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Encontrei-te na Esquina com Tó Trips

O Gil encontrou-se hoje com o Tó Trips, umas das guitarras dos Dead Combo, que…

Texto de Margarida Marques

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O Gil encontrou-se hoje com o Tó Trips, umas das guitarras dos Dead Combo, que vai estar na Supernova para uma divertida talk onde falará sobre si próprio. Curioso, certo? Para já, começa a criar água na boca com esta bela conversa. 

Qual é a tua memória mais antiga?

Das memórias mais antigas que eu tenho acho que é de ir com a minha tia apanhar uma camionete ali na Praça de Espanha para ir para a Costa da Caparica. Tenho uma imagem assim meio... Também tenho uma memória antiga de ver a minha bisavó da parte do meu pai. Quer dizer, não consigo identificar a cara dela, nem consigo... Consigo ver uma imagem de uma senhora vestida de preto e dizerem-me que era a minha bisavó.

Com que idade te sentes?

Com a idade que tenho. A idade é uma treta, pá.

Em que sentido?

No sentido físico. Outra vez estava a falar com um guitarrista inglês, e ele tava-me a dizer que quanto mais velho é menos sabe. Por acaso nunca tinha pensado dessa maneira, mas percebo o que é que o gajo quer dizer. Ele também tem filhos e ele dizia: Epá, um dia estás a falar com os teus filhos e eles sabem coisas que tu já não sabes, tás a ver? Cenas tecnológicas, ou só cenas geracionais, e tu já não apanhas... Tens outra parte da idade que é fixe, acho eu, que é as pessoas tornarem-se mais tolerantes. Acho que sou cada vez mais eclético e aberto. Teimoso, mas aberto. Mas ao nível físico é uma merda. Uma verdadeira merda. O pessoal quando é novo não liga -- e claro que não tem nada de ligar -- mas as dores nas articulações, certas fracturas começam a aparecer...

Qual foi a última vez que testemunhaste algo de transcendente?

Foi em São Tomé e Príncipe, em 2007. Fomos a uma floresta, lá, com um rapaz que conhecemos, e ele levou-nos lá a uma floresta. Eu até meti essa imagem no primeiro disco, aquilo é um sítio lindo, um precipício, que tipo sobe e de repente o chão desaparece... E olhas e é só mar e coqueiros... Mas enfim, antes de chegarmos lá, tamos na floresta, o gajo faz assim, Shh... (palmas) e bate palmas, meu. De repente só vês milhares e milhares de morcegos (sons de morcegos)! Que cena, meu! O som daquilo, e tu nem estás à espera... Foi brutal. E depois disso levou-nos a esse precipício, e um sítio onde não iam turistas. Estávamos fartos de estar no resort, perguntámos a um gajo lá no bar se não havia ali uma aldeia, e fomos eu e a Raquel, conhecemos lá malta, e pronto. Foi isso.

Conta-me uma história.

(Pensa)

Pá, tenho uma história... Quando era puto eu tinha sempre um pesadelo. Não tinha muitos, mas tinha este, que se repetia, e era... Chegava-se uma senhora ao pé de mim, uma velha, e começava a falar tão baixo, tão baixo, tão baixinho junto ao ouvido que eu ficava cheio de frio, tás a ver. E acordava. E isso aconteceu-me uma vez, depois outra, e eu... Pá, para já não era algo que eu relacionasse a algo da vida, achava aquilo... Eu devia ter a tua idade. E porque é que isto se repete, etc. E a maneira que eu arranjei de resolver o assunto, associei que essa velha era a minha avó, que uma vez me fez uma coisa que os meus pais, pá, odiaram.
Eu era bué puto, e nós tínhamos ido à terra do meu pai. Eu detestava. Aquilo só teve luz em '85, havia uma televisão na aldeia, aquilo é ao pé da Sertã, uma aldeia chamada Macieira num vale de pinheiros. Aquilo era mesmo fim do mundo, nem estrada alcatroada nem nada. E eu odiava ir para lá, era um puto da cidade, enfim. Nós távamos lá e os meus pais tiveram de ir à Sertã, comprar umas merdas e não sei o quê. E a minha avó pega em mim e disse: Olha, temos de ir ali a um sítio, vamos, e pá... Passámos tipo duas horas andar. Eu era puto, não tinha noção, mas duas horas no calor, no meio de pinheiros, bué de longe. E acabámos por chegar a uma casa -- passava um riacho, nunca mais me esqueço -- uma casa branca no meio de nada, assim com umas escadas, subimos, a minha avó bate à porta... E quando abrem a porta, meu, logo que abrem a porta tá bué pessoal a chorar, parecia uma cena num filme, bué gente a chorar, e no meio um caixão com uma miúda vestida de branco -- uma miúda que tinha morrido, tás a ver? E o pessoal todo ali a chorar, ali fechado naquela casa. Aquilo para mim foi um filme de terror. A primeira vez que assisti a uma coisa assim. Fiquei com aquilo... Os meus pais deixaram de falar com a minha avó durante... Pá, a minha mãe ficou mesmo fodida com ela. E então associei que era isso, que era a minha avó. Associei o sonho a essa história... E nunca mais o tive.

Entrevista por Gil Sousa

Foto por Matilde Cunha

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