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Opinião de Noa Brighenti

É urgente publicar quem ama e não quem odeia (ou desmastigar o amor)

Nas Gargantas Soltas de hoje, Noa Brighenti, tal como Eugénio de Andrade, diz-nos que é urgente escolher amar.
“Há 71 anos, Eugénio de Andrade publicou o poema Urgentemente e mais que nunca é “urgente o amor”. Só o praticando, só com “carinho, afeição, reconhecimento, respeito, compromisso e confiança, assim como honestidade e comunicação aberta” seremos capazes de acabar com as relações opressivas – acabar com a transfobia, a homofobia, o racismo, o elitismo de classes, o patriarcado,…”

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Vergílio Ferreira, na sua obra intitulada Aparição, escreve sobre o processo de “mastigação”das palavras; explica que quando repetimos uma palavra vezes e vezes seguidas esta vai perdendo o seu valor até já não querer dizer nada.

Enquanto sociedade mastigámos muitas palavras que hoje nos fazem falta, mais que tudo mastigámos o amor. Fomos tão cruéis e usámos tantas vezes o amor como desculpa que perdemos os seus contornos pelo caminho, tornando-nos cínicos quanto à sua existência e quanto ao seu poder.

No livro All About Love: New Visions, Bell Hooks diz que hoje não existem debates públicos sobre o amor e que, quando ocorrem, apresentam-no como o nosso calcanhar de Aquiles a ser escondido do mundo, pois “as mensagens mais populares são as que declaram a insignificância do amor, a sua irrelevância”. Temos medo dele; temos medo porque surge sem avisar, vira-nos do avesso e deixa-nos à flor da pele - não o escolhemos sentir, não o queremos sentir e mesmo assim bate-nos à porta.

Porém, se é verdade que não podemos controlar a sua chegada, é também verdade que deixando o amor entrar podemos controlar como agiremos perante ele, perante nós e perante os outros. As emoções, ao contrário do entendimento geral, não são a causa da irracionalidade; se fossem, teríamos de desculpar o agressor de um crime passional por não o poder evitar.

Assim, James M. Jasper, no artigo The Emotions of Protest: Affective and Reactive Emotions In and Around Social Movements, apresenta a definição de emoção sustentada pelo construcionismo social, a qual dita que as emoções são ações regidas por regras culturais que devem ser seguidas numa determinada situação (estando assim ligadas à cognição), e não apenas um conjunto de sensações interiores, incontroláveis.

Esta noção foi adaptada ao amor por Bell Hooks, escrevendo que devemos pensá-lo “como uma ação, em vez de um sentimento”, pois assim garantimos que “qualquer um que use a palavra desta maneira automaticamente assuma responsabilidade e comprometimento. Somos com frequência ensinados que não temos controlo sobre os nossos sentimentos. Contudo, a maioria de nós aceita que escolhemos as nossas ações, que a intenção e o desejo influenciam o que fazemos”.

A responsabilização e comprometimento pela forma como amamos implica que há um elenco de pressupostos que devem estar preenchidos para que haja amor. Para a autora estes são “carinho, afeição, reconhecimento, respeito, compromisso e confiança, assim como honestidade e comunicação aberta”. Onde eles não existem, não existe amor porque o amor não pode coexistir com o abuso.

São raras as relações que tive, românticas ou não, em que fui, fomos, capazes de amar. Vivemos uma época de narcisismo em que o eu é a personagem principal do filme e acabamos muitas vezes por esquecer que os outros também sentem e os outros também pensam. Sem sequer notarmos (já nos é tão natural), criamos dinâmicas de domínio e submissão - em casa, na escola, no trabalho, com pessoas que nos são próximas e pessoas que nos são distantes. 

É muito fácil trazer estas mesmas dinâmicas para a escrita. Escrever é escolher palavras e escolher palavras é difícil, elas carregam demasiado peso e ficam agrafadas ao corpo - ao do escritor e ao do leitor, mas às vezes esquecemo-nos deste segundo. Como num monólogo, quem escreve diz o que quer como quer e ninguém o interrompe ou questiona - provavelmente fá-lo-ão depois de lerem, mas aí já terão lido tudo o que o escritor queria que lessem e as suas palavras já farão parte dos leitores.

Escrever sem amor é, por isso, muito perigoso e é assustadora a facilidade com que encontramos abusos mascarados de artigos de opinião - por exemplo, como escreveu André Tecedeiro, “é comum encontrar nos jornais portugueses artigos de pessoas que por serem transfóbicas, se sentem especialistas em assuntos trans”.

Há 71 anos, Eugénio de Andrade publicou o poema Urgentemente e mais que nunca é “urgente o amor”. Só o praticando, só com “carinho, afeição, reconhecimento, respeito, compromisso e confiança, assim como honestidade e comunicação aberta” seremos capazes de acabar com as relações opressivas - acabar com a transfobia, a homofobia, o racismo, o elitismo de classes, o patriarcado,...

O amor não é a desculpa dos nossos erros, mas a sua transcendência. É urgente escolher amar e é urgente educar para o amor e é urgente identificar os abusos e é urgente responsabilizar quem abusa e é urgente proteger quem é abusado - é urgente publicar quem ama e não quem odeia. Temos de publicar quem ama.

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Urgentemente, de Eugénio de Andrade (1956)

-Sobre a Noa Brighenti-

Noa Brighenti começou por colecionar conchas e cromos aos 6 anos. Com 9 recitou o seu primeiro poema, teve o seu primeiro amor e deu o seu primeiro concerto no pátio da escola. Fartou-se dos museus aos 13, jurou que nunca mais pintaria aos 14 e quando fez 17 desfez este juramento. Com 20 anos, coleciona gatos e perguntas. Pelo meio, estuda Direito na Faculdade de Direito de Lisboa, anda, pinta e lê. De vez em quando escreve — escreve sempre de pé.

Texto de Noa Brighenti
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