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Opinião de Shenia Karlsson

Diversidade e inclusão: a falácia da moda

Todos concordam que é o assunto do momento, não é verdade?! Como todos os discursos produzidos,…

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Todos concordam que é o assunto do momento, não é verdade?! Como todos os discursos produzidos, esse parece ser muito conveniente num momento que exige das empresas/instituições ações substanciais no combate ao racismo, à discriminação, à xenofobia, ao sexismo, ao capacitismo, à homofobia e afins.

Com o avanço dos movimentos sociais e as mudanças dos perfis de consumidores mais conscientes, podemos notar uma necessidade: o mercado mudou sua roupagem, especialmente no que condiz a representatividade, tanto em serviços e produtos, quanto nos espaços empresariais e corporativos.

A diversidade e inclusão nas empresas eleva o poder de conectar-se com diferentes experiências do existir, criando assim possibilidades em ampliar nossos repertórios. A diversidade permite a troca de saberes, vivências, visão de mundo e obriga-nos abandonar o lugar-comum.

Nossos esforços em construir uma sociedade mais equânime – e aqui não uso igualdade, porque não somos iguais, somos diversos em termos de subjetividade, o que queremos é igualdade de direitos, de acessos, esse é o propósito. Competitividade honesta, sem privilégios.

Uma pesquisa realizada pela Ernest&Young que visou traçar um panorama de lideranças em 2,4 mil empresas em 54 países (Fonte: Revista Época) revelou que "empresas com maior diversidade cultural e de género são as mais lucrativas, faturam 30% a mais". As multinacionais e os grandes grupos empresariais protagonizam esse cenário de mudança, pois perceberam que a diversidade e inclusão não se limita à responsabilidade social, e sim, em oportunidade de revelar novos talentos, agregando assim valores dentro de seus espaços e gerando lucro.

No entanto, os bastidores de programas de Diversidade & Inclusão vivem uma dura realidade: falta de recursos, não são vistos como prioridade, falhas em sua construção e desenvolvimento, isolamento de outros departamentos, e o pior, a falta de diversidade na equipe.

Em Portugal, caso tivéssemos dados étnico-raciais em canais oficiais, poderíamos confirmar de forma mais "sistematizada"(porque está aí para qualquer um ver) a falta de diversidade e representatividade nas lideranças em ambientes corporativos, assim como nas equipes responsáveis por programas de Diversidade e Inclusão nas empresas, o que é totalmente incoerente com a proposta.

Como construir estratégias de inclusão e diversidade com equipes maioritariamente brancas? Quem tem a palavra final? De quem é o poder de decisão? Diversidade a partir de um ponto de vista, somente? E os privilégios, estão dispostos a discutir sobre isto? Viveriam numa realidade onde deveriam competir sem contar com os privilégios?

Outro problema grave e muito recorrente, é o frequente convite a profissionais negros para palestras e aulas com baixa ou nenhuma remuneração, o que não faz nenhum sentido. Geralmente, os convites são disfarçados de "precisamos falar de racismo em Portugal". Estes mesmos profissionais, raramente são convidados como consultores ou para integrar equipes e, sim, utilizados para legitimar um suposto "esforço" e nunca para mudanças profundas.

Diversidade & Inclusão deve ser enfrentada sem romantizações, é uma tendência do mercado em que as empresas são colocadas numa situação frontal, obrigando-as a tomar medidas realmente efetivas. Isso requer sair do discurso e avançar para prática. A contratação de equipes multiculturais e profissionais consultores experts no assunto, a revisão dos privilégios, o abandono de lógicas de opressão, a fidelização dos colaboradores ao programa e, não mais importante, pensar que o avanço é ascendente, ou seja, de baixo para cima, são algumas medidas fundamentais para o sucesso do programa.

- Sobre a Shenia Karlsson -

Preta, brasileira do Rio de Janeiro, imigrante, mãe do Zack, psicóloga clínica especialista em Diversidade, Pós Graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, Mestranda em Estudos Africanos no ISCSP, Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no Instituto da Mulher Negra de Portugal, Co fundadora do Papo Preta: Saúde Mental da Mulher Negra, Terapeuta de casais e famílias, Palestrante, Consultora de projetos em Diversidade e Inclusão para empresas, instituições, mentoria de jovens e projetos acadêmicos, fornece aconselhamento para casais e famílias inter racias e famílias brancas que adotam crianças negras.

Texto de Shenia Karlsson
Fotografia de Maria Vasconcelos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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