Como não podia deixar de ser, a guerra ideológica permanente necessita de bodes expiatórios. Os ciganos e os imigrantes estão sempre à mão de semear, mas chegou a vez de as pessoas trans e não binárias serem novamente expostas. Remar contra a maré de um sistema normativo exige recursos de resistência e de rebeldia. As identidades que prolongam as divisões estabelecidas do mundo, como se fossem naturais e eternas, raramente conseguem colocar-se no lugar das identidades reprimidas e interditas, muitas vezes sem espaço para se afirmarem e sem meios simbólicos ou linguísticos para se inscreverem plenamente na realidade social. Num contexto em que, em Portugal, se discute mesmo o retrocesso da legislação sobre mudança de género — como na proposta apresentada pelo PSD —, torna-se evidente como estes enquadramentos normativos continuam a moldar e a limitar as possibilidades de reconhecimento.
Entrevistei, ao longo de um ano, seis jovens trans e não binários (o livro será brevemente publicado pela Tinta da China) e constarei o opróbrio constante, a vergonha, o medo de transportar um estigma, de se trair, de se denunciar por um comportamento, um gesto, uma maneira de falar, qual fantasma omnipresente que transtorna a segurança ontológica e social das pessoas trans e não binárias.
Como relata Clara: “Na escola, eu sofria bullying constantemente, sobre os meus jeitos, sobre o facto de eu ser uma pessoa mais sensível.” No seu percurso acumulam-se diferentes camadas de transfobia. Desde logo, uma transfobia direta, marcada por insultos, punições e violência, como nos maus-tratos do padrasto: “Ele me forçava a masculinidade também (…) dizia ‘esse cabelo está horrível, tem que parecer um homem’ e me cortava o cabelo à força.” A estas experiências soma-se uma transfobia indireta, difusa e naturalizada, bem como uma transfobia incorporada, produzida pelos inúmeros momentos aparentemente banais de socialização num mundo profundamente cisgénero.
No caso de Ginger, o processo de afirmação de género foi mais tardio e menos conflituoso. O desconforto manifestava-se inicialmente por meio da rejeição de uma feminilidade imposta: “A minha mãe sempre a meter-me em vestidos com cerejas e com folhos (…) sentia que aquilo era demasiado feminino, muito girly.” A explicitação dessa experiência só surgiu mais tarde, já no contexto universitário, através do contacto com o pensamento crítico feminista e com novas sociabilidades. Mesmo assim, o processo foi hesitante, marcado por tensões entre categorias teóricas e experiência vivida: “Eu comecei a pensar mais sobre a minha questão (…) mas eu ficava do género ‘não, eu não posso ser uma pessoa trans, não posso ser uma pessoa não binária, porque senão eu não sou feminista’.”
Kim percorria o continuum do gozo ao nojo, sempre que ousava relacionar-se com alguém do mesmo sexo, culpabilizando-se e depreciando-se pela sua “anomalia” que a família gostaria de “curar”.
Para a análise sociológica, importa identificar os contextos que favorecem ou dificultam estes itinerários. Aquilo que frequentemente é descrito como uma “decisão” singular revela-se, na verdade, um processo gradual, feito da acumulação de experiências e situações ao longo das trajetórias biográficas. O sofrimento relatado nestas narrativas não é, por isso, um dado natural nem inevitável: é produzido por estruturas sociais, normas e relações de poder que definem quem pode existir com legitimidade e quem é empurrado para as margens. Quando essas estruturas são reforçadas — inclusive por propostas de retrocesso legislativo —, tornam-se ainda mais visíveis as condições sociais que fabricam esse sofrimento e a urgência de transformá-las.