A porta do número 12 da rua Damasceno Monteiro, bem no coração de Lisboa, é transparente, mas quem espreita dificilmente adivinha que ali dentro nasce arte a todas as horas.
O primeiro andar cheira a tinta fresca e a banda sonora junta passos apressados e aspiradores. As paredes, outrora, vermelhas são agora totalmente brancas. “Neste momento, estamos a preparar a sala para a próxima exposição, Vento de Pedro Barateiro e Mário Varela Gomes, que ficará até setembro e retrata o tema da censura”, justifica Marcela Gonçalves, que se formou em Artes Visuais, nasceu no Brasil e por lá viveu até chegar a Portugal. Entrou no Hangar em 2019, primeiro como curiosa e mais tarde como parte da equipa. Hoje, é diretora de produção e coordenadora de residências.
Quatro anos antes, em 2015, nascia o Hangar — centro de investigação artística, fruto da vontade de um grupo de curadores e artistas que procuravam um espaço onde pudessem estar imersos nas suas criações e partilhar experiências com quem está a passar pelo mesmo.

O centro faz parte da Xerém, uma associação cultural sem fins lucrativos que tem como missão desenvolver projetos culturais, sociais e artísticos e da qual fazia parte Mónica de Miranda, uma das fundadoras do Hangar, à qual se juntaram Ana Almeida, responsável pelo serviço educativo, Andreia Páscoa, responsável de produção e Bruno Leitão, que, neste momento, já não se encontra no centro.
Marcela Gonçalves conta-nos que tudo começou com uma candidatura a um concurso da Câmara Municipal de Lisboa. “Ao vencer o projeto, precisávamos de encontrar um espaço e não foi fácil. Quando a equipa encontrou este lugar, a ideia era alugar apenas o rés do chão, mas o dono só aceitava alugar o prédio todo. E foi assim que, num ato de coragem, a Mónica de Miranda arriscou”, acrescenta.
Abrir um espaço artístico num dos bairros tradicionais de Lisboa, o bairro da Graça, também trouxe alguns desafios. “Em 2015, este era um lugar completamente diferente, não existiam os bares e restaurantes que existem agora e o fluxo de pessoas não era o mesmo”, conta a diretora de produção. No entanto, apesar de um início estranho, os moradores rapidamente acolheram o projeto: “Atualmente, temos parcerias com o comércio local, com as escolas e também com o orfanato que fica mesmo aqui em frente.”
As escadas levam-nos ao segundo andar onde, contrariamente ao rés-do-chão que é totalmente aberto ao público, encontramos a zona exclusiva das residências. Materializando uma ideia que já era da Xerém, aqui existem sete estúdios, quatro com casa de banho e cozinhas privativas e três com áreas comuns partilhadas. Ao longo do espaço, encontramos telas e os salpicos de tinta denunciam que ali é local de trabalho. Na cozinha partilhada, o ambiente é tranquilo e silencioso, há quem aproveite para almoçar e outros para criar.

Marcela Gonçalves explica que as residências têm a duração de um a três meses e são abertas a artistas de todas as áreas. “O objetivo é que durante esse período de tempo possam focar-se nos seus trabalhos ao mesmo tempo que partilham experiências. Por exemplo, um músico precisa de ajuda de um artista visual na imagem, da mesma forma que um artista contemporâneo precisa de alguém do som e também da escrita.”
No final de cada residência realiza-se um open day, em que os artistas são chamados a apresentar o trabalho que desenvolveram. Até lá, são acompanhados por curadores que os ajudam a cumprir o programa “que não é muito rígido, mas existe para todos, independentemente da área e de serem ou não artistas mais experientes”, conta-nos Marcela.

Para participar nestas residências, só existe um critério: uma boa proposta de projeto. “No Hangar, somos uma comunidade diversa, em que a maioria dos artistas chegam da América do Sul e de África, mas não existem restrições, temos artistas dos 18 aos 70 anos, aceitamos famílias e também animais de estimação. Se uma mãe solteira tiver um bom projeto, pode vir e ficar a residir com o filho.”
O centro de investigação artística realiza também programas de intercâmbio, em que um artista português pode passar uma temporada fora e outro artista desse país vem passar uma temporada cá. Todas estas iniciativas têm um objetivo comum: unir comunidades.
Deixando os artistas nas suas criações, subimos ao terceiro andar. A primeira porta é onde toda a gestão e organização acontecem. Neste momento, o Hangar conta com cinco membros fixos que partilham a responsabilidade de organizar as exposições, convidar artistas e curadores, planear as residências, trabalhar nas publicações e garantir que nestes quatro andares todos têm a melhor experiência possível.
Além dos espaços individuais e coletivos de trabalho, existe um laboratório de fotografia e um estúdio de som. Ambos podem ser utilizados pelos residentes e dão origem a projetos como podcasts. “Com a chegada da pandemia, ficámos isolados e os podcasts permitiram mostrar ao mundo o que estávamos a desenvolver, tirar a arte de dentro dos estúdios e das residências. Os programas não têm uma regularidade obrigatória nem são realizados apenas pela equipa, tentamos mais uma vez envolver os artistas e dar-lhes liberdade de criação. Cada um realiza um programa, decide a sua duração, a temática e quem quer trazer para a conversa.” O objetivo não é explicar o processo criativo nem falar sobre as suas obras, mas sim trazer temas pertinentes para cima da mesa.

O último andar é recortado por janelas que garantem uma das vistas mais bonitas sobre a cidade de Lisboa e o rio Tejo. Há um balcão ao longo de toda a parede que normalmente está acompanhado de bancos altos. Este é também um lugar aberto ao público, lado a lado com o auditório onde acontecem a maioria dos eventos.

Agora, o silêncio é substituído por vários idiomas e as canetas e guaches ocupam as mesas da biblioteca. Está a decorrer o workshop educativo infantil de verão. Marcela conta-nos que “geralmente os workshops decorrem aos sábados”, mas costumam desenvolver atividades mais longas no verão, na Páscoa e no Natal, onde “cada semana é focada numa temática artística diferente”.
Com estas iniciativas, o Hangar quer colmatar a lacuna da arte na educação. “Todos os nossos fundadores são educadores e conheceram diversos modelos educativos pelo mundo que incluíam a criação artística desde os primeiros anos de escolaridade e, assim, garantem que, quando um adulto se torna artista, leva já consigo alguma bagagem e conhecimento. É o que tentamos fazer aqui.”

Ao fundo existe ainda um espaço dedicado às publicações com foco na arte contemporânea e nas epistemologias do sul, fruto da vertente de investigação e pesquisa do centro. Também as palestras dão origem a livros: “Neste momento, estamos a transcrever as palestras mais interessantes dos últimos cinco anos, porque, apesar de terem sido gratuitas e o público ter acesso, elas são efémeras, queremos que possam ser memórias.”
Todas estas iniciativas têm um motivo maior. Num país onde a arte ainda é vista como um privilégio de elites, o Hangar quer ser uma porta aberta a todos. Para isso, a maioria das iniciativas que desenvolvem, como as exposições e as palestras, são totalmente gratuitas. “Através da ajuda de parceiros, conseguimos também dar a oportunidade a jovens, a maioria da periferia de Lisboa que querem ser artistas, de fazer os workshops gratuitamente.”
Para manter esta porta aberta e fazendo parte de uma organização sem fins lucrativos, a busca por apoios financeiros é constante. A meta é permitir estas experiências à comunidade de forma gratuita ou com valores simbólicos e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade do Hangar. Além do arrendamento, dos parceiros e da participação de concursos, “o Hangar tem também a opção de membership, em que as pessoas pagam uma cota anual de 35 euros e têm acessos gratuitos e descontos em eventos ao mesmo tempo que nos ajudam”.

Quando surgiu, o Hangar veio ocupar um lugar que ainda não existia no panorama português. Marcela Gonçalves explica que “já existiam espaços do género, nomeadamente na área da música, mas não com uma vertente multiartística”. Sob o mote de trazer para o mesmo lugar todas as formas artísticas, de todos os lugares do mundo e de todas as culturas, afirmou-se como um espaço de criação livre cuja única missão é a de fazer cair por terra a ideia de que a arte não é para todos.