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Opinião de Shahd Wadi

Shahd Wadi é Palestiniana, viajando entre investigação, tradução, escrita, curadoria e consultorias artísticas. É mestre e doutorada em em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra. Na sua investigação aborda as narrativas artísticas no contexto da ocupação israelita da Palestina e considera as artes um testemunho de vidas.

Gaza Perante a História

Nas Gargantas Soltas de hoje, Shahd Wadi oferece uma reflexão sobre o livro Gaza Perante a História.

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“Toma nota! Ao alto da primeira página.

Eu não odeio os homens. 

E não ataco ninguém mas

Se tiver fome

Comerei a carne de quem violou os meus direitos

Cuidado! Cuidado

Com a minha fome e com a minha raiva.”

Talvez estes versos, do poeta palestiniano Mahmoud Darwish, escritos em 1964, possam ser uma tradução perfeita do que o autor italiano Enzo Traverso designa como “a força do desespero”, no seu livro Gaza Perante a História, que caba de ser publicado em português, traduzido por Pedro Morais. Junta-se assim a outros títulos de alma palestiniana editados pela Antígona, como, por exemplo, Rifqa, de Mohammed El-Kurd, publicado no ano passado.

Em Portugal, poucos foram os livros publicados após 7 de outubro de 2023 que abordam os acontecimentos à volta deste dia. Destacam-se Porque Teme Israel a Palestina?, de Raja Shehadeh (Ideias de Ler), e Gaza Está em Toda a Parte, de Alexandra Lucas Coelho (Caminho). Estes livros confrontam o coro mediático que tem reproduzido, sem questionamento, a narrativa hegemónica tendenciosa. Como estes livros, o de Traverso responde ao desafio que Edward Said fez aos intelectuais há muitos anos para escrever textos como “contraponto” ao consenso ocidental.

Este livro olha para o 7 de outubro, como um momento que recordou ao mundo — que tinha estado a invisibilizar os palestinianos — que este povo não desapareceu. É particularmente vigoroso o capítulo “Violência, Terrorismo, Resistência” — presente na versão inglesa, mas não na italiana —, onde o autor afirma que nada pode justificar o que aconteceu nesse dia, mas que “deve ser analisado, e não apenas condenado.” 

Muitos apoiantes e conhecedores da causa palestiniana em Portugal também condenaram de imediato as ações do dia 7 de outubro — ou simplesmente ignoraram-nas, como se não tivessem acontecido. Este livro opta por analisar os acontecimentos a partir de um enquadramento histórico e político: “foi uma consequência extrema de décadas de ocupação, colonização, opressão e humilhação.” Relembra-se que não se pode comparar a violência de um movimento de libertação nacional à de um exército de ocupação. Esse é um dos propósitos mais interessantes do autor deste livro, cujo trabalho se centra na história do judaísmo, do Holocausto, dos totalitarismos e das revoluções. Fica a dúvida: se o mesmo livro fosse escrito por um historiador palestiniano, não cairiam sobre ele as habituais acusações de pró-terrorismo e antissemitismo?

O historiador israelita Ilan Pappé já tinha recorrido a eventos históricos na Palestina, e no mundo árabe em geral, para falar 7 de outubro, mas Traverso vai mais longe: recorre à história do Ocidente, dos movimentos de libertação europeus até à própria história do judaísmo e do Holocausto. O livro cita Jean Améry, que descreveu como a “violência” de um prisioneiro de Auschwitz podia ser uma forma de afirmar a sua humanidade: “Dei uma forma social concreta à minha dignidade desferindo um murro na cara de uma pessoa.” Este último recorre a Frantz Fanon, que fala da necessidade de transformar a violência vingativa numa violência revolucionária e humana, lembrando que “a violência dos oprimidos ‘desintoxica’.”

Para quem acompanha de perto a questão palestiniana, Gaza Perante a História talvez não traga muitas informações novas. Mas oferece uma perspetiva singular: uma leitura ancorada na história do ocidente, inclusive na memória do Holocausto. Cita uma carta aberta assinada por muitas das mais importantes figuras da história judaica, que faz uma pergunta fundamental: «De que serve hoje a memória, se não ajuda a travar a produção de morte em Gaza e na Cisjordânia?» O livro lembra que interpretar “o Holocausto como acontecimento único” cria “uma hierarquia entre as vítimas”, esquecendo que todos horrores históricos são, de facto, únicos para quem os vive e para quem os herda.

  E assim, a maioria dos chefes de Estado ocidentais apoiam Israel — não só o veem como parte integrante do Ocidente, como o seu símbolo.  Os israelitas passaram a pertencer ao Ocidente, independentemente das suas origens étnicas. Países como a Alemanha transformaram a luta contra o antissemitismo numa arma apontada aos imigrantes e aos muçulmanos. Em alguns países, a luta contra o antissemitismo tornou-se na bandeira que reúne os movimentos de extrema-direita, para combater o “islamismo bárbaro”. 

O livro começa com outros versos do mesmo poeta com que iniciei esta reflexão. Um poema que resume o próprio livro, enquanto Gaza explode declarando que merece viver: 

“Os inimigos podem triunfar sobre Gaza (o mar bravo pode triunfar sobre uma ilha onde cortaram todas as árvores).

Podem quebrar-lhe os ossos.

Podem implantar tanques nas entranhas das suas crianças e mulheres. Podem atirá-la ao mar, à areia ou ao sangue.

Mas ela não repetirá mentiras nem dirá «sim» aos invasores.

Continuará a explodir.

Não é morte nem suicídio. É a maneira de Gaza declarar que merece viver.”

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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