Clemente Almeida e Rui Rofino formam a banda WE SEA, que atua já esta sexta-feira no Jardim Fest, em Ponta Delgada, Açores. Estudam Medicina e Psicologia, respetivamente, e este ano lançaram o primeiro álbum intitulado Basbaque, uma “história complicada que envolve psicologia e amor”.

Divididos entre a Ribeira Grande e o continente, o duo gostava de viver apenas da música, mas, para já, “esta mantém-se como uma catarse da vida mundana e uma forma de expressar criativamente as emoções, histórias, ideias e influências”, afirma Clemente. Para o futuro, têm o mesmo objetivo: “O nosso desejo passa por continuar a escrever canções sem pressão e tocá-las o máximo possível ao vivo.”

Gerador (G.) – Antes de mais, como e quando é que nasceu a banda WE SEA?
Rui Rofino (R.R.) – O projeto nasceu em 2016, mas teve uma ou outra pausa de percurso. Os WE SEA surgem da vontade enorme que eu tinha de criar canções. Essa coisa do processo criativo é algo muito importante para nós. É como se fosse uma maratona necessária por zonas de desconforto de origem mais variada e é onde esse desconforto se torna conforto… é estranho, é um refúgio do caraças e não dá para explicar. Adiante. Decidi convidar o Clemente porque me considero um instrumentalista de pobre execução e porque o projeto necessitava de uma pessoa jeitosa nesse domínio para poder ter palco. Para minha surpresa e alegria, a resposta do Clemente não só foi um bonito sim, como foi também uma contraproposta de inclusão no processo criativo.

G. – Existe algum motivo para esse nome?
R.R. – Sim… O projeto surge numa altura de grandes mudanças na minha vida. “WE SEA” advém de “WE SEE”. A ideia era ter um nome que traduzisse a nova visão de vida e de música que adquiri nessa altura. A incorporação do “SEA no lugar de “SEE” dá-se por razões óbvias: todo o açoriano tem uma relação com o mar – quer seja fácil, quer seja difícil.

G. – O que é que simboliza o vosso álbum de estreia? E porquê o nome Basbaque?
Clemente Almeida (C.A.) – A ideia de fazer um álbum foi algo que surgiu bastante tarde com WE SEA. Inicialmente, queríamos apenas escrever canções de forma isolada, gravá-las (sempre em regime LO-FI) e lançá-las como singles. E, de facto, assim o foi durante algum tempo… No entanto, fomo-nos apercebendo de que um álbum é sempre um bom cartão de visita, um marco de identidade e, de certa forma, é ele aquilo que marca o início oficial do percurso de um projeto. Nesse sentido, pegamos em canções que tínhamos guardadas, juntamo-las a outras que compusemos no período mais recente e começamos a criar aquilo que seria a história do Basbaque.

R.R. – O álbum conta uma história complicada que envolve psicologia e amor. Tentando simplificar: a narrativa inicia-se com o final de um longo relacionamento; avança para o reencontro de um amor antigo que não resultou no passado e que volta a não dar frutos; e acaba com uma enorme solidão, aliada a uma ilógica incapacidade para a tolerar. É uma história com muitos contornos que conta com uma personagem que se deixa encantar com muita facilidade… Mesmo contra sua vontade. Achei que o termo “basbaque” encaixava muito bem no que queríamos transmitir… E assim ficou sem grandes dúvidas. Mas atenção, não se pense no Basbaque de forma pejorativa. O nosso é bom rapaz! A verdade é que nós, reles mortais, às vezes somos disfuncionais. Embora ficcionado, o Basbaque tenta ser reflexo disso.

G. – As expectativas em relação a este álbum foram alcançadas?
R.R. – Se falarmos no alcance e difusão do álbum, as nossas expectativas sempre foram muito moderadas. Não estamos à procura de sucesso imediato… As coisas não são assim tão fáceis. Se falarmos na criação e no produto final, então sim! Nós produzimos este conjunto de canções com recursos muito rudimentares. Fizemos a captação numa garagem sem grandes condições – onde se ouvem as vaquinhas e os patinhos dos arredores. Acrescenta a isso uma interface para gravação carregada de ruídos provocados pela humidade e dois microfones emprestados… Uma aventura e tanto! Zero euros na produção. E graças a Deus! É que investir nessa dimensão da música enquanto se é estudante não é muito fácil. Valeu-nos a generosidade de alguns amigos. Creio que o resultado superou por completo as nossas expectativas – tendo em conta que fizemos muito com pouco.

Uma outra coisa mais offtopic que não tem muito que ver com expectativas, mas que me agradou muito no produto final, foi a plasticidade conseguida involuntariamente no que diz respeito à escrita. Quero com isto dizer que é possível ouvir o Basbaque sem se respeitar a narrativa conceptual. É possível ouvir cada canção e criar uma interpretação própria. Acho que isso é muito fixe… É uma espécie de dois em um.

G. – Quais são as vossas maiores inspirações para criar música?
C.A. – Tanta inspiração! No cinema, somos enormes fãs de David Lynch e da atmosfera e estética dos anos 80 e 90. Na música, é muita coisa… Mesmo! Desde música açoriana como Luís Alberto Bettencourt, Zeca Medeiros ou Susana Coelho, a Vaporwave ou Synthwave, entre outros. Ouço muita coisa e muito género. Assim de relance, ultimamente tenho ouvido artistas como Men I Trust, Homeshake, Connan Mockasin… E ficava aqui o resto do dia. Depois temos as vivências e o clichê da mística açoriana… É algo que está inegavelmente nas nossas criações, quer pela nostalgia e saudade que nos imprimem, quer pela cicatriz que nos deixam no caráter e personalidade… E ainda pelas particularidades linguísticas, gíria e pronúncia que enquanto micaelenses, não nos conseguimos desvincular. O açoriano é um português diferente.

G. – É fácil entrar no mercado da música?
C.A. – Acho que é tudo uma questão de oportunidade, timming e, acima de tudo, teia de conhecimentos e de pessoas. Desengane-se quem acha que para se vingar e chegar às pessoas basta escrever música boa, que agrade a gente, e ter uma boa social media. É necessário conhecer as pessoas certas, que realmente influenciam o que passa ou deixa de passar nas rádios, o que faz parte dos cartazes dos festivais e eventos que ocorrem. E aí, entram os agenciamentos que têm um papel importantíssimo nessa questão que referi.

G. – Olhando para a indústria musical portuguesa, como é que avaliam o seu estado?
C.A. – Acho que vai de boa saúde. Há excelentes bandas, e são cada vez mais e com maior qualidade. Temos editoras a fazer um trabalho muito interessante e de forma bastante DIY que é altamente motivante para nós que também trabalhamos nesse registo. Lembro-me da Maternidade, dos Cuca Monga, assim em termos de bandas que cantam em português. Tens ainda a Pataca, a Discotexas que faz muita coisa boa na cena da Dance, House e Techno. Há inúmeras outras. Quanto à música açoriana, em particular, existem bandas e artistas a fazer muita coisa boa: a Sara Cruz e o Romeu Bairos (que também lançaram EP este ano), o Flávio Cristóvam, o King John, os Voyagers e PMDS com eletrónica ao vivo… Há um movimento muito interessante de nova música açoriana a acontecer. Fixe era conseguir juntar esta malta e criar uma espécie de editora/família açoriana!

G. – Neste momento, como uma banda recente, qual é a maior dificuldade?
C.A. – Acho que se relaciona um bocado com a questão anterior acerca do mercado e também dos circuitos… por vezes parecem não existir.

G. – Já há algo planeado para o futuro?
C.A. – Estaremos no Jardim Fest na próxima sexta-feira, dia 6 de setembro. No imediato, temos um videoclipe com produção da Cactus Sessões que tem lançamento agendado para muito breve. A curto prazo, vamos trabalhar na nossa agenda para tentar levar o Basbaque a mais pessoas, e, a médio prazo, vamos continuar a compor já com vista para um segundo álbum.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Cactus Sessões

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