De 18 de Outubro a 20 de Dezembro, a exposição Ver as vozes dos artistas #2, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez e em parceria com a Saco Azul Associação Cultural & Maus Hábitos, habitará as ruas do Porto.

A primeira edição de Ver as vozes dos artistas, que decorreu de 22 de Junho a 29 de Setembro de 2018, surgiu do convite da Saco Azul Associação Cultural para realizar uma exposição no metro do Porto. Neste ano, manteve-se o desejo de continuar a explorar o espaço público e as bandeiras são o novo suporte, nas quais as obras de trinta artistas, nacionais e internacionais, se encontram impressas e levantadas pelos mastros da cidade.

A reflexão impulsionadora da exposição centra-se na presença dos artistas no espaço público e na forma como a arte contemporânea é olhada. “Se temos uma experiência de relação com a arte contemporânea mais ou menos codificada, quando vamos a uma galeria ou a um museu, sabemos o que esperamos, que os objectos que encontramos estão nesse contexto por uma circunstância de escolha, de colecção. Mas, numa circunstância como a actual, podemos privilegiar um encontro anónimo com as obras de arte”, refere Miguel Pérez. O curador chama a atenção para outro aspecto que concorre para o diagnóstico acerca da presença dos artistas no espaço público, focando o espaço mediático: “Hoje não se pergunta nada aos artistas e aos intelectuais quando há um tema para debater. Não são chamados a dar qualquer tipo de opinião”. Assim, encara Ver as vozes dos artistas como uma presença. Sendo presença num espaço que, tantas vezes, é de ausência, é resistência.

Miguel convidou artistas com os quais trabalhou ao longo dos seus trinta anos de carreira: Albano Afonso, Ana Cardoso, André Romão, Ângela Ferreira, Anna Barham, Arlindo Silva, Augusto Alves da Silva, Christian Jankowski, Costa Vece, Dalila Gonçalves, Dayana Lucas, Gert Robijns, Isabel Simões, João Marçal, Langlands & Bell, Lucia Koch, Mafalda Santos, Marlena Kudlicka, Pepo Salazar, Priscila Fernandes, Rafel G. Bianchi, Ruben Santiago, Sandra Cinto, Sónia Almeida, Susana Mendes Silva, Tere Recarens, Veit Stratmann, Vittorio Santoro, Vicente Vásquez e Usué Urrieta. O conhecimento prévio do trabalho de cada um foi um critério de escolha, o qual contribuiu para um outro, a confiança. Esta deveria ser partilhada entre o curador e os artistas, uma vez que há uma distância geográfica, pois, por questões orçamentais e logísticas, alguns criadores e obras não estão presentes. Estas últimas, por via de uma troca digital, foram impressas nas bandeiras. Desta forma, Miguel sublinha a importância, por parte dos artistas, de confiar no rigor com que as suas criações são tratadas. Começou por lhes lançar algumas questões que os enraizariam na ética desta estética, as quais se centravam na sua percepção do espaço público, enquanto intervenientes culturais, na sua interacção nesse espaço, promovendo uma consciencialização de uma prática institucional e codificada, e na necessidade de “quebrar essa rotina de trabalhar com um contexto mais protegido, mais estratificado, em termos da recepção”.

“Estado Bruto”, de Lúcia Koch

A bandeira é um objecto simbólico de identificação. Ao substituir-se este símbolo por uma obra de imagem ou texto, a bandeira adquire um carácter disruptivo. A leitura deixa de ser imediata. O definido perde-se e rasgam-se possibilidades. A este propósito, o curador recorda uma imagem que ouviu num programa de rádio: “As bandeiras marcam territórios e fronteiras, mas não há nada mais livre do que o vento que as faz mover. A liberdade do vento que não tem fronteiras nem demarca territórios”.

A arte permite o exercício de reinventar e, consequentemente, impedir o fechamento, a limitação. Por isso, há que questionar o quotidiano, fintar o espectável. A dimensão política desta iniciativa tem que ver com “a presença e a existência”. No olhar de Miguel, “um artista, quando se torna político num sentido panfletário, normalmente perde porque fica a favor de um regime ou sistema ideológico. Hoje em dia, o maior gesto político dos artistas é a sua perseverança e resiliência perante uma normalização da sociedade, que já deixa pouco espaço para a criação artística. Por isso, a bandeira aqui é essa presença de uma criação contemporânea no espaço público, para que deixe de ficar abafado por outro tipo de imagens que nos rodeiam, e que tomam conta de tudo, que são as imagens banais, do digital, da publicidade”.

“Machine Can Come”, de Pepo Salazar

O projecto procura “estimular a curiosidade das pessoas”. Para isso, também concorre a aplicação desenvolvida, através da qual os visitantes das suas novas velhas ruas poderão encontrar mais informações sobre os artistas, cujas obras se concentram na Baixa do Porto, nos seguintes pontos: Associação dos Industriais da Construção Civil e das Obras Públicas; Associação dos Proprietários e Agricultores do Norte de Portugal; Associação PT de Ourivesaria; Ateneu Comercial; Casa da Beira Alta; Casa da Madeira; Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados; Culturgest Porto; EB Carlos Alberto; EBS Rodrigues de Freitas; ESAP; FBAUP; Grande Hotel do Porto; Porto Old Town; Ordem dos Arquitectos SRN; Orfeão do Porto e Universidade Lusófona do Porto.

No dia 18 de Outubro, pelas 18h00, Miguel guiará uma visita à exposição, cujo percurso sugerido tem início na Ordem dos Arquitectos SRN, passando pela Associação dos Industriais da Construção Civil e das Obras Públicas, pelo Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados, pela Culturgest Porto e pelo Orfeão do Porto, terminando Ateneu Comercial & Maus Hábitos.

É importante que os nossos passos nos dêem a ver as vozes dos artistas, porque, na opinião do curador, “um dia arrepender-nos-emos de ignorá-las”. Ignorá-las, deixar de as ver, é desenvolver um estar no mundo acrítico, deixando de estar no mundo.

Texto de Raquel Botelho Rodrigues
Cartaz e imagens cedidas pela assessora de imprensa, Beatriz Vasconcelos

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