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Casa Branca, onde o tempo corre mais devagar

Ainda hoje entrar num comboio em Lisboa em direção a Évora significa passar, pelo menos, alguns momentos em Casa Branca, mas longe vão os dias em que essa localidade do concelho de Montemor-o-Novo era um importante e movimentado entroncamento ferroviário. Agora, reina o silêncio nas poucas ruas que a compõem e não chega à centena o total de pessoas que aí vive. A esperança não está, porém, esgotada.

A pouco mais de 18 quilómetros da cidade que serve de sede ao município que integra, Casa Branca, na freguesia de Santiago do Escoural, nasceu na segunda metade do século xix, por volta de 1863, aquando da inauguração da ligação de comboio entre Vendas Novas e Évora. A construção desse troço inseriu-se na primeira fase da instalação das linhas férreas por terras lusitanas, durante as décadas de 1850 e 1860, sendo que, por detrás do surgimento da referida aldeia ferroviária, estava, então, um motivo simples: alojar os trabalhadores do caminho de ferro e as suas famílias.

Fotografias da cortesia de Montemor-o-Novo

O nome veio da herdade onde a povoação se instalou, e a localidade foi, assim, desenvolvendo-se em função da estação de comboios aí construída, com ruas retilíneas e paralelas à linha férrea. Casa Branca viveria o seu apogeu na era do comboio a vapor, tendo sido um relevante ponto de abastecimento de água para essas locomotivas.

Chegou a ter importância também no escoamento do complexo mineiro da zona e ganhou destaque enquanto entroncamento para os vagões que vinham do Algarve e do Alentejo, com cereais, gado e hortícolas. Nessa altura, a população desta localidade estava, além disso, ligada à agricultura.

Casa Branca teve escolas, edifícios para formação profissional, espaços de armazenamento e até oficinas de manutenção, mas esta aldeia ferroviária nunca teve uma dimensão muito significativa. Os dados demográficos oficiais indicam que, em 1950, por aqui havia 380 habitantes. E, de acordo com a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, esta localidade haveria de registar, no máximo, 800 habitantes, entre trabalhadores da linha férrea e trabalhadores das herdades em torno. Poucos em comparação com outras povoações, é certo, mas muitos em comparação com os 80 que hoje chamam a esta localidade casa.

A desativação das minas de ferro, o declínio do caminho de ferro – com o encerramento de estações e linhas da região – e a diminuição da atividade agrícola acabariam por pressionar a localidade de Casa Branca e contribuir para o seu abandono, com um contínuo decréscimo e envelhecimento da população. As oficinas de manutenção do material ferroviário circulante haveriam de encerrar no final do século passado, os trabalhadores começariam a minguar e, em 2006, fechou mesmo a única escola primária desta povoação.

Assim, ainda que o comboio continue a parar em Casa Branca, é o silêncio que agora domina as poucas ruas que a compõem. A outrora importante estação já não atrai trabalhadores e não fixa habitantes. É uma localidade estereótipo da desertificação que afeta o Alentejo, com escolas fechadas, casas desabitadas e património industrial – em parte, propriedade do Estado português – devoluto.

Fotografias da cortesia de Montemor-o-Novo

Já vão distantes, pois, os dias do movimento expressivo e, desses tempos, ficou apenas o património arquitetónico ligado à ferrovia, agora deixado ao abandono. Mas diz quem está atento a esta povoação alentejana que nem tudo está perdido.

O despertar do coma desta aldeia ferroviária

Nasceu, ainda não há um ano, em junho de 2021, a Estação Cooperativa, uma organização constituída por 15 entidades e cerca de 40 pessoas, que querem criar em Casa Branca um hub criativo «muito focado na sustentabilidade» e onde a «cultura é transversal», explica Alexandra Libânio, membro da direção. Em causa está um consórcio de pessoas e entidades «interessadas em refletir sobre o papel da cultura, da sustentabilidade e da inovação na regeneração e revitalização de territórios rurais desertificados e envelhecidos».

Para já, a Estação Cooperativa propôs à Infraestruturas de Portugal (IP) ocupar 17 das duas dezenas de edifícios associados à estação ferroviária situados na localidade de Casa Branca, numa área de mais de dez mil metros quadrados que esta organização quer reabilitar e refuncionalizar, com a instalação nomeadamente de oficinas e de um espaço de coworking. «O ano de 2022 marca o arranque da intervenção nos primeiros edifícios para que possam acolher a sede da cooperativa, escritórios partilhados e os primeiros projetos criativos», explica a organização.

A concessão ainda não está assinada, mas Alexandra Libânio já faz questão de garantir que a transformação destes espaços será feita «pouco a pouco», para não entrar em choque também com a vida nesta localidade. O plano é, portanto, ocupar, primeiro, dois edifícios dos referidos 17 e ir crescendo a partir daí. «Estamos todos a trabalhar pro bono, não temos um enorme orçamento, nem um investidor privado», salienta a responsável, adiantando que este projeto pode ser «equiparado a uma incubadora de pequenos negócios».

O «sonho» da Estação Cooperativa é, detalha a organização, «contribuir para a regeneração da aldeia de Casa Branca, envolvendo a sua população e considerando o património público abandonado como um bem comum que deve ser de uso comunitário». Daí que estejam fixados os seguintes objetivos: refuncionalizar o património industrial desta localidade (através da instalação de uma comunidade criativa e de um centro experimental e laboratorial, atento sempre às necessidades da população local e do planeta), promover uma programação de atividades de «criação, mediação e fruição cultural» (de modo a nomeadamente atrair visitantes), criar um polo de referência nacional, «cujo modelo de governança seja mediador de trabalho colaborativo entre cooperadores e parceiros e promotor de processos participativos e comunitários com habitantes e não habitantes». Isto para que, desta forma, se comecem a desenhar «novos paradigmas de resiliência territorial», esclarece a Estação Cooperativa.

A propósito, até ao final de 2022, a Estação Cooperativa já tem programação firmada. Por exemplo, para junho, está marcado o XIV Encontro Internacional de Marionetas de Montemor-o-Novo, evento que será promovido pela Alma d’Arame e que terá como objetivo divulgar não só a linguagem mais tradicional associada a esta arte, mas também a contemporânea. Em Casa Branca, terão lugar duas atividades ligadas a este encontro, numa extensão deste festival, que ocorrerá de 20 a 26 de junho.

Já para setembro está prevista a construção de um forno comunitário, usando técnicas de construção tradicionais, de modo a «devolver a prática comunitária das cozeduras a lenha à população de Casa Branca». O forno, adianta a Estação Cooperativa, será para utilização de forma autónoma e foi pensado como «dispositivo de transmissão de saberes». «Será construído no local onde antes existia o edifício 6692, recentemente demolido pela Infraestruturas de Portugal», é detalhado.

Para outubro, por outro lado, está agendado um curso intensivo de desenho em permacultura para comunidades rurais, uma «imersão intensiva» de duas semanas que permitirá aos participantes aprenderem e desenvolverem a linguagem ecológica, compreenderem os princípios do design ecológico e regenerativo e redesenharem as comunidades e os assentamentos humanos de acordo com as regras da natureza e da autossuficiência. «Tendo em conta o contexto de uma aldeia como a da Casa Branca, os alunos irão confrontar-se com a perspetiva de comunidade, de partilha e de gestão coletiva de bens comuns», antecipa a Estação Cooperativa.

Além destas iniciativas, o Departamento de Arquitetura da Escola de Artes da Universidade de Évora também já se propôs a desenvolver uma investigação na área da interpretação arquitetónica, da requalificação urbana e do projeto de arquitetura, na aldeia de Casa Branca. «Está prevista a realização de um conjunto de visitas de estudo com alunos e professores, incluindo algumas jornadas de trabalho no local», avança a Estação Cooperativa.

E continua: «Ao longo do desenvolvimento do trabalho, está prevista a realização de sessões críticas de projeto com convidados, assim como aulas de apoio específicas, com palestras de especialistas convidados, em sistema de aula aberta (também à população local) estimulando a reflexão sobre subtemas como o património industrial da rede ferroviária, os territórios de baixa densidade do Alentejo ou o enquadramento paisagístico.» No final, será ainda organizada uma exposição com os trabalhos desenvolvidos e será preparada a publicação dos resultados deste projeto.

Além disso, na programação da Estação Cooperativa para 2022, consta uma novela documental sobre o dia a dia em Casa Branca, uma «aldeia real, onde personagens mais ou menos reais ou pessoas ligeiramente ficcionadas levam a sua vida entre o trabalho e o café, o comboio que passa em pano de fundo e a paisagem do montado». Este projeto será exibido, primeiro, na TV PréOcupada, um site da associação de Montemor-o-Novo Oficinas do Convento. Depois, será divulgado em várias mostras numa versão compacta. O objetivo é, tudo somado, aproximar a população local da criação artística, bem como «estabelecer pontes entre culturas, fomentar o interesse pela arte numa comunidade isolada, criar cumplicidades e despertar vocações, contribuindo para um ambiente cultural mais inclusivo e abrangente», observa a Estação Cooperativa.

Estes eventos vão ser promovidos pelos vários membros da Estação Cooperativa, que se define, assim, como uma «comunidade de pessoas com valências multidisciplinares», da arte à ecologia, segundo Alexandra Libânio. «É uma aldeia do concelho de Montemor-o-Novo que sofre de desertificação e envelhecimento e só por observação dá vontade de intervir. É uma aldeia em relação à qual temos um carinho enorme e temos alguma tristeza ao ver os edifícios a caírem, daí o desafio a que nos lançamos», enfatiza essa responsável.

Convém ainda explicar que a Estação Cooperativa surgiu na sequência de uma série de iniciativas levadas a cabo na aldeia, nos últimos anos, ainda antes da crise pandémica, por diversas organizações locais, nomeadamente a Oficinas do Convento, uma das principais chaves na criação desta nova organização. Por exemplo, em julho de 2019, realizou-se o PréOcupada, um evento que procurou combinar a programação artística contemporânea com a «vivência de um ambiente multidisciplinar e multicultural numa aldeia alentejana», estando atento à população local e às suas vontades.

Fotografias da cortesia de Estação Cooperativa

Foi, depois, em fevereiro de 2020, que se deu a reunião em que se identificaram os procedimentos necessários para a formalização desta «rede de cidadãos e organizações interessadas em contribuir para o futuro de Casa Branca». E mais de um ano depois – já após ter sido proposta à Infraestruturas de Portugal a ocupação dos referidos edifícios –, foi constituída oficialmente a Estação Cooperativa, com sede na localidade de Casa Branca.

Este consórcio foi apresentado à população num Dia Aberto, a 20 de novembro de 2021, e, desde então, os membros da Estação Cooperativa, assegura a própria, têm trabalhado na «experimentação do modelo de funcionamento e governança interna». 

Fotografias da cortesia de Estação Cooperativa

Em maior detalhe, entre os cooperadores coletivos desta organização está a Alma d’Arame, a Cooperativa Cultural e Artística do Alentejo, a Cooperativa Integral Minga, Feministas em Movimento, a FazMor Lda., a Fundação Professor Francisco Pulido Valente, a Marca – Associação de Desenvolvimento Local, o Município de Montemor-o-Novo, a Oficinas do Convento, a Pé de Xumbo, o Projeto Ruínas e a Trimagisto Associação Cultural.

Mas há também parceiros de maior escala, como a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, a Direção Regional de Cultura do Alentejo, a Infraestruturas de Portugal, a Universidade de Évora e a Universidade NOVA de Lisboa.

Já a nível internacional, a Estação Cooperativa conta com o apoio da espanhola La Fábrika de Toda la Vida, bem como com a também espanhola Fundación Maimona e com a SWINGg Bauhaus.

Nesta localidade «quase fantasma», a cultura do Zomato não entra

Enquanto não se sentem de modo mais significativo os efeitos dos esforços de quem quer dar uma nova vida a Casa Branca, quem passa hoje por esta localidade alentejana – e não são muitos os turistas que se aventuram por estas partes –, encontra uma aldeia «meio deserta, quase fantasma», conta António Pinto Xavier, vereador da Câmara de Montemor-o-Novo. É que esta localidade fica fora do «roteiro comum» do turismo, mas vale a visita, garante o responsável, nem que seja pelo «interesse sociológico de poder falar com as pessoas da terra, que são sobretudo reformados». «Os habitantes são encantadores e disponíveis. São pessoas com vontade de ter visitantes», concorda Alexandra Libânio.

O passeio na povoação é curto. Nas poucas ruas que a compõem, enfileiram-se casas baixas, com paredes caiadas de branco e pintadas com as típicas linhas em azul e amarelo-ocre que caracterizam a traça alentejana. Junto à estação ferroviária, há uma praça simples, mas cuidada, com alguns bancos, mesas de jardim e brinquedos para os mais novos, ainda que, quem more aqui, esteja já, na sua maioria, longe dessas idades. Nesta antiga aldeia ferroviária, hoje respira-se, assim, calma. «É uma zona onde o tempo parece que corre mais devagar», observa o vereador da Câmara de Montemor-o-Novo.

Fotografias da cortesia de Montemor-o-Novo

E se quem por aqui passeia tiver fome, há «excelentes migas» – prato em que o ingrediente chave é o pão e que é acompanhado por carne de porco – e toda a cozinha típica do Alentejo para descobrir, sublinha António Pinto Xavier, que conta que não há, porém, uma refeição específica mais ligada a esta localidade. «A coisa gira de ir a um restaurante em Casa Branca é que não há menu», acrescenta o responsável. O cliente come, pois, o que tiver sido cozinhado nesse dia. «Aqui, a cultura do Zomato não entra», enfatiza o mesmo. No limite, acrescenta – o cliente pode chegar, sentar-se e deixar-se ser servido sem que tenha de ponderar sobre o que lhe vai chegar ao prato e ao estômago.

À volta da povoação, é o montado que enche os olhos a quem por aqui anda. Há, por isso, ruas que desembocam nesta paisagem típica, com ovelhas e vacas a pontuarem o cenário. Perto desta localidade, há as grutas do Escoural para explorar, mas também a serra de Monfurado para apreciar. E o antigo complexo mineiro pode também ser visitado, mas é acessível apenas por vias pedonais.

Esta localidade está, de resto, a hora e meia da capital, a uma hora de Beja e a dez minutos de Évora, sendo servida por quatro frequências ferroviárias, por dia, numa linha que foi recentemente requalificada. Em breve, poderá ver mesmo aumentar o número de frequências ferroviárias, no âmbito da modernização da linha de Évora prevista no Plano Nacional de Investimento 2030. No final de 2021, foi anunciado, além disso, o financiamento da eletrificação e sinalização da linha ferroviária que liga Beja a Casa Branca, num investimento de 80 milhões de euros.

Esta antiga aldeia ferroviária está também próxima da Estrada Nacional 2, a maior do país, mas diferencia-se dela pela sua tranquilidade e insiste em estar, enfim, distante da azáfama dessa via que percorre Portugal de Norte a Sul.

Contas feitas, esta é uma aldeia que «quase morreu», mas prepara-se agora, a custo, para acordar do coma, «através do esforço de muita gente», querendo ser um exemplo de reabilitação num país a braços com a desertificação do interior.

Esta reportagem foi inicialmente publicada na Revista Gerador de julho de 2022, integrando a rubrica "Um daqueles sítios que vale mesmo a pena conhecer". 

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