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Opinião de João Duarte Albuquerque

Fabricado no Barreiro, 37 anos, pai de duas doses de noites mal dormidas. Formado na área da Ciência Política, História e Relações Internacionais, ao longo dos últimos quinze anos, teve o privilégio de viver, estudar e trabalhar por Florença, Helsínquia e Bruxelas, para além de Lisboa. Foi presidente dos Jovens Socialistas Europeus e é, atualmente, deputado ao Parlamento Europeu.

Genocídio televisionado

Nas Gargantas Soltas de hoje, João Duarte Albuquerque fala-nos sobre a trajetória histórica do conflito israelo-palestino e do atual genocídio em Gaza.

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A 7 de outubro de 2023, os atos terroristas do Hamas vitimaram mais de mil pessoas, das quais cerca de 80% eram civis, muitas delas enquanto assistiam a um festival de música. Este atentado foi um dos mais violentos e mortais dos últimos anos contra Israel e a sua população. Em uníssono, a comunidade internacional condenou de forma inequívoca e veemente este ataque e solidarizou-se com Israel, apelando à libertação imediata das pessoas que haviam sido capturadas como refém pelo Hamas. Esta é, sem dúvida, uma das páginas mais sangrentas da história da região, mas está longe de ser a primeira página desta história com várias décadas de conflito e disputa entre ambas as partes. O que ela representa é um ponto de viragem na perceção pública das ações levadas a cabo por Israel no seu alegado esforço de autodefesa e que, ao longo do último ano, constituem o crime de genocídio.

A história do conflito israelo-palestino é marcada por dissensos no próprio entendimento dos direitos das partes. A criação do Estado de Israel após a Segunda Guerra Mundial está intimamente associada ao terrível genocídio de que os judeus foram alvo por parte da Alemanha nazi. Mas, a constituição deste Estado, em 1948, num território habitado em 95% por população árabe-muçulmana palestina, ocorreu à custa da expulsão dos seus habitantes e à sua divisão em dois espaços territoriais distintos, tal como definido pelas Nações Unidas. A Nakba – catástrofe, em árabe – como se referem os palestinos a este momento fundador da criação do Estado de Israel e à limpeza étnica que se lhe seguiu, continua até aos dias hoje. Fruto das várias guerras entre Israel e os seus vizinhos, a expansão da ocupação dos territórios inicialmente estabelecidos pela ONU não mais cessou. Do território inicial da Palestina, restam hoje duas pequenas parcelas, uma na Cisjordânia, outra na Faixa de Gaza.

Esta pequena resenha histórica, não é senão um retrato pálido de várias décadas de conflito e insuficiente para capturar a complexidade dos diversos acontecimentos que têm colocado em confronto Israel com os seus vizinhos. Mas serve para ilustrar como a violência de que temos sido testemunhas nos últimos 20 meses não tem apenas esta duração.

O que é hoje evidente, e que do ponto de vista político representa uma inversão da própria narrativa e argumentação oficial de Israel, é relativa à convivência entre os dois povos e à possibilidade de reconhecimento de dois Estados. Ao longo dos últimos quase dois anos, para além de ter dado continuidade ao projeto de expansão dos colonatos israelitas e de expulsão da população palestina das suas casas e territórios, o governo de Netanyahu, apoiado por partidos das correntes mais radicais e ortodoxas do judaísmo, tem levado a cabo um genocídio sobre o povo palestino. E esta não é uma acusação que se possa brandir com leviandade. Os factos, porém, deixam pouca margem para dúvida e várias organizações internacionais – de agências das Nações Unidas, à Amnistia Internacional ou a Human Rights Watch – e vários académicos – incluindo israelitas –, especialistas no tema, consideram hoje ser inequívoca a ideia de que as ações de Israel em Gaza constituem um genocídio.  Desde o dia 7 de outubro de 2023, naquilo que o Primeiro-ministro argumenta ser uma retaliação contra o Hamas e um esforço de autodefesa, já terão morrido cerca de 70 mil pessoas. Se se confirmarem as estimativas apresentadas num artigo de 2024, da revista “The Lancet”, em que se apontava para uma taxa de mortalidade 40% superior à anunciada pelo Ministério da Saúde liderado pelo Hamas, os números poderão estar já perto dos 100 mil mortos.

A tentativa de aniquilação total ou parcial da população palestina, a destruição das condições elementares de sobrevivência, a recusa de ajuda direta e o bloqueio das tentativas de ajuda externa, incluindo assistência médica e apoio humanitário, a manifestação da intenção de ocupação do território, o assassinato de jornalistas, ativistas e, até, funcionários de organizações internacionais, são tudo provas inequívocas das intenções de Israel de cometer genocídio sobre a população de Gaza. Até as veementes e sucessivas tentativas de negação do mesmo são um padrão recorrente de ação dos perpetradores do crime de genocídio ao longo da história. Para além disso, ao contrário do que aconteceu nos casos mais recentes de genocídios reconhecidos legalmente como tal, como foram os casos da Bósnia ou do Ruanda, toda esta tragédia está a decorrer diante dos nossos olhos, ao vivo e a cores, transmitida ao vivo para o mundo inteiro.

Esta ‘Nakba’, que visa e ameaça sistematicamente o povo palestino, há muito que merecia uma condenação mais veemente da comunidade internacional. Mas parar este genocídio é um imperativo moral e político que não pode esperar nem mais um dia. Terá sido sempre tarde de mais, mas não é mais possível continuar a ignorar um genocídio televisionado.

PS: enquanto escrevo, um barco de ajuda humanitária, com vários ativistas, entre os quais Greta Thurnberg, Rima Hassan (eurodeputada francesa) e Thiago Ávila, foi capturado pela Marinha israelita, quando se tentava aproximar da costa de Gaza. É urgente garantir a sua libertação e assegurar que os bens de ajuda humanitária chegam, efetivamente, ao seu destino. O governo de Israel tem de obedecer às regras do Direito Internacional e pôr fim às suas sucessivas violações.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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