O Museu Colecção Berardo havia encerrado às 12h00 do dia 13 de Março, cinco dias antes da declaração do estado de emergência. No dia 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus, depois da devida autorização do Governo, reabriu, encontrando-se em funcionamento todos os seus serviços. Porém, o regresso à actividade, sob novas condições, exigidas pelo contexto pandémico, é marcado por uma reconfiguração, uma nova forma de habitar este espaço.

“Para a reabertura foram valorizados, pelo museu, dois critérios essenciais: segurança e confiança. Segurança da equipa de frente de casa e dos visitantes, implementando medidas e regras de proteção e adquirindo equipamentos de proteção e, confiança tanto da equipa como dos visitantes em frequentarem um espaço público depois de 2 meses de confinamento em casa, para a maioria,” refere a direcção do Museu.

Para se concretizar uma experiência segura e promover a confiança de todos os que atravessam este espaço, a instituição tomou determinadas medidas, que já estão implementadas. Entre estas, encontra-se uma redução da “capacidade máxima no espaço do museu, (…) calculada tendo em conta 20m2 para cada visitante (5 visitantes para cada 100m2)”, o que totaliza “236 visitantes, em simultâneo”, num momento em que o piso 2 se encontra encerrado para obras, a realização do acolhimento “na porta do museu, de forma a que a porta manual não seja manuseada pelos visitantes”, aos quais se aplica a obrigatoriedade do uso da máscara pessoal, a medição da temperatura e a desinfecção das mãos, para a qual é disponibilizado álcool-gel, que se encontra em vários pontos do espaço, e a marcação de 3 metros no chão “para assegurar a distância social nos 3 pontos que podem ter fila: bilheteira, bengaleiro e verificação de bilhete”. Todas estas regras estão indicadas num painel informativo.

No que diz respeito à equipa, é obrigatório o uso de “equipamento de proteção individual”, “de máscara”, “viseiras e luvas”, adquiridos pelo museu e entregues a todos os colaboradores. As alterações passaram ainda pelo espaço, através “da higienização de todas as superfícies de contacto, várias vezes ao dia” e da existência de “barreiras protetoras de acrílico”, nos balcões. Também na zona de alimentação dos colaboradores, operou-se uma deslocação “para zonas com acesso directo ao ar livre, conseguindo assim assegurar a distância social durante as pausas. Todas estas alterações, regras, compra de material foram realizadas por uma pequena equipa que funcionou como uma verdadeira task-force, sugerindo, planeando e executando tudo isto em apenas 8 dias úteis, e aos quais quero publicamente agradecer”, acrescenta a direcção.

A programação sofreu readaptações, pois foi incontornável o atraso na inauguração de exposições. As exposições Mutações. The Last Poet, de Joana Escoval, e Deeper Shades. Lisboa e Outras Cidades, de Andreas H. Bitesnich, foram inauguradas em Fevereiro, e Obras Inéditas, de Julian Opie, estava programada para dia 18 de Março, data em que o museu já estava encerrado. Assim, prolongar-se-á a sua presença, o que implica o reagendamento de duas exposições para o próximo ano.  Quanto às exposições previstas, há uma grande incerteza, pois a sua passagem por esta instituição depende do comportamento do público, ou seja, do número de visitantes. “Se as pessoas não visitarem museus, estes não terão capacidade financeira para realizar todas as exposições temporárias previstas, pois parte do orçamento depende da receita de bilheteira,” sinaliza a direcção. Um aspecto que concorre para uma visão do futuro ainda pouco nítida tem que ver com o turismo, pois 60% dos visitantes são estrangeiros.

Este abalo não foi só respondido com regras e reagendamentos, mas também com a suspensão dos “empréstimos de obras entre museus”, “de forma a não colocar em risco os colaboradores que habitualmente acompanham as obras na ida e no regresso” e com a readaptação completa da comunicação. “Decidimos e realizámos a primeira inauguração exclusivamente online em streaming de uma exposição na Europa (penso que uma das primeiras do mundo). Encerrámos a 13 de Março e, em poucos dias, lançámos este evento no dia 18, que foi um sucesso, permitindo a cerca de 10.000 pessoas verem a exposição e ouvirem uma conversa entre o Julian Opie e a Rita Lougares, directora artística do museu. Depois passámos de comunicar o que as pessoas podiam ver no museu, para comunicar actividades para fazer em casa, vídeos e outros conhecimentos sobre as obras, os movimentos artísticos e as exposições que temos, tentando ajudar quem estava em casa a poder ter acesso à cultura,” partilha a direcção. Durante o processo de reabertura, permanecem alguns conteúdos no site. A instituição adianta que pondera continuar esta iniciativa, pois considera “que a visita ao museu sai fortalecida e enriquecida, depois de ver estes conteúdos online.” Também foi pelo espaço virtual que passou parte do Dia Internacional dos Museus, dedicado ao tema “Museus para Igualdade: Diversidade e Inclusão”, com a proposta Conversas à Janela. Fernanda Fragateiro participou na iniciativa onlineA Minha Obra e Eu”, falando da sua escultura “Caixa (Desmontagem) 2”, de 2006. O Percurso online pela Coleção Berardo Abstração entre Guerras, de Henry Moore, Max Bill e Robert Delaunay, que consiste numa revisitação dos “movimentos-chave da arte moderna e contemporânea através dos seus mais importantes protagonistas,” foi dedicado, esta semana, ao núcleo da Abstração entre Guerras.

Este movimento reflexivo e atento ao contexto externo, faz com que a realidade do museu se vá actualizando, discernindo o melhor diálogo com o primeiro. Por isso, nem todos os serviços estão “completamente operacionais no espaço físico do museu.” O Serviço Educativo continua a apostar no seu trabalho online, no site e nas redes sociais. “A folha de sala para crianças “Viagem pela Colecção Berardo”, que sai aos sábados de manhã, irá manter-se até meados de junho. Continuaremos ainda, com as actividades para crianças, dos 3 aos 14 anos, em torno da exposição de Julien Opie. Iremos ter também, no online, um conjunto de desafios a partir da Colecção Berardo para os mais novos e uma actividade para o dia da criança. Todas as actividades publicadas até agora poderão ser realizadas, pois não se comprometem com nenhum calendário”, explica o Serviço Educativo, que também tem vindo a desenvolver, neste formato, “projectos com “escolas, com a casa-pia e escolas vocacionadas para o ensino especial”, acrescenta a Direcção. No que ainda toca às crianças, o Dia Internacional dos Museus, foi celebrado no próprio espaço, através de visitas guiadas à exposição temporária de Julian Opie e uma actividade contínua, a partir das temáticas desta, destinada a todas as faixas etárias. Considera-se, ainda a possibilidade de “realizar as atividades de férias de verão, se abrirem os ATL’s”, continua. O objectivo é que todos os públicos se encontrem nesta reabertura do museu.

Vários são os regimes de trabalho dos colaboradores desta instituição, neste momento, alguns “estão em tele-trabalho, outros em tempo parcial para acompanhamento familiar, e outros trabalham já no museu, tentando lentamente que tudo volte ao normal, em termos de funcionamento.”

Maria, nome fictício, assistente de exposição, faz parte deste último grupo. A reabertura foi-lhe comunicada, por parte do coordenador do serviço ao visitante, via e-mail, no dia 30 de Abril. O mesmo comunicado, solicitava o preenchimento e envio da escala de disponibilidade e informava sobre as medidas de prevenção, supracitadas. Para Maria, a mudança mais significativa no desempenho da sua actividade prende-se com o acrescento de dois postos, situados à entrada do museu. É a equipa de Maria que acolhe os visitantes, verificando o uso de máscara, medindo-lhes a temperatura, distribuindo desinfectante e apresentando as regras de segurança. “Os postos são mais ou menos fixos e uns mais relevantes do que outros e dependem, não só de aspectos que nunca mudam (configuração estrutural do espaço ou das necessidades de coordenação do trabalho), como de outros aspectos mutáveis (características específicas das exposições em exibição e o número de assistentes disponíveis). Os postos são também pontos de referência para nós e, sobretudo, para os visitantes, pois sabem que vão encontrar-nos ali”, explica.

Durante os primeiros dias de trabalho, Maria verificou que alguns colegas não regressaram. Todavia, não está a par dos motivos. Levanta a possibilidade de se dever às “condições precárias de trabalho, agora exacerbadas”, que passam por um “vínculo que continua a ser precário e desajustado” e uma remuneração injusta. “Outros colegas, se não foi por este motivo, não terão voltado por receio, pela saúde deles e das suas pessoas mais próximas. Não sei exactamente se voltarão mais tarde, daqui a uns meses, ou se não voltarão de todo,” refere. Apesar destes aspectos, que permanecem ou, melhor, se agravam, dada a fragilidade do contexto em que desempenham a sua actividade, a colaboradora reconhece a sua alegria com este movimento, que contraria o fechamento da cultura.

Para além da adaptação ao equipamento, partilha a mudança nas relações interpessoais, seja com os/as colegas, seja com os visitantes. “É triste ver toda a gente de máscara, cria uma distância muito grande entre as pessoas. Parece mesmo um pequeno apagamento da humanidade, um apagamento que, assustadoramente, parece ser progressivo.”

Assim como alguns colegas não regressaram, muitos visitantes também não. Por um lado, isso tem concorrido para que se sinta mais segura. “É claro que não deixa de ser uma incógnita muito grande por onde pode vir o perigo, pode bastar uma distracção, ou pode simplesmente haver uma pessoa infectada assintomática que dissemine o vírus por muitas, muitas pessoas no contexto do museu. Mas é igualmente importante não ceder completamente ao medo, há que haver alguma confiança e espírito positivo, sem descurar as precauções”, conclui.

Parece que, nesta última expressão, todas as vozes coincidem.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Texto de Raquel Botelho Rodrigues

Fotografia de David Rato