Se há uns anos era visto como talento promissor do jazz nacional, atualmente Gabriel Ferrandini surge como nome firmado e destacado entre os seus pares. Para isso contribuiu o facto de se ter multiplicado em diferentes projetos, que o levaram do free jazz – a sua escola natural – até às mais diversas colaborações com nomes de diferentes universos musicais, entre eles o de Thurston Moore ou Peter Evans, ou até ao universo das artes performativas.

Nos últimos anos esteve em residência artística no Matadero, em Madrid, mas também na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, da qual surge uma série de concertos a que chamou Volúpias das Cinzas. Em entrevista ao Gerador, o músico falou deste longo processo que durou cerca de um ano,  através do qual esperava renascer, como se de uma Fénix se tratasse, reinventado pela sua própria arte. Agora renascido, o músico entregou-se à composição – ao contrário do expectável, contida e inusitadamente cerebral – de onde surge Volúpias, o seu primeiro disco em nome próprio.

Esta terça-feira, dia 17 de setembro, o baterista apresenta-se na Culturgest, em Lisboa, ao lado dos seus companheiros de lide Pedro Sousa, no saxofone tenor, e Hernâni Faustino, no contrabaixo, a que se junta também o pianista alemão Alexander von Schlippenbach. O concerto não servirá como simples apresentação do disco que, tal como diz Ferrandini, não foi feito para se “tocar ao vivo”, mas sim como extensão do seu próprio universo estético, do seu poema contínuo. Afinal estas Volúpias são apenas mais um verso da sua movimentação.

Gerador (G.) – Volúpias inaugura a tua discografia em nome próprio, mas é na verdade parte de um percurso que já tens vindo a trilhar. Como é que chegaste à materialização daquilo que se assemelha, parafraseando, a um poema contínuo?
Gabriel Ferrandini (G. F.) – É uma longa história. Eu fui estudar jazz, acabo por entrar na cena do free e da improvisação livre e este disco vai contra tudo aquilo que aprendes na escola. No free jazz, os discos, da maneira como são gravados, surgem quando a banda acha que está em forma e vai para estúdio ou se por acaso tens um concerto e é gravado, na lógica de “I hope it went well”. O processo nunca é tentar fazer um disco. O processo é sempre tentar ter um registo de um momento de pico de uma banda. Mas é o oposto aqui. Neste caso, eu tinha um disco na cabeça. Tinha a ideia de fazer um registo de “baladas”, super contido, com melodias simples. Quando chego à conclusão de que tenho esse disco na cabeça, percebo que tenho que ir contra tudo o que fiz até hoje, que era 90% feito à base da improvisação, e a perceber que tinha de compor. Não que estivesse farto do free, mas há uma pequena insatisfação, de precisar de algo novo.

G. – Embora tenhas um percurso que vai contra a tendência de escola, o disco acaba por estar mais enquadrado num modelo clássico.
G. F. – Acho que é um disco super clássico. Por mais apimentado que seja é um disco que segue estruturas tradicionais. Mesmo que haja pessoas que vão achar o disco uma loucura, se forem ouvir com atenção, aquilo é jazz formatado de forma muito clássica.

G. – A que juntaste uma banda em pico de forma?
G. F. – Sim, nesta altura o disco está super telepático. O único desafio foi ter de compor. Saí da escola há séculos, já não estou à vontade com harmonia e é aí que aparece a minha residência artística na Galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa, realizada ao longo de 2016. Nessa altura, percebo que quero fazer um disco, mas que não consigo fazê-lo de repente, agarrar numa banda e pôr isto a acontecer. Precisava de um esquema, e isso enquadrava-se numa ótica de residência artística. Propusemos um concerto de dois em dois meses, no total seis ao longo do ano, em que eu compunha vários temas para cada um. Quando a residência terminou, tentei agarrar nisso e fazer um disco de best off, mas nesse momento sentimos uma diferença considerável do fim para o início.

G. – Ainda assim, a residência artística funcionou como ponto de partida?
G. F. – Sim, mas também começa antes. A residência era uma forma muito subtil de fazer da ZDB um laboratório, sendo que eu sempre escondi que o objetivo final era um disco. Ali estava a experimentar coisas. O disco motiva a residência, mas é a residência que nos manda para o estúdio e ainda bem porque é aí que percebo que o disco tem de ser maioritariamente composto por temas mais curtos. Ao vivo estás a tocar para um público, em que tens aquela energia própria de um concerto, mas de repente fomos para o meio do Alentejo, em que tivemos três dias de ensaios e três dias a gravar. Foi um período muito intenso de trabalho.

G. – Resulta, como dizes, num disco que é bastante melódico, mas também muito contido. Até que ponto é que isso foi um desafio para vocês que estão habituados à improvisação?
G. F. – Não foi fácil. Vai contra a minha natureza, mas também do Pedro (Sousa) e do Hernâni (Faustino). No entanto, a única coisa que nos trazia segurança era que eu tinha uma ideia clara em relação ao disco que pretendia. Era tão claro para mim que eu dizia “vamos atacar este tema” e mal alguma coisa saísse daquilo que tinha em mente cortava. Portanto, no início há um choque mas depois de três dias de ensaios e mais três dias a gravar com este tipo de raciocínio percebes a estética, como se tratasse de um exercício de estilo. O que na verdade acho bastante poético, porque como disse vai contra a nossa natureza, dos temas grandes, do free jazz. Isto é o oposto. Temas curtos e contidos, com composição.

G. – Já falaste da dificuldade que é tornar o free jazz num registo discográfico funcional. Gostava que me falasses um pouco desse processo de composição, uma vez que não é assim tão usual ver um baterista compor também os restantes instrumentos?
G. F. – A ideia foi sempre de trio, porque para mim era mais fácil compor assim. Tanto que a meio da residência chamei o Rodrigo Pinheiro, pianista, para tocar um tema connosco, mas é muito complicado escrever para piano. Tens de dominar questões de harmonia que eu na altura não tinha e como não queria dar liberdade total a um pianista porque, lá está, tinha uma ideia muito clara do que queria, o trio foi a estrutura mais fácil de controlar, numa lógica de “keep it simple”.

G. – Mas nesse trio, foste tu que compuseste as partes dos restantes instrumentos?
G. F. – Sim, fui eu que compus tudo. Há vários bateristas de jazz que já o fizeram, e isso, para mim, serviu como grande inspiração. Mas não é o que vamos fazer no concerto de lançamento, até porque convidámos o Alexander von Schlippenbach, que tem 81 anos. Eu não tinha lata para lhe pedir para tocar o meu álbum. Para mim, ele é a única pessoa viva que pode tocar Thelonious Monk, que tem inclusive um disco chamado Monk’s Casino em que ele toca a discografia completa do Thelonious Monk, com um quinteto. Portanto, eu dar-lhe os meus temas não achava bem, mas por isso vamos tocar Monk à la Volúpias. A verdade é que nós nunca vamos tocar aquele disco, especialmente ao vivo. Eu não posso ir para um palco tocar temas de um minuto e meio. Neste sentido, a própria banda vai ter de começar a desbloquear esse raciocínio e a pensar como é que podemos pegar naquele universo e adaptar a cada situação. Queremos respeitar aquele universo, e acho que o Schlippenbach tem essa característica porque ele vem do free mas tem um lado lírico, cerebral e também contido.

G. – É um disco que até pelo nome que atribuíste aos temas tem bem presente a vivência da cidade de Lisboa. Foi esse o mote?
G. F. – Foi um período difícil, em que tinha de mudar alguma coisa. Senti que estava sempre dentro do mesmo esquema, das mesmas rotinas, e o nome Volúpias das Cinzas surge como uma espécie de celebração, de algo que renasce, tendo a cinza como adubo. Nesse sentimento de frustração, isso significou levar-me para um sítio novo, o da composição, assumindo a posição de líder e não apenas de baterista. Não faço questão de o ser, até porque é muito mais confortável estar apenas lá atrás a acompanhar. É complicado ser-se líder e ter de comunicar de forma mais intensa com os restantes músicos. Quando a residência acabou, senti-me bem nessa posição, e é aí que retiro as cinzas, ficando apenas Volúpias. O nome das ruas surge porque quando estávamos a fazer a residência, o nome que dava aos temas era bastante aleatório e porque nada daquilo tinha ainda uma ligação emocional. Quando finalmente o disco estava pronto, faltava-me ter esses nomes. São nove músicas e durante a residência eu vivi no “Triângulo das Bermudas”, que foi na verdade o percurso de ir de casa até ao estúdio, que fica no Bairro Alto, duas ruas ao lado da ZDB. Quando fui contar, da porta de casa até ao estúdio e depois para a ZDB, são exatamente nove ruas. Foi sinal dos deuses e acabou por ser muito coerente com aquilo que procurava.

“Senti que estava sempre dentro do mesmo esquema, das mesmas rotinas, e o nome Volúpias das Cinzas surge como uma espécie de celebração, de algo que renasce”

G. – Mas embora tenha essa coerência que encontraste até mais por sorte, o disco acaba por ter, talvez de forma inusitada, uma grande ligação com a cidade e a vivência urbana. Lisboa ainda é uma cidade que te serve de inspiração?
G. F. – Completamente. Mesmo que o nome dos temas tenha vindo ter comigo, até isso é um símbolo disso mesmo. Como se fosse a cidade que tivesse vindo ter comigo e não o contrário. É um disco relacionado com muitos aspetos da minha vida aqui. Tem muito a ver com as amizades, as noites, as conversas. É óbvio que muitas coisas estão a mudar, mas eu ainda encontro muitos aspetos que me inspiram aqui.

G. –Na música existe cada vez mais uma tendência de convergência entre géneros. Isso também já está presente naquilo que fazes?
G. F. – É uma questão complicada. Acho que tem mais a ver com os indivíduos ou com as bandas enquanto entidade. O que quero dizer com isso é que nós vamos beber inspiração em todo o lado. Mas isso tem de ser apenas um dos lados da criação e nesse aspeto eu não gosto de fusão, porque fica em demasia, como uma revelação de gosto. Como artista, tenho sempre medo que aquilo que estou a fazer seja somente uma revelação do meu gosto. Quando os artistas imitam muito, eu percebo que a pessoa se sinta inspirada, mas está tão focado naquilo que ela gosta que acaba por trazer muito pouco verdadeiramente seu. Isso tem um lado muito próximo da fusão que eu acho perigoso. Cada vez mais, faz-me confusão ter essas referências, que vêm da inspiração noutros artistas, muito presentes.

G. – Dentro do jazz já existe hoje um entendimento maior do que representa o free e a improvisação?
G. F. – Sim, acho que continua haver algumas zonas mais enevoadas, mas comparando com quando comecei, há 15 anos, era muito mais dividido, naquela de “vocês para um lado, nós para o outro”. Antes isso era mal-entendido e criticavam-nos por usarmos a bandeira do jazz. Essas picardias existiam constantemente. Acho que o jazz passou por uma crise e sinto que muito pessoal se fartou de ouvir sempre os mesmos temas. Ao mesmo tempo, as novas gerações criaram músicos muito mais abertos à experimentação.

G. – Essa geração de novos talentos é sinal de que hoje somos um pólo mais cosmopolita para criação musical e artística?
G. F. – Acho que a Europa está muito saturada, falando no universo musical e artístico, ainda que o modelo europeu de tours esteja bem montado para bandas que vêm. No caso português, a vida é barata e tens mais tempo para te dedicares ao que interessa. Não é como alguns amigos que tenho em Londres ou em Paris, que são escravos da cidade. Aqui ainda consegues ter uma vida com charme e os artistas só conseguem viver quando a vida é barata.

G. – Depois deste disco, quais são os teus próximos projetos?
G. F. – Tenho algumas coisas na manga. Para já estou perto de acabar o meu disco a solo, que nada tem a ver com jazz, mas sim com uma experimentação que estou a fazer com amplificadores. É uma montagem de quatro concertos que dei, três dos quais no Teatro Maria Matos, em Lisboa, e um no Matadero, em Madrid. A partir de cortes, estou a inventar um disco, no qual também entra o Pedro Tavares com alguma eletrónica. Estamos a terminar a mistura para que em novembro possa enviar para editoras. Outra coisa que também poderá ser um disco é o trabalho que vou fazer agora no OUT.FEST, em que vou fazer um arranjo com a Camerata Musical do Barreiro, com 14 instrumentos de corda. Peguei num tema do Frank Sinatra e vou ter esses 14 músicos a tocar com o Miguel Abras, que irá cantar um poema dele. Estive também com o Elias Bender Rønnenfelt dos Iceage, temos uns encontros marcados, sendo provável que daí saia um disco.

G. –Podemos dizer que és cada vez menos um músico apenas de jazz?
G. F. – Sou sempre e vou ser sempre mais do jazz do que do resto. A verdade é que tem havido muito trabalho fora desse universo, mas porque eu gosto de fazer coisas diferentes. Agora, tenho a certeza de que nunca me vou conseguir soltar do jazz. O jazz é mais uma batalha de estúdio, de estar sempre a praticar e a ensaiar. O resto é mais fácil porque à partida são experiências mais modernas e comunicam mais facilmente com o público. O jazz é a eterna guerra, não dá para vacilar.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de António Júlio Duarte

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