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Opinião de Paulo Pires do Vale

Lições do Museu (2)

Continuação das notas incompletas sobre o que podemos aprender com os museus para a prática…

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Continuação das notas incompletas sobre o que podemos aprender com os museus para a prática educativa e para a vida:

6) A valorização da complexidade – contra a simplificação. Nos museus, como na Divina Comédia de Dante, encontramos a existência humana na sua totalidade: da descida aos infernos até à subida ao paraíso. A amplitude da vida, na sua ambiguidade e contradição, ganha corpo à nossa frente. Também o educador deve dar a ver esse horizonte complexo do humano: não apresentar apenas a parte, mas o todo.

7) A valorização do incerto – contra a falsa segurança da certeza. Nos museus encontramos, muitas vezes, objetos de que desconhecemos a função ou uso, ou sobre os quais há teorias, mas não certezas evidentes. Encontramos aí, também, obras de arte que nos mostram a nossa ignorância – por exemplo, sobre os personagens, as cenas míticas ou históricas aí representadas - ou que nos fazem enfrentar a estranheza e deixam-nos sem palavras ou sem orientação. Diante de algumas obras, sentimos uma espécie de impotência: não compreendemos e não dominamos o seu sentido. E isso é o melhor motor da aprendizagem: a consciência da ignorância põe-nos em movimento, a imaginar respostas e possibilidades. Que melhor impulsionador para o desenvolvimento criativo e o pensamento crítico que um objeto que nos obriga a investigar, a experimentar, a olhá-lo de todos os ângulos, a procurar a solução – em vez de nos ser dada a resposta já conhecida como certa, com a exigência de a reproduzirmos? Como sabia Aristófanes, educar não é encher um copo, mas acender uma chama.

8) A valorização da gratuidade e do prazer – contra o utilitarismo calculista e produtivo. Um museu dá-nos a oportunidade de experimentarmos um tempo distinto do habitual: os objetos que aí estão foram retirados à voragem destruidora do tempo utilitário e consumista. Por um lado, foi suspensa a sua função habitual ou nunca tiveram utilidade. Por outro, não podem ser comprados nem consumidos. Não são, nem podem ser, meus. Não estão disponíveis para essas formas de manipulação e destruição: a utilidade imediata e o desejo de posse. Ensinam-nos, assim, uma enorme e inestimável lição: a gratuidade. A da presença livre das coisas.  A do prazer, do lúdico, do jogo. A do tempo sem porquê nem para quê. Numa época marcada pelo desejo de eficiência e de produtividade rentável, esta subversão é determinante e uma lição para a comunidade educativa. Qual a ideia de humano/adulto/cidadão para a qual estamos a educar e que orienta os nossos currículos e métodos pedagógicos?

9) A valorização da participação – contra a passividade e a demissão. O carácter inclusivo (ou não!) dos museus tem sido um debate importante nos últimos anos: no acesso ou exclusão de determinadas comunidades, da representação da diversidade, da participação informada em decisões... Em muitos museus – como em obras de arte contemporâneas - a participação ativa dos visitantes é mesmo solicitada:  quer para o conhecimento de determinado objecto, quer para a realização dessa própria obra – que não existirá sem o visitante activo. Também a educação deve ser um processo inclusivo e relacional. Por um lado, a escola deve preocupar-se com os que ficam nas margens do aparente sucesso. Por outro lado, deve lembrar-se que, se ninguém se esculpe a si mesmo sozinho, também ninguém deve ser esculpido por outros. Como ajuda a escola em que cada um aprenda a construir a sua própria casa, sem que lhe imponham uma casa já pré-fabricada? Os museus e a história de arte também nos podem ensinar mais sobre isso: revelam uma verdadeira antropofagia cultural. Percebemos e traçamos genealogias artísticas e influências, mas para fazerem o seu trabalho pessoal e único, a sua obra, os artistas têm de aprender com os mestres e saber desviar-se deles. Ganhar competências e capacidades, para poder participar com a sua voz única e autónoma na vida colectiva. Recebe-se a tradição como um campo para a inovação. A cultura, se não se renova, morre:  é uma tarefa infinita. Esse sentido de pertença a uma comunidade que nos antecede e ultrapassará, que os museus promovem, é uma lição de enraizamento, de participação pessoal e de reconhecimento do papel insubstituível de cada um na vida cultural colectiva.

Estas notas incompletas procuram, na verdade, dizer uma só coisa: os museus são depósitos de humanidade;  se a escola quer formar cidadãos mais autónomos e capazes, para que os alunos possam conhecer quem são e o que podem, temos de aproveitar os recursos insubstituíveis dos museus: que cada um possa descobrir aí, fora de si, possibilidades de si antes desconhecidas. A missão comum à escola e ao museu é, então, alargar o horizonte de possibilidade de cada um e das comunidades que criamos: ou seja, desconfinar o mundo limitado em que vivemos.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Paulo Pires do Vale-

Filósofo, professor universitário, ensaísta e curador. É Comissário do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, desde Fevereiro de 2019.

Texto de Paulo Pires do Vale
Fotografia de Tomás Cunha Ferreira

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

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