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Opinião de Isabel Costa

Encontrar Velhos Amigos

Em 2013 fiz um estágio no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, numa mostra de…

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Em 2013 fiz um estágio no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, numa mostra de uma grande colecção do modernismo brasileiro. Para muitos dos visitantes aquela exposição era um reencontro com obras que já conheciam de livros, filmes ou até de outras exposições.


O período em que se inscreve o modernismo brasileiro, (que se  desenvolveu fundamentalmente nas décadas de 1920 e 1930, mas que teve continuidade nas décadas seguintes), significa para toda a América Latina um salto de emancipação artística e de pensamento, fundamental para o desenvolvimento das sociedades e para se tornarem no que são hoje. Este movimento procurava distanciar-se de uma visão euro-centrada, criando uma nova centralidade a partir das várias identidades nacionais e regionais da América Latina.

Para muitos dos visitantes desta exposição, o reencontro com cada obra era um reencontro com a sua própria identidade, que se vira reforçada neste movimento, e no que trouxe à sociedade brasileira.

Foi ao passar por esta experiência que, pela primeira vez, ouvi falar da expressão “encontrar velhos amigos”. Esta expressão remete-nos para o que se passa connosco quando reencontramos a mesma obra de arte ao longo do tempo. À medida que vamos reencontrando um mesmo objecto, é construída uma relação, que se vai intensificando com o tempo, e ganhando novos contornos e relações com os eventos da nossa vida.

Há três anos, o Museu Berardo fez uma mostra do modernismo brasileiro. Lá, pude encontrar muitos “velhos amigos", com quem convivi durante meses na exposição em que trabalhei.

Para mim, reencontrá-los foi como voltar às ruas do centro histórico do Rio de Janeiro, reencontrar todos os colegas que estagiaram comigo, o Paço Imperial, os cheiros e sabores dos almoços nos restaurantes ali perto, o sabor do café-livraria chique que ficava dentro do Paço, e finalmente, era mergulhar no universo daquelas obras, com tudo o que nos trazem de emancipação, inquietação, identidade e descoberta.

Havia naquele reencontro uma memória pessoal, mas também uma outra memória, que se prendia com o contexto da criação e apresentação de cada obra, que, de forma intemporal, permanece em contacto com as narrativas pessoais de qualquer um de nós que as visite.

Esta prática de reencontro com a obra de arte surge com frequência na literatura. Um dos exemplos maiores é o romance de Thomas Bernhard, Antigos Mestres, em que Reger, a personagem principal, de dois em dois dias passa as manhãs sentado em frente ao “O Homem da Barba Branca”, uma tela de Tintoretto, no Museu de História de Arte de Viena. Aquele momento de contemplação é descrito pelo personagem como o seu lugar de produção intelectual, de intenso pensamento.

Curiosamente, este período de confinamento, tem-nos motivado a procurar esses “velhos amigos”, sejam eles artes visuais, literatura ou cinema. Têm sido partilhadas inúmeras reproduções de obras de Edward Hopper e Magritte nas redes sociais. Estas reproduções que são partilhadas estão directamente ligadas com o momento que estamos a viver. Esta partilha está ligada à nossa necessidade de conforto trazida por estas imagens. Porque ao reencontrá-las somos levados a crer que a nossa história pessoal, e o que sentimos, é gravada na memória destes objectos.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre a Isabel Costa-

Trabalha em teatro, cinema, na área de produção de exposições e curadoria. É diplomada em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema, tendo completado a sua formação na Universidade de Warwick (Inglaterra) e na UNIRIO (Brasil). É membro do grupo de teatro Os Possessos desde 2014. Na área de produção de exposições passou pelo Paço Imperial no Rio de Janeiro (Brasil), pela Galeria Luis Serpa Projectos (Lisboa) e pela galeria Primner. Em 2016 terminou o mestrado Eramus Mundus Crossways in Cultural Narratives, tendo passado pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova de Lisboa, pela Universidade de Perpignan (França) e pela Universidade de Guelph (Canadá). Dedicou-se ao tema do arquivo na performance arte. Em 2017, iniciou a criação de projectos a solo. Apresenta a criação “Estufa-Fria-A Caminho de uma Nova Esfera de Relações” na Bienal de Jovens Criadores, e a primeira edição do Projeto Manifesta, um projecto produzido por Os Possessos. Em 2019, apresenta as criações “Maratona de Manifestos” e “Salão Para o Século XXI.”

Texto de Isabel Costa
Fotografia de Telmo Pereira

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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