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Estudo mostra que lítio e microplásticos “têm efeitos adversos a longo prazo na saúde animal e muito provavelmente humana”

Uma equipa de investigadores do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental revelou, pela primeira vez, os efeitos adversos da exposição a longo prazo a misturas de lítio e de microplásticos na saúde animal.

Texto de Isabel Patrício

Fotografia de Sören Funk via Unsplash

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Dos telemóveis aos medicamentos, o lítio e os microplásticos são hoje utilizados de modo vasto, mas os seus efeitos a longo prazo são nefastos tanto para a saúde animal, como “muito provavelmente” para a humana. Um estudo de uma equipa de investigação, liderada por Lúcia Guilhermino, mostra os efeitos preocupantes desses materiais em organismos com “funções ecológicas cruciais”.

Em entrevista por escrito, a também professora adianta as principais conclusões e deixa recomendações para mitigar os efeitos adversos do lítio e do microplásticos, esperando que esta investigação tenha também impacto nas políticas públicas adotadas. 

Este estudo foi desenvolvido por uma equipa de investigadores do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, em colaboração com a Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto e a Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário.

Gerador (G.) – O estudo da equipa de investigação que liderou mostrou os efeitos da exposição a longo prazo a concentrações relevantes de lítio e microplásticos na chamada pulga da água. Antes de mais, porque decidiram fazer esta análise?

Lúcia Guilhermino (L. G.) – Tendo em consideração a vasta utilização de lítio e plásticos pela sociedade atual – que tem resultado na contaminação do ambiente por estas substâncias –, a qual se prevê que continue a crescer consideravelmente a nível global, e os riscos potencialmente resultantes para a saúde animal, ambiental e humana, os objetivos principais do estudo foram investigar os efeitos tóxicos resultantes da exposição a longo prazo (crónica) a concentrações ambientalmente relevantes de lítio e misturas de lítio e microplásticos em populações da pulga da água, daphnia magna. Esta espécie é largamente utilizada como modelo em estudos ambientais e é também um ótimo modelo para investigar potenciais efeitos noutros animais, incluindo nós humanos. Foram investigados efeitos no desenvolvimento, reprodução e no crescimento populacional.

G. – O vosso estudo mostrou um decréscimo na população da pulga da água associado ao lítio e aos microplásticos. Qual a relevância da pulga da água para o meio ambiente?

L. G. – As populações de daphnia magna contribuem para a biodiversidade global, desempenham funções ecológicas cruciais em muitos ecossistemas de água doce e serviços da maior importância para a nossa sociedade. Por exemplo, filtram a água e controlam as populações de fitoplanct, incluindo espécies produtoras de toxinas perigosas para a saúde humana, contribuindo significativamente para a boa qualidade da água, são presas de várias espécies de peixes e outros animais, incluindo muitas que são usadas para alimento da população humana, entre outros. Assim, as populações de daphnia magna e outros animais zooplanctónicos são fundamentais para se atingirem os objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas. A redução das populações de daphnia magna e outros organismos zooplanctónicos tem implicações negativas para a biodiversidade, para os serviços dos ecossistemas, facilita o aparecimento e propagação de doenças favorecidas por água de baixa qualidade, pelo que pode ter impactos adversos na saúde global.

G. – Os resultados podem ser extrapolados para outros animais? Que sinais deixam em relação aos humanos?

L. G. – Sim, os resultados podem ser extrapolados para outros animais, diretamente ou com recurso a ferramentas complementares, por exemplo, modelação, dependendo dos objetivos e das espécies em causa. A daphnia magna é usada como modelo para outras espécies, por exemplo, na avaliação de risco de agentes químicos para o meio aquático, como modelo em estudos ecológicos, para uma primeira avaliação da toxicidade para mamíferos, incluindo humanos. Por exemplo, como daphnia magna tem um sistema nervoso bastante desenvolvido e o seu funcionamento tem muitas semelhanças com o nosso, é também um excelente modelo para estudos de neurotoxicidade e outros estudos biomédicos. Também é muito útil para investigar potenciais efeitos de contaminantes ambientais, novas substâncias e materiais, por exemplo, fármacos, a nível da reprodução, do desenvolvimento e ao longo de várias gerações. Os resultados indicam que a exposição a longo prazo (ao longo da vida) a concentrações de lítio e misturas de lítio e microplásticos que existem já hoje no ambiente tem efeitos adversos na saúde animal e muito provavelmente também humana, podendo afetar negativamente o desenvolvimento, crescimento e a reprodução.

G. – Estes resultados deveriam servir como incentivo à procura de alternativas ao lítio, por exemplo, na eletrónica?

L. G. – Certamente que sim. O lítio é usado também em muitas outras aplicações, por exemplo, no tratamento de doenças e na produção de energia, setores em que o seu uso se prevê aumentar também consideravelmente. Enquanto novas tecnologias não estão disponíveis, é importante tentar diminuir a contaminação ambiental por lítio, por exemplo, melhorando as tecnologias de extração e transformação, incluindo no que diz respeito ao seu impacto ambiental, e intensificação da reutilização do lítio, numa perspetiva de economia circular, aumentando a eficácia da recolha de produtos descartados com vista à sua reciclagem, entre outras possibilidades. Por exemplo, algo em que todos podemos contribuir é na redução da utilização de produtos e equipamentos que contêm lítio e prolongando o seu tempo de utilização. 

G. – Quais os riscos associados ao lítio? 

L. G. – O nosso estudo e outros publicados na literatura, incluindo estudos em pessoas que estão a ser tratadas com lítio, demonstram que a exposição a concentrações aumentadas de lítio tem efeitos adversos na saúde animal e humana. São conhecidos efeitos adversos no sistema nervoso, reprodução, cardiovascular, endócrino, entre outros, e está documentada mortalidade em humanos, por exemplo, em doentes sob terapia com lítio. Além disso, quer os animais, quer as plantas acumulam lítio, pelo que a exposição através da alimentação pode também ser considerável. 

G. – A consciência desses riscos deveria mitigar o entusiasmo relativamente recente em relação à presença desse material em Portugal?

L. G. – A exploração de lítio deve ser muito bem ponderada, considerando os riscos e os benefícios. Isto significa que os riscos para a saúde do ambiente, animal e humana devem ser avaliados numa perspetiva one health. Devem ser também considerados os impactos noutros recursos essenciais (como a qualidade da água e a biodiversidade), noutras atividades na área (por exemplo, turismo, agricultura e produção animal), entre outras vertentes da maior importância. Naturalmente que o tipo de exploração e a forma como os seus riscos podem ser mitigados é sempre um aspeto crucial.

G. – Quanto aos microplásticos, esta é uma questão que tem conseguido mais atenção da indústria nos últimos anos. Mas, antes de mais, que perigo à vida humana está associado a este material?

L. G. – Os microplásticos têm diversos tipos de efeitos adversos em animais que dependem do tipo de partículas, incluindo tamanho, composição química, microrganismos presentes, concentração a que ocorrem, entre outros aspetos. Em animais, os microplásticos podem causar neurotoxicidade, toxicidade reprodutiva, diminuir o crescimento, causar genotoxicidade, entre muitos outros efeitos, alguns dos quais se transmitem de geração para geração, e que podem levar à morte. Os efeitos em humanos não são conhecidos, embora naturalmente se pense que a exposição ao longo da vida a microplásticos possa provocar pelo menos alguns dos efeitos que têm sido documentados em animais.

G. – Quais as principais fontes de microplásticos?

L. G. – Os microplásticos existentes no ambiente resultam em grande parte da fragmentação sucessiva de plásticos durante a sua presença no meio ambiente. Os restantes são partículas já com dimensão na escala micro ou nano produzidos já nessa forma para serem utilizados em diversos produtos (por exemplo, cosméticos e produtos de higiene pessoal, produtos de limpeza e eletrónica). As fontes são muitas. Por exemplo, indústrias e atividades, em que são produzidos e ou utilizados, como a indústria de plásticos, automóvel, eletrónica, agricultura, pesca, turismo. E também efluentes industriais e urbanos, e descarte inapropriado diretamente no ambiente.

G. – Que retrato faz do que tem sido feito para mitigar a libertação destes microplásticos?

L. G. – Têm sido feitos muitos progressos em diversas vertentes, por exemplo, legislação e regulamentação, reciclagem, investimento no desenvolvimento de potenciais alternativas, investigação sobre o paradigma e os seus efeitos, tomada de consciência pelos cidadãos, entre outras. Infelizmente, ainda estamos longe de ter conseguido reverter a tendência do aumento da poluição por plásticos, e a pandemia atrasou o processo, incluindo no desenvolvimento de tecnologia e outras soluções.

G. – Qual a relação do problema do lítio com o problema dos microplásticos?

L. G. – O lítio e os microplásticos têm uma grande mobilidade no ambiente e ocorrem globalmente, pelo que em geral os organismos e as populações humanas estão expostas a estes agentes ao longo da sua vida. Além disso, são usados simultaneamente em muitas indústrias e em produtos que milhões de pessoas usam diariamente, para além de algumas regiões serem naturalmente ricas em lítio, e este ser usado em medicamentos largamente utilizados. Assim, em diversas regiões, os animais e outros organismos, e as populações humanas estão simultaneamente expostas a níveis aumentados de ambas as substâncias, principalmente através da água, ar e alimentos contaminados.

G. – Como é que as alterações climáticas afetam/influenciam as consequências identificadas neste estudo?

L. G. – Num estudo que fizemos recentemente, verificámos que o aumento da temperatura da água ou da intensidade luminosa aumentaram os efeitos tóxicos do lítio e das misturas de lítio e microplásticos. Em concentrações ambientalmente relevantes, a reprodução foi completamente inibida, levando as populações à extinção. 

G. – Quais os próximos passos para esta equipa de investigação?

L. G. – Nesta altura, estamos a continuar os estudos sobre os efeitos adversos de alterações devido a mudanças climáticas globais, em misturas de microplásticos, lítio e outros contaminantes ambientais.

G. – Estes resultados podem servir de base a políticas públicas e a mudanças na indústria? De que modo?

L. G. – Sim, esperamos que o nosso estudo possa contribuir para melhorar as políticas públicas, gestão ambiental e saúde e para estimular o desenvolvimento de novas tecnologias, conforme tem vindo a acontecer com os estudos sobre microplásticos efetuados por investigadores de diversos países, que têm sido um contributo decisivo para a evolução positiva que se tem verificado em várias vertentes, por exemplo, restrições ao uso de microplásticos e plástico, monitorização da poluição do lixo marinho, inovação na indústria, consciencialização do pública e ações de recolha de lixo no ambiente.

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