Parlamento um pacote de projetos de lei para atualizar a legislação e para que, em vez de serem abatidos, os cães encontrados nas ruas sejam esterilizados, explica ao El Confidencial Cristina Caliu, conselheira de proteção animal em Ilfov, que acredita que existem alternativas além da eutanásia. Além disso, consideram que se trata de um gasto inútil de dinheiro. Estima-se que cada cão capturado e abatido custe ao governo romeno cerca de 1700 lei (cerca de 330 euros).

No maior canil do mundo

– Vê aquela caixa? – indica o veterinário Stefan Savulescu, apontando para algumas caixas de cartão amassadas entre as árvores, junto à estrada que leva ao abrigo de animais “Şmeura”, numa zona florestal perto de Pitești, a 120 quilómetros da capital romena.

– Às vezes, não se atrevem a trazer-nos os cães e abandonam-nos aqui, para que nós os encontremos – explica. Com 6000 cães e 4,5 hectares, Smeura é considerado o maior canil do mundo: “Em 2004, entramos nos recordes do Guinness e quando ainda havia menos cães”, afirma Ana-Maria Voicu, gestora do canil, que acompanha o El Confidencial enquanto mostra as instalações. O enorme complexo foi construído numa antiga quinta de raposas criadas para a produção de casacos durante o período comunista. Em 2000, uma ativista alemã, já falecida, Ute Langenkamp, transformou-o num abrigo para salvar os cães vadios do extermínio. Hoje, o centro é financiado por doações e gerido pela associação alemã Tierhilfe Hoffnung-Hilfe.

Milhares de cães ladram e saltam nas suas jaulas, à passagem da visita. O recinto conta com seis unidades móveis de esterilização, que percorrem o distrito para realizar castrações gratuitas de cães; uma clínica veterinária; uma zona de quarentena para os recém-chegados; um centro de tosquia; e um armazém com montes de sacos de ração: “consomem três toneladas de comida por dia”, realça Savulescu.

“São saudáveis, mas ninguém adota um cão velho”

A Smeura gere adoções nacionais e internacionais, “quase todas para a Alemanha”, salienta Savulescu. “O problema é que saem 20 e entram 50”, acrescenta, pelo que diz que, a médio prazo, a única solução é a castração. Além disso, “quando têm mais de um ano, já ninguém os quer; as pessoas querem cachorros”, continua, enquanto caminha ao lado das jaulas dos mais velhos, que lhe cheiram a mão através das grades. “Alguns passaram quase toda a sua vida aqui”, exclama, e mostra a ficha de um que chegou antes da pandemia. “São saudáveis, mas ninguém adota um cão velho”.

Para Savulescu, a única solução, insiste, é a esterilização: “É simples, temos de aprender a conviver com os cães vadios, porque fazem parte da comunidade e, se conseguirmos esterilizar todos, não haverá novos”. A equipa está a trabalhar num programa-piloto de cinco anos no distrito de Argeș e, nos dois primeiros anos, esterilizou 35 mil cães. Calcula-se que existam cerca de 85 mil no distrito. “Queremos que as pessoas compreendam que um cão esterilizado na rua não é um problema; não são agressivos se não forem provocados”, acrescenta. Para isso, diz ele, também é necessária uma mudança de mentalidade. Começaram a trabalhar com crianças entre os 5 e os 12 anos das escolas de Arges, com materiais educativos. Nas paredes da cidade, junto à estação ferroviária de Pitești, vários cartazes do canil informam os habitantes sobre o serviço de clínicas móveis para esterilização gratuita. O folheto parece um exercício de matemática que ilustra o problema: “Se um casal de cães tem crias duas vezes por ano e, de cada vez, sobrevivem 4, o resultado será: em 1 ano, 8 cães; em 2 anos, 64 cães; em 3 anos, 512 cães; em 4 anos, 4096 cães; em 5 anos, 32.768 cães” e assim sucessivamente, até, se sobreviverem, a mil milhões de cães em dez anos.

O caminho de Sófia: “Capturar, esterilizar e libertar”

Estima-se que existam mais de 100 milhões de cães e gatos vadios nas ruas da Europa, segundo a organização Four Paws, embora não existam estatísticas centralizadas. Também não existe uma legislação europeia unificada. Em alguns países da UE, como Itália, Alemanha e Grécia, a eutanásia não é usada como medida de controlo, enquanto noutros, como Roménia, França e Bélgica, é legal a eutanásia de cães em canis se estes estiverem sobrelotados. O caso da Roménia, e a sua lei dos 14 dias, é o mais extremo.

Centenas de milhares de cães são abandonados todos os anos, um fenómeno que se intensificou após o impulso da oferta de animais de companhia durante a pandemia da COVID-19, como mostram os dados da Federação Alemã para o Bem-Estar Animal, que observou um aumento de 82% desde 2022 nos canis analisados. Por exemplo, em Espanha, em 2023, foram abandonados 286.682 animais (170.712 cães e 115.970 gatos), segundo a fundação Affinity. E, embora o número tenha diminuído desde 2008, continua a ser alarmante. A fundação defende que a solução passa por educar, esterilizar, identificar, refletir antes de ter um animal de estimação e adotar para dar uma segunda oportunidade.

As leis variam entre os países da UE. Na Alemanha, que incluiu a proteção dos animais na sua Constituição em 2002 e abriga cerca de 1400 canis, é proibido matar animais saudáveis sem justa causa. “Um bom exemplo é Sófia, a capital da Bulgária, que também tinha uma grande população de cães vadios e optou por um caminho completamente diferente, com uma política de não sacrifício, mas sim de esterilização, esterilização e esterilização”, explica Rowlings. Tal como em Bucareste, em Sófia, a capital da Bulgária, os cães vadios eram um grande problema, mas este foi reduzido graças a uma estratégia municipal conhecida como “capturar, esterilizar e libertar”, que implica que os cães sejam capturados, examinados por um veterinário, esterilizados e, em seguida, devolvidos às ruas. Quando foi realizada a primeira contagem oficial, em 2007, Sófia tinha mais de 11 mil cães vadios. Desde então, o seu número tem diminuído gradualmente para 3500. A cidade também implementou uma política ativa de incentivo à adoção. “O número de residentes do canil muda constantemente”, afirma à Mediapool um veterinário do maior canil municipal de cães em Sófia, situado a cerca de 20 km do centro da cidade, em Seslavtsi. “Todas as semanas são adotados cerca de dez cães e outros dez chegam para ocupar o seu lugar”, revela. No entanto, à medida que a população canina diminui, o número de gatos vadios aumenta. O fenómeno do aumento dos gatos repete-se em Bucareste, concorda Rowlings, “e pode tornar-se um problema muito maior no futuro se não forem tomadas medidas”, afirma. “O aumento da população felina é uma preocupação crescente na maior parte da Europa”, conclui.

Este artigo foi produzido no âmbito do PULSE, uma iniciativa europeia coordenada pela OBCT que promove colaborações jornalísticas transnacionais. O artigo original foi publicado em elconfidencial.com

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