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Opinião de Paula Cardoso

Fundadora da comunidade digital “Afrolink”, faz parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresentou a segunda temporada do “Black Excellence Talk Series”, formato transmitido na RTP África. No mesmo canal, assume, desde Outubro de 2023, a apresentação do magazine cultural Rumos. Licenciou-se em Relações Internacionais e trabalhou como jornalista durante 17 anos, percurso iniciado na revista Visão.

Desconversar sobre racismo é privilégio branco

Nas Gargantas Soltas de hoje, Paula Cardoso partilha alguns “choques” de inquietação que viveu na apresentação do documentário “Racismo: uma descolonização em curso”.

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De olhos postos no grande ecrã do auditório do jornal Público, vemos o que Portugal se recusa a ver: as atrocidades do regime colonial, relatadas por quem dele beneficiou – os antigos colonos. Os testemunhos, apresentados no documentário “Racismo: uma descolonização em curso”, demonstram, sem os habituais “mas” de uma ficcionada excepcionalidade tuga, a História de massacres, violações e profunda desumanização que marcou a ocupação portuguesa em África.

As arrepiantes e desconcertantes descrições, disponíveis no site do Público, foram recolhidas pela jornalista Joana Gorjão Henriques, já depois da publicação de várias reportagens e livros sobre o tema, coincidentes e contundentes na denúncia do “país dos brancos costumes”, e do “racismo à portuguesa”.

Com o novo documentário, Joana – que co-assina a realização com Mariana Godet – volta a colocar o dedo na ferida, desta vez a partir das vivências de Aurora Duarte, Álvaro Vasconcelos, David Borges, David Luna de Carvalho, Dulce Maria Cardoso, José Gil e Rute Magalhães.

Na contracorrente de um Portugal que, tendo produzido a mentira que inventou o racismo, rejeita responsabilidades e prefere assobiar para o alto e olhar para o lado, as vozes presentes em “Racismo: uma descolonização em curso”, aceitam confrontar o passado. Cada uma o faz a partir das suas subjectividades, numa viagem por memórias de Moçambique e Angola, mas ninguém ousa desmentir a violência racista do regime colonial português.

David Borges traça inclusivamente um traço contínuo entre passado e presente, ao sublinhar as fronteiras raciais que subsistem na sociedade portuguesa, visíveis no vaivém de trabalhadores negros que, jornada após jornada, mantêm funcionais cidades de que são inibidos de usufruir. 

Aliás, se no tempo colonial havia uma proibição formal, hoje observa-se uma interdição tácita. Reparemos, por exemplo, na oferta de transportes públicos que ligam as periferias de maioria negra da Área Metropolitana de Lisboa ao centro da cidade – começam a circular em horários madrugadores, para que os moradores possam servir o centro, mas deixam de estar disponíveis em horários mais tardios, não vão esses trabalhadores ter a ousadia de querer regressar para se divertir.

As evidências da estrutura racial e racista estão à vista um pouco por todo o lado – queiramos nós reconhecê-las –, e nem sequer dão tréguas em espaços que têm como proposta combatê-las. 

Pelo contrário, é em lugares de luta anti-racista, supostamente seguros, que me tenho deparado com algumas das manifestações racistas mais indigestas. 

A última apanhou-me na apresentação do documentário “Racismo: uma descolonização em curso”, no auditório do Público.

Diante do abominável, houve quem tivesse usado da palavra para comparar a brutalidade racista à violência de género, e também não faltou o clássico apelo à defesa dos Direitos Humanos de todas as pessoas, “porque nem só os negros sofrem racismo”, e é preciso olhar para os asiáticos, para os ciganos e todas as comunidades oprimidas.

“Se falamos de colares de orelhas de pessoas negras, também podemos falar de mulheres grávidas absolutamente esventradas por maridos abusivos”, insistiu uma autodenominada aliada da luta anti-racista, quando confrontada com uma crítica à sua infeliz referência às lutas de género.

Ao mesmo tempo que garantiu não ter qualquer intenção de subalternizar ou menorizar o racismo, a mulher branca disparou: “Era só para fazer uma reflexão porque estava a ouvir e a pensar: isto é o que acontece com as mulheres todos os dias”.

Portanto, alguém que ouve o testemunho de mulheres brancas sobre os privilégios cúmplices de que usufruíam no tempo colonial, que ouve inclusivamente a descrição de como, nessa mesma época, as mulheres negras eram violadas, continua a acreditar que somos todas filhas da mesma opressão.

Mais: quando, em resposta a outra intervenção, lembro que é preciso reconhecer as especificidades do racismo anti-negro – afinal que outro povo foi desumanizado ao longo de séculos com o alto patrocínio da igreja e da ciência? –, ainda tenho de ouvir que estou a dividir.

Desta vez tem a palavra um homem branco: “Há o racismo contra os ciganos, contra os muçulmanos, contra os asiáticos, contra os negros. A luta é a mesma, é a luta contra o racismo”.

Como combatê-la, questiono-me, quando até pessoas brancas que se dizem aliadas da luta anti-racista se recusam a perceber que nem tudo é igual a tudo?  

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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