Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Cláudia Rita: A violência psicológica “é menos palpável e mais difícil de identificar. Não vês nódoas, mas a marca está lá”

Desde 2019, assinala-se, a 7 de março, o Dia de Luto Nacional pelas Vítimas de Violência Doméstica. De forma a refletir sobre a problemática, o Gerador foi ao encontro da realizadora Cláudia Rita, cujo íntimo e pessoal documentário, “No canto rosa”, acompanha as consequências das agressões infligidas à sua mãe.

Texto de Analú Bailosa

Fotografia de Bárbara Monteiro

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Depois de colaborar como montadora nos filmes José e Pilar, A Fábrica de Nada e Cesária Évora, Cláudia dedicou-se à realização e lançou, em 2016, Cruzeiro Seixas – As Cartas do Rei Arthur, o qual recebeu o Prémio do Público no DocLisboa e foi, quatro anos mais tarde, inserido no Plano Nacional de Cinema. A cineasta abraçou, inesperadamente, uma temática diferente a partir de 2018, quando testemunhou o caso de violência doméstica pelo qual a sua mãe passou.

No canto rosa, teve a sua antestreia numa sessão da última edição do festival FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, em dezembro de 2022, mas segue sem previsão de próximas exibições devido à falta de interesse de cinemas e festivais, explica-nos Cláudia. A ausência de apoios para a produção do documentário levou à fundação da produtora Madame Filmes, que se direciona para a produção de narrativas do “lado B”, privilegiando conteúdos do feminino e de minorias sociais.

No Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, a realizadora falou-nos de um sistema “feito à medida dos homens”, que falha porque “não estamos conscientes do grau de desigualdade que existe entre mulheres e homens em Portugal”, e do seu filme, que considera contribuir para uma maior diversidade de narrativas sobre a violência doméstica, sem cair em estereótipos “grotescos”. “É um filme de amor, de alguém que se preocupa com alguém que está a passar por uma situação péssima”, garante.

Fotografia de Bárbara Monteiro
Gerador (G.) – O que te motivou a documentar o processo de violência doméstica pelo qual a tua mãe passou? Já tinhas, desde o início, a ideia fazer um filme sobre o tema?

Cláudia Rita (C. R.) – Foi espontâneo. Houve uma necessidade de ter um registo do que estava a acontecer, caso pudesse vir a servir para tribunal ou para ela e nós nos lembrarmos – há coisas que acontecem e há uma tendência de as esquecer, mas depois elas voltam a acontecer. Achei que era importante registar aquilo tudo que a minha mãe estava a sentir. Ela fugiu três meses para a minha casa, em Lisboa, voltou para a casa dela, depois voltou para Lisboa e esteve assim uns seis ou sete meses até voltar mesmo para onde vivia. Foi numa dessas vezes que eu filmei a primeira entrevista, a entrevista central, sem saber muito o que ia fazer com aquilo. Pensei “vou pôr num canto rosa porque não perco nada”, como uma espécie de dispositivo caso viesse a usar o material, mas foi de uma forma ainda muito vaga.

G. – Isso juntou-se à vontade dela de publicar um livro, como o documentário mostra?

C. R. – Sim. Pelo facto de a minha mãe querer fazer um livro e de ter a necessidade de escrever também ela própria o que estava a sentir, eu achei que fazia sentido fazer um filme. Essa mulher quer falar, portanto vamos dar-lhe a palavra.

G. – Como foi o processo de pesquisa para No canto rosa?

C. R. – Ninguém está preparado para ser “vítima” ou para ter alguém próximo que é “vítima” de violência doméstica. No início, não estava atenta a nenhuma dessas questões, mas, à medida que as coisas foram acontecendo com a minha mãe, tive a necessidade de as perceber. Comecei por ir para a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) assistir a algumas reuniões e às preparações das manifestações – filmei todas entre 2018 e 2019. Li livros sobre os mesmos movimentos e tentei perceber como funciona o ciclo de violência doméstica. A partir daí, entrei por campos do feminismo que nunca tinha entrado, só aflorado. Quando se começa a ficar atento, também se percebe que há mais [casos] do que, se calhar, parece. Depois da minha mãe, já tive duas pessoas próximas [que passaram pelo mesmo] – casos diferentes, porque são sempre diferentes.

Cláudia Rita, fundadora da Madame Filmes, e Zahra Horma, produtora. Fotografia de Bárbara Monteiro.
G. – E o que é o canto rosa no qual afirmas, no documentário, que as mulheres se encontram encurraladas?

C. R. – Não sou fã de metáforas. Penso que o canto rosa é, efetivamente, um espaço mental e social de prisão. Os indivíduos do sexo feminino estão encurralados numa construção passiva, conciliadora, tolerante e acolhedora do que é ser mulher. Assim como os indivíduos de sexo masculino estão encurralados numa conceção de virilidade que os inibe de demonstrarem vulnerabilidade. Todos, mulheres, homens e outros, somos reféns deste paradigma de papéis de género. Também as “vítimas” de violência doméstica estão também encurraladas num beco rosa, num sistema que não as protege.

G. – É a isso que te referes quando dizes, no filme, que, além do agressor, há todo um sistema que o acolhe? Como?

C. R. – Sim. O sistema está presente [no documentário] e é um sistema masculinizado que não funciona. A Convenção de Istambul é um tratado internacional de direitos humanos que contempla padrões mínimos para a resposta de um Estado à violência contra mulheres, relativamente à prevenção, à proteção das “vítimas” e à criminalização de agressores. Portugal foi o primeiro país da União Europeia a ratificar o documento, que entrou em vigor em 2014. No entanto, segundo o relatório de 2019 feito pelo GREVIO (Group of Experts on Action against Violence against Women and Domestic Violence), os serviços portugueses responsáveis pela aplicação da lei e da justiça penal ainda não respondem adequadamente a atos de violência contra as mulheres. As medidas existem, mas ainda não são aplicadas de uma forma efetiva – por falta de meios humanos, por falta de formação dos mesmos ou por outras razões. Não sei como é que se combate isso. A necessidade de fazer o filme também foi, a determinada altura, por sentir que tinha de fazer alguma coisa.

G. – A tua obra permite ver que houve pessoas do sistema que efetivamente ajudaram a tua mãe, enquanto houve outras que a orientaram a fugir. Dentro disso tudo, qual achas que é o papel da família e dos amigos?

C. R. – Antes, quero fazer um parêntese. Há um sítio em Lisboa, o Espaço Júlia, que é maravilhoso. Os polícias são maravilhosos e têm todos formação [para a assistência em casos de violência doméstica]. Era bom que todos os lugares de queixa estivessem preparados da mesma forma.

A minha mãe, no início, não queria apresentar queixa. Ela tinha de assumir que era uma “vítima”, uma palavra que a põe num lugar muito deplorável. A família e os amigos foram importantes para dizer que o que o agressor estava a fazer não era normal. No caso da minha mãe, ela não voltou atrás para voltar a ficar com ele, mas há casos em que isso acontece e acho que a família e os amigos têm de entender que isso faz parte do ciclo de violência, infelizmente. No fundo, é só a pessoa que está na situação frágil saber que nós estamos cá e estamos presentes.

Fotografia de Bárbara Monteiro
G. – Levantas ainda uma crítica à cobertura mediática de casos de violência doméstica, considerando que há uma ausência de identidade das mulheres que a enfrentam. Quais são, na tua opinião, as consequências desse tipo de narrativa?

C. R. – É uma crítica e é uma observação, porque não encontro uma solução para isso. O que eu sinto é que, antes de isto acontecer com minha mãe, eu própria também não conseguia ter empatia [com as pessoas das histórias de violência doméstica], porque não as olhava nos olhos, era difícil atribuir uma identidade a um indivíduo que não fosse uma narrativa grotesca e era uma coisa distante devido às vozes distorcidas e a cara tapada. Tudo isso são coisas que nos afastam, até que um dia acontece e nos perguntamos “onde é que eu andava que não estava a perceber o que se estava a passar à minha volta?”. Portanto, eu acho que essas ferramentas e esses dispositivos são perigosos.

G. – Há um risco de estereotipar as mulheres que passam por esses episódios?

C. R. – Sim. Por exemplo, este filme tem entrado apenas em festivais pequeninos. Eu já senti, de algumas pessoas, que recusam logo porque é “coisa de violência doméstica”.

G. – Acreditam que é explícito?

C. R. – Que é uma coisa explícita ou uma reportagem como as que vemos. É um bocadinho como antes havia um preconceito em relação ao cinema português.

G. – Consideram como um gênero?

C. R. – Exato.

G. – E de que forma No canto rosa contribui para uma maior diversidade de narrativas dos casos de violência doméstica?

C. R. – Justamente porque é uma questão de violência psicológica, que acho que é menos palpável e mais difícil de identificar. Não vês nódoas, mas a marca está lá, de uma maneira bastante dura. A minha mãe vai voltar a ser o que era, mas mais reservada e desconfiada – essas marcas ficam.

Fotografia de Bárbara Monteiro
G. – Também questionas o termo “vítima”. Algumas instituições e associações usam “sobrevivente”. Concordas com essa alternativa?

C. R. – A palavra “vítima” vem do latim victus e victima, significando “dominado” e “vencido”. Na origem, uma vítima era uma pessoa ou um animal sacrificado aos deuses. Talvez o termo “sobrevivente” seja melhor, sim. Pelo menos não pressupõe, à priori, que há uma tragédia prestes a acontecer.

G. – Na nota que foi divulgada junto ao cartaz e ao trailer, escreves que o pessoal é político e, a meio do documentário, trazes uma observação positiva sobre o facto de a violência doméstica ser um crime público. Ainda assim, todas as tuas propostas de apoio à produção foram negadas. O que achas que explica isso?

C. R. – Não consigo perceber. É difícil conseguir apoios do ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual), tudo bem. Mas tentei instituições que eu nem vou nomear porque acho grave não terem apoiado o filme, fosse com mil euros ou com o logotipo. A única razão que eu vejo é por eu estar a denunciar um sistema que não funciona para a mulher – o companheiro tem uma arma e só 14 meses depois [da denúncia] é que ela é apreendida, como isso é possível? Acho que toda a gente tem medo de se envolver de alguma forma. No caso das produtoras, referiram as questões legais, mas os advogados existem por uma razão.

G. – No mesmo texto, afirmas igualmente que algumas informações foram censuradas legalmente. Que leitura fazes disso?
Fotografia de Bárbara Monteiro

C. R. – A análise jurídica sobre os riscos criminais e civis associados à divulgação do filme resultou num corte de nomes e informações geográficas e relativas à narrativa conjugal da minha mãe, como forma de me proteger, e a qualquer exibidor, contra qualquer processo de devassa da vida privada. O agressor ficou incólume. Apesar de, sobre alguma informação, nós estarmos protegidas pelo facto de este caso ter “interesse público legítimo e relevante”, por outro lado, existe uma alínea do artigo 31.º que refere que “o disposto no número anterior não se aplica quando se tratar da imputação de facto relativo à intimidade da vida privada e familiar”. Assim, as informações provêm principalmente de dados provados em tribunal.

O resultado desta apreciação e dos cortes que tiveram de ser feitos transparecem um sistema que continua a perpetuar a máxima de que entre o marido e a mulher ninguém mete a colher, então está tudo errado e achei que esse movimento de censura poderia fazer parte do filme.

G. – Que lições, pessoais e/ou profissionais, levas desse trabalho?

C. R. – Como realizadora, aprendi que não quero fazer mais nenhum filme sozinha. Como pessoa, cresci muito e [esse documentário] mudou, no sentido de ambições, o caminho daquela que talvez vai ser a minha vida. Acho que as minhas prioridades e objetivos mudaram. Há uma tomada de consciência enorme e um sentimento de frustração gigante em relação ao que está a acontecer que parece que temos de tentar que alguma coisa seja feita.

Contactos úteis e gratuitos para denúncias de violência doméstica:

Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG): 800 202 148/Linha SMS 3060

Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV): 116 006

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

13 Abril 2026

Capicua: “A maternidade é o reduto onde o feminismo ainda não chegou”

23 Março 2026

Natalia Sliwinska: “A perspetiva 3D pode desbloquear certas memórias”

2 Março 2026

Laboratório de Ação Cívica: “Dentro dos partidos é muito difícil ter uma intervenção concreta”.

23 Fevereiro 2026

Luís Paixão Martins: “ Os nossos políticos não estão habituados a trabalhar em minorias”

26 Janeiro 2026

Alexandre Alaphilippe: “Mentir e espalhar desinformação já não é penalizado nas eleições”

12 Janeiro 2026

Pedro Jerónimo: “Se não existirem meios locais, que informação as pessoas terão [sobre as suas regiões]?”

22 Dezembro 2025

João Bernardo Narciso: “Grande parte dos alojamentos locais está na mão de grandes proprietários” 

10 Novembro 2025

Mckenzie Wark: “Intensificar o presente é uma forma de gerir a nossa relação com o tempo”

3 Novembro 2025

Miguel Carvalho: “O Chega conseguiu vender a todos a ideia de que os estava a defender”

6 Outubro 2025

Carlos Eugénio (Visapress): “Já encontrámos jornais [em grupos de partilha] com páginas alteradas”

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de João Alves sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0