Criada em 2010, a companhia Fértil Cultural propõe-se a encarar o teatro e a antropologia como “duas formas de olhar para o ser humano como produtor de cultura e de questionar a sua condição de vida”. Talvez Um Dia é a produção mais recente da associação cultural e apresenta-se como o último episódio de uma trilogia sobre a vida quotidiana.

Com estreia marcada na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão a 27 de março, no Dia Mundial do Teatro, a peça “tem que ver com a esperança e com a nossa inação de transformar as coisas, culpando sempre o outro daquilo que nos tem vindo a acontecer”, explica Rui Alves Leitão, dramaturgo e encenador. Na interpretação, o espetáculo conta com Neusa Fangueiro, Tanya Ruivo e Maria Quintelas.

A menos de um mês da estreia, o grupo fala da origem da associação e das dificuldades de se fazer nascer uma companhia, do estado da Cultura e das políticas municipais, da importância dos públicos mais jovens e das expetativas do futuro.

Gerador (G.) – Talvez Um Dia estreia no final do mês, na Casa das Artes de Famalicão. O que é que podemos esperar desta obra enquanto espectadores?

Rui Alves Leitão (R. A. L.) – Este é o último episódio de uma trilogia que começou em 2018 e que é escrita e encenada por mim. A trilogia aborda três áreas do nosso quotidiano: o primeiro episódio foi o Conversas de Esquina. Retratava duas senhoras que se cruzavam numa praça e que conversavam durante uma hora. Depois iam-se embora e, durante esse tempo, foram conversando sobre várias temáticas da vida quotidiana. O segundo episódio, chamado Os Velhos Não Vão De Férias, tinha que ver com a terceira idade, sobre quem se está a reformar. Supostamente deveriam estar a pausar as suas vidas, mas têm uma vida superativa porque ainda têm de trabalhar, ainda não conseguiram a reforma, ainda têm de tomar conta dos filhos, que estão desempregados, e muitas vezes dos netos. Já este último, Talvez Um Dia, tem que ver com a esperança e com a nossa inação de transformar as coisas, culpando sempre o outro daquilo que nos tem vindo a acontecer. Normalmente, temos dois grandes culpados, que é Deus e o Governo. Isso não é abordado diretamente nesta peça, mas é abordado apenas o sentimento em si. Existe a esperança de que as coisas mudem, mas, no fundo, as personagens pouco ou nada fazem para que isso realmente aconteça. Há essa não-ação por parte das personagens. As três personagens são as mesmas desde o primeiro episódio, mas em tempos e espaços completamente diferentes. E até nas suas formas de interpretação são diferentes. Quando começávamos um novo episódio, sentimos a necessidade de mudar coisas das personagens e trabalhar ainda mais de uma forma extra quotidiana.

G. – Como o Rui referiu, esta trilogia é focada na vida quotidiana do ser humano. É importante colocar os espectadores a refletirem sobre a condição humana?

R. A. L. – Mais do que fazer pensar e refletir, é que o nosso trabalho inquiete. O propósito é que as pessoas saiam de lá não da mesma forma como entraram e que questionem os seus hábitos. A Fértil também é um projeto que nasce do ponto entre a Antropologia e o Teatro, portanto esta questão do quotidiano e vida pessoal é sempre importante nas nossas criações. Ou seja, partimos sempre daquilo que é o nosso mundo à volta, tentando destruir ou transformar num projeto artístico que depois devolvemos à comunidade numa ou de outra forma. Portanto, nós precisamos de pelo menos inquietar as pessoas. Se elas vão pensar ou refletir, já é um problema delas. Aí, nós já não conseguimos chegar. Mas em boa verdade, nos dois últimos episódios, houve pessoas a questionar coisas muito concretas.

G. – Pegando nessas intervenções das pessoas, como é que foi o feedback do público?

R. A. L. – Vamos sempre tendo feedback e tem sido muito positivo por parte do público geral. Há uma aproximação muito grande, mesmo quando a linguagem tendeu para uma linguagem mais surrealista. O sentimento de cumplicidade do público para connosco e o sentimento de pertença das histórias ao público têm sido dos feedbacks mais claros. Depois temos tido esse feedback de pessoal mais técnico ligado ao teatro sobre algumas questões que fomos tentando desenvolver e evoluir, na parte da escrita e encenação, porque é um projeto que nunca acaba. Estamos sempre a tentar fazer muito melhor. Mas a recetividade por parte do público, quer em cidades, quer em freguesias por onde andamos em itinerância, tem sido muito interessante e muito diferente, dependendo do espaço e do tipo de público.

G. – A Fértil foi criada em 2010. Olhando para trás, sentem que foi uma boa altura para criar esta associação cultural?

R. A. L. – Não, porque estávamos a viver a maior crise económico-financeira após a petrolífera de 1979. Estávamos num momento muito crítico. Eu lembro-me muito bem de que na nossa segunda criação, Mineiro, fomos fazer uma residência artística em Tondela. Nessa mesma altura em que eles investiram no nosso trabalho, eles tinham despedido várias pessoas da equipa, tinham tido cortes de cerca de trinta por cento por parte do ministério da Cultura. Portanto, foi uma época malévola.

G. – E antes disso, como é que surgiu esta ideia de criar a companhia?

R. A. L. – Isso já é mais antigo.

Neusa Fangueiro (N. F.) – Sim, já é mais antigo. Foi uma ideia partilhada com a Tanya, que está aqui, porque na altura estudamos juntas. Estávamos a acabar o curso na Balleteatro, e o Rui estava do outro lado a acabar Antropologia na Fernando Pessoa. E surgiu a ideia de nós complementarmos a Antropologia com o Teatro e trabalharmos nesta temática em conjunto numa companhia, em espetáculos, trabalhos artísticos… E a ideia ficou a fermentar desde 2004/2005. O Rui foi trabalhar noutras coisas, eu noutras companhias… E em 2010, surgiu essa necessidade de finalmente realizarmos a ideia e o sonho que tínhamos de formar uma companhia e uma associação cultural. Coincidiu com a austeridade, mas resistimos e cá estamos. Fazemos dez anos este ano. Foram dez anos de sangue, suor e lágrimas.

G. – E o balanço é positivo?

N. F. – Sim, sim, sim.

G. – Nunca pensaram em desistir?

N. F. – Claro!

R. A. L. – Mais ou menos três/quatro vezes por mês (risos). Tivemos apoio da DGArtes em 2018 e em 2019, e agora estamos outra vez sem apoio. Mas até 2017, eu diria que nós pensávamos desistir três ou quatro vezes por mês. A nossa grande sorte e mais-valia foi que tivemos sempre a coragem de nos levantarmos após cada uma das vezes que pensamos em desistir. Mas sim, foram momentos financeiramente difíceis, principalmente os primeiros cinco/seis anos em que muitas das vezes nós não conseguimos pagar os nossos próprios salários para conseguirmos pagar aos colaboradores que estavam a trabalhar connosco. No entanto, o propósito da Fértil em trabalhar em vilas e cidades onde a oferta cultura não é tão elaborada era-nos tão importante que nos permitiu ver sorrisos, inquietações, pessoas, arte contemporânea, teatro, música… E toda essa construção foi-se fazendo. Portanto, esta relação simbiótica da Fértil com a comunidade não está só no nosso texto de apresentação, essa é a nossa realidade. E isso é que nos fez levantar os braços e o corpo para continuar.

G. – Por falar em itinerância, o acesso à cultura ainda é muito desigual?

R. A. L. – Completamente. Neste momento, por exemplo, os apoios bienais da DGArtes na região Norte foram todos para o Grande Porto. Não há nenhum apoio de fora. Isso explica bem a assimetria que existe. Temos duas estruturas no distrito de Viana do Castelo com apoio, uma estrutura em Braga, uma estrutura em Vila Real e nenhuma em Bragança. Portanto, esta assimetria – embora se discuta na Assembleia da República –, pelo modelo que está a ser feito não está a acompanhar estruturas como a Fértil a ter acesso a apoios financeiros para desenvolver o seu trabalho.

G. – Além das limitações financeiras, de que a maior parte das companhias falam, quais é que são as maiores dificuldades de uma companhia local e descentralizada?

R. A. L. – Felizmente estamos numa fase positiva, e a Fértil vai a reboque dessa fase positiva. Por um lado, a Fértil tem problemas financeiros numa série de projetos, por outro, tem projetos autofinanciados e consegue ter uma boa gestão dos mesmos. Sobre as outras dificuldades que temos, eu diria que pode ser o facto de nós não fazermos parte da crítica de teatro porque estamos em Famalicão. Os nossos espetáculos, por regra, não vão ao Porto e a Lisboa porque, quando lá vamos, tem de ser um investimento nosso. E quando isso acontecer, os jornalistas não vão lá porque também não são nossos amigos… Portanto, a crítica de teatro não assiste a nada que esteja fora dos centros urbanos. A outra grande dificuldade que eu acho que acontece é não existir um plano ou uma política cultural municipal bem definida na maior parte dos municípios. A maior parte das políticas culturais são avulsas. As coisas vão acontecendo porque acontecem, não há uma sistematização, o que prejudica muito um projeto itinerante como a Fértil. Temos vindo a criar boas parcerias com outros municípios, mas tudo poderia ser muito mais fácil se houvesse uma política cultural nesses municípios.

N. F. – É necessária uma política cultural que gere público e eduque o público. Se tu tens uma coisa a acontecer esporadicamente, tu não crias o hábito e então as pessoas não procuram aquilo que lhes interessa. Não existindo uma regularidade dessa oferta cultural, as pessoas desistem, não procuram, não vão, não criam hábitos. Depois é mais complicado, porque estamos a falar em números e, se tu apresentas um espetáculo em que não tens público, quem estiver a programar não vai programar mais um determinado tipo de espetáculo porque não tem público, porque não é rentável. Não há um hábito, uma rotina, não há muita oferta. As pessoas não procuram, não sabem, não conhecem e muitas vezes desistem. E acho que essa desistência tem vindo a acontecer cada vez mais.

Tanya Ruivo (T. R.) – E não tem de render. Isto é como a Educação e como a Saúde.

G. – Podíamos falar numa questão de serviço público, é isso?

R. A. L. – Sim, porque as políticas culturais nos municípios e nas autarquias normalmente são para massas. Estão muito ligadas ao santo da terra, às romarias da terra, a grandes concertos, a grandes espetáculos… E depois os espetáculos que tenham 100 pessoas não interessam, porque num concelho onde haja 50 mil habitantes, fazer um espetáculo com 100 ou 200 espectadores quer dizer que não interessa à população, o que é errado.

G. – E acham que essa mudança deveria passar primeiro pelo currículo escolar, por exemplo?

R. A. L. – Eu acho que nesse ponto já se trabalha muito bem. O trabalho já é feito desde 1974.

N. F. – O que não há é continuidade. Veem os espetáculos nas escolas, mas fora das escolas já não têm interesse em ver espetáculos. Por exemplo, temos um centro de surrealismo português em Famalicão, a Fundação Cupertino de Miranda, e se não forem pela escola, os miúdos não procuram nem conhecem.

R. A. L. – Aliás, eu até estava a falar errado. O trabalho está a ser bem feito, mas em só dois momentos da escolaridade, que é na primária e no 3.º ciclo, que é quando eles são obrigados a ver teatro. E veem às vezes coisas que não lembram ao diabo. Depois, no 2.º ciclo não veem nada e no secundário têm de estudar para os exames nacionais para entrar na universidade e deixam de ver outra vez. Vão para a universidade e continuam sem ver teatro e aquilo acaba por apagar-se das suas memórias. Agora há uma nova vaga das pessoas da minha idade, que já têm filhos, e que têm a necessidade de levar os filhos ao teatro. Aqui já estamos a bater noutros públicos, mas essas crianças vão passar exatamente pela mesma coisa: vão ao teatro na primeira infância e na primária, depois deixam de ir, depois voltam a ir porque estudam teatro em Português e vão ver coisas que às vezes são assustadoras e ficam a odiar teatro e muito bem…

T. R. – E “muito bem” não, porque quando vês um filme que não gostas não deixas de ver filmes…

R. A. L. – Mas todo o sistema de os obrigar a ver coisas maçudas, que não estão adaptadas às suas idades, cria antíteses. É como quando muitos miúdos deixam de estudar música no 2.º ciclo porque o ensino obrigatório de música não resulta naquele sistema.

G. – Deixando agora a parte racional de fora, a Fértil privilegia as criações originais. A criatividade é um recurso que se esgota?

R. A. L. – Não, porque o mundo não para. Como nós vivemos daquilo que a sociedade nos dá, nós apanhamos muitas surpresas todos os dias. Quando parto para a escrita, parto de coisas que a comunidade me dá e a comunidade não me vai parar de dar porque isso nunca aconteceu na história da humanidade. Eu julgo que só terei essa quebra da criatividade ou por doença ou porque o planeta explodiu. Antes pelo contrário, tenho é dificuldade até de expor tudo aquilo que penso.

G. – E alguém que considere que não tenha criatividade pode trabalhar no teatro?

N. F. – Eu acho que toda a gente tem criatividade. Muitas das vezes, nós só precisamos de acordar a criatividade. Ela adormece muitas vezes por causa da castração social, porque quando somos crianças a nossa imaginação está sempre a criar. Isso é a coisa que mais invejo de já não ser criança. Nós depois somos castrados socialmente: porque não temos de pensar assim, porque isso é infantil, porque tens de crescer, porque tens de ter responsabilidades… E adormecemos a nossa criatividade. Há uma frase que eu digo num espetáculo infantil que é: “O ser humano tem uma coisa que é a criatividade e a criatividade promoveu os nossos antepassados de homens das cavernas a exploradores do espaço”. Isso diz tudo.

G. – Quando se interpreta uma personagem, o ator tem de despir da sua personalidade e encarar a personagem como se fosse outra pessoa ou a personalidade do ator transparece sempre na personagem?

Maria Quintelas (M. Q.) – Eu acho que isso pode depender de ator para ator. Cada um terá o seu método. Haverá uns que precisarão de se despir para interpretar alguém. Haverá outros que partem de si para construir uma personagem. Mas isso depois vai depender muito de cada um.

T. R. – Sim, e o ator vai estar sempre lá. Mesmo em personagens que não tenham nada que ver comigo, eu vou encontrar sempre ligações. É o exemplo desta personagem: eu vejo-me muito nela em certas partes, noutras não. Embora não seja eu, eu vou estar sempre lá. Eu não consigo desligar-me totalmente. Parece que há sempre ali um bocado de Tanya.

M. Q. – Não querendo responder por ninguém, à partida as personagens são pessoas, são seres que respiram, que têm pulsação… E por muito que tentes contrariar, acabas sempre por te rever, nem que seja numa única fala. Pessoalmente, parece-me muito justo partirmos de nós próprios. Há muitas vezes esta coisa que os diretores de atores dizem, que é “sai fora da caixa”, “desafia-te”. Mas para sair fora da caixa, preciso de conhecer aquilo que está dentro da caixa, preciso de me conhecer.

G. – Há algo planeado para o futuro?

R. A. L. – Estamos a preparar o plano para 2022-26. Temos de andar com estes anos todos de avanço para submeter as candidaturas a concurso no ministério. Temos já o plano feito para o final deste ano e de 2021, que tem muito que ver com o plano que não foi aprovado com pela Direção-Geral das Artes… Não foi é financiado, porque foi aprovado e com boa nota. Não tivemos foi acesso ao dinheiro porque ele esgotou antes do nosso tempo. Mas vamos tentar manter o plano, não na íntegra, mas naquilo que conseguirmos. Temos estreias no próximo ano de um novo espetáculo que não tem nada que ver com esta trilogia. O plano 2022-26 também já está esboçado, mas até agosto estará definido. Portanto, nós não vamos parar de fazer teatro, até porque não sabemos fazer mais nada.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia de Ana de Sousa Vieira

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