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Casas regionais em Lisboa: lugares que guardam a cultura popular tradicional portuguesa

Espaços de divulgação da história, da arte, da cultura e dos costumes “das gentes” do interior do nosso país, as Casas Regionais foram, em tempos, os principais lugares de convívio e apoio para quem se mudava para a capital à procura de melhores condições de vida. Estes migrantes tornaram a cidade de Lisboa mais diversa e multicultural, e mantiveram a génese portuguesa ao difundirem as suas tradições. As Casas Regionais são hoje “grandes embaixadas” da cultura de todo o país na capital. Porém, vivem-se tempos difíceis e algumas estão em risco de desaparecer.

Texto de Mariana Moniz

Rancho folclórico da Casa Regional de Arcos de Valdevez. Fotografia cedida pelo Arquivo Municipal de Arcos de Valdevez

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Tondela: Terra de Besteiros

“Talvez não saibam a lenda e proveniência do nome de Tondela. No tempo dos Romanos, para se reunirem os povos do Vale de Besteiros, certo nativo da terra, tocou uma corneta e ao TOM-DELA todos os homens bons se juntavam e formando um só corpo e uma só alma derrotaram o inimigo”.

Excerto da obra “Curiosidades e estórias da Casa do Concelho de Tondela”

No dia 1 de dezembro de 2022, a Casa Regional do Concelho de Tondela celebrou 75 anos de vida e de trabalho. Elísio Chaves, presidente da direção desde 2011, fala-nos das raízes e da história do povo tondelense que migrou para Lisboa na esperança de encontrar um emprego remunerado. “Lisboa é feita destas culturas. Não é mais que uma amálgama de pessoas que vieram de diferentes concelhos do interior”, começa por explicar.

Tal como se poder ler na obra Curiosidades e estórias da Casa do Concelho de Tondela, “a ideia da fundação da Casa do Concelho de Tondela foi surgindo por João Guerreira, num artigo publicado no [jornal] Folha de Tondela em 26 de outubro de 1947 […]. No início, o objetivo principal era apoiar os que vinham para Lisboa, mas também acompanhar e apoiar o desenvolvimento dos nossos territórios, considerados embaixadores do nosso interior”.

No mês seguinte, no dia 14 de novembro do mesmo ano, um grupo de tondelenses reuniu-se para fundar a casa do concelho e criar a Comissão Organizadora, na altura constituída por João Henriques Ferreira, Ernesto de Albuquerque, Telmo Henriques, António Teixeira, Jerónimo Ferreira, Eduardo de Jesus, Jaime de S. Matos, Fernando Sá e Anselmo Gouveia. O dia 1 de dezembro tornar-se-ia a data oficial da fundação da Casa Regional do Concelho de Tondela.

Inauguração da primeira sede da Casa Regional de Tondela em 1947

Atualmente, a Casa Regional de Tondela está localizada na Rua Miguel Torga, em Campolide, mas a mesma chegou a ter várias sedes, tendo sido a primeira na Rua dos Anjos, em Arroios. Tanto a casa dos tondelenses como as restantes casas dos outros concelhos preocupavam-se, não só com a divulgação da região, mas também em satisfazer as necessidades das comunidades locais e em dinamizar a vida cultural de Lisboa.

Em entrevista ao Gerador, Elísio Chaves refere a importância de se manterem vivas as tradições e a cultura popular portuguesas através das casas regionais. “As marchas populares, por exemplo, devem-se aos ranchos folclóricos trazidos pelas pessoas do interior do país”, esclarece, “temos a nossa gastronomia, o nosso artesanato – o barro preto de Molelos –  temos o nosso mel, a nossa chanfana, o nosso queijo, o nosso vinho… tudo isto é vendido na Casa de Tondela”.

Os ranchos folclóricos são uma das atividades mais comuns organizadas pelas casas regionais, porém, Elísio considera que o ensino da música em Portugal deveria passar mais pela “divulgação do acordeão e das danças populares”, por exemplo. “Acho que o nosso ensino não está a aproximar-se daquilo que nós somos enquanto portugueses”, enfatiza.

Para além do rancho folclórico, a Casa Regional de Tondela procura dinamizar outras atividades, de forma a evoluir e adaptar-se às novas realidades. O que antes servia de “ponto de encontro, de aconchego e solidariedade entre tondelenses que se encontravam a grande distância da sua terra natal”, serve agora, principalmente, para a difusão da cultura do território. São realizados eventos como “apresentações de livros por autores com ligação a Tondela”, “organização de viagens de visitantes de outras agremiações regionais a Tondela”, “presenças em certames de divulgação de saberes e sabores regionais” ou “sessões de fados”.

De modo a colmatar a falta de participação das comunidades e das próprias casas regionais no seu desenvolvimento, surgiu, em 2007, a Associação das Casas Regionais em Lisboa (ACRL), à qual Elísio Chaves preside há três anos. “Interessa-nos que as casas não se sintam sozinhas e que haja um processo de divulgação da cultura dos diversos concelhos”, explica-nos. Desta forma, o papel da ACRL é, precisamente, divulgar os diversos eventos que as várias Casas realizam anualmente. No total, a ACRL conta com 25 casas regionais associadas, sendo que existem 40 em toda a capital.

Rancho Folclórico de Arcos de Valdevez. Fotografia via Facebook da ACRL

A falta de apoio e as dificuldades na estratégia de desenvolvimento têm levado ao desaparecimento das casas regionais em Lisboa. A Associação das Casas Regionais em Lisboa foi uma das maiores ajudas para que alguns desses espaços se mantivessem abertos e continuassem a trabalhar. Para Elísio “é importante que estas estruturas não desapareçam de Lisboa, de forma a caracterizar a população que vem de várias regiões do país. Temos de continuar a divulgar esta cultura popular, dos cavaquinhos, do folclore, da gastronomia, do artesanato. Já não somos vistos como bimbos. É importante que nos valorizem”.

O Presidente considera que as Casas Regionais têm de ter a capacidade de se “renovar” e de acompanhar as mudanças que a atualidade trouxe. “Temos netos da terra e sobrinhos da terra que se têm agarrado às casas e que não as têm deixado morrer. A Casa de Ponte de Lima, por exemplo, é unicamente representada por jovens”, afirma.

Quem partilha da mesma opinião é Luís Esteves, representante da Casa Regional de Castro Daire em Lisboa. O mesmo considera que as próprias associações também criam dificuldades ao “não serem capazes de se renovar, não deixarem entrar sangues novos e não deixarem que outras visões ocupem o lugar. Existe um vinculo egocêntrico que, se não for bem trabalhado, só traz pontos negativos. Temos de aceitar que as pessoas que não sejam da região também podem trazer boas ideias”.

Castro Daire: a “chieira” em se ser castrense

Luís Esteves é natural da Aldeia da Relva, em Castro Daire. Considera-se um “português, nascido num meio rural, com todas as influências daquilo que conhecemos como cultura popular na matriz tradicional” e, como tal, sentiu a necessidade de apoiar a Casa Regional de Castro Daire e de a manter viva.

A Casa de Castro Daire nasce como consequência dos castrenses que vieram ocupar a zona oriental de Lisboa, o que aconteceu em resultado da necessidade de mão de obra nas zonas fabris e portuárias. É fundada a 14 de dezembro de 1991, mas Luís considera que ela nasce muito antes, pois “já havia castrenses a transitar para Lisboa, mas que nunca tinham tido o propósito de criar um coletivo”.

De acordo com um artigo cedido pela Biblioteca Municipal de Castro Daire, “a primeira sede da casa do concelho em Lisboa teve lugar na Zona J de Chelas até 1997. A 4 de outubro do mesmo ano, pela mão do Dr. João Soares, então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, a sede da Casa instala-se no edifício da atual sede, na Rua Vale Formoso de Cima, na freguesia de Marvila, onde reside uma grande comunidade de castrenses”.

Jardim da Casa Regional de Castro Daire nos anos 90. Fotografia cedida pela Biblioteca Municipal do concelho

A Casa do Concelho de Castro Daire, como todas as outras, é resultado “das gentes que são naturais da região e que tiveram a vontade de criar uma marca identitária na capital, um ponto de encontro, de solidariedade e de convívio social”. Atualmente, e tal como explica o Presidente Luís Esteves, o povo castrense que vem para a capital tem outro tipo de interesses, nomeadamente a nível de estudos. De qualquer forma, a casa sempre permaneceu como uma resposta para a comunidade local e um lugar de divulgação e promoção da cultura e das expressões rurais do concelho.

Luís Esteves viajou por Paris e pelo Rio de Janeiro, tendo a oportunidade de conhecer as casas regionais portuguesas que existiam nestas cidades, consequentes dos fluxos migratórios do século XX. “Percebi que o sentimento e a ligação que tinham [os emigrantes portugueses] a essa portugalidade estavam ao nível do fanatismo que temos por futebol, por exemplo. Defende-se Portugal como se defende uma Nossa Senhora de Fátima ou o Benfica”, remata.

Ao regressar para Portugal, o Município de Castro Daire fez-lhe saber que era do seu interesse que Luís passasse a fazer parte da direção da Casa Regional, com o objetivo de implementar “um projeto que fizesse corresponder às necessidades que se pretendiam para recuperar a Associação” que se encontrava em risco de encerrar. O atual Presidente decidiu então dedicar-se ao tema e chegou mesmo a elaborar a sua tese de doutoramento sobre o mesmo. “Foi um contributo enorme para a cidade de Lisboa, pois nunca ninguém tinha tocado neste ponto, nestas gentes que vinham dos diversos pontos do país, ocupar a cidade de Lisboa à procura de melhores condições de vida. Essas pessoas construíram a história de Lisboa ao darem a identidade dessa própria Lisboa”.

Elementos do rancho folclórico da Casa Regional de Castro Daire. Fotografia cedida pela Biblioteca Municipal do concelho

A Casa de Castro Daire tem, atualmente, um plano de atividades que se estende pelos seus vários grupos, desde o grupo de concertinas, o rancho folclórico e uma equipa desportiva. Em parceria com a Fundação Inatel, detém também uma Academia de ensino de concertinas que, segundo Luís Esteves, é “considerada a maior academia na zona centro-sul do país”. São celebradas, anualmente, atividades como a “Castro Daire abraça Lisboa”, um festival castrense, que dura três dias, e onde vários grupos folclóricos fazem uma apresentação pela cidade. Estes costumam atuar na Avenida da Liberdade, no Terreiro do Paço, na Ribeira das Naus e terminam em Marvila, proporcionando um “verdadeiro encontro entre os dois polos: Lisboa e Castro Daire”

Os associados da casa são, na grande maioria, castrenses, mas já têm tido “amigos de castrenses” que quiseram fazer parte. “Na direção têm que ser todos castrenses para manter a identidade regionalista”, realça Luís Esteves na nossa entrevista. A esta casa regional junta-se ainda uma equipa de jovens, “que resulta naquilo que são os melhores desígnios da associação, levando-nos a experimentar projetos e desafios novos”.

Um dos membros desta casa é Liliana Fernandes, castrense e bailarina no rancho folclórico. Tem 31 anos, é educadora de infância e pertence à Casa Regional de Castro Daire há 15 anos. “As tradições e tudo o que tem que ver com regionalismo está muito intrínseco em mim. Quando era pequenina via o rancho a atuar na minha aldeia e sempre quis fazer parte”, começa por nos contar.

O rancho folclórico da Casa Regional do Concelho de Castro Daire foi criado em 1993, consequência dos castrenses que se quiseram unir e “formar algo que os recordasse as suas aldeias”. Segundo Liliana, os primeiros membros do rancho folclórico de Castro Daire investiram bastante na criação e no desenvolvimento do mesmo. Dessa forma, conseguiriam representar as várias danças, das várias aldeias do concelho, e usar as suas respetivas vestes.

Liliana Fernandes. Créditos: José Manuel Costa

Atualmente, o rancho folclórico é constituído por uma tocata, onde estão inseridos instrumentos como a concertina, o acordeão, o cavaquinho, a viola, o banjo ou o bombo, “um elemento fundamental que ajuda a manter o ritmo das danças”. Junta-se ainda um coro ou um/a cantador/a que, por sua vez, costuma cantar o “Fado à Desgarrada”, uma cantiga popular em que os cantadores vão improvisando, desafiando e respondendo às críticas uns dos outros.

A bailarina considera que a falta de apoio por parte das entidades e das instituições é a principal causa para o desaparecimento das casas regionais de Lisboa. “Não podemos deixar morrer as nossas raízes. Se pensarmos bem, as tradições e os costumes do nosso país são todos do interior”, salienta.  

Luís Esteve acrescenta ainda que “não existe reconhecimento, até dos portugueses, da existência destas casas”. O presidente considera que existe um certo preconceito e que isso parte logo dos portugueses. “Existe uma dicotomia entre o urbano e o rural, o bairrismo e o regionalismo, a cultura popular e a cultura erudita. O folclore não é uma arte menor, é uma arte pobre. Atinge a massa popular, mas as suas características são pobres. Na verdade, o folclore é a verdadeira representação da população portuguesa, tal como é a música, a coreografia, o traje, os saberes e a gastronomia”.

Rancho folclórico de Castro Daire. Fotografia da cortesia de Liliana Fernandes

Para Luís, um dos motivos que impede a evolução, ou a renovação, das casas regionais é “a falta e o demérito que a sociedade e o poder autárquico têm dado ao universo associativo”. Na nossa conversa, reforça ainda que as pessoas deveriam olhar para estas associações de maneira “mais séria” e que se deveriam criar projetos que persuadissem os mais jovens. “Muitas das casas não têm essa criatividade. Poderiam apostar mais no desporto, por exemplo. É uma das atividades que mais jovens atrai”.

O presidente da Casa de Castro Daire realizou o documentário Chieira e incluiu-o na sua tese para o doutoramento em Arte dos Media. O mesmo fala sobre o regionalismo em Lisboa e a importância das casas regionais. Chieira significa “vaidade” e é um termo arcaico. “Podemos ainda ouvir a palavra na boca de alguns minhotos”, explica, “e “chiar” também remete para uma certa ruralidade, pois relembra o som dos carros ao serem puxados pelos bois, por exemplo”.

Chieira apresenta uma componente histórica e discursiva, e reflete sobre a temática das casas regionais. O documentário já foi apresentado em festivais internacionais, tendo sido distinguido como “Melhor Documentário” no White Unicorn International Film Festival, na Índia, e como “Melhor Documentário Curto” no Rome Prisma Film Awards, em Itália. Em Portugal, foi apresentado uma única vez. Luís Esteves garante-nos que houve uma grande adesão por parte das pessoas e que as mesmas “saíram de lá a sentirem-se valorizadas e envaidecidas”, ao verem os seus concelhos representados.

Luís Esteves na apresentação do documentário "Chieira". Fotografia via Facebook do documentário

Segundo Luís Esteves, Portugal tem “poucos lugares onde se estude, promova e divulgue a identidade” do país. “Se queremos aprender folclore ou fado, não vamos para uma escola. Temos de alimentar essas expressões e isso só será possível através das associações. Temos, em Lisboa, verdadeiras embaixadas que, se forem devidamente aproveitadas pelo núcleo turístico e pelas estruturas autárquicas, possibilitam que se mostre um Portugal diverso a todos os que o quiserem visitar. Traz autenticidade”, acrescenta.

Contudo, o desaparecimento das casas regionais ao longo dos anos não se deve apenas à sua desvalorização por parte da comunidade. A falta de investimento e os problemas relacionados com a explosão imobiliária da cidade, levam ao encerramento de muitas casas devido à falta de uma sede física. Ainda assim, Luís acredita que “quem realmente quer continuar, vai à luta. Nem que seja instalar-se noutro ponto de Lisboa”. É o caso de Duarte Nuno Vasconcellos e da Casa Regional da Madeira.

Casa Regional da Madeira: do Palácio dos Carvalhos ao Restelo

Em 1927, o Palácio dos Carvalhos, ou Palácio Pombal, arrendou o espaço à Casa Regional da Madeira. Esta teve uma grande importância para os madeirenses que residiam em Lisboa, em especial, os estudantes. A Casa da Madeira era um verdadeiro “lugar de convívio” e um “gabinete de apoio” para todos os jovens universitários que procuravam bolsas de estudo.

Duarte Nuno Vasconcellos, madeirense, imigrou para Lisboa em 1991 para estudar, como tantos outros. Na altura, a Casa Regional da Madeira ainda se encontrava em funcionamento e o nosso entrevistado lembra-se das “ligações” que criou ao frequentar a associação.

Em 1968, parte do edifício tinha sido adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa. Mais tarde, em 2005, aquando da presidência de Pedro Santana Lopes, foi ordenado o despejo da Casa Regional Madeirense, pois o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa pretendia realizar um outro projeto que, na verdade, nunca chegou a ser concretizado.

Primeira sede da Casa Regional da Madeira no Palácio dos Carvalhos

A casa regional moveu a sua sede para a Representação Permanente da Região Autónoma da Madeira, que ficava situada na zona do Restelo. De acordo com uma notícia encontrada no Diário de Notícias da Madeira, “era uma espécie de embaixada da Região, que nunca chegou a ser devidamente rentabilizada, mas que custou aos cofres da Madeira mais de meio milhão de euros em rendas”.

Em 2013, a Casa Regional de Tomar cedeu o seu escritório para que se pudessem realizar as eleições da direção da Casa Regional da Madeira. Aí, Nuno Vasconcellos passou a integrar a direção e Artur Bazenga Marques foi eleito presidente. Ainda chegaram a realizar alguns eventos e festivais, mas, dois anos depois, a Casa Regional Madeirense encerrou as suas portas devido à falta de apoio financeiro por parte do Governo Regional da Madeira.

“Na altura foi a decisão certa”, relata Nuno Vasconcellos”, “mas isso fez com que a casa ficasse órfã, sem o apoio de nada nem de ninguém”. Fez agora oito anos desde que a Casa Regional da Madeira, em Lisboa, fechou a sua atividade. Juridicamente, a entidade ainda existe, mas não são realizados eventos nem foi providenciado nenhum espaço para que a associação inaugurasse uma nova sede.

Segunda sede da Casa Regional da Madeira no Restelo

Nuno esteve presente na apresentação do documentário de Luís Esteves, Chieira, e foi aí que tomou a decisão de unir esforços para reabrir a Casa dos Madeirenses numa outra região de Lisboa.

Ao Gerador, explica que ainda se encontra “numa fase inicial”, estando a tentar perceber se consegue reativar, legalmente, a mesma entidade ou se terá de criar uma nova. Conta-nos ainda que o primeiro passo será “estabelecer contactos com o Governo Regional da Madeira, de forma a obter o seu apoio” e, numa fase final, conseguir abrir um novo espaço que permita congregar o turismo da Madeira. “Gostava mesmo que isto se concretizasse e que fosse possível restabelecer um ponto de encontro entre os madeirenses das várias gerações”, conclui.

Para além do Governo Regional da Madeira, Nuno Vasconcellos gostaria ainda de contar com o apoio de outras Casas Regionais espalhadas por Lisboa, das Coletividades (pequenas casas regionais que representam a identidade dos bairros) e da ACRL. Joaquim Brito, representante da Casa Regional de Arcos de Valdevez, é também o Presidente da Assembleia Geral da Associação das Casas Regionais em Lisboa, e acredita que, para que as casas se mantenham ativas, “têm de saber renovar-se e abrir-se para toda a sociedade, independentemente da geração”. Já Luís Esteves, defende que “tudo é possível, tudo tem espaço, desde que seja saudável”.

Casa Regional dos Arcuenses – “Tudo por Arcos de Valdevez”

A Casa Regional de Arcos de Valdevez surgiu com o mesmo objetivo de todas as outras: prestar apoio a quem migrasse para a capital. A ideia da fundação da casa surgiu em 1939, porém, devido à Segunda Guerra Mundial e às dificuldades que dela advieram, só em 1955 é que a associação se conseguiu materializar junto à Sé de Lisboa. A notícia da fundação saiu no antigo jornal A Vanguarda, onde pode ler-se: “Mas qual soldado que não batalha, ao ouvir a voz do comando se arremete com intrepidez, assim, quando gritamos aos Arcuenses de então – Tudo por Arcos de Valdevez – eles acordaram como que de um sonho”.

Página do jornal A Vanguarda. Da cortesia do Arquivo Municipal de Arcos de Valdevez

Joaquim Brito conta-nos que está à frente da direção da Casa dos Arcuenses desde 1988, mas que já é membro da casa regional desde 1973. “Nos anos 90 começámos a abrir a outras comunidades e agora toda a gente tem a possibilidade de ser dirigente na casa”, explica. Também nesta altura, de modo a atraírem mais jovens, começaram a desenvolver uma grande atividade desportiva, tendo agora equipas de atletismo, futebol, futsal, BTT e cicloturismo. Em 2022, chegaram a ganhar um torneio internacional de futebol juvenil no Douro, que decorreu a 16 e 17 de julho.

O rancho folclórico da Casa Regional do Concelho de Arcos de Valdevez tem 35 anos. Porém, Joaquim Brito defende que se “só dermos folclore aos jovens, eles não se vão interessar nos eventos da casa regional. Daí a aposta no desporto”.

O Executivo na Casa de Arcos de Valdevez, 1988
Rancho folclórico na Casa de Arcos de Valdevez, 1988

Na nossa entrevista, Joaquim conta-nos ainda que a casa de Arcos de Valdevez é considerada “a casa-mãe das outras casas do concelho que se encontram espalhadas pelo mundo”, nomeadamente em países como os Estados Unidos da América, França, Suíça e Venezuela.

O objetivo primordial da Casa dos Arcuenses sempre foi divulgar o concelho de origem e incentivar as pessoas a visitar Arcos de Valdevez, promovendo os seus produtos regionais. “Somos um país pequeno. É muito importante manter as nossas raízes através das casas regionais, pois criam-se ligações entre os que estão dentro e os que estão fora”, conclui o presidente.

Casas Regionais de Lisboa: expressões da identidade e da cultura portuguesa

Elísio Chaves relata-nos que, para além das Casas Regionais, também existem três Comarcas que, por sua vez, abrangem vários concelhos em vez de apenas um. É o caso da Casa de Arganil, a Casa da Sertã e, a mais antiga, a Casa de Lafões, já com 111 anos de vida.

Luís Esteves considera que se deve começar a ver as casas regionais como uma estrutura empresarial. “Quer queiramos, quer não, nós temos um produto que são os nossos projetos. Se queremos vender esse produto, temos de optar por recorrer a vários mecanismos, sejam eles de componente financeira, administrativa ou de recursos humanos”.

Posto isto, o seu principal receio é que não haja abertura, por parte das direções das casas regionais, para aceitarem outras pessoas com outras mentalidades. “Temos de defender as nossas raízes, mas também não podemos ficar presos ao passado. Os jovens poderão pegar neste projeto e mudá-lo, mas isso é bom”!

Duarte Nuno Vasconcellos acrescenta que a desvalorização das casas regionais irá sempre existir. “Na fase da Covid-19, por exemplo, foram as casas regionais que apoiaram muitas das pessoas que passaram por dificuldades, mas ninguém fala disso.” Joaquim Brito, por sua vez, acredita que a importância das Casas Regionais passa por possibilitar “levar as aldeias até às cidades” e que são elas que irão “incentivar o turismo regional em Portugal”. As Casas Regionais são, assim, lugares que guardam a cultura popular tradicional portuguesa e uma verdadeira expressão da nossa identidade.

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