Nasceu de um impulso partilhado: o de deixar de assistir passivamente ao crescimento da extrema‑direita e à erosão de valores que a sociedade dava como garantidos. O Laboratório de Ação Cívica surgiu em Guimarães no final de 2025 para tentar transformar a frustração em ação concreta. O grupo é diverso e diz-se apartidário, assumindo-se, no entanto, progressista.
Pedro Von Hafe Leite, médico cardiologista e membro fundador deste movimento informal, explica, em entrevista ao Gerador, os objetivos do coletivo que reconhece as falhas do sistema político atual, mas que pretende mostrar caminhos alternativos ao extremismo de direita e ao populismo. “Achamos que as coisas não estão bem, também as queremos mudar, mas [fazê-lo] através de uma sociedade mais empática, mais justa, mais progressista”, explica.
-Como surgiu o Laboratório de Ação Cívica?
Surgiu, basicamente, da minha proto-candidatura às eleições autárquicas de Guimarães pelo Partido Livre, que não seguiu para a frente por diversos motivos, que agora também não interessam.
De facto, nessa altura, recebi bastantes contactos, nomeadamente de uma pessoa que foi fundamental para começar este movimento, que foi o Nuno Castro, empresário da restauração, dono do restaurante Casa Amarela, em Guimarães, que me contactou. [Ele] sentia a mesma necessidade de mudar a maneira como a política estava a ser feita em Guimarães. Mudá-la, não como ela efetivamente depois mudou nas eleições - mais pra direita, digamos assim -, mas mudá-la de maneira [a que se tornasse] mais empática e mais justa socialmente.
Ele achou que o Livre, de facto, podia representar essa ideologia e falou comigo. Só que nessa altura, a candidatura já não era para avançar. Nós achamos que seria uma pena, até porque ele tinha muitos contactos de pessoas que partilhavam do mesmo chão comum que nós. Seria uma pena não aproveitar esta onda, no fundo, que acabou por se levantar nessa altura e que já vinha desde as últimas eleições [legislativas] de maio, nomeadamente quando muitos de nós ficaram ainda mais chocados com o avançar da extrema direita, pelo número de deputados [que conseguiu eleger].
O Nuno falou comigo e nós começamos a criar reuniões informais, primeiro com dez pessoas, a segunda com outras dez pessoas diferentes. Fizemos três ou quatro reuniões. O grupo inicial era cerca de trinta, quarenta pessoas e, basicamente, nessas primeiras reuniões, aquilo era quase terapia ocupacional: falávamos daquilo que nos estava a incomodar na sociedade, nesta regressão dos valores que já dávamos como adquiridos e percebemos que, de facto, eles não eram adquiridos e se estavam em risco era culpa, obviamente, do crescimento da extrema-direita, mas que esse crescimento também era culpa da nossa inação. Portanto, sentimos que tínhamos que fazer alguma coisa.
No final do ano, estas reuniões serviam só para isso, para conversar, para tentarmos perceber o porquê… fazer o diagnóstico disso que estava a acontecer à nossa volta, quer em Guimarães, quer no país todo, que não é diferente.
Achámos que tínhamos de pôr as mãos na massa, e obviamente, tendo todos nós uma atividade profissional, já é um privilégio enorme conseguirmos ter tempo só para nos reunirmos para conversar, mas achámos que podíamos ir mais além.
-Mas isto é um projeto que surge dentro do Partido Livre?
Eu sou militante do Livre, efetivamente, mas é um grupo apartidário, até porque temos mais pessoas que são militantes, nomeadamente no Bloco de Esquerda e no Partido Socialista.
Nós somos agora cerca de cinquenta pessoas, e já há quatro - se não estou em erro -, que são militantes em partidos diferentes.
É, portanto, um grupo apartidário mas que assume com orgulho - porque também não queremos ficar em cima do muro -, que é um grupo de esquerda.
- Não têm, então, qualquer apoio formal dos partidos?
Não tem apoio nenhum. É um grupo apartidário sem dúvida nenhuma, e isto ficou definido desde início.Todas as nossas ações são apartidárias. Não temos nenhum tipo de ajuda organizacional, nem apoio de outro tipo de nenhum partido.
Não somos anti partidos, obviamente, nem nada que se pareça. [Esta] foi uma decisão nossa também para conseguirmos incluir mais pessoas, mesmo aquelas que têm alguns anticorpos em relação aos partidos. E nós, como não queríamos excluir ninguém, tomámos esta decisão de, neste momento, ser um grupo apartidário. A maioria das pessoas que o compõem não pertencem a partidos, o que não quer dizer que não tenham posições políticas, obviamente. São coisas diferentes.
Neste momento é um grupo apartidário, que contém em si alguns militantes de partidos, mas que tem como objetivo criar pontes com todas as pessoas, quer as que sentem que podem e querem participar através de partidos, quer das pessoas que não o querem fazer e que escolhem outra maneira.
-Vocês têm uma estrutura formal ou são um grupo horizontal?
Neste momento somos um grupo de cidadãos informal, sem uma organização, uma estrutura hierárquica definida, com uma… digamos… uma democracia representativa dentro do grupo e é assim que as coisas têm funcionado. Dividimos o grupo em várias subseções ou áreas: comunicação, educação e juventude, habitação e mobilidade, cultura e arte, ambiente, ação social e emprego, saúde e desporto e economia.
Dentro de cada um destes subgrupos temos uma pessoa que é coordenador ou responsável o que, no fundo, nos ajuda também a que isto não seja demasiado desorganizado e haja aqui alguma organização. Depois, para além disto, temos uma reunião presencial mensal, que serve basicamente para nós nos juntarmos para discutirmos políticas e discutir as nossas próximas ações, sendo que isso é sempre feito de uma forma bastante orgânica e ainda não sentimos a necessidade de ter essa organização mais hierárquica, mais formal. Não quer dizer que não a tenhamos que fazer um dia, mas neste momento sentimos que esta informalidade é refrescante.
-Mas existe esse horizonte, de evoluírem para uma organização com uma estrutura mais formal?
Nós não pomos essa questão de parte, até por questões organizativas, porque pode ser útil sermos uma associação sem fins lucrativos, para ter algum tipo de apoio, em termos de organização. Nós sabemos que há algumas vantagens nesse tipo de estrutura e, portanto, não colocamos essa hipótese de parte. Não colocamos sequer de parte a hipótese de, nas próximas eleições autárquicas, por exemplo, fazermos um movimento de cidadãos para nos candidatarmos. Portanto, todo esse espectro de estruturas hierárquicas estão em cima da mesa. Estamos a falar de um grupo de cidadãos que se começou a reunir há três ou quatro meses, portanto, é uma coisa ainda muito no início.
Também não quisemos tomar já essa decisão, porque também queremos ver como é que as coisas correm. Pode acontecer, - visto que todos nós temos trabalhos extra e temos família -, daqui a um ano isto ter-se perdido e, portanto, já nem ter valido a pena criar essa estrutura hierárquica, que não vai servir para nada.
Portanto, vamos já tentar estruturar-nos também enquanto organização para percebermos qual será o melhor passo a tomar.
-Mas esta divisão em grupos e em temas ambiciona algum resultado ou algum produto dessa segmentação, digamos assim? A ideia é refletirem e, por exemplo, fazerem documentos que sirvam para recomendações ou algo do género?
Nós temos três pilares na nossa organização, dentro das atividades que queremos pôr em prática. Dentro desses grupos, diria que a ação principal é nós aprendermos. Vou dar um exemplo: eu sou cardiologista e estou no grupo do ambiente. Para mim é muito importante estar naquele grupo, porque tem pessoas que percebem muito do tema, ativistas do ambiente, arquitetos paisagistas, que percebem daquilo que estão a falar, cientistas dessa área.
No fundo, o que nós tentamos organizar são reuniões dentro desses subgrupos. Vou falar novamente do caso do ambiente: tivemos uma apresentação do coordenador do grupo, sobre todas as estruturas ambientais, os problemas do foro ambiental que existem em Guimarães. Foi uma apresentação interna, para nós aprendermos e para também sabermos discutir melhor esses temas. Isso é um dos pilares das atividades que nós queremos organizar para nos formarmos dentro do grupo.
Depois, temos outros dois pilares que para nós são muito importantes. Um deles são os debates [públicos] como o que fizemos sobre a democracia, em que convidámos a [investigadora] Raquel Varela, o [jornalista] Miguel Carvalho e o [professor e ativista pelos direitos culturais das populações] Carlos Mesquita, de Guimarães, para discutirmos sobre democracia. Esse tema foi mais geral, portanto, foi uma organização de toda a gente que pôde participar deste grupo de cidadãos. A nossa ideia é que, com uma frequência de mais ou menos de dois em dois meses, cada subgrupo crie um destes debates.
Já temos programado para maio um sobre educação, por exemplo, e é esse o grupo que o vai organizar. Temos também depois para julho a ação social e portanto, cada subgrupo irá organizar um destes debates.
Um terceiro pilar desta organização - aí já foge um bocado aos subgrupos, mas que depois vai lá tocar consoante os temas que estamos a falar -, é um evento que nós chamamos Pontos de Escuta. Sempre que nós temos uma reunião mensal no nosso grupo, vamos tentar fazê-la numa freguesia diferente de Guimarães, nomeadamente fora [da cidade], de forma a descentralizar estas reuniões.
- Mas sempre dentro da região?
Sim. Pelo menos para já, porque nós notamos muito, no início, que a maioria das pessoas que pertenciam ao grupo eram das freguesias do centro de Guimarães e havia uma falta de representatividade das freguesias limítrofes.
Portanto, quisemos fazer uma reunião com duas horas, em que a primeira hora é uma reunião das pessoas que já pertencem ao grupo e na segunda hora vamos - quer através das redes sociais, quer através de nossos contatos -, chamar pessoas daquela freguesia onde estamos a fazer a reunião para irem lá e discutirmos os problemas que quiserem apresentar, ouví-las, perceber quais são as principais questões que são levantadas dentro daquela freguesia. Depois com essa informação tentarmos, de uma maneira o mais útil possível, ajudar essas pessoas e a resolução desses problemas, quer através de alguma pressão que nós consigamos fazer dentro das estruturas políticas existentes, quer através da participação nas assembleias municipais - que também já temos algumas participações programadas. Através disso conseguimos levar o nosso grupo a mais pessoas e a mais sítios de Guimarães, conhecer as realidades que se calhar nós próprios não conhecemos tão bem, mas que estão a poucos quilómetros de nós, e ajudar essas pessoas da melhor maneira que nós consigamos.
-Pretendem também, de alguma forma, mobilizar os cidadãos dessa região do país?
Sim, a ideia é essa. E até aquela questão que falamos há bocado, de ser apartidário, também tem que ver com isso. O que nós sentimos, efetivamente, foi que houve um choque depois das eleições de maio, embora… foi um choque após um terramoto e depois as sucessivas réplicas…
Nós estávamos fartos de ficar no sofá, de mandarmos as nossas postas de pescada nas redes sociais ou o que seja, e queríamos…
O que nós sentimos todos que partilhávamos, naquele grupo, era isso: queríamos fazer alguma coisa, queríamos perceber porque os jovens na escola, mesmo antes de votar, já pensam no [partido] Chega? O que é que nós temos que fazer para evitar que isso aconteça? Para tentar trabalhar nessas áreas, com essas pessoas, com os jovens, com os menos jovens, e perceber que, se continuarmos sem fazer nada, vamos ser cúmplices deste crescimento da extrema-direita.
Depois, também percebemos que, efetivamente, dentro da lógica…não só dos partidos, mas sobretudo dos executivos, quer camarários, quer obviamente regionais e nacionais, é muito difícil nós termos uma intervenção [cívica] concreta.
Estão muito presos na lógica partidária, dos partidos grandes, o PS e o PSD. Tal como é manifestado pelo Chega e pelas pessoas que votam no Chega, também sentimos essa descrença nas instituições públicas, mas o que nós sentimos é que a solução não pode ser aquela. A solução tem de passar por, de facto, credibilizar essas instituições, tomar decisões baseadas em evidências, baseadas na ciência, nos dados que temos. E é isso que nós queremos fazer no nosso grupo e queremos expor isso para a sociedade, nomeadamente em Guimarães, através das nossas ações.
No fundo, [o que pretendemos] é trazer mais pessoas para o nosso grupo, [perceber que há soluções otimistas, que as coisas não estão bem, que nós, de facto, também achamos que as coisas não estão bem, também as queremos mudar, mas [fazê-lo] através de uma sociedade mais empática, mais justa, mais progressista.
É isso que estamos a tentar fazer com este grupo, com as nossas ações. É esse, é sempre esse o final. No fundo, receber essas pessoas que também estão desanimadas, que também acham que estamos perdidos e que é difícil mudarmos, e que os partidos não vão mudar, as instituições políticas não vão mudar. Queremos ser aqui uma luz de esperança e sentirmos que fazemos alguma coisa.
Vou-lhe dar um exemplo: no debate sobre a democracia, [realizado a 24 de janeiro] em que tivemos a Raquel Varela e o Miguel Carvalho, arranjamos um auditório com cem pessoas. Estávamos com medo que nem cinquenta fossem, e depois estavam lá quase trezentas. Ficaram cinquenta pessoas nos corredores do auditório. Isso enche-nos a alma. Até ficamos um pouco emocionados. De facto, essa emoção, essa força que nós ganhamos com este tipo de atividades faz-nos perceber que há mais pessoas que pensam como nós e que temos que nos mobilizar. Se calhar, se falarmos com uma pessoa, se plantarmos - mesmo em pessoas que votam no Chega -, se conseguimos plantar ali uma pequena dúvida, já vamos estar a fazer um bom trabalho e já vamos estar a contribuir para essa sociedade que queremos.
-Isso quer dizer que estão abertos a que pessoas com outras visões políticas possam integrar este grupo, se assim entenderem?
É assim… Obviamente, nós não vamos fechar as portas a ninguém. Como eu lhe disse, há claramente um pêndulo de esquerda no grupo. Diria que todos os elementos são de esquerda. Nós não vamos fechar as portas a ninguém, mas também vamos tentar convencê-las de que a nossa visão da sociedade é melhor do que a delas, que é mesmo isso que a política é.
Portanto, obviamente, não fechamos…não só não fechamos as portas, como queremos que essas pessoas venham ter connosco, e os Pontos de Escuta, principalmente, servem para isso mesmo.
Não [servem] necessariamente para integrar o grupo, mas para virem ter connosco, para dizerem o que acham, o que pensam, o que podemos fazer. Porque, de facto, há ideias com as quais é difícil discutir, no sentido em que é quase uma realidade paralela, mas há outras que não, e nós sabemos que há muitos dos eleitores do Chega e da Iniciativa Liberal, que são eleitores que não estão… que não têm uma posição definida politicamente e que estão tristes, estão chateados, estão desanimados. Também são essas pessoas que nós queremos tentar perceber e convencer de que podemos ter uma sociedade melhor.