Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Ó LEITOR – OS PASSOS EM VOLTA

Porque é que eu existo? Esta parece-me ter sido uma pergunta feita por Herberto Helder…

Texto de Margarida Marques

SAMSUNG CSC

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Porque é que eu existo? Esta parece-me ter sido uma pergunta feita por Herberto Helder quando escreveu Os passos em volta. Ninguém tem essa resposta na ponta da língua ou no bico da caneta, mas aquilo que se pode criar na escrita permite-nos certamente conhecer um pouco mais.

Herberto Helder foi um dos poetas mais importantes da língua portuguesa e esta foi uma obra fundamental para tudo o que viria a escrever depois. Quando falamos de talento madeirense, não nos podemos referir apenas ao nome de Cristiano Ronaldo.

Os passos em volta é um livro escrito em prosa, que reúne alguns contos brilhantes. Se podemos relacioná-los? Diria que sim. Há uma lógica que os liga a todos. Mas, ó leitor, diz-me tu o que pensas disto.

“Os comboios que vão para Antuérpia” é um dos meus textos favoritos, principalmente pela difícil ou inexistente relação com Deus:

“Esta minha vida de agora é circular e eu sufoco, sem dela poder sair, com o deus que lá existe, com Deus, com Deus... Comboios que não param de ranger e apitar. Comboios que partem. Durante a noite acordo muitas vezes com Deus a apitar. Mas de manhã a minha falta de fé parece ainda maior e compreendo que nunca hei-de sair deste quarto e que os comboios são simples pensamentos, como Antuérpia, uma inspiração difusa, confusa.”, lê-se na pág.47.

Em “Como se vai para Singapura”, conhecemos outro tipo de divindade: a força da literatura.

“Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. Literatura. Merda. Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes...”

A palavra literatura está muito próxima da palavra merda. Talvez esta junção nunca tenha feito tanto sentido.

O texto “Duas pessoas” foi o texto que mais vezes li. É um hino aos pontos de vista, um dos elementos mais bonitos (quando bem utilizado) da literatura. Herberto Helder coloca dois pontos de vista no mesmo espaço, uma prostituta e o cliente que ouve Bach e lê Hamlet, de Shakespeare.

“Brandy”, penúltimo texto, leva-nos até à infância e à relação com os outros, num ritmo fascinante, deixo-vos este excerto:

“Brandy. Encha o copo. Assim, até cima. Obrigado. Sabe que tive infância? Claro, não sou um sentimental. Pensa que disponho assim de desafogos morais, luxos do espírito, remansos culturais burgueses, para entregar-me a libertinagens da emoção? Tive infância, só isso. Ou seja: falta de jeito, indecisão, uma grande ignorância. Olhava para as coisas: eram fundas, enigmáticas, desorientadoras. Tudo estava cheio, porque o meu coração ávido tudo recebia: era um espaço palpitantemente vazio. Agora não, agora estou cheio de pessoas, lugares, acontecimentos, ideias, decisões. E tudo me parece deserto.”

Herberto Helder morreu em 2015. Sobre o que vem depois da sua morte, ninguém melhor do que o próprio para nos explicar:

“(...) é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno.”

Nós não precisamos de viver para sempre. Essa é uma ideia absurda. No entanto, aquilo que deixamos durará até ao fim, como cada palavra de Herberto Helder.

Dário Moreira

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

27 Fevereiro 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

26 Fevereiro 2026

Quem conta a história? Dia 6 de março assiste à conversa ao vivo com a artista Suelen Calonga e a investigadora Inocência Mata

25 Fevereiro 2026

Manuel, Lisboa faz-te feliz? Vê a vigésima primeira entrevista deste projeto

25 Fevereiro 2026

Junta-te ao evento que quer pensar a desinformação e as suas consequências para a democracia

24 Fevereiro 2026

O Uncover regressa a Guimarães de 12 a 15 de março. Descobre o programa completo

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

23 Fevereiro 2026

Georg Diez no Podcast Post/Zeitgeist: o futuro da democracia na Europa

23 Fevereiro 2026

Luís Paixão Martins: “ Os nossos políticos não estão habituados a trabalhar em minorias”

20 Fevereiro 2026

Pensar a Desinformação em Voz Alta: descobre algumas das reflexões da última residência do Gerador na Casa Capitão

20 Fevereiro 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0