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Entrevista a Ana Miranda: “Em Portugal, as pessoas ainda têm estas ideias das quintas e quando precisam de algo é que começam a pensar em fazer diferente”

Ana Miranda é diretora do Arte Institute, uma organização sediada em Nova Iorque e sem fins lucrativos…

Texto de Gabriel Ribeiro

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Ana Miranda é diretora do Arte Institute, uma organização sediada em Nova Iorque e sem fins lucrativos cujo propósito maior é promover a cultura contemporânea portuguesa no mundo. Agora, esta organização faz chegar a Portugal um dos maiores eventos culturais do país: o RHI — Revolution_Hope_Imagination.

Este evento, que já foi apelidado de Web Summit da Cultura, junta artistas nacionais e internacionais para discutir a cultura nos seus variados campos de atuação entre os dias 14 e 21 de setembro. Além de Lisboa, muitas outras cidades acolhem a programação do evento no âmbito da descentralização cultural. As cidades escolhidas para receberem talks, workshops e espetáculos foram Torres Vedras, Caldas da Rainha, Óbidos, Guimarães, Leiria, Alcobaça, Évora, Vidigueira, Loulé, Funchal e Faro.

 

Gerador (G.) – A Ana foi uma das forças motrizes deste projeto, o Revolution Hope Imagination. Quem é a Ana Miranda?

Ana Miranda (A.M.) – Já fui jornalista, atriz e agora sou produtora. Fundei o Arte Insitute em Nova Iorque há oito anos, e esse tem sido o único projeto que tem conseguido, de forma sustentável, promover a cultura portuguesa contemporânea em todo o mundo e em todas as áreas – cinema, dança, artes plásticas, teatro… Já fazemos isto há vários anos com um total de cerca de 125 eventos por ano em 35 países. É isto que tenho feito nos últimos anos da minha vida.

G. – E agora nasceu a primeira edição daquele que já foi apelidado de Web Summit da Cultura. O que é e como é que nasceu esta ideia?

A.M. – Desta experiência e destes países em que atuamos, temos criado uma grande rede de contactos e networking. Além disso, reparamos que tem havido um pouco de desaproveitamento daquilo que as empresas podem contribuir para o setor da cultura. No fundo, aquilo que nós estamos a fazer é partilhar o nosso know-how e os nossos conhecimentos porque acreditamos que o país deve estar noutra posição. Nós genuinamente queremos que Portugal dê um passo em frente, e estes contactos são também uma forma de dar outras ferramentas de pensamento a quem quiser arranjar outras formas de fazer cultura que não sejam as habituais. É isso que nós estamos a tentar fazer, aliando ainda outro setor: o turismo. Neste momento, temos cerca de 23 milhões de turistas a entrar em Portugal por ano, e acho que as artes estão a fazer muito pouco para ganhar uma fatia de mercado. Acho que há uma falta de estratégia e é por isso que estamos a tentar agrupar estas áreas todas e dar um passo para trabalhar todos juntos. Se os turistas vêm cá, porque é que têm de ficar sempre nas mesmas cidades? O que os agentes turísticos dizem é que faltam atividades culturais durante a semana, mas há muitos artistas desempregados e é justamente este elo que não se está a ligar.

G. – Um evento cultural que partisse da internacionalização fazia falta em Portugal?

A.M. – Faz falta em qualquer país. Os artistas precisam muito uns dos outros para trabalhar em conjunto e quanto maior for o seu networking, melhor. Ligando os artistas através do trabalho, é sempre uma porta que se abre. Hoje em dia já vivemos num mundo muito global onde continua a ser importante a cultura de cada país, mas quando ela entra em contacto com outra, aí criam-se projetos muito interessantes. Conseguimos fazer festivais durante o verão com muita adesão turística, mas porque é que não se faz isso o ano inteiro? Porque não há uma estratégia para ser feito dessa maneira. Somos nós, os artistas, que temos de repensar a maneira como fazemos as coisas e como nos posicionamos no mercado. É por isso que este festival, sendo internacional, tem lugar em Portugal.

G. – Apesar da internacionalização, o evento estará noutras cidades do país numa base de descentralização cultural…

A.M. – O que não vai faltar no fim de semana de 14 e 15 de setembro em Lisboa são opções. Depois, as outras pessoas que não querem vir a Lisboa, e já que se fala muito da descentralização, têm oportunidade de ir a outra cidade que esteja envolvida. São outras 11 cidades no continente onde vai acontecer muita coisa. De 14 a 21, não há ninguém no país que não esteja relativamente perto de alguma coisa a acontecer no âmbito deste projeto.

G. – Fizeram um Call for Artists e em menos um mês foram recebidas mais de 200 candidaturas de artistas de 29 países. Que balanço faz deste número?

A.M. – Eu acho que é superpositivo. Nós trabalhamos no mundo inteiro, por isso não seria estranho se viessem pessoas de países da CPLP, Ásia… Mas houve países onde não trabalhamos a inscreverem-se, como o Senegal. A mensagem passou e, por isso, acho estes números maravilhosos. Nós pagamos mil euros por cada projeto, exatamente porque não estamos a falar de projetos inteiros. Esta quantia é para eles arrancarem com os projetos. Existem alguns deles que até se pagam com essa quantia e outros em que não chega, mas nós estamos a dar a plataforma, a visibilidade e ajudá-las a distribuir pelo país.

G. – Vão estar representadas várias áreas da cultura: Música, Arquitetura, Design, Teatro, Cinema, Audiovisual, Dança, Literatura, Educação e Cidadania. Considera que a visão dos portugueses em relação à definição de cultura ainda é restrita ou já percebem a dimensão do termo?

A.M. – Eu acho que as pessoas percebem. Nós não tínhamos, até há uns anos, estruturas para se levar a cultura a meios mais pequenos. Hoje em dia, isso já está um pouco diferente, mas continua a haver muito trabalho a fazer. Percebo que na escola os professores já tenham muito trabalho, mas temos de cultivar a mente dos mais pequenos. Não é só levá-los ao teatro e explicar o que está por trás daquilo, é dar as oportunidades de eles fazerem também.

G. – Este evento trabalha com várias cidades e com várias áreas da cultura. É fácil trabalhar em rede em Portugal?

A.M. – Em Portugal, as pessoas ainda têm estas ideias das quintas e quando precisam de algo é que começam a pensar em fazer diferente. Mas tem de se começar por algum lado e este é um começo. Nós, neste projeto, tentamos juntar cidades da mesma maneira que juntamos bancos. Isto mostra que há uma abertura de outras partes da sociedade. Agora, a minha grande dúvida é: o que é que as pessoas vão fazer com isto?

G. – Foi uma ideia de uma vez ou já pensaram numa segunda edição?

A.M. – Nada do que fazemos no Arte Institute é apenas para uma vez. Agora, vamos aprender com os erros e com as coisas boas. Há coisas na minha cabeça que tenho como certas não voltar a fazer, porque é um esforço muito grande, e talvez o país não esteja preparado para isso. A nossa visão é tão alargada e tão à frente que as pessoas não conseguem perceber logo. Realmente é um programa muito completo, que pensa em várias frentes e, portanto, pode não se entender à primeira.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Clara Pereira

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